O machado levou o bico, os olhos e a cara de Mike, a "galinha sem cabeça". Segundo um especialista, até 80% do cérebro ficou, e ele viveu mais 18 meses
Em 1945, um galo decapitado no Colorado passou pela Universidade de Utah, pela revista LIFE e por um ano e meio de turnê. A explicação da época falava em "base do cérebro". Um especialista em aves diz que o nome engana.

Em 30 segundos
- Em 10 de setembro de 1945, em Fruita, no Colorado, um galo Wyandotte chamado Mike teve a cabeça cortada a machado e continuou andando.
- Cientistas da Universidade de Utah examinaram o galo, e a LIFE publicou a história em 22 de outubro de 1945.
- Mike morreu sufocado num motel de Phoenix, segundo o Guinness em 17 de março de 1947, depois de cerca de 18 meses sem cabeça.
- Um especialista da Universidade de Newcastle estima que até 80% do cérebro dele, em massa, ficou no corpo.
Em 10 de setembro de 1945, num dia de abate numa fazenda de Fruita, no Colorado, um galo teve a cabeça cortada a machado. Ele se levantou, saiu andando e viveu mais 18 meses.
Chamava-se Mike. Foi examinado por cientistas da Universidade de Utah, saiu na revista LIFE, rodou os Estados Unidos como atração paga e está no Guinness como a galinha sem cabeça que mais tempo sobreviveu.
A história é real, e a explicação é menos mágica do que parece. O machado levou o bico, a cara, os olhos e uma orelha. Mas, segundo um especialista em aves ouvido pela BBC em 2015, deixou no corpo até 80% do cérebro, em massa, incluindo as partes que controlam coração, respiração, fome e digestão.
O galo que não parou de andar
A versão da família foi contada à BBC por Troy Waters, bisneto do casal Lloyd e Clara Olsen, que ouviu a história do próprio bisavô. Naquele 10 de setembro, os dois abatiam aves: Lloyd cortava as cabeças, Clara limpava. Foram 40 ou 50 naquele dia.
"Chegaram ao fim e tinham um que ainda estava vivo, de pé e andando", disse Waters (tradução nossa). O galo passou a noite numa caixa de maçãs na varanda. Na manhã seguinte, continuava vivo.
Quem segurou o machado depende da fonte. A LIFE de 1945 escreveu que foi "a senhora L. A. Olson", mulher do fazendeiro. Uma foto distribuída pela agência International Soundphoto no mesmo ano diz que foi L. A. Olson, "criador de aves". A família conta que era Lloyd. O sobrenome também aparece como Olson e Olsen.
Utah, LIFE e Time
A notícia correu Fruita, e o jornal local mandou um repórter entrevistar Olsen. Duas semanas depois, segundo a BBC, um empresário de espetáculos chamado Hope Wade viajou quase 300 milhas (uns 480 quilômetros) desde Salt Lake City com uma proposta: levar o galo para o circuito de atrações.
A primeira parada foi Salt Lake City e a Universidade de Utah, onde o galo passou por uma bateria de testes. A legenda da foto de 1945 resumia: "cientistas da Universidade de Utah estão investigando o caso de uma galinha com a cabeça cortada" que vivia como se ainda a tivesse. A mesma legenda dizia que, havia 14 dias, ele era alimentado por conta-gotas e "não sangrou uma gota" (tradução nossa).
Em 22 de outubro de 1945, a LIFE publicou a reportagem, com fotos de Bob Landry. "Desde 10 de setembro, um galo Wyandotte esguio chamado Mike leva a vida normal de uma galinha, embora não tenha cabeça", dizia o texto (tradução nossa). O machado, segundo a revista, tinha arrancado a maior parte do crânio, mas deixado "uma orelha, a veia jugular e a base do cérebro, que controla a função motora".
Uma semana depois, em 29 de outubro, a Time usou Mike para fechar um texto sobre a era atômica. A tese era que Hiroshima tinha mudado muita coisa, mas "o modo de pensar, ou de não pensar, do homem não mudava com facilidade". Mike "era alimentado, batia as asas, até tentava cantar". E a conclusão: "A sociedade humana, como Mike, ia levando à base de reflexos" (tradução nossa).
