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O experimento de Asch virou a prova de que as pessoas seguem o grupo. Nos dados do próprio Asch, quase dois terços das respostas contrariaram a maioria

Nos anos 1950, Solomon Asch pôs um estudante sozinho contra um grupo combinado para errar a medida de linhas. A conformidade apareceu, mas foi a minoria das respostas. Asch dizia ter estudado a independência, e os manuais contaram outra história.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Sala de aula vazia com carteiras de tampo verde e cadeiras de madeira em fileiras, uma mesa de professor diante de um quadro-negro verde e um mapa na parede da direita.
Ivan Aleksic, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • Na série principal de Asch, com 123 estudantes, 36,8% das respostas nas rodadas críticas seguiram o erro da maioria; o restante foi independente.
  • Um quarto dos voluntários (24%) nunca cedeu, e só 6 dos 123 acompanharam o grupo nas 12 rodadas críticas.
  • Quando o voluntário podia escrever a resposta em vez de falar em voz alta, os erros caíram para 12,5%.
  • Uma análise de 99 manuais de psicologia publicados entre 1953 e 1984 concluiu que eles exageraram a conformidade e apagaram a independência.

Nos anos 1950, o psicólogo Solomon Asch pediu a estudantes universitários que dissessem qual de três linhas tinha o mesmo comprimento de uma quarta. Sozinhos, eles erravam menos de 1% das vezes. Num grupo combinado para errar em voz alta, o voluntário passou a acompanhar o erro em 36,8% das respostas.

Esse é o número que fez do experimento de Asch a prova clássica de que as pessoas negam o que veem para concordar com o grupo. A outra parte da conta quase nunca aparece: 63,2% das respostas contrariaram a maioria.

Asch nunca escondeu essa outra parte. Para ele, a resistência era um resultado tão importante quanto a submissão. Os livros didáticos é que, com o tempo, passaram a contar quase só uma delas.

Como era o teste

O desenho está descrito no artigo mais completo de Asch, uma monografia de 70 páginas publicada em 1956 na Psychological Monographs. Um grupo de sete a nove estudantes se reunia numa sala de aula para o que parecia um teste de percepção visual. A cada rodada, o pesquisador mostrava um cartão com uma linha de referência e outro com três linhas numeradas. Cada um dizia em voz alta, na ordem em que estava sentado, qual era a igual.

Eram 18 rodadas. Em 12 delas, as chamadas rodadas críticas, todos os membros do grupo menos um davam a mesma resposta errada. Tinham sido instruídos antes pelo pesquisador. A diferença entre a linha escolhida por eles e a correta ia de 3/4 de polegada a 1 e 3/4 de polegada (cerca de 2 a 4,4 centímetros).

O único voluntário de verdade, que Asch chamava de "sujeito crítico", sentava-se quase sempre no penúltimo lugar. Ouvia todos, menos um, antes de responder.

Os voluntários eram homens, brancos, estudantes de três instituições de ensino superior, com idades de 17 a 25 anos. Um grupo de controle de 37 estudantes fez o mesmo julgamento por escrito, sem ouvir ninguém: 35 deles não erraram nenhuma vez.

A mesma tabela permite duas manchetes

A tabela de Asch mostra uma distribuição larga. Vinte e nove dos 123 voluntários (24%) não cederam nenhuma vez. Num grupo de tamanho parecido, de 27% segundo Asch, cederam de 8 a 12 vezes. A metade restante ficou no meio, com 1 a 7 erros. Só seis homens acompanharam a maioria em todas as 12 rodadas.

O próprio Asch escreveu, em 1956, que o efeito da maioria foi considerável, mas "de modo algum completo, nem mesmo a força mais forte em ação" (tradução nossa). Na maior parte das respostas, quem decidiu foi o que os olhos viam.

Daí saem duas leituras. Quem conta voluntários que erraram pelo menos uma vez chega a 76%. É a origem do "três quartos se conformaram", e a frase aparece até na legenda de uma foto do artigo que Asch escreveu para a Scientific American em 1955: "Setenta e cinco por cento dos sujeitos experimentais concordam com a maioria em graus variados" (tradução nossa). Quem conta respostas chega a quase dois terços de independência. Os dois números são verdadeiros. Só um costuma ser contado.

Experimento de Asch: a versão que circula e o que os artigos dizem

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

As pessoas negam o que veem para concordar com o grupo.
Na série principal, 63,2% das respostas críticas contrariaram a maioria unânime.
Três quartos dos voluntários se conformaram.
76% cederam pelo menos uma vez; o voluntário típico cedeu em 3 de 12 rodadas.
O estudo mostra como somos submissos.
Asch o via como um estudo sobre as condições da independência e da falta dela.
O efeito é universal.
Réplicas variam muito: de 1 adesão em 396 rodadas a taxas próximas às de Asch.

