Hachiko voltou à estação de Shibuya por quase dez anos depois da morte do dono. A cena dele levando o professor até o trem provavelmente nunca existiu
O cão foi real, o dono era professor da Universidade de Tóquio e a espera está documentada. A autópsia de 1935, guardada até hoje, encontrou vermes no coração, um tumor nos pulmões e quatro espetos de bambu no estômago.

Em 30 segundos
- Entre a morte do professor Hidesaburo Ueno, em 21 de maio de 1925, e a de Hachiko, em 8 de março de 1935, passaram-se 9 anos e 9 meses.
- Um professor da Universidade de Tóquio argumenta que Ueno ia a pé para o trabalho: a cena do cão acompanhando o dono até o trem todo dia vem, provavelmente, de um livro escolar de 1934.
- A autópsia registrou filariose e quatro espetos de bambu no estômago; em 2010, novos exames nos órgãos preservados acharam um tumor maligno nos pulmões e no coração.
- A primeira estátua de Shibuya, de 1934, foi derretida em 1944; a atual, de 1948, é obra do filho do escultor original.
Na madrugada de 8 de março de 1935, o corpo de um cão akita foi encontrado ao sul da estação de Shibuya, em Tóquio. Na mesma tarde, ele foi levado ao laboratório de patologia da Faculdade de Agricultura da Universidade Imperial de Tóquio e autopsiado.
No estômago, os veterinários registraram quatro espetos de bambu de cerca de 5 centímetros. No coração, vermes. O cão era Hachi, que o Japão inteiro conhecia como Hachiko.
A história é real. O dono, o professor Hidesaburo Ueno, tinha morrido em 21 de maio de 1925. Entre a morte dele e a do cão passaram-se 9 anos e 9 meses, e nesse período Hachi foi visto indo à estação de Shibuya de manhã e à tarde. O que os documentos não sustentam bem é a cena que abre quase todas as versões: o cão levando o dono até o trem, todos os dias, enquanto ele estava vivo.
O cão e o professor
Hachi nasceu em 10 de novembro de 1923, em Odate, na província de Akita, no norte do Japão, na casa do agricultor Giichi Saito. Chegou a Tóquio em 14 de janeiro de 1924, com cerca de 50 dias de vida.
O dono era professor da Faculdade de Agricultura da Universidade Imperial de Tóquio, hoje Universidade de Tóquio. Ueno é considerado o fundador da engenharia agrícola no Japão, a disciplina que planeja irrigação, drenagem e o desenho dos arrozais.
A convivência durou 16 meses. Em 21 de maio de 1925, depois de uma reunião de professores na universidade, Ueno sofreu uma hemorragia cerebral e morreu, aos 53 anos.
Quatro casas antes da estação
O cão não ficou na casa. Yae Ueno, companheira do professor, não pôde herdar a residência. Hachi foi entregue a um atacadista de quimonos em Nihonbashi, depois a parentes em Asakusa e então à casa de Yae em Setagaya. Segundo o relato do site nippon.com, era visto com frequência correndo em direção a Shibuya, a 8 quilômetros dali.
Quem resolveu foi um jardineiro que trabalhava na casa do professor, Kikusaburo Kobayashi. Ele levou o cão para a própria casa, perto da antiga residência de Ueno. A partir daí, Hachi passou a ir à estação de manhã e à tarde e a sentar-se diante da catraca.
Nenhuma das fontes consultadas dá a data em que essa rotina começou. Por isso a conta de 9 anos e 9 meses mede o intervalo entre as duas mortes, não o tempo exato de espera. A Universidade de Tóquio e o nippon.com falam em cerca de dez anos.
O jornal que transformou o cão em símbolo
Durante anos, Hachi foi só um cão velho na estação. Isso mudou em 4 de outubro de 1932, quando a edição matutina do jornal Asahi publicou um texto de Hirokichi Saito, fundador da Associação para a Preservação do Cão Japonês, intitulado "Itoshi ya rōken monogatari", algo como "a comovente história de um cão velho".
O artigo dizia que o cão "continua esperando nesta estação pelo dono que não volta" (tradução nossa) e falava em sete anos de espera. Os funcionários da estação passaram a cuidar dele, e moradores lançaram uma campanha para erguer uma estátua.
Ela ficou pronta em 1934: 162 centímetros de bronze sobre um pedestal de 180, diante da catraca da estação, obra do escultor Teru Ando. Hachi estava presente na inauguração, em 21 de abril de 1934.
No mesmo ano, o cão entrou no livro de moral das escolas primárias. A lição "Não esqueça a gratidão", do segundo volume do Jinjō shōgaku shūshinsho, publicado em 22 de novembro de 1934, dizia que o dono ia trabalhar de trem e que o cão o levava até a estação toda manhã e voltava para buscá-lo à tarde.
