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A Coca-Cola já teve cocaína. Vinha da folha de coca, era pouca e saiu no começo do século 20. A folha ficou

Em 1920, a Suprema Corte dos EUA escreveu que a cocaína ajudou a formar a clientela do refrigerante antes de 1900. Quanto havia em cada copo ninguém mediu de forma independente, e o governo chegou a acusar a empresa de ter coca de menos.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Seis garrafas de vidro de Coca-Cola enfileiradas sobre fundo branco, com formatos e rótulos diferentes, das retas e lisas à garrafa de cintura curva.
Renato Trentin, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • Em 1920, a Suprema Corte dos EUA registrou que, antes de 1900, a cocaína ajudou a formar a clientela da Coca-Cola, numa quantidade que "parece ter sido muito pequena".
  • A cocaína não era adicionada como pó: vinha do extrato de folha de coca da bebida criada por John Pemberton, vendida pela primeira vez em Atlanta em 1886.
  • O número que circulava na imprensa da época era de 1/400 de grão de cocaína por copo, cerca de 0,16 miligrama, atribuído ao advogado da própria empresa.
  • A cocaína saiu no começo do século 20, mas a folha de coca, tratada para perder o alcaloide, continuou na fórmula.

Em 6 de dezembro de 1920, a Suprema Corte dos Estados Unidos julgou uma briga de marca entre a Coca-Cola e uma concorrente chamada Koke. No voto, o juiz Holmes escreveu que, antes de 1900, a clientela da bebida tinha sido "mais ou menos ajudada pela presença de cocaína" (tradução nossa).

Então, sim: a Coca-Cola teve cocaína. Mas não do jeito que a lenda costuma contar. Ninguém despejava pó branco no xarope. A cocaína vinha do extrato de folha de coca da receita, e a quantidade, nas palavras do próprio Holmes, "parece ter sido muito pequena".

Ela saiu da fórmula no começo do século 20. A folha, tratada para perder o alcaloide, ficou. É por isso que a empresa pode dizer hoje que a cocaína "nunca foi um ingrediente adicionado" sem contradizer a Suprema Corte.

Um vinho de coca sem o vinho

John Stith Pemberton era farmacêutico em Atlanta. Entre os produtos que vendia estava o Pemberton's French Wine Coca, uma mistura de vinho com extrato de coca receitada para distúrbios nervosos e dor de cabeça, segundo o programa Lemelson-MIT, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Era parecido com o Vin Mariani, bebida de coca lançada em Paris em 1863.

Quando Atlanta proibiu a venda de álcool, em 1885, Pemberton tirou o vinho e trocou por açúcar. A nova bebida foi vendida como "tônico para o cérebro" e como opção para quem não bebia álcool.

Pelo relato da própria empresa, em 8 de maio de 1886 ele levou o xarope à Jacobs' Pharmacy, no centro de Atlanta, onde foi servido com água gaseificada a cinco centavos o copo. No primeiro ano, a média foi de nove copos por dia.

Extrato de coca não era novidade nem escândalo. Um tribunal federal de apelação registrou mais tarde que, antes de 1887, extratos de folha de coca e de noz de cola já tinham lugar na farmacopeia e eram usados por farmacêuticos em remédios. A cocaína só entraria numa lei federal em 1914, com o Harrison Narcotic Act.

Gravura em preto e branco de um campo de arbustos baixos onde várias mulheres, agachadas ou de pé, colhem folhas; ao fundo, cestos, casas de madeira e morros.
Ilustração. Mulheres colhendo folhas de coca na Bolívia, em gravura de entre 1867 e 1875. Por volta de 1900, os Estados Unidos importavam de 600 a 1.000 toneladas de folha de coca por ano, principalmente do Peru, segundo o historiador Paul Gootenberg. Imagem: Henry Walter Bates, via Wellcome Collection · Domínio público

Quanto havia em cada copo

Aqui a resposta honesta é incômoda: nenhum documento que encontramos traz uma medição independente da cocaína na Coca-Cola do século 19.

O número que circulava na imprensa vinha da própria empresa. Em 1907, o jornal Monitor-Register, de Nova Jersey, reproduziu um texto segundo o qual o advogado da Coca-Cola, durante o processo em que a empresa cobrava de volta um imposto do tempo da Guerra Hispano-Americana, disse que cada copo tinha "um quatrocentos avos de grão de cocaína" (tradução nossa). A empresa venceu ao menos uma ação desse tipo: um júri de Atlanta lhe deu razão em 5 de fevereiro de 1902.

O grão é uma unidade antiga de massa equivalente a 64,8 miligramas, segundo o NIST, o instituto de metrologia dos EUA. Um quatrocentos avos de grão dá cerca de 0,16 miligrama por copo.

