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O 30 de fevereiro existiu: a Suécia o imprimiu no almanaque de 1712, e um casal se casou nesse dia

A data foi o remendo de uma reforma de calendário que deu errado. E, ao contrário do que se repete, ela não aproximou a Suécia do calendário moderno: afastou.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Gravura em preto e branco de um veleiro inclinado pelo vento num estuário agitado, com árvores curvadas, uma cidade com torres ao fundo e o símbolo de Peixes no céu; na margem inferior, a palavra FEBRVARIVS.
Jan van de Velde; Wenceslaus Hollar, via Wellcome Collection · Domínio público

Em 30 segundos

  • Em 1712, fevereiro teve 30 dias na Suécia e na Finlândia, então parte do reino sueco.
  • Um livro da paróquia de Sankt Petri, em Ystad, registra um casamento em 30 de fevereiro de 1712.
  • O dia extra desfez um plano de 1700 que pulou um ano bissexto e depois esqueceu os de 1704 e 1708.
  • Com ele, a Suécia voltou ao calendário juliano; o gregoriano só chegou em 1753, com um salto de 17 de fevereiro para 1º de março.

Em 1712, um livro da paróquia de Sankt Petri, em Ystad, no sul da Suécia, registrou um casamento com esta data: "Anno 1712. d: 30 Februarij". O livro está hoje no Riksarkivet, o Arquivo Nacional sueco.

Não é erro de escrivão. Naquele ano, fevereiro teve 30 dias na Suécia. Os almanaques impressos para 1712 trazem o dia 30 no fim do mês, e um deles avisa no cabeçalho que fevereiro "haar XXX Dagar", tem 30 dias.

Então, sim: o 30 de fevereiro existiu. Ele foi o remendo de uma reforma de calendário que saiu dos trilhos. E o detalhe que a versão popular costuma inverter é que esse dia extra não levou a Suécia para o calendário que usamos hoje. Levou de volta ao antigo.

Um plano para sumir com 11 dias aos poucos

No fim do século 17, a Europa vivia com dois calendários. O gregoriano vinha sendo adotado desde 1582, a começar por Itália, Espanha, Portugal e parte da Polônia. A Dinamarca, a Suécia e boa parte dos Estados protestantes da Alemanha ainda seguiam o juliano, mais antigo.

Em 1700, a diferença entre os dois chegaria a 11 dias. A Dinamarca, que incluía a Noruega, resolveu de uma vez: depois de 18 de fevereiro de 1700 veio o 1º de março.

A Suécia escolheu outro caminho. Segundo o genealogista sueco Hans Högman, a decisão de adotar o novo calendário foi tomada em novembro de 1699, para valer já no ano seguinte. Em vez de um salto, a ideia era eliminar todos os dias bissextos de 1700 a 1740. Seriam 11 anos bissextos sem o dia extra, e os 11 dias de diferença sumiriam aos poucos, sem um salto no calendário. A partir de 1º de março de 1740, a Suécia estaria em dia com o calendário gregoriano.

O dinamarquês Claus Tøndering, autor de um guia de perguntas frequentes sobre calendários, resume o problema numa frase: até lá, os suecos não estariam sincronizados "com ninguém" (tradução nossa).

A guerra e os bissextos esquecidos

O primeiro passo funcionou. Em 1700, o 29 de fevereiro não existiu na Suécia.

Funcionou tão em cima da hora que nem todo o reino ficou sabendo. O verbete do Danmarks Nationalleksikon sobre o calendário sueco, escrito pelo pesquisador Jürgen Beyer, afirma que a reforma foi decidida "muito pouco tempo antes" de entrar em vigor (tradução nossa). O conselho da cidade de Tallinn, na Estônia, então sob a coroa sueca, se reuniu em 29 de fevereiro de 1700, num dia que oficialmente não existia. Só em abril a Estônia e a Livônia souberam que não tinha havido 29 de fevereiro.

Depois veio o pior. Durante a Grande Guerra do Norte, os dias bissextos de 1704 e 1708 não foram suprimidos. Beyer fala em esquecimento; Tøndering, em engano.

O resultado foi um calendário só da Suécia: um dia à frente do juliano e dez dias atrás do gregoriano. Até a Páscoa se embaralhou. Segundo o verbete, 1709 "foi um ano com três datas diferentes de Páscoa" (tradução nossa).

