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O primeiro astronauta chinês disse que não viu a Muralha do espaço. A primeira foto confirmada dela foi feita com teleobjetiva, e o fotógrafo também não a viu

A ideia de que a Grande Muralha é visível do espaço já aparece numa carta de 1754. Astronautas se dividem, a física do olho humano não, e o autor da primeira foto confirmada disse que não viu a muralha.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Vista do alto de montanhas e vales cobertos de neve, com encostas sombreadas em azul e marrom e um padrão quadriculado de lavouras no canto superior direito.
NASA/JSC · Domínio público (NASA)

Em 30 segundos

  • Em 16 de outubro de 2003, Yang Liwei, primeiro astronauta da China, disse na televisão estatal que não tinha visto a Grande Muralha do espaço.
  • A NASA escreveu em 2005 que a muralha geralmente não é visível a olho nu da órbita baixa e certamente não é visível da Lua.
  • A largura da muralha costuma ser menor que 6 metros: vê-la de 160 km equivale a enxergar um cabo de 2 cm a mais de meio quilômetro.
  • A primeira foto confirmada, de 24 de novembro de 2004, foi feita da Estação Espacial com teleobjetiva, e o próprio autor disse que não viu a muralha.

Na noite de 16 de outubro de 2003, horas depois de pousar na Mongólia Interior, o primeiro astronauta da China deu entrevista à televisão estatal. O apresentador Bai Yansong perguntou se ele tinha visto a Grande Muralha lá de cima. Yang Liwei respondeu: "A Terra parecia muito bonita do espaço, mas eu não vi a nossa Grande Muralha" (tradução nossa da versão em inglês publicada pelo China Daily).

Ele tinha passado 21 horas em órbita e dado 14 voltas no planeta.

A resposta de Yang está certa. A NASA resumiu o caso em 2005: a muralha, frequentemente apresentada como a única obra humana visível do espaço, geralmente não é visível a olho nu da órbita baixa. E certamente não é visível da Lua. A primeira foto confirmada dela, tirada da Estação Espacial Internacional em 2004, foi feita com teleobjetiva, num dia de sol, depois de uma nevada — e o próprio autor da foto disse que não viu a muralha.

Uma crença registrada em 1754

A ideia não nasceu com a corrida espacial. Em 23 de outubro de 1754, o antiquário inglês William Stukeley escreveu à princesa de Gales pedindo proteção para a Muralha de Adriano, que estava sendo desmontada para virar base de estrada. Na carta, ele diz que a obra romana só é superada pela muralha chinesa, "que faz uma figura considerável no globo terrestre e pode ser discernida da Lua" (tradução nossa).

Ninguém, naquela época, tinha como conferir.

As datas da origem variam conforme a fonte. A NASA escreveu que a teoria remonta "pelo menos a 1938". A Scientific American aponta um cartum do Ripley's Believe It or Not! de 1932, que chamava a muralha de "a obra mais poderosa do homem, a única que seria visível ao olho humano a partir da Lua". A carta de Stukeley, publicada em 1887 pela Surtees Society, é mais antiga que as duas.

Da carta de 1754 à foto de 2004

  1. 23 de outubro de 1754William Stukeley escreve que a muralha chinesa pode ser discernida da Lua.
  2. 1932Cartum do Ripley's diz que a muralha seria a única obra humana visível da Lua, segundo a Scientific American.
  3. 10 de abril de 1994Radar a bordo do ônibus espacial Endeavour registra um trecho da muralha no deserto.
  4. 16 de outubro de 2003Yang Liwei diz na televisão chinesa que não viu a muralha.
  5. 11 e 19 de maio de 2004A Agência Espacial Europeia publica uma imagem da muralha feita por satélite e, oito dias depois, admite que era um rio.
  6. 24 de novembro de 2004Leroy Chiao faz, da Estação Espacial, a primeira foto confirmada da muralha.

O que os astronautas contaram

Os relatos não são unânimes. Vale separar a Lua da órbita baixa.

Da Lua, não há divergência. Alan Bean, da Apollo 12, disse que de lá só se vê "uma esfera bonita, em sua maior parte branca, um pouco de azul e manchas de amarelo, e de vez em quando alguma vegetação verde". E completou: "Nenhum objeto feito pelo homem é visível nessa escala" (tradução nossa).

Da órbita, a coisa muda. Jay Apt, Michael Helfert e Justin Wilkinson, autores de Orbit, livro de fotos da Terra feitas por astronautas da NASA, escreveram que passaram "várias passagens procurando a Grande Muralha da China, sem sorte", embora conseguissem ver coisas pequenas como pistas de aeroporto (tradução nossa).

