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A água-viva imortal existe e volta a ser pólipo mesmo depois de adulta. A colônia recordista de laboratório morreu na chuva de um tufão

A Turritopsis dohrnii desfaz o próprio corpo e recomeça a vida, e o artigo de 1996 que a tornou famosa falava em imortalidade "potencial". O que o estudo mostrou, o que o genoma de 2022 sugeriu e por que nada disso impede a morte.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Pequena medusa translúcida, vista de cima, com a borda do sino formando um anel claro e o centro amarelado, sobre fundo preto salpicado de partículas.
Dr. Karen J. Osborn, via Wikimedia Commons · CC0

Em 30 segundos

  • Quando sofre dano, estresse ou envelhece, a medusa da Turritopsis dohrnii encolhe, vira um cisto e volta a ser pólipo, a fase jovem presa ao fundo.
  • O artigo de 1996 que tornou a espécie famosa falava em imortalidade "potencial", e não em um animal impossível de matar.
  • No Japão, uma colônia fez a volta dez vezes em cerca de dois anos. Em maio de 2015, a chuva forte de um tufão matou todas as colônias do laboratório.
  • Um estudo de genoma publicado na PNAS em 2022 apontou genes candidatos ao rejuvenescimento, mas a premissa da comparação foi contestada na mesma revista.

Quando uma medusa de Turritopsis dohrnii sofre dano, estresse ou envelhece, ela pode fazer o que quase nenhum animal faz: encolher, virar um cisto e voltar a ser pólipo, a fase jovem, presa ao fundo, de onde a medusa tinha saído. Do pólipo brota uma nova colônia, que solta novas medusas.

No Japão, um pesquisador acompanhou uma única linhagem fazendo essa volta dez vezes em cerca de dois anos. Em maio de 2015, a chuva forte de um tufão matou todas as colônias que ele mantinha em cultivo.

As duas frases resumem o que a água-viva imortal é e o que ela não é. Ela existe, e a reversão do ciclo de vida está documentada desde o começo dos anos 1990. Mas "imortal", para os biólogos que a estudam, quer dizer que ela consegue escapar da morte por envelhecimento recomeçando a vida, e não que seja impossível matá-la.

O caminho de volta

Na maioria dos hidrozoários, o ciclo de vida anda num sentido só. A medusa adulta solta gametas na água. A larva que nasce da fecundação se fixa no fundo e vira pólipo. A colônia de pólipos produz novas medusas por brotamento. Como resumem Yui Matsumoto e Maria Pia Miglietta, da Universidade Texas A&M em Galveston, a maioria das hidromedusas fica madura, libera os gametas e morre.

A T. dohrnii tem um caminho a mais. Danificada, envelhecida ou diante de condições adversas, a medusa encolhe, perde a capacidade de nadar e assenta no fundo. Ali vira um cisto com um envelope fino de quitina e nenhuma estrutura que lembre medusa ou pólipo. Depois, desse cisto cresce um estolão, a base de onde nascem os novos pólipos.

O prazo varia conforme a fonte. Um artigo de 2019 de Matsumoto, Stefano Piraino e Miglietta diz que o cisto ganha traços de pólipo nas 24 a 36 horas seguintes. Outro, de 2021, de Matsumoto e Miglietta, fala em 24 a 72 horas para a metamorfose do cisto em pólipo.

Gravura em cobre com pequenos pólipos de corpo fino e tentáculos, desenhados em várias posições no alto da página, e um copo de vidro com água onde outros pólipos pendem da superfície.
Ilustração. Hidroides de água doce numa gravura de 1743 para as Memórias sobre a história natural dos pólipos, de Abraham Trembley (1744). Não são Turritopsis, mas mostram o formato de pólipo: um corpo em tubo, preso por uma ponta, com tentáculos na outra. Imagem: Wellcome Collection · Domínio público

O artigo de 1996 dizia "potencial"

A primeira descrição da reversão saiu em 1992, assinada por Giorgio Bavestrello, Christian Sommer e M. Sarà, a partir de uma população italiana.

A fama veio quatro anos depois. Em 1996, Piraino, Ferdinando Boero, B. Aeschbach e V. Schmid publicaram no The Biological Bulletin o artigo Reversing the life cycle ("Invertendo o ciclo de vida"). O resumo diz que todos os estágios da medusa, "das recém-liberadas às plenamente maduras", podem se transformar de volta em colônias de pólipos, "escapando assim da morte e alcançando uma imortalidade potencial" (tradução nossa).

Os autores também escreveram que aquele era "o primeiro metazoário conhecido a reverter a uma forma colonial e juvenil depois de ter alcançado a maturidade sexual" (tradução nossa).