O que fazia o voluntário ceder, ou não

O primeiro relato de Asch, de 1951, com 50 voluntários, já trazia o mesmo desenho: um terço das respostas foi na direção da maioria, 68% foram corretas, e um quarto dos voluntários nunca cedeu. Ali, Asch descreveu um estudante independente que, nas entrevistas, repetia: "Eu disse como eu via, senhor" (tradução nossa). E outro, que cedeu em 11 das 12 rodadas, que abriu a conversa dizendo: "Se eu fosse o primeiro, provavelmente teria respondido diferente" (tradução nossa).

As variações do experimento mostraram do que dependia o efeito. Bastava um aliado. Com um segundo voluntário verdadeiro no grupo, os erros na direção da maioria caíram para 10,4% das respostas. Com um membro instruído a responder certo o tempo todo, para 5,5%. Na versão básica, eram 32%.

O tamanho do grupo importava só até certo ponto. Segundo o artigo de 1955, com um único opositor o voluntário errou 3,6% das vezes; com dois, 13,6%; com três, 31,8%. Maiorias maiores, até 15 pessoas, não aumentaram a pressão de forma relevante.

E pesava muito ter de falar em público. Numa variação de 1956, 14 voluntários ouviam o grupo responder em voz alta, mas escreviam a própria resposta num papel. Os erros caíram para 12,5%, cerca de um terço do que se via na versão falada.

Régua de madeira graduada em centímetros apoiada sobre uma base de corte cinza quadriculada, com uma folha branca ao fundo.
Foto ilustrativa. Nas entrevistas, Asch perguntou aos voluntários se, medidas as linhas com uma régua, eles achavam que estariam certos: 67 de 94 disseram que sim. Imagem: Christian Kaindl, via Unsplash · Licença Unsplash

As entrevistas feitas logo depois de cada sessão mostram o custo da situação. De 54 voluntários questionados, 70% admitiram dúvida sobre a própria precisão durante o teste. Entre os que cederam no máximo duas vezes, 45% disseram ter sentido tentação de responder como os outros. Entre os que cederam três ou mais vezes, 85%. No texto de 1955, Asch acrescentou que todos os que cederam subestimaram quantas vezes tinham feito isso.

Como a resistência sumiu dos livros

Logo na introdução da monografia de 1956, Asch escreveu que "o esforço pela independência e a resistência à invasão são tão fatos sobre as pessoas quanto a conformidade" (tradução nossa). Também chamou de "indevidamente estreito" enfatizar a submissão e esquecer a capacidade de agir por convicção.

Em 1990, os psicólogos Ronald Friend, Yvonne Rafferty e Dana Bramel examinaram 99 relatos do experimento em manuais de psicologia social publicados entre 1953 e 1984. A conclusão, publicada no European Journal of Social Psychology, foi que os autores muitas vezes distorceram os achados de Asch, e cada vez mais com o passar do tempo: realçaram a conformidade e subestimaram a independência. Entre as causas apontadas, está a leitura só dos números, sem as entrevistas, que teriam desencorajado a interpretação errada.

Isso não significa que Asch fosse otimista. No mesmo artigo de 1955, ele escreveu que era "motivo de preocupação" ver a tendência à conformidade tão forte que "jovens razoavelmente inteligentes e bem-intencionados" se dispunham "a chamar o branco de preto" (tradução nossa). Logo depois, pediu que ninguém subestimasse a capacidade de independência.

O que as réplicas encontraram

O efeito varia muito conforme o lugar, a época e quem está na sala.

Do primeiro relato às réplicas

  1. 1951Asch publica o primeiro relato, com 50 voluntários: um terço das respostas acompanha a maioria e 68% são corretas.
  2. Novembro de 1955O artigo na Scientific American leva o experimento ao grande público e traz as variações de tamanho do grupo e de aliado.
  3. 1956Sai a monografia completa, com 123 voluntários e 36,8% de respostas na direção da maioria.
  4. 1981Perrin e Spencer relatam uma réplica com estudantes britânicos em que houve adesão à maioria em 1 de 396 rodadas críticas.
  5. 1990Friend, Rafferty e Bramel mostram que os manuais de psicologia exageraram a conformidade ao contar o estudo.
  6. 1996Meta-análise de Bond e Smith reúne 133 estudos de 17 países e encontra queda da conformidade nos Estados Unidos desde os anos 1950.
  7. 2021Na Universidade de Berna, 210 participantes refazem o teste e erram 33% das vezes.