Como fevereiro chegou a 30 dias

  1. Novembro de 1699A Suécia decide passar ao calendário gregoriano a partir do ano seguinte, segundo Hans Högman.
  2. 1700O 29 de fevereiro é eliminado. Em Tallinn, o conselho da cidade se reúne nesse dia, sem saber da reforma.
  3. 1704 e 1708Os dias bissextos são mantidos por esquecimento, em plena Grande Guerra do Norte.
  4. 1709Ano com três datas diferentes de Páscoa, segundo o Danmarks Nationalleksikon.
  5. Janeiro de 1711O rei Carlos XII abole as correções do calendário, segundo Hans Högman.
  6. 30 de fevereiro de 1712O dia extra devolve a Suécia ao calendário juliano.
  7. 24 de fevereiro de 1752Data da ordenação que anuncia o calendário gregoriano na Suécia e na Finlândia.
  8. 17 de fevereiro de 1753Último dia do calendário antigo. O dia seguinte é 1º de março.

A marcha a ré de 1712

Em vez de terminar a reforma, a Suécia decidiu desfazê-la. Segundo Högman, em janeiro de 1711 o rei Carlos XII aboliu as correções do calendário.

Voltar ao juliano exigia devolver o dia que tinha sido cortado em 1700. O ano escolhido foi 1712, que já era bissexto. Como escreve Beyer, a volta "exigia não apenas um dia bissexto em 1712, mas dois" (tradução nossa). Tøndering chama 1712 de ano bissexto duplo.

O efeito colateral é o ponto que costuma se perder. Antes de 1712, a Suécia estava 10 dias atrás do gregoriano. Depois da volta ao juliano, segundo o verbete do Danmarks Nationalleksikon, a diferença passou a 11 dias. O 30 de fevereiro aumentou a distância em relação ao calendário gregoriano, aquele que a reforma de 1700 pretendia alcançar.

O 30 de fevereiro sueco

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Foi criado para a Suécia chegar ao calendário gregoriano.
Foi criado para a Suécia voltar ao calendário juliano. A distância para o gregoriano subiu de 10 para 11 dias.
Foi o dia bissexto de 1712.
No almanaque de Åbo, o dia bissexto tradicional aparece em 24 de fevereiro. O dia 30 foi um segundo dia extra.
A Suécia simplesmente esqueceu os anos bissextos por causa da guerra.
O de 1700 foi pulado de propósito, como previa o plano. Os esquecidos foram os de 1704 e 1708.
É uma curiosidade sem registro de uso.
Aparece impresso em almanaques de 1712 e num registro de casamento da paróquia de Sankt Petri, em Ystad.
Resolveu a questão do calendário sueco.
A Suécia só adotou o gregoriano em 1753, cortando 11 dias de uma vez.

O que os almanaques de 1712 mostram

Os almanaques da época traziam o nome do dia, as fases da Lua e, como lembra Tøndering, até a previsão do tempo para o ano inteiro.

Um deles, preservado e digitalizado, é o de Laurentius Tammelin, professor de matemática, impresso em Åbo, a atual Turku, na Finlândia, que então fazia parte do reino sueco. A capa anuncia o ano de 1712 "som är ett Skottåhr", que é um ano bissexto. A página de fevereiro traz no topo "Göyemån. 30. d.": 30 dias.

Ali dá para ver que o dia 30 não é o bissexto de sempre. O dia bissexto tradicional aparece no dia 24, como "Skottårsd.", e os santos a partir dele andam uma casa para a frente, como explica a legenda do verbete do Danmarks Nationalleksikon. Já o dia 30 não tem santo. Tem só uma palavra: "Tilökelsed.", abreviação de "tilökelsedag", dia de acréscimo, segundo o verbete.

Duas páginas amareladas de um almanaque antigo em letra gótica, com a palavra Februarius no alto à esquerda, uma pequena xilogravura de trenó e lavradores e a lista dos dias do mês, que termina no número 30.
Fevereiro de 1712 num almanaque sueco. O cabeçalho diz que o mês tem XXX dias. Ao lado do dia 30, as palavras Tillökad, acrescentado, e Snöö, neve, a previsão do tempo. A coluna da direita traz a data no estilo novo: o 30 de fevereiro corresponde a 11 de março. Imagem: Almanaque sueco de 1712; arquivo creditado a Sendker, via Wikimedia Commons · Domínio público

Outro almanaque sueco de 1712, cuja página de fevereiro está reproduzida acima, usa uma palavra parecida no dia 30: "Tillökad", acrescentado. Ao lado, a previsão do tempo para a data: "Snöö", neve.