O próprio texto de 1907 desconfiava do número: "se há tão pouco quanto o advogado afirmou pode ser motivo de dúvida para alguns" (tradução nossa). Um resumo de palestras contra o álcool publicado em 1906 no Union Times, da Carolina do Sul, repetia o mesmo valor de um quatrocentos avos de grão por copo.

Holmes, em 1920, não arriscou número. Escreveu que a quantidade "parece ter sido muito pequena, mas pode ter sido suficiente para começar um mau hábito".

1903, o ano do pânico

Em 21 de junho de 1903, o New-York Tribune publicou declarações de um coronel da Geórgia, J. W. Watson, em visita a Washington. Ele contava que a Assembleia do estado tinha travado "uma luta vigorosa" contra "uma bebida de balcão fabricada em Atlanta e conhecida como coca cola". Os defensores de uma licença cara para a venda diziam que ela produzia efeitos "semelhantes aos da cocaína, da morfina" e que os homens ficavam viciados (tradução nossa).

A mesma reportagem culpava a cocaína por "muitos dos crimes horríveis cometidos nos estados do Sul pelas pessoas de cor". O medo era também racial. O historiador Paul Gootenberg, num estudo publicado pelo Woodrow Wilson Center, registra que por volta de 1905 o uso de cocaína estava "notoriamente racializado" no Sul segregado, e que a maioria dos estados americanos já tinha leis específicas contra a droga.

Foi nesse ambiente que a fórmula mudou. Segundo Gootenberg, a coca do norte do Peru acabou se tornando a fornecedora preferencial da Coca-Cola, por meio da Maywood Chemical, de Nova Jersey, mas já como coca descocainizada, depois de 1903.

A Suprema Corte é menos precisa: em 1920, situou a eliminação depois da lei de alimentos e medicamentos de 30 de junho de 1906, "se não antes". As duas datas não se contradizem, mas nenhuma das duas fontes traz o dia exato da troca.

Os laudos a favor da bebida

Nos anos seguintes, os laudos passaram a circular nos jornais. Uma página do Adair County News, de Kentucky, de 27 de setembro de 1905, reúne vários deles num texto que termina falando em nome dos fabricantes da Coca-Cola.

Químicos do comissário de alimentos da Pensilvânia analisaram uma amostra em 8 de maio de 1903: "nenhuma cocaína detectada". Em março de 1904, Louis Schaefer (grafado Shaefer no jornal), presidente da Schaefer Alkaloid Works, de Maywood, apresentada como grande fabricante de cocaína, cafeína e estricnina, declarou diante de um notário que o xarope "não contém traço de cocaína" (tradução nossa).

Harvey Wiley, chefe do Bureau of Chemistry do Departamento de Agricultura, respondeu numa carta de 26 de junho de 1905 que nunca tinha examinado a bebida, mas que as comissões estaduais de alimentos não tinham conseguido demonstrar a presença de cocaína.

Em 1907, o engarrafador de San Antonio, no Texas, anunciou no jornal local uma recompensa: US$ 1.000 para uma instituição de caridade se alguém achasse uma garrafa de Coca-Cola com cocaína.

O governo acusou a empresa de ter coca de menos

A briga federal veio depois, e por outro motivo. A lei de alimentos de 1906 era aplicada pelo Bureau of Chemistry, chefiado por Wiley, que a FDA lista hoje como o primeiro de seus dirigentes. Segundo a própria FDA, a cafeína foi uma das questões que só se resolveram nos tribunais. O governo pediu a apreensão de uma carga de xarope, os "quarenta barris e vinte barriletes" que dão nome ao caso, enviada de Atlanta a Chattanooga, no Tennessee.

As acusações foram duas. A primeira: cafeína adicionada, que faria mal à saúde. A segunda é a mais curiosa: o nome Coca-Cola prometia coca e cola, mas o produto "não continha coca e pouca ou nenhuma cola".

A empresa respondeu que um de seus ingredientes, chamado Merchandise No. 5, reunia extratos de folha de coca e de noz de cola, "com a cocaína eliminada". O governo apresentou provas de que não havia nada vindo da folha de coca.

Em 22 de maio de 1916, a Suprema Corte, em voto do juiz Hughes, decidiu que essa dúvida cabia ao júri e mandou o caso de volta. Treze anos depois do pânico de 1903, o problema diante da Justiça era a coca que talvez faltasse.

Da farmácia de Atlanta à Suprema Corte

  1. 1863O Vin Mariani, bebida de coca, é lançado em Paris.
  2. 1885Atlanta proíbe o álcool. Pemberton troca o vinho do seu tônico de coca por açúcar.
  3. 8 de maio de 1886Primeiro copo de Coca-Cola na Jacobs' Pharmacy, a cinco centavos.
  4. 5 de fevereiro de 1902Júri dá ganho à empresa no processo do imposto de guerra.
  5. 21 de junho de 1903New-York Tribune relata a ofensiva contra a bebida na Assembleia da Geórgia.
  6. Depois de 1903A Coca-Cola passa a usar coca descocainizada, segundo Paul Gootenberg.
  7. 30 de junho de 1906Lei federal de alimentos e medicamentos. Para a Suprema Corte, a cocaína já havia saído depois dela, "se não antes".
  8. 1914A cocaína entra no Harrison Narcotic Act.
  9. 22 de maio de 1916Suprema Corte manda a júri a acusação de que a bebida não tinha coca.
  10. 6 de dezembro de 1920Holmes escreve que a cocaína ajudou a formar a clientela antes de 1900.

