O psiquiatra que batizou a síndrome de Estocolmo nunca conversou com a refém que ele descreveu. E o termo nunca entrou no manual de diagnósticos
Em 1973, quatro funcionários de um banco passaram seis dias num cofre em Estocolmo. Uma das reféns disse ao primeiro-ministro que temia mais a polícia que os assaltantes. A resposta virou síndrome, sem critério, sem estudo e sem entrevista.

Em 30 segundos
- O termo nasceu do assalto ao Kreditbanken, em Estocolmo, onde quatro funcionários ficaram reféns de 23 a 28 de agosto de 1973.
- O psiquiatra Nils Bejerot, consultor da polícia, batizou a reação das reféns sem nunca ter falado diretamente com Kristin Enmark, a refém mais citada.
- Uma revisão sistemática de 2008 encontrou apenas 12 artigos sobre o tema, quase todos relatos de caso, e nenhum critério diagnóstico validado.
- A síndrome de Estocolmo nunca foi incluída no DSM, o manual de diagnósticos psiquiátricos usado nos Estados Unidos.
Às 10h04 de 23 de agosto de 1973, um homem de peruca e óculos escuros entrou no Kreditbanken, na praça Norrmalmstorg, no centro de Estocolmo, e disparou uma rajada de submetralhadora contra o teto. Seis dias depois, os quatro funcionários que ele manteve no cofre saíram vivos.
Saíram também com um diagnóstico. O psiquiatra que assessorava a polícia deu nome ao comportamento deles. Segundo a ABC, a emissora pública australiana, ele nunca falou diretamente com Kristin Enmark, a refém que virou o rosto da síndrome.
A síndrome de Estocolmo existe? Como diagnóstico, não. Ela nunca foi incluída no DSM, o manual de diagnósticos psiquiátricos de referência nos Estados Unidos. Uma revisão sistemática de 2008 encontrou apenas 12 artigos sobre o assunto, a maioria relatos de caso, e nenhum critério diagnóstico validado.
Seis dias num cofre
O assaltante era Jan-Erik Olsson. Ele tomou como reféns três funcionárias do banco, segundo a revista sueca Populär Historia: Birgitta Lundblad, de 31 anos, Elisabeth Oldgren, de 21, e Kristin Enmark, de 23. Depois, um quarto funcionário, Sven Säfström, de 24, foi encontrado escondido atrás de uma pilastra e também virou refém.
A primeira exigência de Olsson, segundo a ABC, foi trazer ao banco Clark Olofsson, descrito pela Populär Historia como o criminoso mais notório da Suécia. Os dois tinham cumprido pena na mesma prisão. O primeiro-ministro Olof Palme e o ministro da Justiça, Lennart Geijer, rejeitaram a ideia de deixar Olofsson entrar sozinho. A polícia deixou mesmo assim.
A polícia também errou o nome do assaltante. Convencida de que se tratava de outro criminoso, Kaj Hansson, mandou o irmão caçula dele conversar com o homem armado. Ele foi recebido a tiros. A revista atribui a insistência ao psiquiatra Nils Bejerot, que teria garantido que "ninguém atira no próprio irmão" (tradução nossa). As fontes divergem sobre a idade do rapaz: 17 anos, segundo a Populär Historia; 16, segundo a ABC.
Os assaltantes se trancaram no cofre com os reféns e amarraram laços de forca nos compartimentos de valores. A ameaça era clara: se a polícia usasse gás, os reféns desmaiariam e seriam estrangulados. A polícia perfurou o teto do cofre a partir do andar de cima e, no fim, lançou gás lacrimogêneo pelo buraco. Dois policiais foram baleados durante o cerco. Ninguém morreu.
Do assalto ao termo
- 23 de agosto de 1973, 10h04Jan-Erik Olsson entra armado no Kreditbanken e toma três funcionárias como reféns.
- Durante o cercoClark Olofsson é levado da prisão ao banco a pedido de Olsson; um quarto funcionário, achado escondido, vira refém. Kristin Enmark telefona ao primeiro-ministro Olof Palme.
- 28 de agosto de 1973A polícia lança gás lacrimogêneo no cofre por um buraco aberto no teto. Os reféns são libertados.
- 1974Nils Bejerot declara que é "de se esperar" que surja um laço de amizade entre vítimas e captores.
- 2008Revisão sistemática na Acta Psychiatrica Scandinavica encontra 12 artigos e nenhum critério diagnóstico validado.
- 2015Kristin Enmark publica o livro Jag blev Stockholmssyndromet, "Eu virei a síndrome de Estocolmo".
