Você provavelmente bocejou lendo este título. A explicação mais famosa para isso não se sustenta
A ideia de que bocejo contagioso mede empatia virou senso comum. O maior estudo já feito sobre o assunto não encontrou essa relação.

Em 30 segundos
- Em estudos controlados, de 40% a 60% das pessoas bocejam ao ver alguém bocejar; ler, ouvir ou pensar em bocejo também dispara o reflexo.
- Um estudo italiano de 2011 com 109 adultos viu o bocejo pegar mais entre parentes, depois amigos, conhecidos e, por último, estranhos.
- Um estudo da Universidade Duke com 328 pessoas, em 2014, não encontrou efeito da empatia: só a idade pesou, e explicou apenas 8% da diferença entre as pessoas.
- Cães bocejam ao ver um estranho bocejar, e ratos estranhos entre si contagiam mais que companheiros de gaiola.
Ler sobre bocejo já basta para provocar um. Ver alguém bocejar funciona, ouvir também, e até pensar no assunto. Em estudos controlados, de 40% a 60% das pessoas bocejam diante do bocejo alheio.
É um dos comportamentos humanos mais reconhecíveis que existem, e continua sem explicação fechada. O que existe é uma explicação popular, repetida em reportagem e em aula de psicologia, que a evidência mais forte não sustenta.
A hipótese da empatia
A versão que todo mundo conhece diz assim: bocejo contagioso é um mecanismo de sincronização social, ligado à capacidade de sentir o que o outro sente, e mediado pelos neurônios-espelho, células que disparam tanto quando executamos uma ação quanto quando vemos alguém executá-la.
A hipótese não veio do nada. Vários indícios apontavam nessa direção. O contágio só aparece por volta dos 4 ou 5 anos, idade em que as crianças passam a identificar melhor as emoções dos outros. É menor em pessoas com autismo. Alguns estudos encontraram relação com notas em testes de empatia, e exames de imagem do cérebro reforçaram a ligação.
Um dos estudos mais conhecidos é de 2011, dos pesquisadores Ivan Norscia e Elisabetta Palagi, da Universidade de Pisa. Durante um ano, entre 2010 e 2011, eles observaram 109 adultos em situações cotidianas, 56 mulheres e 53 homens, vindos da Europa, da América do Norte, da Ásia e da África.
Cada vez que alguém bocejava, eles anotavam quem estava a até três metros, se via ou ouvia o bocejo, e se respondia em até três minutos. Registraram 613 episódios e analisaram 480 em que a resposta podia ser atribuída com clareza a um bocejo específico.
O achado foi elegante: o bocejo pegava mais entre parentes, depois entre amigos, depois entre conhecidos e, por último, entre estranhos. Entre estranhos e conhecidos, a resposta também demorava mais. Sexo e país de origem não fizeram diferença.
É um resultado real e bem construído. E foi ele que consolidou a ideia de que bocejo mede vínculo afetivo.

O estudo que não encontrou o efeito
Em 2014, Alex Bartholomew e Elizabeth Cirulli, do Centro de Variação do Genoma Humano da Universidade Duke, nos Estados Unidos, fizeram o que chamaram de caracterização mais completa até então dos fatores que influenciam o bocejo contagioso.
Os pesquisadores recrutaram 328 pessoas, de 18 a 83 anos, mostraram a cada uma um vídeo de três minutos com gente bocejando e contaram os bocejos. Além disso, aplicaram uma bateria de testes cognitivos e um questionário com medidas de empatia, contágio emocional, ritmo de energia ao longo do dia e sonolência. Parte fez o teste no laboratório, parte pela internet.
Os resultados:
- 222 dos 328 bocejaram pelo menos uma vez assistindo ao vídeo, ou 67,7%. O número variou de zero a 15 bocejos.
- A suscetibilidade de cada pessoa foi muito estável: quem repetiu o teste, em média dois a três meses depois, respondeu de forma parecida, no laboratório ou em casa.
- Quem não bocejou, na maioria, não estava se segurando: 59% disseram que nem sentiram vontade.
- Empatia não previu nada, assim como inteligência e hora do dia, depois de levar em conta a idade.
- O único fator com efeito foi a idade: pessoas mais velhas bocejavam menos. E a idade explicava apenas 8% da variação entre as pessoas.
Ou seja: existe uma diferença grande e persistente entre indivíduos, ela parece ser uma característica estável de cada um, e mais de 90% dela permanece sem explicação. Os autores sugerem estudar se ela é herdada.
Por que as duas coisas podem ser verdade
Vale resistir à tentação de dizer que um estudo derrubou o outro. Eles mediram coisas diferentes.
Norscia e Palagi observaram quem boceja em resposta a quem, em ambiente real, e encontraram efeito da proximidade social. Bartholomew e Cirulli mediram o quanto cada pessoa é suscetível, diante de um vídeo, e não encontraram correlação com empatia medida em questionário.
É possível que a proximidade social module o contágio sem que a empatia individual explique a diferença entre as pessoas. Também é possível que testes de empatia por questionário simplesmente não capturem o que importa aqui.
Em 2017, os pesquisadores Jorg Massen e Andrew Gallup revisaram sistematicamente as evidências: diferenças individuais, efeito da familiaridade e do sexo, transtornos psicológicos, desenvolvimento infantil e imagens do cérebro. O veredito foi de um padrão inconsistente e inconclusivo. Eles apontaram ainda fatores que confundem as medições, como a atenção visual e a inibição social.
