Pular para o conteúdo

Ser "visual", "auditivo" ou "cinestésico" não muda como você aprende. Em 2008, quatro psicólogos procuraram a prova e acharam, no máximo, um estudo discutível

A revisão encomendada pela Psychological Science in the Public Interest definiu o experimento que provaria a teoria dos estilos de aprendizagem e foi atrás dele. Os testes bem-feitos que existiam deram resultado contrário. Mesmo assim, perto de nove em cada dez educadores ainda acreditam na ideia.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Sala de aula vazia, com fileiras de carteiras escolares de assento claro e estrutura verde, desenhos infantis presos na parede e um quadro-negro ao fundo.
Feliphe Schiarolli, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • Em 2008, Pashler, McDaniel, Rohrer e Bjork definiram o experimento capaz de provar a teoria dos estilos de aprendizagem e encontraram só um estudo que talvez cumprisse os critérios, com falhas sérias.
  • Os testes bem desenhados que existiam, como o de Massa e Mayer, com quase 20 medidas de estilo, não acharam vantagem em receber a aula no formato preferido.
  • Em 2015, adultos classificados como auditivos não entenderam melhor um texto ouvido em audiolivro do que lido na tela, nem na hora nem duas semanas depois.
  • Uma revisão de 2020 com 37 amostras de 18 países calculou que 89,1% dos educadores acreditam na ideia.

Em dezembro de 2008, uma revista da Association for Psychological Science publicou o resultado de uma encomenda. Quatro psicólogos cognitivos tinham sido chamados para responder a uma pergunta prática: existe base científica para testar o "estilo de aprendizagem" de cada aluno e ensinar de acordo com ele?

Harold Pashler, Mark McDaniel, Doug Rohrer e Robert Bjork vasculharam a literatura. Num campo com milhares de artigos, encontraram um único estudo sobre ensino que podia, talvez, cumprir os critérios para provar a teoria. E até esse tinha problemas.

A resposta curta, então, é não. A revisão não encontrou demonstração de que uma pessoa classificada como "visual" aprende mais com imagens, ou de que um "auditivo" aprende mais ouvindo. Os autores escreveram que encontraram "praticamente nenhuma evidência" do efeito que a teoria exige (tradução nossa).

O que a teoria promete

A ideia é simples e atraente: cada pessoa tem um jeito próprio de aprender, e a aula rende mais quando respeita esse jeito. Uma das versões mais populares divide os alunos em visuais, auditivos e cinestésicos, a classificação conhecida pela sigla VAK. O questionário VARK, apontado numa revisão de 2020 como talvez o mais conhecido de todos, acrescenta a categoria leitura e escrita.

Pashler e colegas deram nome à aposta central: hipótese do encaixe. É a afirmação de que a instrução funciona melhor quando o formato combina com a preferência do aluno.

O mercado em torno disso não era pequeno. A revisão cita um levantamento de 2004 que contou 71 esquemas diferentes de estilos de aprendizagem, sem pretender ter esgotado a lista. Em junho de 2008, uma das empresas mais conhecidas do ramo vendia cinco testes para faixas etárias que iam dos 3 anos à vida adulta, por cerca de 5 dólares por aluno, e um curso de certificação para professores por 1.225 dólares, sem contar refeições e hospedagem.

Litografia colorida com cinco pessoas espremidas num mesmo quadro, cada uma concentrada num gesto: um homem no alto encosta um objeto ao ouvido, uma moça leva um pequeno frasco ao nariz, um homem calvo põe o dedo na boca diante de um prato e um idoso de peruca apalpa a mão de outra pessoa.
Ilustração. Os cinco sentidos, em litografia de Louis-Léopold Boilly de 1823. A teoria dos estilos de aprendizagem parte de uma ideia parecida, a de que cada pessoa teria um canal preferido para receber informação. Imagem: Louis-Léopold Boilly, via Wellcome Collection · Domínio público

O experimento que provaria a teoria

A contribuição mais importante da revisão não foi dizer "não funciona". Foi dizer exatamente que tipo de estudo seria preciso para mostrar que funciona.

São quatro passos. Primeiro, classificar os alunos por estilo, por exemplo, visuais e auditivos. Depois, sortear, dentro de cada grupo, quem recebe cada método de ensino. Em seguida, aplicar a mesma prova a todos. Por fim, o resultado precisa mostrar que o método que dá a melhor nota para um grupo não é o que dá a melhor nota para o outro.

