O experimento de Milgram é lembrado pelos 26 homens que foram até os 450 volts. Os arquivos de Yale mostram quem desconfiou e quem disse não
Em 1963, Stanley Milgram contou que dois terços dos voluntários obedeceram até o fim. Os papéis dele, guardados em Yale, revelam 23 versões do estudo, uma análise de crença que ficou na gaveta e um pesquisador que saía do roteiro.

Em 30 segundos
- No artigo de 1963, 26 dos 40 homens aplicaram o choque máximo de 450 volts; nenhum parou antes dos 300 volts.
- Milgram fez 23 versões do experimento. Somadas as 21 comparáveis, 323 de 740 participantes (43,6%) foram até o fim.
- Uma análise de 1962 do assistente Taketo Murata, nunca publicada por Milgram, indicou que quem acreditava totalmente nos choques tendia a parar mais cedo.
Em 1963, o psicólogo Stanley Milgram, da Universidade Yale, publicou que 26 de 40 homens comuns aplicaram em um desconhecido o que acreditavam ser um choque de 450 volts. Fizeram isso porque um homem de jaleco cinza mandou continuar.
Antes do estudo, 14 alunos do último ano de psicologia de Yale tinham previsto que, de cada 100 pessoas, no máximo 3 chegariam ao fim. A média das previsões foi 1,2%.
É esse o resultado que entrou para os livros: dois terços obedecem. Os papéis de Milgram, abertos a pesquisadores em 1993 no acervo de Yale, mostram que ele vale para uma montagem específica. No conjunto das 23 versões do experimento, a obediência variou de 1 em 40 a 37 em 40, e a maioria dos participantes parou antes do fim. Parte de quem foi até os 450 volts, além disso, desconfiava que os choques eram falsos.
Como era o experimento
Os voluntários chegaram por anúncio de jornal e carta. Eram homens de 20 a 50 anos de New Haven e arredores — carteiros, professores, vendedores, engenheiros, operários — e recebiam US$ 4,50 para participar do que acreditavam ser um estudo sobre memória e aprendizagem.
Um sorteio definia quem seria "professor" e quem seria "aluno". Era viciado: os dois papéis diziam "professor". O "aluno" era um contador de 47 anos treinado para o papel. O pesquisador, um professor de biologia de 31 anos, de jaleco cinza.
O aparelho tinha 30 chaves, de 15 a 450 volts, com rótulos que iam de "choque leve" a "perigo: choque severo". As duas últimas chaves tinham só "XXX". Para dar credibilidade, cada voluntário levava um choque real de amostra, de 45 volts.
Na versão de 1963, aos 300 volts, o aluno batia na parede e parava de responder. Se o professor hesitava, ouvia quatro frases, em sequência: "Por favor, continue"; "O experimento exige que você continue"; "É absolutamente essencial que você continue"; e "Você não tem outra escolha, precisa continuar" (tradução nossa).
O resultado de 1963
Ninguém parou antes dos 300 volts. Cinco pararam ali, e 14 desobedeceram em algum ponto. Os outros 26 foram até o fim.
Milgram descreveu suor, tremores e gagueira. Catorze dos 40 tiveram acessos de riso nervoso, e três tiveram crises de riso incontroláveis. Um observador relatou ter visto "um homem de negócios maduro e inicialmente sereno" virar, em 20 minutos, "um destroço que se contorcia e gaguejava" — que obedeceu até o fim (tradução nossa).
O artigo foi categórico sobre a encenação. "Com poucas exceções", escreveu Milgram, os participantes estavam convencidos de que davam choques reais. E nenhum, segundo ele, suspeitou que o gerador era simulado.
O que estava nas caixas
Os papéis de Milgram foram doados à biblioteca de Yale por Alexandra Milgram, em remessas desde 1985. O inventário atual registra 614 caixas, com questionários, cadernos de notas e gravações em áudio das sessões. O próprio artigo de 1963 informa que, com poucas exceções, as sessões foram gravadas em fita magnética.

Foi nessas caixas que pesquisadores encontraram três coisas que a versão popular deixa de fora.
