Napoleão media cinco pés e duas polegadas. O detalhe que desfaz o mito é que eram polegadas francesas
O médico que fez a autópsia em Santa Helena anotou a altura do imperador em medidas do Antigo Regime. Convertida, ela dá cerca de 1,68 m, acima da média dos franceses da época. A fama de baixinho tem outras origens.

Em 30 segundos
- Na autópsia de 1821, o médico Francesco Antommarchi mediu Napoleão em cinco pés, duas polegadas e quatro linhas, em unidades francesas do Antigo Regime.
- O pé francês media cerca de 32,5 cm e a polegada francesa cerca de 2,7 cm. Convertida, a medida dá cerca de 1,686 m, segundo o historiador Marcel Dunan.
- A edição inglesa das memórias de Antommarchi, de 1825, já trazia uma nota convertendo a altura para cerca de cinco pés e seis polegadas e meia inglesas.
- Uma estimativa acadêmica põe a altura adulta média dos franceses nascidos entre os anos 1780 e 1800 em cerca de 1,646 m.
Na autópsia de Napoleão Bonaparte, em Santa Helena, em 1821, o médico Francesco Antommarchi mediu o corpo do alto da cabeça aos calcanhares. Anotou cinco pés, duas polegadas e quatro linhas.
Lido em pés e polegadas ingleses, cinco pés e duas polegadas dão cerca de 1,57 m. Só que Antommarchi usava a régua francesa do Antigo Regime, e a polegada francesa era maior que a inglesa.
Convertida, a medida dá cerca de 1,686 m, pela conta que o historiador Marcel Dunan publicou em 1963 na Revue de l'Institut Napoléon. Napoleão não era baixo para o seu tempo. Era, provavelmente, um pouco mais alto que a média dos franceses.
O que o médico anotou
Antommarchi era o médico de Napoleão no exílio. Publicou suas memórias em Paris, em 1825, em dois volumes. No segundo, ele narra a morte do imperador em 5 de maio de 1821 e a autópsia.
Segundo o próprio relato, o corpo estava estendido havia vinte horas e meia quando ele abriu o tórax. Antes disso, registrou uma lista de observações sobre o cadáver. A quarta diz:
A altura total, do alto da cabeça aos calcanhares, era de cinco pés duas polegadas e quatro linhas. (tradução nossa)
Na mesma lista estão a envergadura, de cinco pés e duas polegadas, e a circunferência da cabeça, de vinte polegadas e dez linhas.
Antommarchi diz que assistiram à autópsia os generais Bertrand e Montholon e Marchand, executores do testamento, além de Sir Thomas Reade e de vários médicos, entre eles Arnott e Charles Mitchell.
Segundo Dunan, as memórias de Marchand registram a mesma altura e dizem que as medidas foram tomadas por Antommarchi com a ajuda dele.

A conta das duas réguas
Antes do sistema métrico, a França media comprimento em pés do rei. O Museu de História das Ciências de Genebra dá ao pé do rei 32,48 cm. Cada pé se dividia em 12 polegadas, e cada polegada em 12 linhas.
O pé inglês também tinha 12 polegadas, mas era mais curto. Na conta de Dunan, o pé inglês vale 30,47 cm e a polegada inglesa 2,54 cm. A polegada francesa, cerca de 2,7 cm.
A diferença de dois centímetros por pé parece pouca. Em cinco pés, vira dez.
A conta que Dunan reproduz, enviada à revista pelo coronel Raugel, é esta: 32,47 cm vezes 5, mais 2,7 cm vezes 2, mais 0,22 cm vezes 4. Resultado: 1,686 m.
O mesmo número em duas réguas
Em cada item, primeiro: lido em medidas inglesas. Depois: lido em medidas francesas, como foi anotado.
- Pé de 30,47 cm
- Pé do rei de cerca de 32,5 cm
- Polegada de 2,54 cm
- Polegada de cerca de 2,7 cm
- Cinco pés e duas polegadas: cerca de 1,57 m
- Cinco pés, duas polegadas e quatro linhas: cerca de 1,686 m
A conversão não é uma descoberta moderna. A edição inglesa das memórias de Antommarchi, publicada em Londres por Henry Colburn no mesmo ano de 1825, traz uma nota de rodapé ao lado da altura:
Medida francesa; equivale a cinco pés seis polegadas e vinte e dois quarenta e cinco avos de polegada, sendo o pé francês maior que o inglês na proporção de dezesseis para quinze. (tradução nossa)
Cinco pés e seis polegadas e meia inglesas dão cerca de 1,69 m. O leitor britânico de 1825 tinha a conta pronta na página.