Esse almanaque tem um detalhe útil. Ele traz duas colunas de datas, uma no "Gamal Stijl", o estilo antigo usado na Suécia, e outra no "Nya St.", o estilo novo, gregoriano. Na linha do dia 30 de fevereiro, a coluna do estilo novo marca 11. Pelo calendário gregoriano, o 30 de fevereiro sueco caiu em 11 de março de 1712.

O casamento em Ystad

O dia foi usado. No livro da paróquia de Sankt Petri, em Ystad, hoje no Arquivo Nacional sueco, a anotação diz, segundo a transcrição de Tøndering: "Anno 1712. d: 30 Februarij wijdes fullmächtigen på Jordbärga Svven Hall wid hust Elena Jäppdotter Duue."

Na tradução de Tøndering para o inglês, o registro conta que, em 30 de fevereiro, Svven Hall, de Jordbärga, se casou com Elena Jäppdotter Duue. O volume, catalogado pelo Riksarkivet como Ystads Sankt Petri kyrkoarkiv, cobre os anos de 1689 a 1748.

O fim do calendário sueco, em 1753

A Suécia passou mais quatro décadas no juliano. A ordenação que anunciou o calendário gregoriano na Suécia e na Finlândia é datada de 24 de fevereiro de 1752.

A mudança veio em 1753, do jeito que a Dinamarca tinha feito meio século antes: cortando 11 dias de uma vez. Segundo o SMHI, o instituto meteorológico sueco, 17 de fevereiro de 1753 foi o último dia do estilo antigo, e o dia seguinte foi 1º de março. Os dias 18 a 28 de fevereiro de 1753 não existiram na Suécia.

O salto ainda dá trabalho a quem lida com dados antigos. O SMHI lembra que as estações do ano "se deslocaram pouco mais de meio mês" com a troca de calendário (tradução nossa), e que séries de medições como as de Uppsala, que começaram antes de 1753, foram recalculadas para o calendário atual.

Ou seja, em pouco mais de meio século, fevereiro na Suécia teve 28 dias, 29, 30 e, em 1753, apenas 17.

Calendário é convenção, e convenções mudam de mão sem que a gente perceba. Foi o que aconteceu com o tamanho de Napoleão, que encolheu na conversão de polegadas francesas para inglesas. E é o que sente quem perde a referência das datas, como Michel Siffre, que passou 63 dias numa caverna sem relógio e saiu achando que era 20 de agosto, quando já era 14 de setembro.

Fontes

  1. Almanach på åhret 1712, stält till Åbo horizont (Laurentius Tammelin), páginas digitalizadas, Escritório do Almanaque da Universidade de Helsinque (Almanakkatoimisto)
  2. Svensk kalender i 1700-tallet, Jürgen Beyer, Danmarks Nationalleksikon (lex.dk)
  3. Ystads Sankt Petri kyrkoarkiv, volume SE/LLA/13490/C/1 (1689–1748), Riksarkivet, Arquivo Nacional da Suécia
  4. Calendar FAQ: The Gregorian calendar (seção sobre a Suécia), Claus Tøndering
  5. Den förbisedda kalenderreformen, SMHI, Instituto Sueco de Meteorologia e Hidrologia
  6. Change of Calendars in Sweden, Hans Högman

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Perguntas frequentes

O 30 de fevereiro já existiu?
Sim. Em 1712, fevereiro teve 30 dias na Suécia e na Finlândia, que então fazia parte do reino sueco. Almanaques impressos para aquele ano trazem o dia 30, e um livro da paróquia de Sankt Petri, em Ystad, hoje no Arquivo Nacional sueco, registra um casamento celebrado em 30 de fevereiro de 1712.
Por que a Suécia criou o 30 de fevereiro?
Para desfazer uma reforma de calendário que deu errado. O plano de 1700 era eliminar todos os dias bissextos de 1700 a 1740 e chegar aos poucos ao calendário gregoriano. O de 1700 foi pulado, mas os de 1704 e 1708 foram mantidos por esquecimento durante a Grande Guerra do Norte. A Suécia ficou um dia à frente do calendário juliano e dez dias atrás do gregoriano. Para voltar ao juliano, 1712 recebeu dois dias extras em fevereiro.
Quando a Suécia adotou o calendário gregoriano?
Em 1753. Depois de 17 de fevereiro daquele ano veio diretamente o 1º de março, segundo o SMHI, o instituto meteorológico sueco. A ordenação que anunciou a mudança é de 24 de fevereiro de 1752.
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