Em 2007, tardígrados secos ficaram dias no vácuo do espaço e voltaram vivos. Sob a luz solar sem filtro, só uma pequena fração resistiu
Encolhido num barril seco, o tardígrado aguenta frio perto do zero absoluto e pressões gigantescas. Mas o número de calor mais famoso sobre ele vem de testes dos anos 1920, e um tardígrado ativo pode morrer depois de um dia a 37 °C.

Em 30 segundos
- Em setembro de 2007, cerca de 3 mil tardígrados desidratados voaram do lado de fora da cápsula Foton-M3, a cerca de 270 km de altitude, e sobreviveram ao vácuo sem perdas significativas.
- A radiação solar completa foi outra história: houve grandes perdas, e mais de 2% dos Milnesium tardigradum sobreviveram a ela.
- O segredo é o tun, um estado seco e reversível em que o corpo se contrai e o metabolismo praticamente para. Só algumas espécies conseguem entrar nele.
- Os 150 °C famosos vêm de testes dos anos 1920. Medições modernas apontam mortalidade quase total acima de 100 °C.
Em setembro de 2007, cerca de 3 mil tardígrados desidratados subiram ao espaço num módulo instalado do lado de fora da cápsula Foton-M3. Ficaram dias em órbita a cerca de 270 quilômetros de altitude, expostos diretamente ao vácuo.
O vácuo não os matou. A radiação solar sem filtro foi outra história: no grupo exposto a ela, houve grandes perdas. Numa das espécies, mais de 2% resistiram, segundo a Universidade de Stuttgart.
O resultado, publicado em 2008 na revista Current Biology, pôs o tardígrado numa lista curta: foi o primeiro animal a sobreviver à exposição ao espaço aberto. E ajuda a separar o que ele realmente aguenta do que a fama diz.
Um bicho que vira barril
Tardígrados, também chamados de ursos-d'água, são invertebrados de 0,05 a 2,1 milímetros, com quatro pares de patas. Foram descobertos em 1773 e há cerca de 1.200 espécies descritas, do fundo do oceano ao alto das montanhas.
A resistência famosa não é do animal ativo. Ela depende de um estado especial. Quando o ambiente seca, algumas espécies perdem quase toda a água do corpo e entram em anidrobiose: uma pausa reversível em que o metabolismo cai a um nível muito baixo — um estudo japonês de 2016, na Nature Communications, o chama de estado "ametabólico".
Nessa hora, o corpo se contrai no sentido do comprimento, as patas se recolhem e o animal vira um barrilzinho enrugado, o tun. Essa forma reduz a superfície de evaporação e corta a perda de água em cerca de 50%.
Depois que a água livre evapora, a que estava presa às moléculas é substituída por substâncias protetoras, como o açúcar trealose, além de proteínas próprias. Mas a revisão de Weronika Erdmann e Łukasz Kaczmarek, de 2017, faz duas ressalvas: alguns tardígrados produzem muito pouca trealose, e a maior parte dos mecanismos de proteção ainda é mal compreendida ou desconhecida.
E não são todos os tardígrados. Só algumas espécies, em geral as que vivem em musgos, liquens e solo, toleram secar quase por completo. Há diferenças até entre populações da mesma espécie.

O que o tun aguenta
Na forma seca, os números são de fato extremos. Um teste de 1950 registrou sobrevivência a −272,8 °C, a menos de meio grau do zero absoluto. Outros estudos mostraram tolerância a 7,5 gigapascals de pressão — cerca de 74 mil vezes a pressão do ar ao nível do mar, em conta nossa.
Na radiação, a diferença para nós é de ordem de grandeza. Segundo a revisão de 2017, tardígrados em anidrobiose resistem a cerca de 5.000 grays de radiação ionizante e raios X. O estudo de 2016 lembra que, em células de mamíferos, de 3 a 7 grays de raios X já causam danos graves ao DNA.
