A epidemia de riso de 1962 começou com três alunas e fechou escolas na Tanganica. O relatório médico fala em riso e choro, não em alegria
Um artigo de quatro páginas, publicado em 1963, registrou 95 de 159 alunas atingidas num internato, aldeias atingidas e exames normais. O diagnóstico foi histeria em massa, e a versão que circula hoje exagera quase tudo.

Em 30 segundos
- O surto começou em 30 de janeiro de 1962 com três alunas de um internato feminino em Kashasha, perto de Bukoba; em 18 de março, 95 das 159 alunas tinham sido atingidas e a escola fechou.
- O relatório de Rankin e Philip, de 1963, descreve episódios de riso e choro, não encontrou causa física e concluiu por histeria em massa.
- Alunas mandadas para casa levaram o surto a aldeias e a outra escola: em Nshamba, 217 pessoas foram atingidas.
- Relatos populares falam em país paralisado por meses e até em mil mortos; um pesquisador que revisou o caso argumenta que o episódio teve pouco a ver com riso e nada com humor.
Em 30 de janeiro de 1962, três alunas de um internato feminino mantido por uma missão em Kashasha, aldeia a 25 milhas (cerca de 40 km) de Bukoba, na então Tanganica, começaram a "agir de maneira anormal" (tradução nossa). Em 18 de março, quando a escola foi obrigada a fechar, 95 das 159 alunas tinham sido atingidas.
É assim, sem adjetivos, que começa o relato de A. M. Rankin e P. J. Philip publicado em maio de 1963 no Central African Journal of Medicine. São quatro páginas, uma delas ocupada por um mapa da região em torno do lago Vitória. É o documento de origem do que ficou conhecido como a epidemia de riso de Tanganica.
O que foi a epidemia de riso
Foi um surto de crises de riso e choro que começou numa escola, seguiu com as alunas mandadas para casa e chegou a aldeias e a outras escolas da região de Bukoba. Os exames não encontraram causa física. A conclusão dos autores cabe em duas frases: "Sugere-se que se trate de histeria em massa numa população suscetível. Esta é provavelmente uma doença determinada pela cultura" (tradução nossa).
Não conseguimos acessar o texto integral do relatório. O que segue se apoia nas citações e no resumo detalhado feitos pelo pesquisador Christian F. Hempelmann, que reexaminou o caso em 2007 na revista Humor. A avaliação dele é dura com quase todos os relatos posteriores: com exceção do original, são "exagerados, simplificados demais" e ignoram fatos centrais (tradução nossa).
Riso e choro, por dias
O relatório não fala em gargalhadas de alegria. Diz que a epidemia "foi caracterizada por episódios de riso e choro" (tradução nossa). Hempelmann observa que o que os autores relatam nas vítimas é desespero e confusão, longe de qualquer deleite.
Pelo resumo de Hempelmann, as crises duravam algumas horas e, em poucos casos, se estendiam até 16 dias, com média de 7. Depois vinha uma trégua e, na maioria dos casos, a recaída. Os autores registraram ainda inquietação geral e mania de perseguição, sem sinais físicos claros.
Para descartar causas orgânicas, pessoas selecionadas foram testadas para intoxicação alimentar e substâncias tóxicas. Os resultados foram negativos.
Há uma frase do relatório que mostra o olhar da época. Segundo os autores, "nenhum membro alfabetizado e relativamente sofisticado da sociedade foi atingido" (tradução nossa).

Da escola para as aldeias
A escola de Kashasha reabriu em 21 de maio. Até ser fechada de novo, no fim de junho, mais 57 alunas foram atingidas.
Nesse meio-tempo, o surto já tinha saído do internato com as alunas que foram mandadas ou voltaram para casa. Em Nshamba, aldeia a 55 milhas de Bukoba, 217 dos cerca de 10 mil moradores foram atingidos entre o fim de março e o fim de abril de 1962: crianças em idade escolar e jovens adultos dos dois sexos.