No começo de novembro, uma nota de jornal informava que o galo tinha ganhado uma libra, cerca de 450 gramas, nos dois meses sem cabeça.
Os 18 meses de Mike
- 10 de setembro de 1945O galo tem a cabeça cortada em Fruita, no Colorado, e continua andando.
- Setembro e outubro de 1945O empresário Hope Wade chega de Salt Lake City. Mike é levado à Universidade de Utah.
- 22 de outubro de 1945A revista LIFE publica a história, com fotos de Bob Landry.
- 29 de outubro de 1945A Time usa Mike como metáfora de uma sociedade que vive de reflexos.
- Início de novembro de 1945Uma nota de jornal informa que o galo ganhou cerca de 450 gramas desde o corte.
- 17 de março de 1947Mike morre sufocado num motel de Phoenix, segundo o Guinness.
Como ele comia, e como morreu
Segundo a família, os Olsen pingavam comida líquida e água direto no esôfago com um conta-gotas. E limpavam o muco da garganta dele com uma seringa. A legenda da foto de 1945 falava em grãos dados por conta-gotas.
A turnê passou pela Califórnia e pelo Arizona. Quando os Olsen precisaram voltar para a colheita, Hope Wade seguiu com Mike numa turnê pelo sudeste do país. Clara registrou as viagens num álbum de recortes que a família ainda guardava em 2015. O ingresso custava 25 centavos de dólar, segundo o Guinness.
O dinheiro, diz Waters, comprou uma enfardadeira de feno, dois tratores e uma picape Chevrolet 1946. "Ele ganhou um dinheirinho com aquilo" (tradução nossa).
O fim veio num quarto de motel em Phoenix, no Arizona. O casal acordou com o barulho do galo engasgando. A seringa tinha ficado no local da exibição, e Mike sufocou antes que achassem outra solução.
O Guinness dá a data: noite de 17 de março de 1947. A BBC fala na primavera de 1947. Um texto do site da LIFE diz 1946. Por anos, Lloyd contou que tinha vendido o galo a alguém do circuito de atrações. Só admitiu a morte ao bisneto poucos anos antes de morrer.
Por que o "tronco cerebral" bastou, e por que o nome engana
Em 1945, todas as explicações apontavam para o mesmo lugar. A LIFE falou em "base do cérebro". A Time, num "pedaço de tecido no alto do pescoço" que controlava os impulsos motores. Cientistas citados numa nota de jornal disseram que parte do cérebro continuava ligada à medula espinhal e que a garganta e a traqueia estavam intactas.
A ideia que pegou foi a de que Mike viveu só com o tronco cerebral, como se fosse um resto. Tom Smulders, especialista em galinhas do Centro de Comportamento e Evolução da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, explicou à BBC por que isso é só meia verdade.
"Você ficaria surpreso com o pouco de cérebro que há na frente da cabeça de uma galinha", disse (tradução nossa). O cérebro da ave fica concentrado na parte de trás do crânio, atrás dos olhos. Por isso ele estima que até 80% do cérebro de Mike, em massa, ficou no corpo, e com ele quase tudo que controla batimentos cardíacos, respiração, fome e digestão.
O nome também atrapalha. O que se chamava de tronco cerebral em 1945 é hoje considerado parte do cérebro propriamente dito. "A maior parte do cérebro da ave como o conhecemos agora seria considerada tronco cerebral naquela época", disse Smulders (tradução nossa). Os nomes dados às partes do cérebro das aves no fim do século 19, segundo ele, indicavam equivalências com o cérebro dos mamíferos que estavam erradas.
Ou seja: o tronco cerebral bastou porque, numa galinha, o que se chamava assim era quase o cérebro inteiro que importa para manter o corpo funcionando.

O verdadeiro mistério era o sangue
Para Smulders, a parte difícil de explicar não é Mike ter continuado a funcionar. É ele não ter sangrado até morrer. A LIFE e a Time registraram em 1945 que a veia jugular escapou do machado. A explicação aceita é que o corte caiu no lugar exato e que um coágulo fechou o ferimento a tempo.