Primeira: 23 versões, resultados muito diferentes
Em 2014, Nick Haslam, Steve Loughnan e Gina Perry reuniram todas as versões, a partir das descrições publicadas e das notas e folhas de dados originais de Milgram em Yale. Foram 23 variações com 780 participantes, feitas entre agosto de 1961 e maio de 1962. Só 18 entraram no livro que Milgram publicou em 1974.
Os autores também folhearam dez livros didáticos de psicologia social. Em média, cada um cita 7,6 versões. Nove nunca aparecem em nenhum deles.
Somadas as 21 versões comparáveis, 323 de 740 participantes (43,6%) foram até o fim. Proximidade da vítima, pressão de colegas para desobedecer e ordens explícitas do pesquisador pesaram mais. Já o prestígio do lugar, não: num escritório em Bridgeport, fora de New Haven e sem vínculo visível com Yale, 19 de 40 obedeceram até o fim, e a análise não encontrou efeito do local.
Segunda: os que desconfiaram
A dúvida não surgiu décadas depois. Em 1962, a Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF) recusou financiar novos experimentos. No ano seguinte, Robert Hall, diretor do programa de sociologia e psicologia social da fundação, explicou as razões a Milgram por escrito: "Como sabemos se a situação é realmente crível para os participantes? Parece provável que alguns deles suspeitem que havia uma 'pegadinha'" (tradução nossa).
Em julho de 1962, Milgram enviou um questionário pelo correio a todos os participantes e recebeu 730 respostas (85%). Uma pergunta media o quanto cada um tinha acreditado nos choques.
No fim daquele verão, ele pediu ao assistente Taketo Murata que cruzasse essa resposta com o comportamento no laboratório. Das 656 respostas usadas, 367 disseram ter acreditado totalmente e 289, não totalmente. Em 18 das 23 versões, quem acreditava totalmente aplicou, em média, choques mais baixos.
Milgram nunca publicou o relatório. Gina Perry, Augustine Brannigan, Richard Wanner e Henderikus Stam o reanalisaram em 2019. Na tabela de crença que Milgram publicou em 1974, entre os 369 que não tinham dúvida alguma, 230 desobedeceram (62%). Entre os 16 certos de que não havia choque, 11 obedeceram.
Em cartas e telefonemas a Milgram, ex-participantes citaram pistas: o cheque surrado entregue ao aluno, gritos que pareciam vir de um alto-falante, a frieza do pesquisador diante da dor, a recusa dele em trocar de lugar com o aluno, a suspeita de que o espelho era falso e a improbabilidade de Yale patrocinar uma tortura.
Os próprios autores apontam limites. O questionário foi respondido meses depois. A crença explica só 4,7% da variação no nível de choque; as diferenças entre as versões pesam muito mais. E Milgram escreveu, num breve prefácio ao relatório de Murata, que "provavelmente parte disso é uma relação real e parte é defensiva" (tradução nossa) — quem obedeceu poderia dizer depois que duvidou, para salvar a cara.
Terceira: o roteiro que não era tão roteiro
O artigo de 1963 diz que era importante padronizar as respostas do pesquisador. O psicólogo Stephen Gibson, da Universidade York St John, retranscreveu gravações do arquivo e encontrou outra coisa.
Um caso é o de uma técnica médica de 31 anos que Milgram chamou de Gretchen Brandt. Ela participou da versão só com mulheres, em que 26 de 40 foram até o fim, e parou depois dos 210 volts. A gravação mostra o pesquisador misturando frases do roteiro. Quando ela pediu que ele perguntasse ao aluno se queria continuar, ele respondeu com uma regra — não podia ir falar com o aluno — que não aparece nos relatos publicados do método. Quando ouviu "você não tem outra escolha", ela respondeu que estavam ali por vontade própria. O pesquisador recuou e explicou que, na prática, a falta de escolha significava só que o experimento seria encerrado.
Para Gibson, essa manobra final fracassou ali, como em outras ocasiões em que foi usada. Haslam, Loughnan e Perry registram o mesmo: as gravações mostram que o pesquisador muitas vezes ia além das quatro frases.
Há ainda a revelação da farsa. O artigo de 1963 fala em entrevista e em uma "reconciliação amigável" com a vítima ao fim de cada sessão. Segundo Perry e colegas, Milgram só fez um esclarecimento formal depois que 75% dos participantes já tinham passado pelo laboratório, com receio de contaminar o grupo de futuros voluntários. A explicação por escrito, enviada em 1962, não tinha sido dada à maioria no laboratório.