E o tempo: em condições naturais, eles podem passar de nove a 20 anos inativos. A Agência Espacial Europeia (ESA) fala em dez anos sem água. Há um limite, porém: os danos às células se acumulam durante a anidrobiose.
O voo de 2007
O experimento se chamava TARDIS, sigla em inglês para "tardígrados no espaço". Foi liderado por Ingemar Jönsson, da Universidade de Kristianstad, na Suécia, com Ralph Schill, da Universidade de Stuttgart, e pesquisadores do centro aeroespacial alemão DLR e da Universidade de Estocolmo.
Foram duas espécies: Richtersius coronifer, da Suécia, e Milnesium tardigradum, vinda do departamento de zoologia de Stuttgart. Os animais viajaram secos, no módulo Biopan-6, cedido pela ESA e instalado do lado de fora da cápsula.
As fontes divergem na duração. A ESA diz que a cápsula passou 12 dias em órbita. O comunicado da Universidade de Stuttgart diz que os tardígrados circularam a Terra por dez dias, expostos ao vácuo e, conforme o grupo, a diferentes radiações.
Os grupos tiveram destinos bem diferentes:
- Só vácuo: as duas espécies sobreviveram sem perdas significativas em relação ao grupo de controle que ficou na Terra.
- Vácuo com ultravioleta A e B: bem mais da metade mostrou sinais de vida depois de reidratada. Alguns morreram nos dias seguintes; os que ficaram voltaram a comer e puseram ovos, que geraram filhotes sem sinais de dano.
- Vácuo com a radiação solar completa (todo o espectro ultravioleta, mais radiação ionizante e cósmica): grandes perdas. Ainda assim, mais de 2% dos Milnesium tardigradum sobreviveram.
"Nossa principal descoberta é que o vácuo do espaço, que implica desidratação extrema, e a radiação cósmica não foram um problema para os ursos-d'água", disse Jönsson à ESA (tradução nossa). Segundo a agência, outros experimentos da ESA na década anterior já tinham mostrado sementes de alface e liquens sobrevivendo à exposição ao espaço.
O detalhe que a versão popular costuma pular: o teste foi feito com animais secos, em estado de vida latente. Ele não mostra que um tardígrado ativo aguentaria o espaço.
Onde a fama exagera
O número mais repetido sobre tardígrados é o de calor. A própria ESA escreveu, em 2008, que eles suportam de −272 °C a +150 °C.
Esse teto vem de experimentos publicados por Rahm nos anos 1920, que relataram sobrevivência a temperaturas de 110 a 151 °C. As fontes modernas divergem até na duração desses testes: a revisão de 2017 fala em até 15 minutos; o estudo de 2020 fala em 30.
As medições feitas a partir dos anos 2000 baixaram o teto. Num estudo, nenhum Richtersius coronifer seco sobreviveu a 100 °C. Em outro, com nove espécies, quase todos os Milnesium tardigradum — a espécie mais tolerante do teste — morreram acima de 103 °C, em exposições de uma hora.
A fama e a ficha técnica do tardígrado
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Aguenta 150 °C
- O número vem de testes dos anos 1920. Em testes de uma hora, quase todos os Milnesium tardigradum morreram acima de 103 °C.
- Sobrevive no espaço
- Seco, sobreviveu ao vácuo. Com a radiação solar completa, houve grandes perdas: mais de 2% dos Milnesium tardigradum resistiram.
- Todo tardígrado faz isso
- Só algumas espécies, em geral de musgos, liquens e solo, toleram secar quase por completo.
- É indestrutível
- Ativo, o Ramazzottius varieornatus tem 50% de mortalidade depois de 24 horas a 37,1 °C.
Em 2020, uma equipe da Universidade de Copenhague testou o Ramazzottius varieornatus. Secos, os animais chegaram a 50% de mortalidade a 82,7 °C em uma hora — e a 63,1 °C em 24 horas. Ativos, a 50% de mortalidade depois de 24 horas a 37,1 °C. "As altas temperaturas parecem ser o seu calcanhar de Aquiles", escreveram os autores (tradução nossa).
