O teste do marshmallow previa o sucesso de uma criança pela capacidade de esperar 15 minutos. A réplica com 900 crianças encontrou outra coisa
Walter Mischel deixou crianças de quatro anos sozinhas com um doce e descobriu que as que esperavam tinham notas melhores anos depois. Em 2018, uma amostra dez vezes maior mostrou que metade do efeito sumia — e o que sobrava tinha mais a ver com a casa da criança do que com a força de vontade dela.

Uma criança de quatro anos, sozinha numa sala, com um marshmallow na frente e uma promessa: se esperar até o adulto voltar, ganha dois. É provavelmente o experimento de psicologia mais fácil de explicar já feito, e um dos mais citados: a capacidade de esperar aos quatro anos previa notas, competência e sucesso décadas depois.
Em 2018, uma equipe refez o teste com uma amostra dez vezes maior e mais parecida com a população real. Metade do efeito desapareceu. A outra metade encolheu quando se olhou para a casa em que a criança vivia.
O que Mischel fez
Walter Mischel começou os experimentos na creche Bing, da Universidade Stanford, em 1970. O primeiro estudo, com Ebbe Ebbesen, nem usava marshmallow: usava biscoitos de animais e palitos de pretzel, com 32 crianças de três anos e meio a cinco anos e oito meses. A hipótese inicial era que deixar a recompensa à vista faria a criança esperar mais, por lembrá-la do motivo da espera.
Aconteceu o oposto. Com o doce na frente, as crianças aguentavam menos. A recompensa visível aumentava a frustração em vez de sustentar a paciência. Os autores registraram as estratégias das que conseguiam esperar: cobriam os olhos com as mãos, apoiavam a cabeça nos braços, falavam sozinhas, cantavam, inventavam jogos com as mãos e os pés — e uma tentou dormir, com sucesso.
O estudo que ficou famoso veio em 1972, com Ebbesen e Zeiss, e foi esse que usou marshmallows. A pergunta era outra: distrair a criança — com um brinquedo, ou pedindo que pensasse em coisas divertidas — aumentava a espera? Aumentava. O teste, portanto, foi desenhado para estudar como se espera, não para prever o futuro de ninguém.
Um detalhe do procedimento importa para o que vem depois: antes da espera, a criança fazia um jogo em que tocava uma campainha e o pesquisador voltava imediatamente. Só quando ela entendia que o adulto cumpria a promessa é que a espera começava. As crianças de Stanford não tinham motivo para duvidar de que o segundo marshmallow viria.
Os acompanhamentos
O que transformou o experimento em lenda foi o que veio anos depois. Em 1988, o primeiro acompanhamento mostrou que as crianças que haviam esperado mais eram descritas pelos pais, mais de dez anos depois, como adolescentes "significativamente mais competentes". Em 1989, Mischel, Yuichi Shoda e Monica Rodriguez resumiram o programa de pesquisa na revista Science: quem adiava a recompensa aos quatro anos tinha, na adolescência, melhor desempenho escolar e lidava melhor com frustração e estresse. Em 1990, Shoda, Mischel e Philip Peake encontraram correlação com notas mais altas no SAT, o exame de admissão às universidades americanas.
A partir daí o teste virou metáfora. Autocontrole aos quatro anos como destino. Programas para ensinar crianças a esperar. Um doce como previsão de vida.
Mischel, é justo dizer, avisou o tempo todo que amostras maiores dariam efeitos menores e que o ambiente familiar podia pesar mais do que o teste conseguia mostrar. O aviso não sobreviveu à popularização.
A réplica
Em 2018, Tyler Watts, Greg Duncan e Haonan Quan publicaram na Psychological Science o que chamaram de réplica conceitual. Em vez de repetir o procedimento exato de Stanford, testaram a mesma relação — esperar aos quatro anos e ir bem aos 15 — com dados de mais de 900 crianças de um estudo longitudinal do Instituto Nacional de Saúde Infantil dos Estados Unidos, geograficamente diverso. Concentraram a análise nas crianças cujas mães não tinham diploma universitário, um grupo muito mais parecido com a população americana do que os filhos de professores e alunos de Stanford.
Os resultados:
- Cada minuto a mais de espera aos quatro anos previa um ganho de cerca de um décimo de desvio-padrão no desempenho aos 15. Existe, mas é pequeno.
- Essa correlação era metade da encontrada nos estudos originais.
- Quando se controlava a origem familiar, a capacidade cognitiva precoce e o ambiente doméstico, ela caía dois terços.
- A maior parte da variação vinha de conseguir esperar pelo menos 20 segundos. Passar de 5 para 15 minutos quase não mudava nada.
- A relação com problemas de comportamento aos 15 anos era muito menor e raramente significativa.