O que se vê numa galinha decapitada comum tem outra causa. Logo depois do corte, os circuitos da medula espinhal ainda têm oxigênio e disparam sozinhos, sem comando do cérebro, e as pernas se mexem. Em geral a ave está deitada; em casos raros, os neurônios disparam um programa de corrida. "A galinha vai mesmo correr por um tempinho", disse Smulders. "Mas não por 18 meses. Mais uns 15 minutos" (tradução nossa).
Houve quem tentasse repetir a façanha. Waters acredita que o bisavô tentou algumas vezes, e um vizinho aparecia com cerveja para que Lloyd explicasse o golpe. Em Fort Johnson, no estado de Nova York, outro galo sobreviveu à decapitação em 15 de dezembro de 1945. Um jornal de 20 de janeiro de 1946 noticiou que ele tinha morrido naquela semana.
A galinha sem cabeça: lenda e fontes
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Era uma galinha
- Era um galo, da raça Wyandotte, segundo a LIFE de 1945.
- Viveu só com o tronco cerebral, um resto de cérebro
- O que se chamava de tronco cerebral em 1945 hoje conta como cérebro. Até 80% dele, em massa, teria ficado no corpo, estima Tom Smulders.
- Sobreviveu porque sobrou cérebro
- Isso explica os movimentos. O que surpreende o especialista é ele não ter sangrado: a jugular escapou e um coágulo fechou o corte.
- Morreu em 1946
- O Guinness diz 17 de março de 1947, num motel de Phoenix. A BBC fala na primavera de 1947.
Mike não provou que dá para viver sem cérebro. Mostrou o contrário: que o golpe deixou para trás quase tudo de que o corpo de uma galinha precisa. A pergunta sobre o que fica de uma pessoa quando uma parte do cérebro vai embora é bem mais antiga, e tem um caso clássico no operário Phineas Gage, que teve o crânio atravessado por uma barra de ferro em 1848. E, se a ideia de que dá para funcionar com um pedaço do cérebro soa familiar, vale ver de onde saiu a frase de que usamos só 10% dele.
Fontes
- LIFE With Mike the Headless Chicken: Photos of a Famously Tough Fowl (reproduz trechos da LIFE de 22 de outubro de 1945), LIFE.com, texto de Ben Cosgrove, fotos de Bob Landry
- International: The Rooster (29 de outubro de 1945), Time
- Gadsden County Times, 1º de novembro de 1945, p. 1 (foto da International Soundphoto), Chronicling America, Library of Congress
- The Wilmington Morning Star, 4 de novembro de 1945, p. 7, e 20 de janeiro de 1946, p. 7, Chronicling America, Library of Congress
- The chicken that lived for 18 months without a head (2015), Chris Stokel-Walker, BBC News Online, republicado por The Daily Star
- The unbelievable tale of the chicken that lived headless for over a year (2024), Guinness World Records
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Perguntas frequentes
- A galinha sem cabeça existiu mesmo?
- Sim. Era um galo da raça Wyandotte chamado Mike, de uma fazenda de Fruita, no Colorado. Ele teve a cabeça cortada a machado em 10 de setembro de 1945 e continuou vivo. Jornais da época noticiaram que cientistas da Universidade de Utah o examinaram, e a revista LIFE publicou a história em 22 de outubro de 1945. O Guinness o registra como a galinha sem cabeça que mais tempo sobreviveu: cerca de 18 meses.
- Como Mike sobreviveu sem cabeça?
- O golpe levou o bico, a cara, os olhos e uma orelha, mas deixou a veia jugular e a parte de trás do cérebro. Em 1945, falava-se em "base do cérebro". Em 2015, Tom Smulders, da Universidade de Newcastle, estimou à BBC que até 80% do cérebro, em massa, ficou no corpo, incluindo o que controla batimentos, respiração, fome e digestão. Para ele, o mais surpreendente é Mike não ter sangrado até morrer: um coágulo teria fechado o corte.
- Do que Mike morreu?
- Ele morreu sufocado num quarto de motel em Phoenix, no Arizona. A família o alimentava com conta-gotas e limpava o muco da garganta dele com uma seringa, que naquela noite tinha ficado no local da exibição. O Guinness dá a data de 17 de março de 1947; a BBC fala na primavera de 1947, e um texto do site da LIFE diz 1946.
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