O mesmo artigo trouxe experimentos de corte. A transformação só acontecia se estivessem presentes células já diferenciadas da epiderme da exumbrela, a superfície externa do sino, e parte do sistema gastrovascular. O artigo de 2019 explica por que isso importa: o manúbrio, rico em células intersticiais, as que costumam comandar a regeneração nos cnidários, não conseguiu formar o tecido típico do pólipo, enquanto a epiderme do sino, sem essas células, voltou a ser pólipo. Ou seja, células já especializadas mudam de tipo. O nome disso é transdiferenciação.

Há ainda um detalhe de nome. Em 1996, o animal foi chamado de Turritopsis nutricula. Em 2007, uma análise genética de Miglietta, Piraino, Shin Kubota e P. Schuchert concluiu que a Turritopsis do Mediterrâneo deve ser atribuída a T. dohrnii, e que a T. nutricula provavelmente só existe no Atlântico ocidental. Em janeiro de 2026, um estudo de Miglietta e colegas na revista Zootaxa testou a T. nutricula verdadeira: "nossos resultados indicam que T. nutricula não possui essa capacidade" (tradução nossa).

Dez voltas, uma sufocação e um tufão

O japonês Shin Kubota, do Laboratório de Biologia Marinha de Seto, da Universidade de Kyoto, acompanhou a reversão em série no aquário. Em 15 de maio de 2009, ele coletou uma medusa imatura na costa da ilha de Okinawa. A partir dela, registrou dez rejuvenescimentos seguidos, de maio de 2009 a março de 2011, com água entre 21 e 29 graus.

No verão e no outono, com a água a 25 a 29 graus, da segunda à quarta volta cada uma levou cerca de um mês. No inverno e na primavera, abaixo de 22 graus, o intervalo aumentou, mesmo com aquecimento.

O próprio artigo de 2011 registra o limite do método: em abril daquele ano, a maioria das colônias morreu sufocada por excesso de matéria orgânica, exceto algumas.

Kubota chamou o animal de Turritopsis sp. em 2011. Num artigo de 2015, ele classificou o material de Okinawa como T. dohrnii e atualizou a contagem: a colônia tinha rejuvenescido "12 ou 13 vezes", com a ressalva entre colchetes de que, "na verdade", foram 14. No mesmo texto, informou que, por causa da chuva forte de um tufão em meados de maio de 2015, todas as colônias cultivadas morreram.

Da descoberta à disputa sobre o genoma

  1. 1883A espécie Turritopsis dohrnii é descrita por Weismann.
  2. 1992Bavestrello, Sommer e Sarà descrevem a reversão de medusa a pólipo numa população italiana.
  3. 1996Piraino e colegas publicam o artigo que fala em imortalidade potencial.
  4. 2007Análise genética atribui a Turritopsis do Mediterrâneo à espécie T. dohrnii.
  5. 2009 a 2011Uma colônia de Okinawa rejuvenesce dez vezes no laboratório de Kubota.
  6. Maio de 2015A chuva de um tufão mata todas as colônias cultivadas por Kubota.
  7. Agosto de 2022A PNAS publica os genomas de T. dohrnii e T. rubra.
  8. Março de 2023Miglietta contesta a premissa do estudo; os autores respondem.
  9. Janeiro de 2026Estudo conclui que a T. nutricula verdadeira não faz a reversão.

O que o genoma de 2022 encontrou

Em agosto de 2022, um grupo da Universidade de Oviedo, na Espanha, com Maria Pascual-Torner como primeira autora e Carlos López-Otín como supervisor, publicou na revista PNAS o genoma da T. dohrnii, coletada em Santa Caterina, na província de Lecce, na Itália. E o comparou com o da T. rubra, trazida do norte de Hokkaido, no Japão, uma espécie aparentada sem registro publicado de rejuvenescimento depois de se reproduzir.

Os autores compararam quase mil genes ligados ao envelhecimento e ao reparo do DNA. Acharam variantes e cópias extras em genes de replicação, reparo do DNA, manutenção dos telômeros, equilíbrio redox, células-tronco e comunicação entre células. A T. dohrnii tinha, por exemplo, quatro cópias do gene POLD1, contra uma na T. rubra, e cinco do gene da tiorredoxina, contra duas.

Durante a reversão, viram o silenciamento dos alvos de um complexo chamado PRC2 e a ativação de alvos ligados à pluripotência, e propuseram esses fatores como peças-chave do rejuvenescimento.

O artigo também explica em que sentido usa "imortal": a probabilidade de uma medusa madura rejuvenescer "chega a 100%", sem limite aparente no número de ciclos por indivíduo (tradução nossa). E reconhece limites: a distância evolutiva entre as duas espécies, que traz diferenças sem relação com a imortalidade, e a qualidade relativamente baixa das montagens dos genomas.