A cena que provavelmente não existiu
É essa cena que Takashi Tamura, professor associado da Universidade de Tóquio, desmonta num texto republicado pela universidade em 2023.
O argumento é de geografia. Ueno morava perto do bairro de Shoto, entre a faculdade, em Komaba, e a estação de Shibuya. A faculdade ficava a uns dez minutos a pé, na direção oposta à estação. A linha de trem que hoje liga Shibuya a Komaba ainda não existia. Segundo uma história da estação publicada em 1958, o professor usava o trem para ir a um campo de experimentos em Nishigahara, não para o trabalho diário.
Hachi, escreve Tamura, provavelmente acompanhava Ueno até o portão da faculdade. O próprio Hirokichi Saito contou ter visto o cão perto do portão da Faculdade de Agricultura, do alto de um cavalo. E o artigo do Asahi de 1932 fala da espera depois da morte, não de idas e vindas diárias com o dono.
Para Tamura, a rotina da estação foi reconstruída de trás para frente a partir do que o cão fez depois de 1925, "provavelmente" a partir do livro escolar. As fontes divergem aqui: o nippon.com ainda conta que Hachi levava o professor até a catraca de Shibuya.
Hachiko: a versão escolar e os documentos
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- O cão levava o dono até o trem em Shibuya toda manhã.
- Ueno ia a pé para a faculdade, em Komaba. O cão provavelmente o acompanhava até o portão da faculdade.
- Esperou na estação por dez anos seguidos.
- Passou por casas em Nihonbashi, Asakusa e Setagaya antes de ser acolhido perto de Shibuya. O jornal de 1932 falava em sete anos de espera.
- Esperava por gratidão ao dono, como ensinava o livro escolar de 1934.
- Hirokichi Saito, que o tornou famoso, dizia não ver gratidão nenhuma, só afeto. Na universidade, conta-se que ele gostava de ganhar espetinho em Shibuya.
Há ainda uma explicação menos heroica, que circula dentro da própria universidade. O professor Masaru Mizoguchi conta que ouviu de um antigo professor, nos tempos de estudante, que Hachi talvez só gostasse de ganhar espetinho de frango em Shibuya. Na inauguração da estátua da universidade, em 2015, uma senhora de 86 anos que tinha tocado no cão contou que o pai lhe dizia: "hoje ele estava de novo na casa de espetinho" (tradução nossa).
Hirokichi Saito, o homem que tornou Hachi famoso, recusava a leitura moral. Para ele, se o cão tinha algum sentimento, não era gratidão: "o que havia era apenas um amor sem mistura pelo dono que o tinha tratado com carinho" (tradução nossa).
O que a autópsia encontrou
O laudo de 1935 registrou como causa da morte a filariose crônica, uma doença parasitária comum nos cães da época. Havia cerca de 30 vermes no coração. Hachi tinha 11 anos completos; o registro anota 13, pela contagem tradicional japonesa de idade. É de onde vêm os "13 anos" de algumas versões.
A sétima linha do laudo descreve o estômago: uma massa branca pastosa, três espetos de bambu pontudos e um rombudo, de cerca de 5 centímetros. Mizoguchi liga o achado à história dos espetinhos; o laudo não diz de onde vieram.
Pulmões, coração, esôfago, fígado e baço foram guardados em formol. Em dezembro de 2010, ressonância magnética e novas lâminas revelaram um tumor maligno nos pulmões, com metástase no coração. O patologista Kazuyuki Uchida concluiu que o câncer foi "muito importante" como causa da morte. O tipo exato não pôde ser fechado depois de 75 anos em formol.
O que restou dele
O corpo virou três coisas. Os órgãos estão expostos desde 2006 no Museu de Agricultura da Universidade de Tóquio, ao lado de um busto de Ueno. A pele foi empalhada e está no Museu Nacional de Natureza e Ciência, no parque de Ueno, em exposição permanente no segundo andar da ala norte do pavilhão japonês.

O funeral foi em 12 de março de 1935, no cemitério de Aoyama, junto ao túmulo de Ueno, onde ficou uma lápide do cão. Yae, que não era casada legalmente com o professor, tinha sido enterrada em outro túmulo. Em 2016, por empenho de sucessores de Ueno na universidade, ela passou a repousar em Aoyama, com os dois.
As duas estátuas de Shibuya
A estátua que Hachi viu inaugurar não existe mais. Em outubro de 1944, foi recolhida pela lei de requisição de metais do governo e derretida para virar peças de locomotiva.