O que se conta e o que o arquivo mostra
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Dois terços das pessoas obedecem até o fim.
- Isso vale para uma versão. Nas 21 versões comparáveis, 43,6% foram até os 450 volts.
- Os voluntários acreditavam que os choques eram reais.
- No questionário de 1962, 289 de 656 disseram não ter acreditado totalmente.
- O pesquisador repetia quatro frases fixas.
- As gravações mostram improvisos e argumentos fora do roteiro publicado.
- O prestígio de Yale explicava a obediência.
- Em Bridgeport, sem vínculo visível com a universidade, 19 de 40 foram até o fim.
O que sobra do experimento
Os arquivos não apagam os 26 de 40. Em certas montagens, a maioria de fato foi até o fim, muitas vezes sob forte tensão.
O que muda é o tamanho da conclusão. Somando os questionários de todas as versões, Perry e colegas contam 368 de 658 participantes (56%) que desafiaram o pesquisador. Para eles, a obediência à autoridade "não é tão irrefletida e automática" quanto Milgram fez crer (tradução nossa).
O experimento mostrou, sobretudo, que o resultado depende de detalhes: a distância da vítima, a presença do pesquisador, a atitude dos colegas e o quanto cada um acreditava no que via.
Se você quer ver o mesmo tipo de revisão em outro clássico, os arquivos do experimento da prisão de Stanford mostram que os guardas receberam instruções precisas. E a história das 38 testemunhas de Kitty Genovese mostra outro episódio que virou lição de psicologia antes que alguém conferisse os fatos.
E, para outro estudo clássico cujos arquivos contam outra história, há o experimento de Rosenhan com falsos pacientes em hospitais psiquiátricos.
Fontes
- Behavioral Study of Obedience (1963), Stanley Milgram, Journal of Abnormal and Social Psychology 67(4), 371–378
- Credibility and Incredulity in Milgram's Obedience Experiments: A Reanalysis of an Unpublished Test (2020), Gina Perry, Augustine Brannigan, Richard A. Wanner e Henderikus Stam, Social Psychology Quarterly 83(1), 88–106
- Meta-Milgram: An Empirical Synthesis of the Obedience Experiments (2014), Nick Haslam, Steve Loughnan e Gina Perry, PLoS ONE 9(4): e93927
- Developing psychology's archival sensibilities: Revisiting Milgram's obedience experiments (2017), Stephen Gibson, Qualitative Psychology 4(1), 73–89
- Stanley Milgram Papers (MS 1406) — inventário do acervo, Manuscripts and Archives, Biblioteca da Universidade Yale
Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.
Perguntas frequentes
- O que o experimento de Milgram mostrou?
- Na versão publicada em 1963, 26 de 40 homens aplicaram o que acreditavam ser um choque de 450 volts num desconhecido porque um pesquisador mandou continuar. Mas Milgram fez 23 versões do estudo, e a obediência variou de 1 em 40 a 37 em 40 conforme a situação. Somadas as 21 versões comparáveis, 43,6% dos 740 participantes foram até o fim — ou seja, a maioria parou antes.
- Os participantes do experimento de Milgram sabiam que os choques eram falsos?
- Milgram escreveu em 1963 que, com poucas exceções, os participantes estavam convencidos de que os choques eram reais. No questionário que ele enviou por correio em 1962, porém, 289 de 656 respondentes disseram não ter acreditado totalmente. Uma análise do assistente Taketo Murata, reexaminada por Gina Perry e colegas em 2019, indicou que quem acreditava totalmente tendia a parar mais cedo. O próprio Milgram ponderou que parte dessa dúvida podia ser defensiva, dita depois para salvar a cara.
- Quantas versões do experimento de Milgram existiram?
- Vinte e três versões com participantes, realizadas entre agosto de 1961 e maio de 1962 segundo as notas de Milgram guardadas em Yale, com 780 pessoas no total. Só 18 aparecem no livro que ele publicou, e um levantamento de dez livros didáticos encontrou nove versões que nenhum deles menciona.
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