A premissa contestada

Em março de 2023, Miglietta publicou uma carta na mesma PNAS. Para ela, a afirmação de que a T. rubra é incapaz de rejuvenescer depois da reprodução está errada, e os trabalhos de Kubota sobre uma Turritopsis japonesa, presumivelmente T. rubra, indicam que ela rejuvenesce antes e depois de se reproduzir, só que em taxa menor. Se as duas espécies têm a maquinaria, escreveu, "comparar seus genomas não pode identificar as chaves do rejuvenescimento" (tradução nossa). Ela também cobrou detalhes de como as espécies foram identificadas.

Na resposta, Pascual-Torner e Víctor Quesada disseram que o artigo fala em "nenhuma evidência relatada" e que os textos de Kubota tratam de medusas não maduras ou de espécies indefinidas. Apresentaram um teste que não estava no artigo: 53 medusas de T. rubra submetidas a dano mecânico, das quais nenhuma reverteu e 74% degeneraram até o 50º dia. E informaram ter sequenciado o gene mitocondrial 16S para confirmar as espécies. Os autores mantiveram as conclusões.

Por que isso não é imortalidade prática

Água-viva imortal: a fama e o registro

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Ela não morre.
Ela pode escapar da morte por dano ou velhice voltando a ser pólipo. As colônias de Kubota morreram sufocadas por matéria orgânica em 2011 e por causa da chuva de um tufão em 2015.
A mesma medusa vive para sempre.
No cisto, todas as estruturas da medusa desaparecem numa massa opaca, segundo a PNAS. O que volta é uma colônia de pólipos, que solta medusas novas.
Toda medusa da espécie faz isso.
Os autores da PNAS dizem que a chance chega a 100% em medusas maduras. Chegar a não é sempre.
O artigo original provou a imortalidade.
O resumo de 1996 fala em imortalidade potencial.
O segredo foi achado em 2022.
O estudo aponta genes candidatos. A comparação que o sustenta foi contestada na própria revista.

O que a T. dohrnii faz é real e raro: uma medusa adulta desmonta o próprio corpo e o refaz como pólipo, com células especializadas trocando de função. O artigo de 2022 a chama de única espécie capaz de rejuvenescer repetidamente depois da reprodução. Kubota lista outros cnidários que conseguem voltar de medusa a pólipo, como Laodicea undulata.

O que ela não faz é escapar de tudo o que mata um animal de outro jeito. Kubota escreveu que, com o método dele, a Turritopsis "será mantida para sempre" (tradução nossa). Quatro anos depois, a chuva de um tufão acabou com todas as colônias do laboratório.

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Fontes

  1. Reversing the life cycle: Medusae transforming into polyps and cell transdifferentiation in Turritopsis nutricula (Cnidaria, Hydrozoa) (1996), Piraino, Boero, Aeschbach e Schmid, The Biological Bulletin 190(3), 302–312 — repositório da Universidade do Salento
  2. Comparative genomics of mortal and immortal cnidarians unveils novel keys behind rejuvenation (2022), Pascual-Torner et al., PNAS 119(36), e2118763119
  3. On the perils of working on nonmodel organisms (2023), Maria Pia Miglietta, PNAS 120(11), e2216683120
  4. Transcriptome Characterization of Reverse Development in Turritopsis dohrnii (Hydrozoa, Cnidaria) (2019), Matsumoto, Piraino e Miglietta, G3 9(12), 4127–4138
  5. Repeating rejuvenation in Turritopsis, an immortal hydrozoan (Cnidaria, Hydrozoa) (2011), Shin Kubota, Biogeography 13, 101–103 — repositório da Universidade de Kyoto
  6. Morphology of newly liberated medusae of Turritopsis spp. (Hydrozoa, Oceanidae) from Japan and abroad (2015), Shin Kubota, Biogeography 17, 129–131 — repositório da Universidade de Kyoto

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Perguntas frequentes

A água-viva imortal existe mesmo?
Existe. É a Turritopsis dohrnii, um pequeno hidrozoário. Quando a medusa sofre dano, estresse ou envelhece, ela encolhe, vira um cisto e volta a ser pólipo, a fase jovem que vive presa ao fundo. Do pólipo nasce uma colônia que solta novas medusas. A reversão foi descrita em 1992 e detalhada em 1996 por Piraino e colegas, que falaram em imortalidade "potencial".
A água-viva imortal pode morrer?
Pode. "Imortal" quer dizer que ela consegue escapar da morte por envelhecimento recomeçando o ciclo de vida, não que seja impossível matá-la. O pesquisador japonês Shin Kubota registrou que a maioria das suas colônias morreu sufocada por matéria orgânica em abril de 2011 e que, em maio de 2015, a chuva forte de um tufão matou todas as colônias que ele cultivava.
Como a água-viva imortal rejuvenesce?
A medusa perde a capacidade de nadar, assenta no fundo e vira uma massa sem estruturas reconhecíveis, envolta numa capa fina de quitina. Desse cisto crescem um estolão e novos pólipos. Experimentos de corte mostraram que células já especializadas da superfície do sino mudam de tipo para formar o pólipo, um processo chamado transdiferenciação.
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