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Você provavelmente bocejou lendo este título. A explicação mais famosa para isso não se sustenta

A ideia de que bocejo contagioso mede empatia virou senso comum. O maior estudo já feito sobre o assunto não encontrou essa relação.

Por Redação Fatos e Relatos3 min de leitura
Pintura de Joseph Ducreux, de 1783, em que o próprio pintor aparece de casaco vermelho bocejando de boca escancarada e braços esticados.
Joseph Ducreux, Autorretrato bocejando, c. 1783, via Wikimedia Commons · Domínio público

Ler sobre bocejo já basta para provocar um. Ver alguém bocejar funciona melhor ainda, e ouvir também funciona. É um dos comportamentos humanos mais reconhecíveis que existem, e continua sem explicação fechada.

O que existe é uma explicação popular, repetida em reportagem e em aula de psicologia, que a evidência mais forte não sustenta.

A hipótese da empatia

A versão que todo mundo conhece diz assim: bocejo contagioso é um mecanismo de sincronização social, ligado à capacidade de sentir o que o outro sente, e mediado pelos neurônios-espelho, células que disparam tanto quando executamos uma ação quanto quando vemos alguém executá-la.

A hipótese não veio do nada. Vários estudos encontraram indícios nessa direção.

O mais citado é de 2011, dos pesquisadores Ivan Norscia e Elisabetta Palagi, da Universidade de Pisa. Eles observaram mais de cem pessoas em situações cotidianas, em vários países, e registraram quem bocejava em resposta a quem.

O achado foi elegante: o bocejo pegava mais entre parentes próximos, um pouco menos entre amigos, menos ainda entre conhecidos e pouquíssimo entre estranhos. A distância social previa o contágio melhor que a nacionalidade ou o sexo.

É um resultado real e bem construído. E foi ele que consolidou a ideia de que bocejo mede vínculo afetivo.

O estudo que não encontrou o efeito

Em 2014, Elizabeth Bartholomew e Elizabeth Cirulli, da Universidade Duke, fizeram o teste mais direto até então.

Elas recrutaram 328 pessoas, mostraram a cada uma um vídeo de três minutos com pessoas bocejando e contaram os bocejos. Além disso, aplicaram testes padronizados de empatia, mediram inteligência, nível de cansaço, horário do dia e coletaram material genético.

Os resultados:

  • Cerca de 222 dos 328 bocejaram pelo menos uma vez assistindo ao vídeo.
  • A suscetibilidade de cada pessoa foi muito estável: quem bocejava muito numa sessão bocejava muito na repetição, semanas depois.
  • Empatia não previu nada. Nem inteligência, nem cansaço, nem hora do dia.
  • O único fator com efeito consistente foi a idade, e mesmo assim fraco: pessoas mais velhas bocejavam um pouco menos. E a idade explicava apenas cerca de 8% da variação entre as pessoas.

Ou seja: existe uma diferença grande e persistente entre indivíduos, ela parece ser uma característica estável de cada um, e mais de 90% dela permanece sem explicação.

Por que as duas coisas podem ser verdade

Vale resistir à tentação de dizer que um estudo derrubou o outro. Eles mediram coisas diferentes.

Norscia e Palagi observaram quem boceja em resposta a quem, em ambiente real, e encontraram efeito da proximidade social. Bartholomew e Cirulli mediram o quanto cada pessoa é suscetível, em laboratório, e não encontraram correlação com empatia medida em teste.

É possível que a proximidade social module o contágio sem que a empatia individual explique a diferença entre as pessoas. Também é possível que testes de empatia por questionário simplesmente não capturem o que importa aqui.

O que não se sustenta é a versão simplificada que circula: a de que quem não pega bocejo tem menos empatia. Isso é afirmação sobre indivíduos, e é exatamente o que o estudo com 328 pessoas testou e não achou.

O detalhe que amarra tudo

Bocejo contagioso não é exclusividade humana. Já foi documentado em chimpanzés, bonobos, macacos, elefantes, periquitos e ratos.

E há um caso especialmente incômodo para a hipótese da empatia: cães bocejam em resposta a bocejos humanos, inclusive de pessoas que acabaram de conhecer.

Isso é difícil de explicar por vínculo afetivo, e mais fácil de explicar por algo bem mais antigo e mais burro: um reflexo de sincronização que grupos de animais herdaram porque manter o bando no mesmo estado de alerta era útil.

O bocejo pode não ser sinal de que você entende os outros. Pode ser só um resquício de quando o grupo precisava dormir e acordar junto.

Fontes

  1. Yawn Contagion and Empathy in Homo sapiens (2011), Ivan Norscia e Elisabetta Palagi, Universidade de Pisa, PLOS ONE
  2. Individual Variation in Contagious Yawning Susceptibility Is Highly Stable and Largely Unexplained by Empathy or Other Known Factors (2014), Bartholomew e Cirulli, Universidade Duke, PLOS ONE

Perguntas frequentes

Por que bocejo é contagioso?
Não há explicação fechada. A hipótese mais divulgada liga o fenômeno à empatia e aos neurônios-espelho, mas o maior estudo já feito sobre o tema não encontrou relação entre empatia e suscetibilidade ao bocejo contagioso.
Todo mundo pega bocejo?
Não. Nos estudos, algo entre 40% e 60% das pessoas bocejam em resposta ao bocejo alheio, e essa característica é bastante estável em cada indivíduo ao longo do tempo.
Quem não pega bocejo tem menos empatia?
Não há base para afirmar isso. O estudo da Universidade Duke, com 328 participantes, testou empatia, inteligência, cansaço e horário do dia, e nenhum desses fatores explicou a diferença. O único fator com efeito consistente foi a idade, e ainda assim modesto.
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