Jeffrey Hoffman, que voou em cinco missões do ônibus espacial entre 1985 e 1996, disse à Scientific American: "Passei muito tempo olhando a Terra do espaço, inclusive em vários sobrevoos da China, e nunca vi a muralha" (tradução nossa).

Do outro lado estão Eugene Cernan e Ed Lu. Cernan declarou, durante uma visita a Singapura, que de uma órbita entre 160 e 320 km a muralha é visível a olho nu. A frase foi reproduzida pela Agência Espacial Europeia em maio de 2004.

Ed Lu, a bordo da Estação Espacial em 2003, disse ao site Space.com: "Dá para ver a Grande Muralha" (tradução nossa). A mesma reportagem acrescenta que ela é menos visível que muitos outros objetos e que é preciso saber onde olhar.

Segundo a Scientific American, nesses casos ela aparece em condições de luz específicas: com o sol baixo no horizonte, a muralha projeta sombras longas que tornam a silhueta perceptível.

O problema não é o comprimento, é a largura

Para o olho, o comprimento pouco importa. O que conta é a largura.

O pesquisador de ciências da visão Norberto López-Gil, da Universidade de Múrcia, fez a conta numa carta publicada no Journal of Optometry em 2008. A muralha tem cerca de 7.300 km de extensão na conta dele, mas uma largura que costuma ser menor que 6 metros.

Olhá-la de 160 km de distância, escreveu ele, seria como olhar um cabo de 2 cm de diâmetro a mais de meio quilômetro de distância. Para isso, o olho precisaria de uma acuidade cerca de 7,7 vezes maior que a normal — mais de três vezes a acuidade máxima de um falcão ou de uma águia.

Há uma ressalva no próprio texto. O olho humano consegue detectar uma linha escura muito fina contra um fundo claro, porque ela provoca uma queda local de luminosidade. Ou seja: o que decide é o contraste. Ronald Beck, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, disse à Scientific American que a muralha aparece nas imagens de satélite quando a neve cobre os campos ao lado e não cobre a muralha. "A chave é o contraste" (tradução nossa).

O segundo obstáculo é a cor. Kamlesh Lulla, então cientista-chefe de observação da Terra da NASA no Centro Espacial Johnson, explicou que é "muito, muito difícil" distinguir a muralha nas fotos de astronautas porque os materiais usados nela têm cor e textura parecidas com as da terra em volta (tradução nossa).

A foto que o fotógrafo não viu

Em 24 de novembro de 2004, o comandante da Estação Espacial Internacional, Leroy Chiao, fotografou com câmera digital uma área da Mongólia Interior a cerca de 200 milhas (uns 320 km) ao norte de Pequim. Especialistas da NASA identificaram na imagem pequenos trechos da muralha. Foi a primeira foto confirmada dela tirada da órbita.

Os chineses receberam a notícia com alívio, e uma das imagens saiu com destaque nos jornais do país. Mas Chiao disse que não viu a muralha e que não tinha certeza de que ela estava na foto.

Lulla considerou boa a interpretação da imagem e disse que um conjunto favorável de condições deve ter ocorrido: era um dia de sol, e uma nevada recente ajudou a destacar a muralha.

Há uma divergência dentro da própria NASA sobre o equipamento. A reportagem de 2005 diz que a foto de novembro foi feita com lente de 180 mm e que outra foto de Chiao, de 20 de fevereiro de 2005, feita com lente de 400 mm, também pode mostrar a muralha. Já a legenda da foto de novembro no acervo de imagens da NASA fala em lente de 400 mm. Num texto de 2009 sobre uma das fotos de Chiao, a agência resume: a muralha é "difícil ou impossível de ver da órbita terrestre sem as lentes de alta potência" usadas na imagem (tradução nossa).

Até um satélite se confundiu

Em 11 de maio de 2004, a Agência Espacial Europeia publicou uma imagem do satélite Proba, feita a 600 km de distância, apresentada como um trecho da muralha a nordeste de Pequim. O texto citava a declaração de Cernan.

Oito dias depois, a agência publicou uma correção. O que tinha sido apontado como a muralha era um rio que deságua no reservatório de Miyun. A ESA atribuiu o erro a uma imagem que não foi devidamente investigada antes da publicação e pediu desculpas.