Na escola média feminina de Ramashenye, nos arredores de Bukoba, foram 48 de 154 alunas, entre 10 e 18 de junho. Em Kanyangereka, a família de uma aluna mandada para casa teve três casos. Quando o relatório foi escrito, outras duas escolas, de meninos, tinham fechado, e havia uma ocorrência mais branda numa escola primária em Mbarara, já em Uganda.
O surto segundo o relatório de 1963
- 9 de dezembro de 1961Tanganica se torna independente.
- 30 de janeiro de 1962Três alunas do internato de Kashasha começam a apresentar crises.
- 18 de março de 1962A escola fecha, com 95 das 159 alunas atingidas.
- Fim de março a fim de abril217 moradores de Nshamba são atingidos.
- 21 de maio de 1962Kashasha reabre; mais 57 alunas adoecem até o fechamento no fim de junho.
- 10 a 18 de junho de 196248 das 154 alunas da escola de Ramashenye são atingidas.
- Maio de 1963Rankin e Philip publicam o relato no Central African Journal of Medicine.

O que se conta e o que o relatório diz
A história ganhou o mundo com outra cara. Hempelmann reuniu exemplos. Um texto de 2000 conta que adolescentes começaram a rir, talvez por causa de uma piada, que o riso se espalhou "de comunidade em comunidade" (tradução nossa) e que a Tanganica riu por seis meses. Um livro de autoajuda de 1993 diz que professores, achando graça na "explosão espontânea e alegre" das alunas (tradução nossa), entraram na risada.
Um guia de humor sem data vai além e afirma que mil pessoas morreram na Tanganica e em Uganda. O próprio autor emenda que "o relato, ao que parece, precisaria de checagem detalhada" (tradução nossa). Hempelmann respondeu com uma palavra: "De fato".
A epidemia de riso: versão popular e relatório
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- A Tanganica inteira riu por meses.
- O relatório descreve surtos num internato, em aldeias e em outras escolas da região de Bukoba.
- Era riso alegre, que contagiava pela graça.
- Eram episódios de riso e choro, com inquietação e mania de perseguição.
- Os professores entraram na risada.
- O relatório diz que nenhum membro alfabetizado da sociedade foi atingido.
- Mil pessoas morreram na epidemia.
- Não houve mortes nem sequelas permanentes, segundo o resumo de Robert Provine.
Mesmo o número mais repetido, o de mil atingidos, não vem do relatório. Ele aparece no livro do pesquisador Robert Provine, de 2000: o surto teria cedido só em junho de 1964, depois de fechar temporariamente mais de 14 escolas e atingir cerca de mil pessoas na Tanganica e em Uganda. O relatório de Rankin e Philip, publicado em maio de 1963, só conta o que tinha acontecido até ali. Nas fontes que consultamos, não encontramos o documento de onde saem a data final e o total de Provine.
E há a fisiologia. Rir mobiliza músculos que normalmente não trabalham nessa fase da respiração e cansa depressa. Por isso, argumenta Hempelmann, rir sem parar por longos períodos é impossível: as crises só podiam durar segundos e se repetir em intervalos curtos, nunca por horas ou semanas.
Por que numa escola, e por que meninas
Em 1987, Simon Wessely propôs dividir a histeria em massa em dois quadros. Na histeria de ansiedade, a tensão prévia não existe, o contágio é rápido, pela visão, e o prognóstico é bom. Na histeria motora, há tensão acumulada antes, a difusão é gradual e o surto pode se prolongar. Wessely pôs o caso de Bukoba no segundo grupo.
John Waller, num artigo de 2009 para a Sociedade Britânica de Psicologia, lembra que a histeria motora coletiva costuma ocorrer em escolas e que as da África central são especialmente propensas a esses surtos. A predominância feminina também é regra: uma meta-análise de 2021 calculou que a taxa de ataque entre meninas é 2,43 vezes a dos meninos. Em Kashasha, foram atingidas quase 60% das alunas.
