Em 1920, dois psicólogos ensinaram um bebê de 11 meses a ter medo de ratos. Um século depois, ninguém sabe ao certo quem ele era
O experimento do Pequeno Albert é o mais citado dos livros de psicologia — e quase tudo o que os livros contam sobre ele está errado. A leitura do relato original de Watson e Rayner mostra outro experimento, e a busca pela identidade do bebê virou uma briga acadêmica que ainda não acabou.

Em 1920, o psicólogo John B. Watson e sua assistente Rosalie Rayner publicaram um artigo de 14 páginas descrevendo como haviam ensinado um bebê saudável de 11 meses a ter medo de um rato branco. O caso entrou em todos os manuais de psicologia do século XX.
Quase tudo que os manuais contam está errado. E a pergunta mais simples de todas — quem era aquele bebê — continua sem resposta definitiva.
O que Watson realmente fez
O relato original está disponível na íntegra, e vale ler, porque ele é mais estranho do que a versão resumida.
Albert B. — o nome é um pseudônimo — foi criado quase desde o nascimento no Harriet Lane Home, um hospital infantil ligado à Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. A mãe era ama de leite ali. Watson o descreveu como "saudável desde o nascimento e um dos bebês mais bem desenvolvidos já trazidos ao hospital", com 9,5 quilos aos nove meses, "no geral impassível e sem emoção". Foi essa estabilidade que o tornou o candidato ideal: os autores escreveram que "sentiam que poderiam fazer a ele relativamente pouco mal".
Aos oito meses e 26 dias, testaram se um som alto o assustava. Um dos experimentadores atraía a atenção do bebê; o outro, atrás dele, golpeava com um martelo uma barra de aço de 1,2 metro de comprimento. O bebê estremecia, prendia a respiração, levantava os braços. Na terceira batida, chorou.
O condicionamento começou aos 11 meses e 3 dias. O rato branco era colocado diante de Albert; no instante em que a mão dele tocava o animal, vinha a batida na barra. Foram sete pareamentos, em duas sessões separadas por uma semana. Ao final, o rato apresentado sozinho bastava: "No instante em que o rato foi mostrado, o bebê começou a chorar. Quase imediatamente virou-se bruscamente para a esquerda, caiu sobre o lado esquerdo, ergueu-se sobre as quatro patas e começou a engatinhar para longe tão rapidamente que foi pego com dificuldade antes de chegar à borda da mesa."
Cinco dias depois, testaram a generalização. Albert reagiu com medo a um coelho, a um cachorro, a um casaco de pele de foca. Reagiu de forma "negativa" a uma máscara de Papai Noel com barba de algodão e ao cabelo de Watson, que abaixou a cabeça para que o bebê a tocasse. Brincou normalmente com blocos de madeira e com o cabelo de dois assistentes.
O que os livros acrescentaram
Em 1979, o psicólogo Ben Harris publicou um artigo com um título que resume o problema: Whatever Happened to Little Albert? Ele foi conferir o que os manuais universitários diziam sobre o caso e comparou com o texto de 1920.
O catálogo de invenções é longo. Livros afirmam que Albert passou a temer todo objeto branco e peludo — mas os objetos que mais o assustaram (o coelho, o cachorro, o casaco de pele de foca, o cabelo de Watson) não eram brancos, e ele não temia tudo que tinha pelo. Para caber numa teoria mais simples, surgiram nos livros estímulos que nunca existiram: um coelho branco, uma luva branca, um casaco de pele da mãe de Albert, uma tia que usava pele, e até um ursinho de pelúcia.
E surgiu um final feliz. Vários manuais afirmam que Watson removeu o medo de Albert depois do experimento, alguns descrevendo o processo em detalhe.
Não removeu. O próprio artigo de 1920 diz: "Infelizmente Albert foi levado do hospital no dia em que os testes acima foram feitos. Portanto a oportunidade de construir uma técnica experimental por meio da qual pudéssemos remover as respostas emocionais condicionadas nos foi negada." Harris acrescenta um detalhe que a frase esconde: pelo relato dos próprios autores, eles sabiam com um mês de antecedência o dia em que o bebê iria embora. Usaram esse mês para testar se o medo persistia — e persistiu, ainda que atenuado — em vez de tentar desfazê-lo.
O trabalho de remover medos condicionados em crianças foi feito depois, por Mary Cover Jones, com outro menino, chamado Peter, num estudo que Watson supervisionou.
O tom do artigo
Há uma passagem no fim do texto de 1920 que mostra como Watson via o que tinha feito. Ele imagina Albert adulto, daqui a vinte anos, deitado no divã de um psicanalista, tentando explicar seu medo de casacos de pele de foca. O analista, escreve Watson com ironia, provavelmente extrairia dele um sonho mostrando que aos três anos ele tentou brincar com os pelos pubianos da mãe e foi severamente repreendido.
É uma piada contra Freud. É também a confirmação de que Watson achava provável que o medo durasse a vida inteira — e não fez nada a respeito.
Quem era Albert
Por 90 anos, a identidade do bebê foi um mistério, e a lenda dizia que a mãe descobriu os testes, pegou o filho e sumiu.