Uma explicação muito repetida para o mito do baixinho é essa confusão de unidades: alguém teria lido "cinco pés e duas polegadas" como medida inglesa. Faz sentido aritmético, mas não encontramos o documento de época que mostre esse erro sendo cometido.
Outras medidas, o mesmo resultado
A autópsia não é o único registro. Dunan cita uma segunda medição, anotada no diário do tapeceiro inglês Andrew Darling, "encarregado de tomar medidas exatas" (tradução nossa) com a assistência do general Montholon. Em medidas inglesas, Darling chegou a cinco pés e sete polegadas. Na conversão de Dunan, 1,70 m.
Há também um testemunho de quando Napoleão estava vivo. Em carta de 6 de abril de 1802, o jovem inglês John Leslie Foster, recebido nas Tulherias, deu ao Primeiro-Cônsul "cerca de 5 pés e 7 polegadas".
Dunan reconhece que os relatos de quem conviveu com Napoleão "permaneceram os mais contraditórios" (tradução nossa). O artigo dele nasceu de um número publicado por outro autor, Edmond Soreau: 1,64 m. A própria revista admitiu depois que era um erro de digitação e que o número pretendido era 1,68 m. A conclusão de Dunan: a altura de Napoleão "não era inferior a 1,686 m" (tradução nossa).
O Musée de l'Armée, em Paris, usa 1,69 m.
Baixo perto de quem
Para saber se alguém era baixo, é preciso saber a altura dos outros. John Komlos, da Universidade de Munique, estudou registros militares franceses com Michel Hau e Nicolas Bourguinat. Os recrutas de 20 e 21 anos nascidos no fim do século 18 mediam em média 1,636 m. A altura adulta dos nascidos nos anos 1780, 1790 e 1800, ele estima em cerca de 1,646 m.
O próprio estudo avisa que faltam dados para os nascidos nos anos 1770. Mas o número dá a régua da época. O Musée de l'Armée usa 1,65 m como média e diz que Napoleão tinha 4 cm a mais.
Então por que ele parecia pequeno? Uma resposta está em quem ficava ao lado dele. Para entrar nos granadeiros da Guarda imperial, segundo o museu, era preciso medir pelo menos 1,75 m. Com o gorro de pele de urso, esses soldados chegavam perto dos 2 m.
Dunan vai na mesma linha. Para ele, a impressão dos contemporâneos "nos parece ter sido essencialmente relativa" (tradução nossa). Em volta, os penachos de um Murat, as plumas de gala e os gorros de pele dos granadeiros. No meio, a estatura franzina, o uniforme sóbrio de coronel dos caçadores e o "pequeno chapéu" de cocarda simples.
O baixinho dos cartuns
A outra origem está na propaganda. Depois do rompimento da Paz de Amiens, lembra Dunan, a propaganda e os caricaturistas britânicos exploraram a imagem do "pequeno grande homem" e passaram a desenhar Napoleão minúsculo.
Uma delas, de James Gillray, saiu em 26 de junho de 1803. Feita a partir de um desenho do tenente-coronel Thomas Braddyll, mostra Jorge III segurando na palma da mão um Napoleão do tamanho de um boneco e examinando-o com uma luneta. A fala do rei termina chamando-o de um dos mais perniciosos e odiosos pequenos répteis "que a natureza já permitiu rastejar sobre a superfície da Terra" (tradução nossa).
Cruikshank, segundo Dunan, pôs "o pequeno imperador" pousado como um passarinho no dedo de um gigantesco marechal Blücher. Os apelidos da propaganda, ainda segundo Dunan, eram "o pequeno Boney" e "le Nabot", algo como "o tampinha".
E o apelido de "Pequeno Cabo"? A Fundação Napoleão o liga à batalha de Lodi, em 10 de maio de 1796. O historiador Pierre Branda conta que, naquela noite, correu no Exército o boato de que o general tinha ficado sob uma chuva de balas. A bravura suposta, da qual não há prova, rendeu o apelido. A explicação registrada é a coragem, não a estatura.
Como a medida e o mito se cruzaram
- 10 de maio de 1796Batalha de Lodi. Depois dela, Bonaparte ganha o apelido de Pequeno Cabo.
- 6 de abril de 1802O inglês John Leslie Foster descreve o Primeiro-Cônsul com cerca de 5 pés e 7 polegadas.