A folha que ficou

No voto de 1920, Holmes descreveu o que restava da coca na bebida: as folhas ainda eram usadas, mas depois de um "processo drástico" que retirava delas toda substância característica, "exceto um pouco de tanino e ainda menos clorofila". A empresa, acrescentou, já avisava ao público que ele "não encontraria cocaína".

O mesmo voto traz um detalhe revelador. A primeira instância tinha proibido a concorrente de usar a palavra "dope". Holmes derrubou a proibição: em alguns lugares, escreveu, a palavra servia para pedir uma Coca-Cola, mas serviria do mesmo jeito para pedir "qualquer outra coisa que tivesse uma leve auréola de veneno" (tradução nossa).

Hoje, a Coca-Cola diz que o refrigerante não contém cocaína e que ela nunca foi ingrediente adicionado. As páginas de perguntas da empresa não falam da folha. Em 2015, a agência antidrogas americana, a DEA, renovou o registro da Stepan Company, de Maywood, como importadora de folhas de coca. Um texto publicado no mesmo ano na antiga rede de blogs da Scientific American afirma que a Coca-Cola usa folhas descocainizadas pela Stepan.

A Coca-Cola e a cocaína

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Botavam cocaína pura no xarope.
A cocaína vinha do extrato de folha de coca. A empresa diz que ela nunca foi ingrediente adicionado.
Era uma dose forte.
A Suprema Corte disse que a quantidade parecia muito pequena. O número da época, atribuído ao advogado da empresa, era de cerca de 0,16 miligrama por copo.
A cocaína saiu quando virou crime.
Saiu no começo do século 20. A lei federal que incluiu a cocaína é de 1914.
A folha de coca saiu junto.
A folha continuou na fórmula, tratada para perder o alcaloide.

A história da Coca-Cola é menos sobre um refrigerante drogado e mais sobre uma marca que precisou provar, laudo a laudo, que tinha deixado de ser o que o nome dizia. Se histórias em que a propaganda moldou o que todo mundo acredita te interessam, vale ver como a frase sobre o café da manhã saiu da revista de um sanatório. E, para um caso em que o ingrediente perigoso era real e ninguém avisou, a história das operárias que lambiam pincéis com rádio.

Fontes

  1. Coca-Cola Co. v. Koke Co. of America, 254 U.S. 143 (1920), Suprema Corte dos EUA, via Legal Information Institute, Cornell Law School
  2. United States v. Forty Barrels and Twenty Kegs of Coca Cola, 241 U.S. 265 (1916), Suprema Corte dos EUA, via Legal Information Institute, Cornell Law School
  3. Between Coca and Cocaine: A Century or More of U.S.-Peruvian Drug Paradoxes, 1860-1980 (Working Paper 251), Paul Gootenberg, Woodrow Wilson International Center for Scholars, 2001
  4. New-York Tribune, 21 de junho de 1903, "Cocaine Sniffers", Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  5. The Adair County News, 27 de setembro de 1905 (laudos sobre a Coca-Cola), Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  6. Does Coca-Cola contain cocaine?, The Coca-Cola Company

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Perguntas frequentes

A Coca-Cola tinha cocaína?
Sim, nos primeiros anos. A cocaína vinha do extrato de folha de coca usado na receita, e não de pó adicionado. Em 1920, a Suprema Corte dos EUA escreveu que, antes de 1900, a presença de cocaína ajudou a formar a clientela da bebida, numa quantidade que "parece ter sido muito pequena". A empresa afirma hoje que a cocaína nunca foi um ingrediente adicionado.
Quanta cocaína havia num copo de Coca-Cola?
Não há medição independente publicada da época. O número que circulava na imprensa em 1906 e 1907 era de 1/400 de grão por copo, cerca de 0,16 miligrama, atribuído ao advogado da empresa num processo sobre imposto de guerra. Jornais críticos reproduziram o número dizendo que ele podia ser posto em dúvida.
Quando tiraram a cocaína da Coca-Cola?
No começo do século 20. O historiador Paul Gootenberg registra que a bebida passou a usar coca descocainizada depois de 1903, com folhas peruanas que chegavam por meio da Maywood Chemical, de Nova Jersey. A Suprema Corte, em 1920, situou a eliminação depois da lei de alimentos e medicamentos de 30 de junho de 1906, "se não antes". A folha de coca, tratada, continuou na fórmula.
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