A réplica britânica de Perrin e Spencer, de 1981, não ficou só no quase zero. Os autores mostraram níveis parecidos com os de Asch quando não ceder tinha custo pessoal alto: jovens em liberdade condicional diante de um grupo e de um pesquisador que eram agentes de condicional.

A meta-análise de Rod Bond e Peter Smith, de 1996, também associou a conformidade à cultura: países mais coletivistas tenderam a mostrar índices mais altos que os mais individualistas.

A réplica mais recente, de Axel Franzen e Sebastian Mäder, foi feita entre março e abril de 2021 com 210 participantes, homens e mulheres, e cinco cúmplices por grupo. A taxa de erro foi de 33%, que os autores chamaram de replicação do resultado original. Quando cada resposta certa passou a valer um franco suíço, o erro caiu para 25%. Ou seja, mesmo hoje, a maioria das respostas continua contrariando o grupo, e o grupo continua pesando.

O que fica do experimento

O experimento de Asch mostra duas coisas ao mesmo tempo: uma maioria unânime consegue arrastar uma parte das respostas de quem enxerga a verdade, e a maior parte das respostas resiste. Basta um aliado, ou o direito de responder em silêncio, para a pressão perder a maior parte da força.

Se você se interessa por experimentos clássicos de psicologia que os arquivos contam de outro jeito, vale ler o que os papéis de Yale revelam sobre quem desconfiou e quem disse não no experimento de Milgram, e por que as 38 testemunhas do caso Kitty Genovese nunca existiram.

Outro resultado famoso que encolheu nas réplicas é o da pose de poder.

Fontes

  1. Studies of Independence and Conformity: I. A Minority of One Against a Unanimous Majority (1956), Solomon E. Asch, Psychological Monographs: General and Applied 70(9), 1–70
  2. Effects of Group Pressure upon the Modification and Distortion of Judgments (1951), Solomon E. Asch, em Groups, Leadership and Men (org. Harold Guetzkow), Carnegie Press
  3. Opinions and Social Pressure (1955), Solomon E. Asch, Scientific American 193(5), 31–35
  4. A puzzling misinterpretation of the Asch 'conformity' study (1990), Ronald Friend, Yvonne Rafferty e Dana Bramel, European Journal of Social Psychology 20(1), 29–44
  5. Independence or conformity in the Asch experiment as a reflection of cultural and situational factors (1981), Perrin e Spencer, British Journal of Social Psychology 20, 205–209
  6. Culture and conformity: A meta-analysis of studies using Asch's (1952b, 1956) line judgment task (1996), Rod Bond e Peter B. Smith, Psychological Bulletin 119(1), 111–137
  7. The power of social influence: A replication and extension of the Asch experiment (2023), Axel Franzen e Sebastian Mäder, PLOS ONE 18(11): e0294325

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

O que foi o experimento de Asch?
Uma série de estudos do psicólogo Solomon Asch, do Swarthmore College, publicada entre 1951 e 1956. Um estudante era colocado num grupo de sete a nove pessoas que precisavam dizer, em voz alta e em ordem, qual de três linhas tinha o mesmo comprimento de uma linha de referência. Todos os outros tinham sido combinados com o pesquisador para dar respostas erradas e unânimes em 12 das 18 rodadas. Asch queria saber quando a pessoa resistia e quando cedia ao grupo.
Quantas pessoas se conformaram no experimento de Asch?
Depende de como se conta. Na série principal, com 123 voluntários, 36,8% das respostas nas rodadas críticas seguiram o erro da maioria, e o restante foi independente. Um quarto dos voluntários (24%) nunca cedeu, cerca de 27% cederam de 8 a 12 vezes e só 6 acompanharam o grupo em todas as 12 rodadas. Contando quem cedeu pelo menos uma vez, chega-se a 76%. É desse número que sai a versão popular de que "três quartos se conformaram".
O experimento de Asch já foi replicado?
Sim, muitas vezes, com resultados variados. Uma meta-análise de 1996 reuniu 133 estudos de 17 países e encontrou queda da conformidade nos Estados Unidos desde os anos 1950. Em 1981, uma réplica com estudantes britânicos encontrou adesão à maioria em uma de 396 rodadas críticas. Já em 2021, na Universidade de Berna, 210 participantes erraram 33% das vezes, perto do número original de Asch.
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