A conclusão dos autores foi direta: uma intervenção que ensine uma criança a esperar, mas não mude suas capacidades cognitivas e comportamentais mais gerais, "provavelmente terá efeitos muito pequenos" sobre o que vem depois.
Em 2020, Armin Falk, Fabian Kosse e Pia Pinger publicaram uma comparação direta entre o estudo de 1990 e o de 2018, e a discussão continua. Mas o ponto central não foi contestado: o marshmallow prevê menos do que se dizia, e boa parte do que ele prevê é a casa da criança, não a criança.
O detalhe que amarra tudo
Há um experimento menor, de 2013, que talvez explique melhor do que qualquer réplica o que o marshmallow mede.
Celeste Kidd, Holly Palmeri e Richard Aslin, na Universidade de Rochester, fizeram o teste com 28 crianças de cerca de quatro anos e meio, com uma mudança antes de começar. Metade delas passou por uma experiência em que o adulto prometeu algo e cumpriu. A outra metade passou por uma experiência em que o adulto prometeu algo melhor e não entregou.
Depois, o marshmallow.
As crianças que tinham visto o adulto cumprir a promessa esperaram significativamente mais — em média, cerca de 12 minutos, perto do limite do teste. As que tinham sido enganadas comeram o doce em poucos minutos.
Não porque tivessem menos autocontrole. Porque tinham acabado de aprender que, naquele ambiente, esperar não compensa. Comer o marshmallow que está na mesa, quando o segundo pode nunca vir, é a decisão racional.
Isso reorganiza a leitura de tudo o que veio antes. Uma criança que cresce numa casa onde a comida às vezes falta, onde as promessas nem sempre são cumpridas, onde o amanhã é incerto, tem boas razões para pegar o que está à mão. E é exatamente esse tipo de criança que estava sub-representado na creche de Stanford e presente na amostra de 2018.
O teste do marshmallow talvez meça autocontrole. Mas mede, antes disso, quanto a criança acredita que o mundo cumpre o que promete. E isso não é uma virtude que se ensina com um doce. É uma informação que ela coletou nos quatro anos anteriores.
Se te interessa como um experimento limpo vira, na versão popular, uma conclusão que ele não sustenta, vale ler sobre o bebê que Watson ensinou a ter medo de ratos e sobre o cavalo que fazia contas e enganou os cientistas por anos — dois casos em que a pergunta certa não era "o que o sujeito faz", mas "o que ele aprendeu sobre quem está olhando".
Fontes
- Delay of gratification in children (1989), Mischel, Shoda e Rodriguez, Science 244(4907), 933–938
- Predicting adolescent cognitive and self-regulatory competencies from preschool delay of gratification (1990) — PDF, Shoda, Mischel e Peake, Developmental Psychology 26(6), 978–986
- Revisiting the Marshmallow Test: A Conceptual Replication Investigating Links Between Early Delay of Gratification and Later Outcomes (2018), Watts, Duncan e Quan, Psychological Science 29(7), 1159–1177
- Rational snacking: young children's decision-making on the marshmallow task is moderated by beliefs about environmental reliability (2013), Kidd, Palmeri e Aslin, Cognition 126(1), 109–114
- Re-Revisiting the Marshmallow Test (2020), Falk, Kosse e Pinger, Psychological Science 31(1), 100–104
- A New Approach to the Marshmallow Test Yields Complicated Findings, Association for Psychological Science, Observer
Perguntas frequentes
- O que é o teste do marshmallow?
- Uma série de experimentos conduzidos por Walter Mischel e colegas na creche Bing, da Universidade Stanford, a partir de 1970. Uma criança de cerca de quatro anos ficava sozinha numa sala com um doce e a promessa de ganhar dois se esperasse até o pesquisador voltar, em geral por até 15 minutos. Ela podia tocar uma campainha a qualquer momento para chamá-lo de volta e comer o doce que estava ali.
- O que os acompanhamentos mostraram?
- Nas décadas seguintes, Mischel e colegas encontraram que as crianças que esperaram mais eram descritas pelos pais como adolescentes mais competentes e tinham notas mais altas no SAT, o exame de admissão universitária americano. Esses resultados, publicados em 1988, 1989 e 1990, transformaram o teste num símbolo do autocontrole.
- O que a réplica de 2018 encontrou?
- Watts, Duncan e Quan usaram dados de mais de 900 crianças de um estudo nacional americano, concentrando-se nas filhas de mães sem diploma universitário. A correlação entre esperar e o desempenho aos 15 anos existia, mas era metade da original, e caía dois terços quando se controlava a origem familiar, a capacidade cognitiva precoce e o ambiente doméstico. A maior parte da diferença vinha de conseguir esperar pelo menos 20 segundos.
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