Nenhuma bruxa de Salem foi queimada. Dezenove pessoas foram enforcadas, e um homem morreu esmagado sob pedras
As ordens de execução de 1692 mandavam enforcar "pelo pescoço até morrer". O fogo só aparece numa metáfora de um pastor diante dos enforcados. E os autos dos 30 julgamentos que terminaram em condenação desapareceram.

Em 30 segundos
- Nos julgamentos de Salem, 19 pessoas foram enforcadas, um homem morreu esmagado com pedras e pelo menos cinco morreram na prisão. Ninguém foi queimado.
- A lei inglesa, seguida na colônia, tratava a bruxaria como crime grave punido com a morte. Na Nova Inglaterra, a sentença era a forca.
- Os autos dos 30 julgamentos que terminaram em condenação desapareceram; cerca de 90% dos demais documentos sobreviveram.
- O local exato das forcas só foi confirmado em 2016, e o memorial com os nomes dos executados foi inaugurado em 2017.
Em 10 de junho de 1692, o xerife George Corwin tirou Bridget Bishop da cadeia de Salem, em Massachusetts, e a levou ao local de execução. No retorno anexado à ordem, ele registrou o que fez: mandou que ela fosse "enforcada pelo pescoço até morrer" (tradução nossa).
Foi a primeira das 19 execuções dos julgamentos de bruxaria de Salem. Nenhuma delas foi na fogueira.
A resposta curta: ninguém foi queimado
O Salem Witch Trials Documentary Archive, da Universidade da Virgínia, põe na internet os autos do tribunal, cerca de 950 documentos. O balanço feito por Benjamin Ray, professor de estudos religiosos que criou o acervo, é este: 19 pessoas enforcadas, um homem esmagado com pedras e mais cinco mortas na prisão por causa das condições.
A introdução da transcrição dos autos resume a regra: a bruxaria era crime capital e, na Nova Inglaterra puritana, a sentença era a morte na forca.
A imagem da bruxa amarrada à estaca, com a lenha acesa aos pés, vem de outros lugares. Salem seguia o direito inglês, e o direito inglês enforcava.
Por que forca, e não fogueira
Na Inglaterra, a bruxaria era tratada como felony, a categoria dos crimes graves. A lei em vigor era a de 1604, do rei Jaime I, cujo texto o Arquivo Nacional britânico guarda. Quem usasse bruxaria para matar ou ferir alguém "sofrerá a pena de morte como criminoso" (tradução nossa). A lei não fala em fogo.
Diane Purkiss, professora da Universidade de Oxford, é direta num texto para o English Heritage: nos países de língua inglesa, bruxas não iam para a fogueira. A bruxaria era felony na Inglaterra e em suas colônias americanas, "e por isso as bruxas eram enforcadas, não queimadas" (tradução nossa).
Massachusetts deixou isso por escrito. Em 14 de dezembro de 1692, já depois das execuções, a Corte Geral da província aprovou uma lei contra a bruxaria que copia quase palavra por palavra a inglesa de 1604, inclusive a pena: morte "como criminoso".
A fogueira existia, mas em outras jurisdições. Na Escócia, segundo Purkiss, os corpos das condenadas eram queimados depois de elas serem estranguladas. Entre os papéis sobre a Escócia guardados no Arquivo Nacional britânico está a confissão de Agnes Samsone, de 1590, com a anotação de que ela foi condenada e queimada em Edimburgo. No mesmo conjunto, um relatório de 14 de junho de 1591 diz que Effam Mackallean, condenada por bruxaria e por traição contra o rei, seria "queimada viva" (tradução nossa).
Purkiss estima entre 30 mil e 60 mil execuções em toda a era da caça às bruxas na Europa, de 1427 a 1782. Comparada às grandes caças às bruxas europeias do século 17, Salem foi, nas palavras de Ray, uma tragédia em pequena escala. Mas foi a pior caça às bruxas da história americana.