A ligação para o primeiro-ministro
O episódio que está na raiz da síndrome é um telefonema. De dentro do cofre, Kristin Enmark ligou para Olof Palme. A polícia gravou a conversa. Segundo a ABC, ela disse:
Estou muito decepcionada. Acho que vocês estão aí jogando damas com as nossas vidas. Confio totalmente no Clark e no assaltante. Não estou desesperada. Eles não fizeram nada com a gente. [...] Mas, sabe, Olof, o que me dá medo é que a polícia ataque e cause a nossa morte. (tradução nossa)
A ligação durou 42 minutos, segundo a ABC. O podcast americano Criminal fala em "quase uma hora".
Enmark não estava inventando um risco. A Populär Historia observa que os reféns tinham contato pessoal com os assaltantes, que nunca os feriram, enquanto a polícia, no início, agiu às cegas e atirou na direção deles. A mesma revista registra que os reféns acusados de tomar o lado dos criminosos esclareceram depois que nunca apoiaram o crime em si.
A gravação também serve de conferência. Enmark afirmou mais tarde que Palme lhe perguntou se não seria bom "morrer no seu posto". Segundo a revista, essa troca de frases não aparece na gravação.
O diagnóstico feito de fora
Nils Bejerot (1921–1988) era o psiquiatra que servia de consultor à polícia durante o cerco. Segundo a Populär Historia, ele achou notável que alguns reféns tivessem expressado confiança nos captores ainda no início, e que depois não fossem tão críticos com eles quanto ele achava que deveriam ser.
O nome original foi "síndrome de Norrmalmstorg", a praça do banco. Fora da Suécia, virou síndrome de Estocolmo. A ABC relata que Bejerot afirmou que Enmark, em particular, tinha sofrido uma lavagem cerebral do captor. Segundo a emissora, ele também afirmou em público que uma das jovens reféns tinha criado um laço emocional com o assaltante, insinuando que era sexual. Em 1974, ele disse: "É de se esperar que, a partir de certo ponto, nasça um laço de amizade entre as vítimas e seus captores" (tradução nossa).
Nada disso saiu de uma entrevista com ela. Segundo a revista britânica The New European, Bejerot se recusou a falar com Enmark enquanto ela estava no cofre — de lá, ela o tinha criticado em conversa com jornalistas de rádio. Depois da libertação, foram ela e Elisabeth Oldgren que se recusaram a encontrá-lo.
A jornalista investigativa Jess Hill, que pesquisou a origem do termo, resumiu à ABC: Bejerot "fez a suposição com base puramente no que tinha observado de uma perspectiva de fora, de que eles tinham uma síndrome, sem que houvesse nenhum critério diagnóstico, sem que houvesse nenhum tipo de estudo" (tradução nossa).
Nem a profissão dele é unânime nas fontes. Uma revisão publicada em 2009 no Journal of the Royal Society of Medicine o chama de criminologista; a Populär Historia e a ABC, de psiquiatra.

O que as revisões encontraram
Em 2008, pesquisadores do Royal Free and University College Medical School, em Londres, fizeram uma revisão sistemática do que se publicou sobre a síndrome. Vasculharam quatro bases de dados (PubMed, EMBASE, PsycINFO e CINAHL).
O resultado, publicado na Acta Psychiatrica Scandinavica, foi magro. Apenas 12 artigos cumpriam os critérios de inclusão. A literatura "consiste principalmente em relatos de caso", há "ambiguidade no uso do termo" e "nenhum critério diagnóstico validado foi descrito" (tradução nossa). Os autores lembram que o diagnóstico "não é descrito em nenhum sistema internacional de classificação".
Eles também compararam cinco casos muito noticiados pela imprensa em inglês e acharam quatro traços em comum. Mas fizeram a ressalva: as semelhanças podem se dever a viés de notícia e de publicação.
A revisão de 2009 do Journal of the Royal Society of Medicine trata o fenômeno de outra forma: como "um meio de enfrentar e sobreviver" (tradução nossa). E registra que a validade do conceito foi contestada pelo grupo de 2008.
Do lado da polícia, o conceito tem uso prático. Um artigo de 2007 no FBI Law Enforcement Bulletin, resumido no acervo do Departamento de Justiça dos EUA, descreve a síndrome por três elementos: sentimentos positivos do refém pelo captor, medo e raiva dele em relação às autoridades, e sentimentos positivos do captor pelo refém. Lista quatro condições necessárias e conclui que essas condições raramente ocorrem.
Síndrome de Estocolmo: o que se conta e o que as fontes mostram
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- É um transtorno psiquiátrico reconhecido.
- Nunca foi incluída no DSM e, segundo a revisão de 2008, não é descrita em nenhum sistema internacional de classificação.
- Foi descoberta a partir do estudo das reféns de 1973.
- Foi nomeada por um consultor da polícia que, segundo a ABC, nunca falou diretamente com a refém mais citada.
- Há muita pesquisa sobre o tema.
- A revisão de 2008 encontrou 12 artigos, quase todos relatos de caso, e nenhum critério validado.
