A teoria das janelas quebradas nasceu de um carro abandonado em 1969. As revisões mostram que arrumar o lugar reduz o crime; prender por infrações menores, quase nada
Em 1982, dois criminologistas usaram o carro depenado de um psicólogo de Stanford para defender que a polícia cuidasse da desordem miúda. O relato da época falava em anonimato, e as avaliações mostram que a estratégia de prisões por infrações menores teve efeito pequeno ou nulo.

Em 30 segundos
- A teoria das janelas quebradas foi proposta por James Q. Wilson e George Kelling num artigo da revista The Atlantic, em março de 1982, inspirado num experimento de 1969 com carros abandonados.
- Segundo a revista Time de 1969, o carro deixado em Nova York estava num bairro de classe média, e todo o furto foi feito por gente "bem-vestida"; o psicólogo Philip Zimbardo atribuiu o resultado ao anonimato da cidade grande.
- Uma revisão sistemática de 30 testes concluiu que intervenções comunitárias e de solução de problemas reduziram o crime, enquanto a manutenção agressiva da ordem não produziu redução significativa.
- As Academias Nacionais dos EUA concluíram em 2018 que abordagens baseadas em prisões por infrações menores geram impacto "pequeno a nulo" sobre o crime.
Às 15h15 de uma sexta-feira de 1969, dois homens estacionaram um Oldsmobile verde de 1959 numa rua residencial de classe média de Nova York. Tiraram as placas, abriram um pouco o capô e foram para trás de uma janela próxima, de onde podiam ver sem ser vistos.
Em dez minutos, chegaram os primeiros visitantes: uma família de três. A mãe, com uma sacola da Saks Fifth Avenue, vigiava a calçada. O pai abriu o porta-malas do próprio carro, pegou uma serra e levou a bateria e o radiador.
Esse carro, e outro deixado em Palo Alto, na Califórnia, viraram a base da teoria das janelas quebradas. A teoria diz que a desordem visível sinaliza que ninguém cuida do lugar e abre caminho para crimes maiores. As revisões de pesquisa mais amplas mostram um quadro mais estreito: arrumar lugares problemáticos com a comunidade reduz o crime, mas prender gente por infrações pequenas quase não faz diferença.
O carro de Nova York, segundo a revista Time
A revista Time contou o experimento em 28 de fevereiro de 1969, num texto chamado "Diário de um carro vandalizado". Um dos observadores era Scott Fraser, psicólogo social da Universidade de Nova York, e a vigília durou 64 horas.
Ao fim das primeiras 26 horas, um "desfile constante de vândalos" tinha levado bateria, radiador, filtro de ar, antena, limpadores de para-brisa, frisos, calotas, cabos de bateria, um galão de gasolina, uma lata de cera e o pneu traseiro esquerdo. A destruição sem objetivo começou depois, quando dois adolescentes arrancaram o retrovisor e o atiraram contra os faróis. Por fim, cinco crianças de oito anos fizeram do carro um parquinho e quebraram os vidros.
A revista registrou um detalhe que a versão popular costuma perder: "Todo o furto foi feito por pessoas de classe média, bem-arrumadas e bem-vestidas" (tradução nossa).

O que Zimbardo concluiu, e o que a teoria fez com isso
O experimento era de Philip Zimbardo, então com 35 anos e na Universidade Stanford, o mesmo pesquisador que mais tarde conduziria o experimento da prisão de Stanford.
Para testar a ideia, ele deixou um carro igualmente abandonado num bairro de classe média de Palo Alto. Segundo a Time, durante três dias de observação ninguém encostou nele.
A conclusão provisória de Zimbardo, nas palavras da revista, era que "um sentimento de anonimato pessoal típico da cidade grande estimula o comportamento destrutivo", e que o senso de comunidade o desencoraja (tradução nossa). O capítulo que ele escreveu para o Simpósio de Motivação de Nebraska de 1969 tratava justamente de desindividuação: o que acontece quando a pessoa se sente anônima.
Treze anos depois, os criminologistas James Q. Wilson e George L. Kelling publicaram na revista The Atlantic, em março de 1982, o artigo "Broken Windows". Segundo a reconstituição feita pela rádio pública americana NPR em 2016, os dois ficaram fascinados pelo destino dos carros de Zimbardo. A leitura deles era outra: uma janela quebrada, ou outro sinal visível de abandono, "pode mandar o sinal de que o bairro não é cuidado" (tradução nossa). Se a polícia atacasse esses problemas pequenos, talvez os crimes maiores não acontecessem.