O que não se sustenta é a versão simplificada que circula: a de que quem não pega bocejo tem menos empatia. Isso é afirmação sobre indivíduos, e é exatamente o que o estudo com 328 pessoas testou e não achou. Não é a primeira vez que um resultado vistoso encolhe diante de uma amostra maior, como mostrou a réplica do teste do marshmallow.
O que se diz e o que os estudos mostram
Em cada item, primeiro: o que se diz. Depois: o que os estudos mostram.
- Quem não pega bocejo tem menos empatia.
- Num teste com 328 pessoas, empatia medida em questionário não previu quem bocejava.
- Todo mundo pega bocejo.
- De 40% a 60% das pessoas respondem em estudos controlados; no estudo da Duke, 67,7%.
- O bocejo contagioso é coisa de humanos e primatas.
- Foi registrado em cães, periquitos, ratos e elefantes.
- Quanto mais próximo, mais contágio, em qualquer espécie.
- Em ratos, os estranhos se contagiaram e os companheiros de gaiola, não.
O detalhe que complica tudo
Bocejo contagioso não é exclusividade humana. Em 2004, uma equipe liderada por James Anderson mostrou vídeos de chimpanzés bocejando a seis fêmeas adultas da espécie; duas bocejaram bem mais com esses vídeos do que com cenas de boca aberta sem bocejo.
E há os cães. Em 2008, pesquisadores da Universidade de Londres puseram 29 cães diante de uma pessoa que bocejava. A pessoa era um estranho para eles. Vinte e um bocejaram de volta; nenhum bocejou quando o estranho só abria e fechava a boca.
Os próprios autores levantaram a hipótese de que cães tenham uma forma rudimentar de empatia. Mas também lembraram que o bocejo regula o nível de alerta, e que o contágio pode servir para coordenar a interação entre cães e humanos. Os autores lembram que cães são especialmente hábeis em ler sinais humanos, uma habilidade animal que já confundiu muita gente, como no caso do cavalo que "fazia contas".
Os dados de outras espécies puxam para lados diferentes. Em chimpanzés, um estudo de 2011 encontrou mais contágio diante de bocejos de indivíduos conhecidos. Em ratos, um estudo de 2015 encontrou o contrário: ratos estranhos entre si bocejaram por contágio, e companheiros de gaiola, não. Em 2015 veio também o primeiro registro experimental fora dos mamíferos, em periquitos. E, em 2020, três de sete elefantes africanos em cativeiro testados responderam até a bocejos encenados por tratadores conhecidos.
Isso é difícil de encaixar numa explicação só por vínculo afetivo. Uma alternativa, discutida pelos próprios pesquisadores, é algo mais antigo e menos sofisticado: um mecanismo de sincronização do nível de alerta entre indivíduos que convivem.
O bocejo pode não ser sinal de que você entende os outros. Pode ser só uma forma de o grupo entrar no mesmo ritmo.
Outra resposta do corpo cuja explicação popular não fecha é a dos dedos que enrugam na água.
E, para um contágio que fechou escolas, há a epidemia de riso de 1962 na Tanganica.
Fontes
- Yawn Contagion and Empathy in Homo sapiens (2011), Ivan Norscia e Elisabetta Palagi, Universidade de Pisa, PLOS ONE
- Individual Variation in Contagious Yawning Susceptibility Is Highly Stable and Largely Unexplained by Empathy or Other Known Factors (2014), Alex J. Bartholomew e Elizabeth T. Cirulli, Universidade Duke, PLOS ONE
- Why contagious yawning does not (yet) equate to empathy (2017), Jorg Massen e Andrew Gallup, Neuroscience and Biobehavioral Reviews
- Dogs catch human yawns (2008), Joly-Mascheroni, Senju e Shepherd, Birkbeck, Universidade de Londres, Biology Letters
- Contagious yawning in chimpanzees (2004), Anderson, Myowa-Yamakoshi e Matsuzawa, Proceedings of the Royal Society B
- Smell facilitates auditory contagious yawning in stranger rats (2015), Moyaho et al., Animal Cognition
- Experimental evidence of contagious yawning in budgerigars (2015), Gallup et al., Animal Cognition
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Perguntas frequentes
- Por que bocejo é contagioso?
- Não há explicação fechada. A hipótese mais divulgada liga o fenômeno à empatia e aos neurônios-espelho, mas o maior estudo já feito sobre diferenças individuais, com 328 pessoas na Universidade Duke, não encontrou relação entre empatia e suscetibilidade ao bocejo contagioso, e uma revisão de 2017 classificou as evidências como inconsistentes e inconclusivas.
- Todo mundo pega bocejo?
- Não. Em estudos controlados, algo entre 40% e 60% das pessoas bocejam em resposta ao bocejo alheio. No estudo da Duke, 222 dos 328 participantes bocejaram ao menos uma vez, e a suscetibilidade de cada pessoa se mostrou muito estável quando o teste foi repetido meses depois.
- Quem não pega bocejo tem menos empatia?
- Não há base para afirmar isso. O estudo da Universidade Duke, com 328 participantes, testou empatia, inteligência, cansaço e horário do dia, e nenhum desses fatores explicou a diferença. O único fator com efeito foi a idade, que explicou apenas 8% da variação.
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