A proteína que protege o DNA
Em 2016, pesquisadores da Universidade de Tóquio publicaram na Nature Communications o genoma do Ramazzottius varieornatus, uma das espécies mais resistentes.
Havia uma polêmica no ar. Um grupo da Universidade da Carolina do Norte tinha afirmado que 17,5% dos genes de outro tardígrado vinham de outros organismos, o que explicaria a resistência. Outro grupo argumentou que boa parte daquilo era contaminação. O genoma japonês encontrou 1,2% ou menos de genes possivelmente estrangeiros.
O achado principal foi uma proteína exclusiva dos tardígrados, que se liga ao DNA e ganhou o nome de Dsup, de "supressora de danos". Inserida em células humanas cultivadas, ela reduziu em cerca de 40% os danos ao DNA causados por raios X, e as células passaram a tolerar melhor 4 grays de radiação.
Os próprios autores marcam a distância: o tardígrado adulto aguenta 4.000 grays de feixe de íons de hélio, e pode haver outros fatores além da Dsup por trás disso.
O que fica
O tardígrado não é indestrutível. É um animal que, seco, entra num estado em que quase nada acontece — e por isso quase nada o atinge. Acordado, um dia quente pode bastar.
Se você gosta de bichos cuja biologia real é mais estranha que qualquer lenda, vale conhecer o polvo e seus três corações. E a história do césio-137 em Goiânia mostra o outro lado da radiação: o que ela faz com quem não tem tun nenhum.
Fontes
- Tardigrades survive exposure to space in low Earth orbit (2008), Jönsson, Rabbow, Schill, Harms-Ringdahl e Rettberg, Current Biology 18, R729–R731 (registro e resumo no repositório do DLR)
- Bärtierchen überleben Spaziergang im All (2008), Universidade de Stuttgart, comunicado de imprensa
- Tiny animals survive exposure to space (2008), Agência Espacial Europeia (ESA)
- Tardigrades in Space Research - Past and Future (2017), Erdmann e Kaczmarek, Origins of Life and Evolution of Biospheres 47, 545–553
- Extremotolerant tardigrade genome and improved radiotolerance of human cultured cells by tardigrade-unique protein (2016), Hashimoto et al., Nature Communications 7, 12808
- Thermotolerance experiments on active and desiccated states of Ramazzottius varieornatus emphasize that tardigrades are sensitive to high temperatures (2020), Neves et al., Scientific Reports 10, 94
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Perguntas frequentes
- O que é um tardígrado?
- É um animal invertebrado microscópico, também chamado de urso-d’água, com 0,05 a 2,1 milímetros e quatro pares de patas. Há cerca de 1.200 espécies conhecidas, em ambientes que vão do fundo do oceano ao alto das montanhas. Algumas espécies, em geral as que vivem em musgos, liquens e solo, conseguem secar quase por completo e entrar num estado de vida latente chamado anidrobiose.
- O tardígrado sobrevive no espaço?
- Desidratado, sobreviveu ao vácuo. No experimento TARDIS, de setembro de 2007, tardígrados de duas espécies voaram do lado de fora da cápsula Foton-M3 e sobreviveram ao vácuo sem perdas significativas em relação ao grupo de controle. Com a radiação solar completa, houve grandes perdas: mais de 2% dos Milnesium tardigradum sobreviveram. O teste foi feito com animais secos, não com tardígrados ativos.
- O tardígrado é indestrutível?
- Não. Ativo, o Ramazzottius varieornatus tem 50% de mortalidade depois de 24 horas a 37,1 °C. Mesmo seco, a mortalidade chega a 50% a 82,7 °C em uma hora e a 63,1 °C em 24 horas. Em testes de uma hora com nove espécies secas, quase todos os Milnesium tardigradum morreram acima de 103 °C, longe dos 150 °C que costumam ser citados.
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