Hempelmann aponta o contexto. Tanganica tinha se tornado independente em 9 de dezembro de 1961, menos de dois meses antes do primeiro caso, e a separação racial nas escolas tinha sido abolida em 1º de janeiro de 1962. Some-se a isso o internato: adolescentes longe da família, diante de padrões de ensino e valores ocidentais.
Ele mesmo faz duas ressalvas. Rankin e Philip não registraram dados sobre as três primeiras alunas e suas relações com as demais, algo que hoje seria central. E qual desses fatores pesou mais "não pode mais ser decidido com clareza" (tradução nossa).
Também não foi um caso isolado. Em julho de 1963, em Kigezi, no sudoeste de Uganda, cerca de 600 pessoas foram atingidas por uma "mania de correr"; em novembro, em Mbale, no leste do país, cerca de 300. Os dois surtos se espalharam sobretudo entre escolares, no mesmo padrão de Bukoba.
Pouco riso, nenhum humor
Provine usou o episódio como exemplo do poder contagiante do riso. Hempelmann discorda: o que se espalhou foi a histeria, da qual o riso era só um sintoma entre outros. A conclusão dele resume a matéria inteira: "a boa notícia é que há um acontecimento real por trás dos relatos, mas a má notícia é que ele não tinha nada a ver com humor e muito pouco com riso" (tradução nossa).
Quem quer entender o que de fato passa de uma pessoa para outra pode começar pelo bocejo contagioso, cuja explicação mais famosa também não se sustenta. E o parente mais antigo da epidemia de riso está em Estrasburgo, onde centenas de pessoas dançaram sem parar em 1518, outro surto que a explicação mais aceita trata como doença psicogênica em massa.
Fontes
- An epidemic of laughing in the Bukoba district of Tanganyika (1963), A. M. Rankin e P. J. Philip, Central African Journal of Medicine, vol. 9, p. 167–170 (registro PubMed)
- The laughter of the 1962 Tanganyika ‘laughter epidemic’ (2007), Christian F. Hempelmann, Humor: International Journal of Humor Research, vol. 20, n. 1, p. 49–71
- Mass hysteria: two syndromes? (1987), Simon Wessely, Psychological Medicine, vol. 17, n. 1, p. 109–120
- Dancing plagues and mass hysteria (2009), John Waller, The Psychologist (British Psychological Society)
- Mass hysteria attack rates in children and adolescents: a meta-analysis (2021), Zhao, Cheng, Dong e Xie, Journal of International Medical Research, vol. 49, n. 12
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Perguntas frequentes
- O que foi a epidemia de riso de Tanganica?
- Foi um surto de crises de riso e choro que começou em 30 de janeiro de 1962 num internato feminino mantido por uma missão em Kashasha, a 25 milhas de Bukoba, na então Tanganica, hoje parte da Tanzânia. Até 18 de março, 95 das 159 alunas foram atingidas e a escola fechou. O surto passou para aldeias como Nshamba, onde 217 pessoas foram atingidas, e para outra escola feminina nos arredores de Bukoba. O relato original, de A. M. Rankin e P. J. Philip, saiu em 1963 no Central African Journal of Medicine.
- A epidemia de riso matou alguém?
- Não há registro de mortes. O pesquisador Robert Provine, num resumo do relatório original que o pesquisador Christian Hempelmann considera preciso, registra que as crises não causaram mortes nem sequelas permanentes. A afirmação de que mil pessoas morreram, que circula em textos populares, foi citada por Hempelmann justamente como exemplo de relato sem base.
- Qual foi a causa da epidemia de riso?
- Os exames feitos na época não acharam intoxicação alimentar nem substâncias tóxicas, e os autores do relatório concluíram que se tratava de histeria em massa numa população suscetível, provavelmente uma doença determinada pela cultura. Hoje o caso é classificado como doença psicogênica em massa do tipo motor. Hempelmann associa o surto ao estresse de um período de transição, com a independência do país em dezembro de 1961, a separação das famílias no internato e a adolescência, mas admite que não dá mais para saber qual fator pesou mais.
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