- É comum entre reféns.
- O artigo de 2007 do boletim do FBI diz que as condições necessárias para ela raramente ocorrem.
A versão da refém
Segundo a ABC, Kristin Enmark passou cinco décadas negando ter caído sob o feitiço dos captores. A Populär Historia registra que ela deixou claro que não se considera vítima da síndrome que ajudou a nomear. Em 2015, publicou o livro Jag blev Stockholmssyndromet, "Eu virei a síndrome de Estocolmo".
À ABC, ela resumiu o que acha que aconteceu: "A refém ideal é uma mulher que fica de boca fechada e acha que a polícia vai protegê-la. E quando aparece alguém como eu, que diz o contrário? É preciso chamar isso de doentio, de loucura, em vez de olhar para o que a polícia fez" (tradução nossa).
O terapeuta canadense Allan Wade, que conversou longamente com ela, vai além. Para ele, a síndrome "não tem nada a ver com a psicologia de Kristin Enmark. Foi uma estratégia de silenciamento" (tradução nossa).

O detalhe que amarra tudo
Durante o cerco, as autoridades suecas não economizaram palavras contra os criminosos. Palme chamou Olsson e Olofsson de "dois desvairados". O chefe de polícia Kurt Lindroth chamou o assaltante de "monstro" e de "um ser humano completamente desumano" (tradução nossa).
Algum tempo depois, Jan-Erik Olsson se casou na prisão. Segundo a Populär Historia, Lindroth e Nils Bejerot aceitaram ser testemunhas do casamento.
Os reféns que falaram bem dos captores ganharam uma síndrome. O laço entre o assaltante, o chefe de polícia e o psiquiatra nunca ganhou nome.
Se você gosta de histórias em que o rótulo famoso não sobrevive a uma olhada no documento original, vale ler sobre as 38 testemunhas do caso Kitty Genovese, que nunca existiram, e sobre o que as fitas do experimento da prisão de Stanford revelaram.
Fontes
- 'Stockholm syndrome': psychiatric diagnosis or urban myth? (2008), Namnyak, Tufton, Szekely, Toal, Worboys e Sampson, Acta Psychiatrica Scandinavica 117(1), 4–11
- Understanding Stockholm Syndrome (2007), resumo no acervo do Departamento de Justiça dos EUA, De Fabrique, Romano, Vecchi e Van Hasselt, FBI Law Enforcement Bulletin 76(7), 10–15
- Kidnapping and hostage-taking: a review of effects, coping and resilience (2009), Alexander e Klein, Journal of the Royal Society of Medicine 102(1), 16–21
- Norrmalmstorgsdramat – sex dagar när Sverige höll andan, Kalle Lind, Populär Historia 10/2023
- Is Stockholm syndrome a myth? The terrifying crime behind psychology's most famous — and dubious — term, ABC News (Australian Broadcasting Corporation), 23 de agosto de 2023
- The bank robbery that created Stockholm syndrome, 50 years on, Roger Domeneghetti, The New European, 23 de agosto de 2023
- Episode 113: Hostage (transcrição), Criminal (Radiotopia/PRX), 26 de abril de 2019
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Perguntas frequentes
- A síndrome de Estocolmo existe?
- Não como diagnóstico. Ela nunca foi incluída no DSM, o manual de diagnósticos psiquiátricos usado nos Estados Unidos, e uma revisão sistemática publicada em 2008 na Acta Psychiatrica Scandinavica registrou que ela não é descrita em nenhum sistema internacional de classificação. Os autores encontraram apenas 12 artigos sobre o tema, quase todos relatos de caso, e nenhum critério diagnóstico validado. O que existe é o termo, usado pela imprensa e por negociadores de reféns para descrever laços positivos entre vítimas e captores.
- Quem criou o termo síndrome de Estocolmo?
- O psiquiatra sueco Nils Bejerot (1921–1988), que atuava como consultor da polícia durante o assalto ao Kreditbanken, em Estocolmo, em agosto de 1973. O nome original era "síndrome de Norrmalmstorg", a praça onde ficava o banco. Segundo a ABC australiana, Bejerot nunca falou diretamente com Kristin Enmark, a refém que ele descreveu como tendo sofrido uma lavagem cerebral.
- O que aconteceu no assalto de Estocolmo em 1973?
- Em 23 de agosto de 1973, Jan-Erik Olsson entrou armado no Kreditbanken, na praça Norrmalmstorg, e tomou como reféns três funcionárias; um quarto funcionário, achado escondido, também virou refém. A pedido de Olsson, a polícia levou ao banco o criminoso Clark Olofsson, que estava preso. Os seis ficaram no cofre até 28 de agosto, quando a polícia lançou gás lacrimogêneo por um buraco aberto no teto. Ninguém morreu.
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