Em 2009, o psicólogo Hall Beck e colegas publicaram os resultados de uma investigação de anos: correspondência de Watson, o censo de 1920, registros de nascimento e morte. Concluíram que Albert era Douglas Merritte, filho de Arvilla Merritte, ama de leite no Harriet Lane Home. Douglas morreu em 1925, aos seis anos, de hidrocefalia.
Em 2012, o mesmo grupo foi além: analisando o filme que Watson fez do bebê e prontuários recém-descobertos, afirmou que Douglas tinha hidrocefalia congênita e problemas neurológicos graves na época dos testes — ou seja, que o "bebê saudável" de Watson não era saudável, e que Watson provavelmente sabia disso e escondeu.
A acusação era pesada. E outra equipe foi conferir.
Em 2014, Russell Powell, Nancy Digdon, Ben Harris e Christopher Smithson apresentaram um segundo candidato: Albert Barger. Nascido com um dia de diferença de Douglas, filho de outra funcionária do mesmo hospital, com peso e desenvolvimento compatíveis com as anotações de Watson. E um detalhe decisivo: Watson registrou que Albert tinha 12 meses e 21 dias no dia em que "foi levado do hospital". É exatamente a idade que Albert Barger tinha quando saiu de lá.
Quando tiveram acesso ao prontuário de Douglas Merritte, os pesquisadores encontraram a anotação de que ele era "completamente cego" — o que não combina com um bebê que, no filme, olha para objetos e para as pessoas ao redor.
Albert Barger morreu em 2007, aos 87 anos, sem saber que era personagem de livro didático. A sobrinha contou aos pesquisadores que o tio tinha aversão a cachorros — a família precisava trancar os animais em outro cômodo quando ele visitava. Ninguém pode dizer se isso tinha alguma relação com 1920. Os próprios autores fizeram questão de anotar que não havia como saber.
O detalhe que amarra tudo
A parte mais reveladora dessa história não é o rato nem o martelo. É a facilidade com que um único bebê, um único experimento sem grupo de controle e um artigo de 14 páginas viraram, nas mãos de gerações de autores, um caso limpo, com estímulos que não existiram e um final que não houve.
Harris propôs uma explicação para as distorções: os autores dos manuais não liam o original. Liam uns aos outros. E cada um ajustava o relato para caber melhor na teoria que queria ensinar.
O experimento que existiu de verdade é mais modesto e mais incômodo: um bebê condicionado a chorar diante de um rato, com um medo que se espalhou de forma irregular, que enfraqueceu em um mês sem sumir, e que ninguém tentou desfazer. E um pesquisador que sabia com antecedência quando o bebê iria embora.
Hoje o estudo não seria aprovado por nenhum comitê de ética. Mas a lição dele não é só sobre ética. É sobre o que acontece com um fato quando ele passa por muitas mãos.
Se a distância entre o experimento real e o experimento contado te interessa, vale ler sobre o cavalo que "fazia contas" e o que ele estava lendo nos cientistas — o caso que ensinou a psicologia a desconfiar do próprio observador — e sobre Henry Molaison, o paciente que virou o caso mais estudado da história da memória, outro sujeito de pesquisa que nunca soube o tamanho do que estava ensinando.
Fontes
- Conditioned Emotional Reactions (1920) — texto integral do artigo original, John B. Watson e Rosalie Rayner, Journal of Experimental Psychology 3(1), 1–14. Classics in the History of Psychology, York University
- Whatever Happened to Little Albert? (1979), Ben Harris, American Psychologist 34(2), 151–160
- Finding Little Albert: a journey to John B. Watson's infant laboratory (2009), Beck, Levinson e Irons, American Psychologist 64(7)
- Little Albert: a neurologically impaired child (2012), Fridlund, Beck, Goldie e Irons, History of Psychology 15(4)
- Correcting the record on Watson, Rayner, and Little Albert: Albert Barger as "psychology's lost boy" (2014), Powell, Digdon, Harris e Smithson, American Psychologist 69(6)
- Little Albert's alleged neurological impairment: Watson, Rayner, and historical revision (2014), Digdon, Powell e Harris, History of Psychology 17(4)
Perguntas frequentes
- O que foi o experimento do Pequeno Albert?
- Um estudo conduzido por John B. Watson e Rosalie Rayner na Universidade Johns Hopkins, publicado em 1920. Eles apresentaram um rato branco a um bebê de 11 meses e, cada vez que ele tocava o animal, batiam com um martelo numa barra de aço atrás dele. Depois de sete pareamentos, o bebê chorava e se afastava só de ver o rato. O medo se estendeu a um coelho, um cachorro e um casaco de pele de foca.
- O medo foi removido depois?
- Não. Watson e Rayner registraram que Albert deixou o hospital no mesmo dia dos últimos testes, e por isso não tentaram nenhuma técnica para desfazer o condicionamento. Vários livros didáticos inventaram um final feliz em que o medo teria sido removido; isso não aconteceu.
- Quem era o Pequeno Albert?
- Há duas candidaturas. Em 2009, uma equipe liderada por Hall Beck identificou Douglas Merritte, filho de uma ama de leite do hospital, que morreu aos seis anos de hidrocefalia. Em 2014, outra equipe apontou Albert Barger, nascido no mesmo dia, cuja mãe também trabalhava no hospital e que deixou a instituição exatamente na idade registrada por Watson. Barger morreu em 2007, aos 87 anos.
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