O carro de 1969 em duas versões
Em cada item, primeiro: como a história costuma ser contada. Depois: o que a time registrou em 1969.
- O carro de Nova York foi deixado num trecho pobre e violento do Bronx.
- O carro foi deixado num bairro residencial de classe média de Nova York.
- Em Palo Alto, o carro ficou intocado por mais de uma semana, até Zimbardo dar a primeira marretada.
- Em Palo Alto, o carro não foi tocado durante três dias de observação. A marretada não aparece no texto da revista.
- O experimento mostra que a desordem atrai mais desordem.
- Zimbardo atribuiu o resultado ao anonimato da cidade grande, e o furto foi feito por gente de classe média bem-vestida.
A versão com o Bronx pobre, a semana de espera e a marreta é a que a NPR contou em 2016. As duas fontes concordam no essencial: em Nova York, o carro foi atacado em minutos; em Palo Alto, não. Divergem no tipo de bairro e no tempo que o carro da Califórnia ficou intocado.
De metáfora a política de polícia
A ideia saiu da revista e chegou às ruas. Em Nova York, nos anos 1990, o prefeito Rudolph Giuliani e o comissário de polícia William Bratton começaram pelo metrô, mandando centenas de policiais atrás de quem pulava a catraca e de vândalos. Segundo um estudo publicado em 2006, as três cidades mais populosas dos Estados Unidos, Nova York, Chicago e Los Angeles, adotaram algum aspecto da teoria, principalmente por meio de punição mais agressiva a contravenções.
O próprio artigo de 1982, citado pela NPR, já trazia a dúvida que acompanharia a teoria. Os autores perguntavam como garantir que a polícia não se tornasse agente da intolerância do bairro, e respondiam: "Não podemos oferecer resposta inteiramente satisfatória para essa importante questão" (tradução nossa).
O que a evidência mostra sobre o crime
O crime caiu muito em Nova York, e a teoria levou o crédito. O professor de direito Bernard Harcourt, da Universidade Columbia, disse à NPR que a queda começou antes da eleição de Giuliani, e que o crime também caiu em muitas cidades sem nada parecido com o policiamento das janelas quebradas.
Em 2001, um estudo de Kelling mostrou que os bairros com mais prisões por contravenção tiveram as maiores quedas de crime violento. Harcourt e Jens Ludwig refizeram a análise com os dados de Nova York de 1989 a 1998 e apontaram a regressão à média: o que sobe muito tende a descer muito. Somaram um experimento social, o Moving to Opportunity, em que cerca de 4.600 famílias de conjuntos habitacionais com muito crime e desordem, em cinco cidades, receberam por sorteio vales para se mudar para bairros menos degradados.
A conclusão, publicada em 2006: os dados não sustentam "uma relação simples e direta entre desordem e crime" como a de Wilson e Kelling, nem a ideia de que esse policiamento seja o melhor uso de recursos escassos (tradução nossa).
Em Chicago, Robert Sampson e Stephen Raudenbush filmaram o que acontecia nas quadras de mais de 23 mil ruas em 196 bairros. Desordem e crime apareceram juntos, mas os dois nasciam das mesmas condições, sobretudo a pobreza concentrada. A desordem só teve relação direta com roubo, e não com homicídio. O que pesava era a "eficácia coletiva", a disposição dos vizinhos de intervir pelo bem comum.
Há evidência a favor da ideia de contágio. Em seis experimentos de campo na Holanda, publicados na Science em 2008, Kees Keizer e colegas mostraram que quem vê outros violarem uma norma fica mais propenso a violar outras. Num dos experimentos dessa pesquisa, segundo a Universidade de Groningen, o número de pessoas que furtaram um envelope com dinheiro dobrou quando havia pichação ou lixo por perto.
Arrumar o lugar funciona; prender por infrações menores, não
A revisão sistemática de Anthony Braga, Brandon Welsh e Cory Schnell, publicada em 2019 na revista Campbell Systematic Reviews, separou o que costuma ser vendido junto. No conjunto, o policiamento da desordem esteve associado a uma redução modesta do crime. Mas as intervenções comunitárias e de solução de problemas, que mudam as condições de um lugar específico, reduziram o crime. As estratégias de manutenção agressiva da ordem, voltadas a comportamentos individuais, não produziram redução significativa.
As Academias Nacionais dos EUA chegaram a resultado parecido em 2018: as abordagens baseadas em prisões por contravenção geram impacto "pequeno a nulo" sobre o crime, enquanto as intervenções de solução de problemas em lugares específicos mostram reduções consistentes no curto prazo. