O homem do Monopoly nunca usou monóculo. Num teste com 40 imagens famosas, sete enganaram as pessoas do mesmo jeito
O efeito Mandela ganhou fama na internet como suposta prova de dimensões alternativas. Em 2022, duas pesquisadoras da Universidade de Chicago o mediram pela primeira vez — e encontraram um erro de memória real, compartilhado e sem explicação única.

Em 30 segundos
- O termo foi criado pela pesquisadora paranormal Fiona Broome, que lembrava de Nelson Mandela morrendo na prisão nos anos 1980. Ele foi solto em 1990 e morreu em 2013.
- Em 2022, Deepasri Prasad e Wilma Bainbridge, da Universidade de Chicago, testaram 40 ícones com 100 adultos: 7 provocaram o mesmo erro específico em muita gente.
- As pessoas erraram mesmo minutos depois de ver a imagem certa, e o rastreamento do mouse, usado no lugar do olhar, não mostrou diferença em como observaram as figuras.
- Uma réplica com 389 participantes, publicada em 2024, confirmou os achados principais, mas apontou um erro estatístico na análise original.
O mascote do Monopoly, Rich Uncle Pennybags, tem cartola e bigode. Monóculo, nunca teve. Mesmo assim, muita gente o descreve com um, com toda a convicção.
Em 2022, duas pesquisadoras da Universidade de Chicago levaram esse tipo de certeza a um teste. Mostraram 40 imagens famosas, cada uma em três versões, e pediram que as pessoas apontassem a verdadeira. Em sete delas, uma das versões falsas foi escolhida mais vezes que a verdadeira.
Isso é o efeito Mandela: uma memória falsa que não é só sua. Muitas pessoas lembram do mesmo detalhe errado, e lembram dele igual.
De onde vem o nome
A expressão foi criada por Fiona Broome, descrita no próprio estudo como pesquisadora paranormal. Ela lembrava de Nelson Mandela ter morrido na prisão nos anos 1980 e dizia que outras pessoas tinham a mesma lembrança. O texto em que ela conta isso é de 2010.
Mandela não morreu na prisão. Segundo a fundação que leva o nome dele, foi solto em 11 de fevereiro de 1990, tomou posse como o primeiro presidente eleito democraticamente da África do Sul em 10 de maio de 1994 e morreu em 5 de dezembro de 2013, em casa, em Joanesburgo.
Broome e outros usuários da internet interpretaram essas lembranças compartilhadas como "evidência" de dimensões alternativas. Por isso, segundo as autoras do estudo de 2022, a maior parte da literatura acadêmica tratava o efeito Mandela como exemplo de teoria da conspiração, e não como um fenômeno de memória a ser medido.
O teste das 40 imagens
Deepasri Prasad e Wilma Bainbridge, do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago, publicaram o trabalho na revista Psychological Science. Foi o primeiro estudo a medir a versão visual do fenômeno.
Elas montaram 40 conceitos de imagem: personagens, logotipos e símbolos. Seis já apareciam na imprensa popular como casos de efeito Mandela. Os outros 34, como o símbolo do Bluetooth, a Hello Kitty e o Pernalonga, não tinham nenhuma memória falsa conhecida.
Cada imagem ganhou três versões: a oficial e duas alteradas, com só um detalhe mudado. As alterações foram feitas para parecer plausíveis, de modo que não desse para descobrir a certa por eliminação.
Cem adultos dos Estados Unidos, recrutados on-line, escolheram a versão correta de cada uma e disseram quanto estavam confiantes e quanto conheciam o personagem.
Cinco imagens tiveram acerto abaixo do acaso, menos de 33%. Outras duas ficaram perto disso, com 34% e 35%. Nas sete, uma mesma versão falsa foi escolhida significativamente mais vezes que a verdadeira.
As sete imagens e o erro de cada uma
As sete foram o C-3PO, de Star Wars; o Curious George; o logotipo da Fruit of the Loom; o homem do Monopoly; o Pikachu; o logotipo da Volkswagen; e o Wally, de Onde está Wally?.
As versões falsas mais lembradas, segundo o artigo:
- o C-3PO todo dourado, quando na versão oficial ele tem uma perna prateada;
- o macaco Curious George com rabo, que ele não tem;
- uma cornucópia atrás das frutas da Fruit of the Loom;
- o monóculo no homem do Monopoly;
- a ponta preta na cauda do Pikachu, que na versão oficial tem uma coloração marrom na base;
- o V e o W da Volkswagen sem a separação entre eles;
- o Wally sem a bengala que ele segura na versão oficial.
O que tornou esses casos diferentes não foi só o erro. Nas imagens em geral, quanto mais as pessoas diziam conhecer o personagem, mais tendiam a acertar. Nessas sete, não: a familiaridade e a confiança eram altas e o acerto, baixo.
"Você nunca viu o Pikachu com a ponta da cauda preta", disse Bainbridge à universidade. "Além disso, as pessoas tendem a escolher essa imagem errada com muita confiança" (tradução nossa).

Não é falta de atenção
A explicação mais óbvia seria que ninguém olha direito para a cauda do Pikachu. O segundo experimento testou isso.
Sessenta pessoas viram só as versões corretas de 14 imagens: as sete do efeito e sete de controle, igualmente conhecidas. Cada imagem ficava coberta, e o participante revelava pedaços dela com um círculo que acompanhava o mouse — um método que, segundo o artigo, se aproxima do rastreamento ocular.
Minutos depois, tinham de escolher entre a versão que tinham visto e a falsa. Nas imagens do efeito Mandela, acertaram 52,86% das vezes; nas de controle, 82,38%. Numa escolha entre duas opções, quem chutasse acertaria metade das vezes.
E o padrão de observação não explicou nada. Não houve diferença em como as pessoas exploraram as imagens que depois lembraram certo e as que lembraram errado.
Muitos dos que erraram também não achavam que estavam chutando. Sobre o logotipo da Fruit of the Loom, participantes justificaram a escolha errada com frases como "tenho quase certeza de que havia uma cesta" e "havia uma cornucópia na imagem que eu vi" (tradução nossa). A cornucópia não estava lá.
A internet não explica tudo
Outra hipótese é que as pessoas tenham visto as versões erradas por aí — inclusive em reportagens sobre o próprio efeito Mandela. No terceiro experimento, as pesquisadoras baixaram as 100 primeiras imagens do Google para cada um dos sete ícones.
O resultado variou. Do C-3PO, 51% das imagens nem mostravam as pernas, e 24% mostravam o robô com pernas douradas. Do Wally e da Volkswagen, 28% e 18% traziam a versão errada.
Mas no Pikachu, na Fruit of the Loom, no homem do Monopoly e no Curious George, a versão falsa quase não aparecia. Quando a cornucópia ou o rabo do macaco surgiam, era em páginas sobre o próprio efeito Mandela. Para as autoras, isso sugere que o erro veio antes das imagens erradas.
No quarto experimento, 459 pessoas desenharam os ícones, cerca de 50 por imagem. Entre os desenhos feitos de memória que incluíam a parte em questão, 47,72% traziam o erro sem que ninguém o sugerisse. O C-3PO dourado apareceu em 94,44% desses desenhos; a cauda preta do Pikachu, em 22,73%; o monóculo, em 31,71%.
Uma explicação para cada imagem
A teoria do esquema — preenchemos lacunas com o que esperamos ver — explica bem o monóculo, acessório típico de homem rico. Mas não explica tudo.
Na Fruit of the Loom, havia uma segunda versão falsa, com um prato embaixo das frutas. "O fato de terem escolhido a cornucópia em vez do prato, quando pratos são mais associados a frutas, é evidência contra a ideia de que seja só a teoria do esquema", disse Prasad (tradução nossa).
A conclusão do artigo é que não há uma explicação única. Talvez, escrevem as autoras, algumas imagens enganem por causa do esquema; outras, pela experiência visual com a versão errada; e outras por algo nas próprias imagens que ainda não foi identificado.
As autoras listam os limites: só 40 imagens, só participantes dos Estados Unidos e nenhum experimento pré-registrado. Elas também registraram que 67,92% dos participantes do segundo experimento já tinham ouvido falar do efeito Mandela.
Efeito Mandela: a versão popular e o estudo
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Lembranças compartilhadas seriam sinal de universos paralelos.
- Foi assim que Fiona Broome e outros usuários da internet as interpretaram. O estudo de 2022 as trata e as mede como erro de memória.
- Todo mundo lembra errado de tudo.
- Das 40 imagens testadas, só 7 provocaram o erro compartilhado.
- Quem erra não prestou atenção.
- O rastreamento com o mouse não mostrou diferença em como as pessoas olharam as imagens que depois lembraram errado.
- As pessoas só viram a versão errada na internet.
- No Pikachu, no Monopoly, na Fruit of the Loom e no Curious George, a versão errada quase não aparecia nas 100 primeiras imagens do Google.
A réplica
Em fevereiro de 2024, o projeto Transparent Replications, da organização Clearer Thinking, refez o primeiro experimento com 389 participantes. Encontrou o efeito nas mesmas sete imagens e em mais uma, o gato Tom, de Tom e Jerry. Concluiu que todos os achados principais se repetiram.
A réplica também achou problemas. O teste estatístico que definiu as sete imagens foi aplicado de forma errada, segundo o relatório. Refeita a conta com os dados originais, o Wally deixa de ser significativo. O relatório deu nota máxima à replicabilidade e 2,5 de 5 à clareza da análise.
O que sobra, conferido duas vezes, é isto: o efeito Mandela não prova outra dimensão. Mostra que a memória erra, e que às vezes erra igual em muita gente.
Se a ideia de que a memória reconstrói em vez de gravar te interessa, vale conhecer o homem que viveu 55 anos sem formar uma memória nova e, no extremo oposto, Solomon Shereshevsky, que não conseguia esquecer.
Outro "fato" que muita gente repete com convicção é o de que a Muralha da China pode ser vista do espaço.
Fontes
- The Visual Mandela Effect as Evidence for Shared and Specific False Memories Across People (2022), Prasad e Bainbridge, Psychological Science 33(12), 1971–1988
- The Visual Mandela Effect as evidence for shared and specific false memories across people (versão aceita, PsyArXiv), Prasad e Bainbridge, Universidade de Chicago
- Can you pick out the correct version of these famous pop culture icons?, UChicago News, Universidade de Chicago
- Report: Replication of Prasad & Bainbridge (2022), Psychological Science, Transparent Replications, Clearer Thinking
- Biography of Nelson Mandela, Nelson Mandela Foundation
Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.
Perguntas frequentes
- O que é o efeito Mandela?
- É o nome dado na internet a memórias falsas que muitas pessoas compartilham, com o mesmo detalhe errado, sobre nomes, fatos ou imagens da cultura popular. O termo foi criado pela pesquisadora paranormal Fiona Broome, que lembrava de Nelson Mandela morrendo na prisão nos anos 1980 e dizia que outras pessoas tinham a mesma lembrança. Mandela foi solto em 11 de fevereiro de 1990, presidiu a África do Sul a partir de 1994 e morreu em 5 de dezembro de 2013.
- O efeito Mandela foi comprovado cientificamente?
- A versão visual dele foi medida pela primeira vez em 2022, por Deepasri Prasad e Wilma Bainbridge, da Universidade de Chicago, na revista Psychological Science. De 40 imagens testadas com 100 adultos, sete — entre elas o Pikachu, o C-3PO e o homem do Monopoly — tiveram acerto baixo e um mesmo erro específico repetido por muita gente. Uma réplica com 389 participantes, de 2024, confirmou os achados principais. O estudo trata o fenômeno como erro de memória, não como prova de universos paralelos.
- Qual é o erro mais comum com o Pikachu?
- Lembrar da cauda com a ponta preta. Na versão oficial, a cauda do Pikachu não tem ponta preta; ela tem uma coloração marrom na base. No estudo de 2022, essa foi uma das sete imagens em que muita gente escolheu a mesma versão errada, apesar de se dizer familiarizada com o personagem.
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