Quatro dias de forca
As 19 execuções aconteceram em quatro datas, segundo os títulos dos processos na transcrição dos autos. Bridget Bishop foi sozinha, em junho. Depois vieram grupos de cinco, cinco e oito.
As mortes de 1692
- Fim de fevereiro de 1692Começam as acusações em Salem Village, hoje Danvers.
- 10 de junhoBridget Bishop é enforcada.
- 19 de julhoSarah Good, Rebecca Nurse, Elizabeth How, Susannah Martin e Sarah Wilds são enforcadas.
- 19 de agostoGeorge Burroughs, John Proctor, John Willard, George Jacobs e Martha Carrier são enforcados.
- SetembroGiles Corey morre esmagado com pedras. A data varia conforme o documento: 16 ou 19 de setembro.
- 22 de setembroOito enforcados: Martha Corey, Mary Esty, Alice Parker, Mary Parker, Ann Pudeator, Wilmott Reed, Margaret Scott e Samuel Wardwell.
- Outubro de 1692O governador William Phips suspende o tribunal especial de Salem.
O juiz Samuel Sewall anotou no diário o dia 19 de agosto: os cinco foram executados diante de "um número muito grande de espectadores". Entre os presentes, ele cita Cotton Mather. Segundo Sewall, todos se disseram inocentes, e Mather afirmou que eles morreram "por uma sentença justa" (tradução nossa).

O dia 22 de setembro tem o relato mais detalhado, de Robert Calef, testemunha da época citada por Ray. A carroça de bois com os oito condenados encalhou na subida, e os "aflitos", como eram chamados os supostos enfeitiçados, disseram que era obra do Diabo. Samuel Wardwell tentou declarar inocência e engasgou com a fumaça do cachimbo do carrasco.
Depois, o pastor Nicholas Noyes comentou: "que coisa triste ver oito tições do inferno pendurados ali" (tradução nossa). Nos relatos das execuções, é assim que o fogo aparece em Salem: como metáfora, dita diante de corpos na forca.
O homem das pedras
O caso que foge da forca é o de Giles Corey. Acusado em abril de 1692, ele se declarou inocente, mas se recusou a aceitar o julgamento. Ficou mudo diante do tribunal.
Por ficar mudo, foi sentenciado à peine forte et dure e morreu esmagado com pedras. O perfil dele no acervo da Universidade da Virgínia observa que a punição era ilegal.
Sewall registrou a cena com secura: "por volta do meio-dia, em Salem, Giles Corey foi prensado até a morte por ficar mudo" (tradução nossa). Segundo o diário, a corte e um conhecido dele passaram dois dias tentando convencê-lo, "mas tudo em vão".
As fontes não concordam sobre a data. O diário de Sewall diz segunda-feira, 19 de setembro. O título do processo na transcrição dos autos diz 16 de setembro. O perfil de Corey no mesmo acervo diz "em 18 de setembro ou antes".

O que os registros não guardaram
O arquivo de Salem é rico, mas tem um buraco no lugar mais importante. Segundo Ray, os autos dos julgamentos das 30 pessoas condenadas em 1692 sumiram. Há quem acredite que foi para proteger a reputação dos juízes. Cerca de 90% dos demais documentos sobreviveram: queixas, mandados de prisão, depoimentos, acusações formais e ordens de execução.
O que restou já é revelador. No caso de Rebecca Nurse, de 71 anos, o júri a declarou inocente. Os jurados receberam ordem de continuar deliberando, porque as respostas dela aos juízes nem sempre eram claras, e o veredito virou culpada. Uma petição com 39 assinaturas de vizinhos em defesa dela não teve efeito.
Parte do que se conta sobre Salem também não está nos documentos. A frase atribuída a Sarah Good no dia da execução, avisando ao pastor Noyes que Deus lhe daria "sangue para beber", é descrita por Ray como uma troca "lendária" e sem registro.