- 26 de junho de 1803Sai a gravura de Gillray com Napoleão na palma da mão de Jorge III.
- 5 de maio de 1821Napoleão morre em Santa Helena. Na autópsia, Antommarchi mede cinco pés, duas polegadas e quatro linhas.
- 1825As memórias de Antommarchi saem em Paris. A edição de Londres traz a conversão para cerca de cinco pés e seis polegadas e meia inglesas.
- 1963Marcel Dunan conclui que Napoleão não media menos de 1,686 m.
Uma ressalva sobre o médico
O relato de autópsia que Antommarchi publicou em 1825 tem um problema conhecido. Segundo reportagem do Le Monde de 2013, reproduzida pela Fundação Napoleão, os médicos Bastien e Jeandel encontraram parágrafos inteiros "idênticos palavra por palavra" (tradução nossa) a um artigo de um colega francês publicado em 1823.
A desconfiança recai sobre as descrições das lesões, que aparecem no relato de 1825 e não estavam no relatório de 1821. Para a altura, há outros apoios: as memórias de Marchand, que registram o mesmo número, e a medição de Darling, feita por outra pessoa e em outra régua, que chega a um valor parecido.
Somando tudo, o retrato que sobra é o de um homem de cerca de 1,68 m a 1,70 m, num país em que a média ficava perto de 1,65 m.
A caricatura, e talvez uma régua trocada, venceram a autópsia por dois séculos. Não é o único caso em que a versão que pegou nasceu de leituras apressadas: o suposto pânico da Guerra dos Mundos, em 1938, foi em boa parte obra dos jornais. E há lembranças coletivas que nunca corresponderam aos fatos, como mostra o efeito Mandela.
Fontes
- Mémoires du docteur F. Antommarchi, ou Les derniers momens de Napoléon, tomo II (1825), Francesco Antommarchi, Barrois l'aîné, Paris — obra digitalizada (Universidade de Toronto, Internet Archive)
- The Last Days of the Emperor Napoleon, vol. II (1825), Francesco Antommarchi, Henry Colburn, Londres — edição inglesa digitalizada (Internet Archive)
- La taille de Napoléon, Marcel Dunan, Revue de l'Institut Napoléon nº 89 (1963), reproduzido pela Fondation Napoléon
- An Anthropometric History of Early-Modern France (2003), John Komlos, Michel Hau e Nicolas Bourguinat, Munich Discussion Paper 2003-10, Universidade de Munique
- Le grenadier de la Garde impériale — livret-jeux, Musée de l'Armée, Paris
- Du pied au mètre, du marc au kilo (Les petits carnets nº 9), Musée d'histoire des sciences de Genève
- Avant-propos du livre Napoléon et ses hommes (2011), Pierre Branda, Fondation Napoléon
- Napoléon Ier : les mystères d'une tumeur impériale (2013), Sandrine Cabut, Le Monde, reproduzido pela Fondation Napoléon
- The King of Brobdingnag and Gulliver, 26 June 1803, Special Collections and Archives, Universidade de Sheffield
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Perguntas frequentes
- Qual era a altura de Napoleão?
- Cerca de 1,68 m a 1,70 m. Na autópsia de 1821, em Santa Helena, o médico Francesco Antommarchi mediu cinco pés, duas polegadas e quatro linhas, em medidas francesas. A conversão publicada pelo historiador Marcel Dunan dá 1,686 m. Uma segunda medição, feita pelo tapeceiro inglês Andrew Darling em medidas inglesas, deu cinco pés e sete polegadas, ou cerca de 1,70 m. Dunan concluiu que a altura de Napoleão não era inferior a 1,686 m.
- Por que dizem que Napoleão era baixo?
- Há pelo menos três explicações registradas. O número da autópsia, cinco pés e duas polegadas, parece pequeno se for lido em medidas inglesas, que eram menores que as francesas. As caricaturas britânicas, a partir de 1803, desenhavam Napoleão minúsculo, como na gravura em que o rei Jorge III o examina na palma da mão. E ele aparecia cercado pelos granadeiros da Guarda, que precisavam ter pelo menos 1,75 m, segundo o Musée de l'Armée.
- Napoleão era mais baixo que a média da época?
- Não. O Musée de l'Armée dá 1,69 m para Napoleão e 1,65 m para a média da época. Um estudo de John Komlos, da Universidade de Munique, estima a altura adulta dos franceses nascidos entre os anos 1780 e 1800 em cerca de 1,646 m. Pelos dois números, Napoleão ficava alguns centímetros acima da média.
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