É esse último ponto que separa a prova da aparência de prova. Se as imagens ajudam todo mundo, visuais e auditivos, então não há motivo para separar a turma. Basta usar imagens para todos. A teoria só se justifica se os métodos se cruzarem: o visual vai melhor com imagem, o auditivo vai melhor com áudio.

Os autores contam que começaram o trabalho com opiniões diferentes sobre o tema, "mas não defendidas com paixão" (tradução nossa).

O que a busca encontrou

O único candidato foi um estudo de Sternberg e colegas, de 1999. Dos 324 estudantes avaliados, os pesquisadores usaram 112, cerca de um terço, numa das comparações que importavam. O efeito apareceu só em medidas muito derivadas, as notas brutas não foram publicadas, e o resultado veio depois da exclusão de valores extremos por motivos não especificados. Pashler e colegas classificaram a evidência como "tênue".

Pior para a teoria: entre os poucos estudos com o desenho certo, vários deram resultado contrário.

Num estudo de 2006, os pesquisadores Massa e Mayer montaram uma aula de eletrônica no computador, com telas de ajuda em texto para "verbais" e em diagramas para "visuais". Testaram quase 20 medidas diferentes de estilo. Nenhuma combinação mostrou vantagem para quem recebeu a ajuda no formato preferido. Num estudo com 123 médicos residentes, Cook e colegas também não acharam o efeito previsto.

Constantinidou e Baker, em 2002, compararam o estilo declarado de adultos com a memória para palavras apresentadas por imagem, por som ou pelos dois. Imagens renderam mais lembrança do que a apresentação puramente verbal, e a pontuação no questionário de estilo não se relacionou de forma clara com o desempenho em cada formato. Os autores relataram "nenhuma relação entre um estilo de aprendizagem visual e a aprendizagem real" dos itens (tradução nossa).

A conclusão da revisão: "não há base de evidência adequada" para levar testes de estilo de aprendizagem à prática educacional (tradução nossa). E o uso disseminado desses testes nas escolas seria "imprudente e um desperdício de recursos limitados" (tradução nossa).

Depois de 2008, o teste foi feito

A revisão funcionou como uma receita, e houve quem a seguisse.

Em 2015, Beth Rogowsky, Barbara Calhoun e Paula Tallal publicaram no Journal of Educational Psychology um experimento com 121 adultos com diploma universitário. Primeiro, cada um respondeu a um inventário padronizado de estilo. Depois, parte deles foi sorteada para ouvir em audiolivro ou ler na tela o mesmo trecho de um livro de não ficção, e todos fizeram a mesma prova de compreensão, logo depois e duas semanas mais tarde.

Não houve relação estatisticamente significativa entre o estilo declarado, auditivo ou visual, e o formato da aula, em nenhuma das duas provas. Uma ressalva vale aqui: na comparação final, cada um dos quatro subgrupos tinha entre 10 e 11 pessoas.

Em 2019, os pesquisadores Husmann e O'Loughlin, da Escola de Medicina da Universidade de Indiana, cruzaram o resultado do VARK de 426 estudantes de anatomia com os hábitos de estudo e as notas. A maioria não estudava do jeito que o próprio VARK indicava. E a nota não tinha correlação com nenhuma das categorias. O que se associou a notas melhores foram algumas estratégias específicas, como usar o microscópio virtual, qualquer que fosse o estilo do aluno.

Por que quase todo mundo acredita

Em 2012, Sanne Dekker e colegas perguntaram a 137 professores do Reino Unido e 105 da Holanda, todos interessados em neurociência aplicada ao ensino, se "as pessoas aprendem melhor quando recebem a informação no seu estilo de aprendizagem preferido (por exemplo, auditivo, visual, cinestésico)" (tradução nossa). Concordaram 93% dos britânicos e 96% dos holandeses. Foi o mito mais aceito da lista.

O dado mais curioso do estudo: saber mais sobre o cérebro, em geral, previu mais crença em neuromitos, não menos.

Oito anos depois, Philip Newton e Atharva Salvi reuniram 37 amostras de 18 países, com levantamentos feitos entre 2009 e o início de 2020. A média ponderada de educadores que acreditam no encaixe foi de 89,1%. Entre professores ainda em formação, 95,4%. O artigo traz dois totais de participantes, 15.405 no resumo e 15.045 na discussão. A boa notícia está no mesmo trabalho: depois de intervenções que explicavam a falta de evidência, a crença caiu em média 37%.

A revisão de 2008 arrisca algumas explicações para o sucesso da ideia. Ela herda o apelo dos testes que dizem "que tipo de pessoa você é", como o Myers-Briggs. Atende ao desejo de que cada filho seja tratado como único. E oferece um conforto: se o aluno vai mal, a culpa pode ser de uma aula que não respeitou o estilo dele.