Em 1948, três anos depois do fim da guerra, uma nova estátua foi instalada no mesmo lugar. O autor foi Takeshi Ando, filho de Teru Ando. É essa, a segunda, que os turistas fotografam hoje.

Há estátuas de Hachi também em Odate e em Hisai, na província de Mie, terra de Ueno. E desde 8 de março de 2015, aniversário de 80 anos da morte do cão, o campus de Yayoi da Universidade de Tóquio tem uma estátua dos dois juntos: Hachi pulando para receber o professor, obra do escultor Tsutomu Ueda, paga com doações.
De Odate a Shibuya
- 10 de novembro de 1923Hachi nasce em Odate, na província de Akita.
- 14 de janeiro de 1924Chega à casa do professor Hidesaburo Ueno, em Tóquio.
- 21 de maio de 1925Ueno morre de hemorragia cerebral, aos 53 anos.
- 4 de outubro de 1932O jornal Asahi publica o artigo de Hirokichi Saito sobre o cão.
- 21 de abril de 1934Inauguração da primeira estátua em Shibuya, com Hachi presente.
- 8 de março de 1935Hachi é encontrado morto perto da estação e autopsiado no mesmo dia.
- Outubro de 1944A primeira estátua é derretida pela requisição de metais.
- 1948Takeshi Ando refaz a estátua de Shibuya.
- 8 de março de 2015Inaugurada a estátua de Hachi e Ueno na Universidade de Tóquio.
O que sobra, quando se tira a camada de livro escolar, é um cão que perdeu o dono, passou por quatro casas e continuou voltando ao mesmo lugar, onde talvez também ganhasse comida. A história é menos edificante e mais parecida com um cão.
Quem gosta de ver o que acontece quando um animal famoso passa por um teste de verdade pode ler sobre o cavalo que fazia contas. E, para outra história em que um artigo de jornal fixou uma versão que os documentos não confirmam, vale conhecer as 38 testemunhas do caso Kitty Genovese, que nunca existiram.
E, para outra estátua de cão com uma história mais complicada que a versão famosa, há a de Balto e Togo na corrida do soro de 1925.
Fontes
- ハチ公と東大(2) - 紡ぎ出された人と犬と大学の物語 (2023), Universidade de Tóquio, Assessoria de Imprensa (textos de Kazuyuki Uchida, Masaru Mizoguchi e Takashi Tamura)
- ハチ公と東大(1) - 紡ぎ出された人と犬と大学の物語 (2023), Universidade de Tóquio, Assessoria de Imprensa
- ハチ公生誕100周年「ハチ公学」講演要旨集 (2023), Escola de Pós-Graduação em Ciências Agrícolas e da Vida, Universidade de Tóquio
- 忠犬ハチ公 (2023), nippon.com (Nippon Communications Foundation)
- 令和7年度 第1期所蔵品展 (安藤照), Museu Municipal de Arte de Kagoshima
- milsil バックナンバー (nº 96, 2023), Museu Nacional de Natureza e Ciência, Tóquio
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Perguntas frequentes
- A história de Hachiko é real?
- Sim. Hachi, um cão akita nascido em 10 de novembro de 1923 em Odate, chegou à casa do professor Hidesaburo Ueno, da Faculdade de Agricultura da Universidade Imperial de Tóquio, em 14 de janeiro de 1924. Ueno morreu de repente em 21 de maio de 1925. Depois disso, o cão passou a ir de manhã e à tarde à estação de Shibuya, hábito noticiado pelo jornal Asahi em 4 de outubro de 1932. O que é contestado é outra parte: a de que ele acompanhava o dono até o trem todos os dias enquanto Ueno estava vivo.
- Quanto tempo Hachiko esperou na estação?
- Entre a morte de Ueno, em 21 de maio de 1925, e a de Hachiko, em 8 de março de 1935, passaram-se 9 anos e 9 meses. Mas o cão não começou a ir à estação no dia seguinte: antes, viveu em casas em Nihonbashi, Asakusa e Setagaya, até ser acolhido pelo jardineiro Kikusaburo Kobayashi, perto da antiga casa do professor. As fontes falam em cerca de dez anos; o artigo do Asahi de 1932 falava em sete.
- Do que Hachiko morreu?
- A autópsia feita na tarde de 8 de março de 1935 na Universidade Imperial de Tóquio registrou filariose crônica, com cerca de 30 vermes no coração. Em 2010, novos exames nos órgãos preservados em formol encontraram também um tumor maligno nos pulmões, com metástase no coração, que os patologistas consideram muito importante para a morte. O estômago tinha quatro espetos de bambu de cerca de 5 centímetros.
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