Imagem de radar em tons de laranja, roxo e verde com uma linha fina e reta cruzando o quadro de cima a baixo; à direita, quatro recortes em preto e branco mostram a mesma linha ampliada.
Imagem de radar do ônibus espacial Endeavour, de 10 de abril de 1994, num deserto a cerca de 700 km a oeste de Pequim. A muralha é a faixa laranja fina que atravessa a imagem colorida; nos recortes, aparecem a muralha da dinastia Ming e, ao lado, restos de uma muralha mais antiga, da dinastia Sui. Imagem: NASA/JPL · Domínio público (NASA)

O que o radar enxerga e o olho não

Em 1994, o radar SIR-C, a bordo do Endeavour, registrou um trecho de 75 km da muralha num deserto do centro-norte da China. Segundo o Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, ela é facilmente detectada por radar porque seus lados íngremes e lisos refletem bem o feixe.

O radar revelou ainda, ao lado da muralha Ming, de cerca de 600 anos, os restos de uma muralha da dinastia Sui, de cerca de 1.500 anos, em alguns pontos enterrada pela areia.

E muita coisa feita pelo homem aparece da órbita. Segundo Lulla, talvez o mais visível sejam as cidades à noite. De dia, também se veem cidades, grandes estradas, pontes, aeroportos, represas e reservatórios.

Na China, o caso chegou aos livros escolares

Para os chineses, a visibilidade da muralha era motivo de orgulho. Segundo a Scientific American, quando Yang Liwei admitiu que não a tinha visto, fóruns na internet explodiram de decepção, e o Ministério da Educação se mobilizou para revisar os livros do ensino fundamental, que afirmavam havia muito tempo que a muralha era visível.

A NASA registrou o mesmo: depois da declaração de Yang, falou-se em reescrever os livros didáticos, "uma tarefa formidável" no país mais populoso da Terra.

Hoje, uma página de perguntas e respostas sobre a muralha publicada pelo China Daily responde de forma direta: a Grande Muralha não é visível a olho nu do espaço.

A muralha é uma obra gigantesca vista do chão. De cima, ela é estreita, cor de terra e quase sempre se confunde com o relevo. Se você gosta de entender o que a atmosfera faz com a luz antes de ela chegar aos olhos de um astronauta, vale ler por que o céu é azul. E, para outro mito que sobreviveu apesar do que dizem os documentos, veja por que Napoleão não era baixo.

Fontes

  1. China's Wall Less Great in View from Space (9 de maio de 2005), NASA — arquivo histórico da reportagem publicada em nasa.gov
  2. Is it Really Possible to See the Great Wall of China from Space with a Naked Eye? (2008), Norberto López-Gil, Universidade de Múrcia — Journal of Optometry 1(1), 3–4
  3. Q: Is the Great Wall really visible to astronauts in space?, China Daily / chinaservicesinfo.com
  4. China's spaceman shatters a myth (17 de outubro de 2003), Al Jazeera, com agências
  5. Is China's Great Wall Visible from Space? (21 de fevereiro de 2008), Mara Hvistendahl, Scientific American
  6. The Family Memoirs of the Rev. William Stukeley, vol. III (Surtees Society, 1887), p. 142, Surtees Society — obra digitalizada no Internet Archive

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Dá para ver a Muralha da China do espaço a olho nu?
Em geral, não. A NASA escreveu em 2005 que a muralha, frequentemente apresentada como a única obra humana visível do espaço, geralmente não é visível a olho nu da órbita baixa. O motivo principal é a largura, que costuma ser menor que 6 metros, e o fato de os materiais terem cor e textura parecidas com as do terreno em volta. Alguns astronautas, como Eugene Cernan e Ed Lu, disseram tê-la visto, mas só em condições específicas de luz.
A Muralha da China é visível da Lua?
Não. A NASA afirma que ela certamente não é visível da Lua. O astronauta Alan Bean, da Apollo 12, disse que da Lua só se vê uma esfera bonita, em sua maior parte branca, com azul, manchas amarelas e um pouco de verde, e que nenhum objeto feito pelo homem é visível nessa escala.
Existe foto da Muralha da China tirada do espaço?
Sim. Em 24 de novembro de 2004, o comandante da Estação Espacial Internacional, Leroy Chiao, fotografou a Mongólia Interior com câmera digital e teleobjetiva, e especialistas da NASA identificaram pequenos trechos da muralha na imagem. Foi a primeira foto confirmada. Chiao disse que não viu a muralha e não tinha certeza de que ela estava na foto. Por radar, a muralha aparece com facilidade.
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