Estilos de aprendizagem: o que se diz e o que os estudos mostram

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Cada pessoa tem um estilo: visual, auditivo ou cinestésico.
As pessoas declaram preferências estáveis, mas a preferência quase não se relacionou com as habilidades medidas no estudo de Massa e Mayer.
Ensinar no estilo do aluno faz ele aprender mais.
A revisão de 2008 achou um só estudo candidato, e frágil. Os testes bem desenhados não encontraram o efeito.
Um auditivo entende melhor ouvindo.
Em 2015, auditivos e visuais tiveram desempenho sem diferença significativa entre audiolivro e texto na tela.
Se a ciência derrubou, os professores já abandonaram.
Revisão de 2020: 89,1% dos educadores ainda acreditam, sem sinal de queda nos anos recentes.

O que a revisão não diz

Pashler e colegas tomaram cuidado com o alcance da própria conclusão. Seria um erro, escreveram, achar que todas as versões possíveis de estilos de aprendizagem foram testadas e reprovadas: "muitas simplesmente nunca foram testadas" (tradução nossa).

Eles também não dizem que todo aluno aprende do mesmo jeito. O conhecimento prévio muda qual aula funciona melhor. E o conteúdo pesa no formato: para os autores, ensinar geometria exige material visual e espacial, e um curso de redação provavelmente pede ênfase verbal, seja qual for o estilo do aluno.

O ponto é outro. Há uma distância grande entre notar que um aluno entendeu com uma explicação que não serviu para o colega e acreditar que um questionário consegue prever isso. Para a revisão, a crença de que testes de estilo são úteis na escola "parece ser apenas isso: uma crença" (tradução nossa).

A história lembra a de outras ideias sobre o cérebro que pegaram antes da prova. Vale ler de onde saiu a frase de que usamos só 10% do cérebro, outro neuromito da lista aplicada aos professores em 2012, e como um estudo de uma página virou CDs de Mozart para recém-nascidos.

Fontes

  1. Learning Styles: Concepts and Evidence (2008), Pashler, McDaniel, Rohrer e Bjork, Psychological Science in the Public Interest 9(3), 105–119
  2. Matching Learning Style to Instructional Method: Effects on Comprehension (2015), Rogowsky, Calhoun e Tallal, Journal of Educational Psychology 107(1), 64–78
  3. Neuromyths in Education: Prevalence and Predictors of Misconceptions among Teachers (2012), Dekker, Lee, Howard-Jones e Jolles, Frontiers in Psychology, via PubMed Central
  4. How Common Is Belief in the Learning Styles Neuromyth, and Does It Matter? A Pragmatic Systematic Review (2020), Newton e Salvi, Frontiers in Education
  5. Another Nail in the Coffin for Learning Styles? (2019), Husmann e O'Loughlin, Anatomical Sciences Education 12(1), 6–19

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Os estilos de aprendizagem visual, auditivo e cinestésico funcionam?
Não há evidência de que ensinar cada aluno no formato que ele prefere melhore o aprendizado. A revisão de Pashler, McDaniel, Rohrer e Bjork, de 2008, procurou experimentos que mostrassem esse efeito e encontrou só um que talvez cumprisse os critérios, com falhas sérias. Os estudos bem desenhados que existiam, e os que vieram depois, como o de Rogowsky e colegas em 2015, não acharam vantagem em casar o formato da aula com o estilo declarado.
Então as pessoas não têm preferências de aprendizagem?
Têm. A própria revisão de 2008 diz que crianças e adultos, quando perguntados, declaram preferências, e que elas são razoavelmente estáveis. O que não se sustenta é a ideia de que respeitar essa preferência faz a pessoa aprender mais. Um estudo de 2006 de Massa e Mayer ainda mostrou que a preferência por imagens ou palavras quase não tinha relação com as habilidades medidas objetivamente.
Quantos professores acreditam em estilos de aprendizagem?
Num levantamento de 2012, 93% dos professores britânicos e 96% dos holandeses entrevistados concordaram que as pessoas aprendem melhor quando recebem a informação no estilo preferido, como auditivo, visual ou cinestésico. Uma revisão de 2020, com 37 amostras de 18 países, chegou a uma média ponderada de 89,1% de educadores que acreditam na ideia.
Gostou? Manda para alguém:WhatsAppFacebookX

Leia também

Mais de Comportamento

Ver a seção