Até o lugar das forcas se perdeu. As ordens assinadas pelo juiz William Stoughton falavam apenas em "o local da execução". Um historiador local, Sidney Perley, apontou o lugar em 1911, mas só em janeiro de 2016 um grupo de pesquisadores confirmou o ponto: Proctor's Ledge, uma encosta de Gallows Hill. Segundo Calef, parte dos corpos foi jogada perto dali, "num buraco, ou cova, entre as rochas, com cerca de dois pés de profundidade" (tradução nossa).
A família de Rebecca Nurse levou o corpo dela de volta para casa na noite seguinte. O memorial com os nomes dos executados foi inaugurado pela prefeitura de Salem em 19 de julho de 2017, 325 anos depois das forcas de julho.
Até os números divergem
Mesmo dentro do acervo da Virgínia, as contas variam. O resumo do arquivo fala em "mais de 160" acusados e diz que os episódios duraram até abril de 1693. O texto de Ray, de 2022, fala em pelo menos 155 presos e em fim de maio de 1693.
O governador Phips, que encerrou o tribunal, escreveu em outubro de 1692 que a corte havia condenado "mais de vinte pessoas". Ao suspender os processos, justificou que o Diabo tinha tomado "o nome e a forma de várias pessoas que eram sem dúvida inocentes" (tradução nossa). Depois de Salem, ninguém mais foi condenado por bruxaria na Nova Inglaterra, segundo o acervo.
Salem foi uma comunidade que se voltou contra os próprios vizinhos. Quem quiser ver o caso oposto, de um vilarejo que se uniu sob pressão, pode ler sobre Eyam, que se trancou para não espalhar a peste em 1666. E, para outro episódio em que as autoridades reagiram a um comportamento coletivo estranho de um jeito que hoje parece absurdo, vale conhecer a epidemia de dança de Estrasburgo, em 1518.
Fontes
- The Salem Witch Trials Digital Archive: How and Why, Benjamin Ray, Salem Witch Trials Documentary Archive, Universidade da Virgínia
- SWP No. 013: Bridget Bishop — ordem de execução e retorno do xerife (8 e 10 de junho de 1692), The Salem Witchcraft Papers, Salem Witch Trials Documentary Archive, Universidade da Virgínia
- The Diary of Samuel Sewall, 1674-1729 (trechos), Salem Witch Trials Documentary Archive, Universidade da Virgínia
- The Gallows Hill Project: Confirming the Location of the 1692 Salem Execution Site, Benjamin Ray, Salem Witch Trials Documentary Archive, Universidade da Virgínia
- Early modern witch trials: accusation and trial (inclui a Lei contra a Bruxaria de 1604), The National Archives (Reino Unido)
- Witchcraft: Eight Myths and Misconceptions, Diane Purkiss, English Heritage
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Perguntas frequentes
- As bruxas de Salem foram queimadas na fogueira?
- Não. Nos julgamentos de bruxaria de Salem, em 1692, 19 pessoas foram enforcadas e um homem, Giles Corey, morreu esmagado com pedras por se recusar a ser julgado. A ordem de execução de Bridget Bishop, a primeira executada, manda que ela seja enforcada pelo pescoço até morrer. Na Inglaterra e em suas colônias americanas, a bruxaria era crime grave punido com a forca.
- Quantas pessoas morreram nos julgamentos de Salem?
- Pelo menos 25, segundo o Salem Witch Trials Documentary Archive, da Universidade da Virgínia: 19 enforcadas, uma esmagada com pedras e pelo menos cinco mortas na prisão por causa das más condições. As execuções aconteceram em quatro dias de 1692: 10 de junho, 19 de julho, 19 de agosto e 22 de setembro.
- Por que na Europa queimavam bruxas e em Salem enforcavam?
- Porque Salem seguia o direito inglês, em que a bruxaria era uma felony, a categoria dos crimes graves, punida com a morte. Na Nova Inglaterra, a sentença era a forca. A fogueira aparecia em outras jurisdições. Na Escócia, segundo Diane Purkiss, professora da Universidade de Oxford, os corpos eram queimados depois do estrangulamento; papéis guardados no Arquivo Nacional britânico registram uma acusada queimada em Edimburgo em 1590 e uma sentença, de 1591, para queimar outra viva.
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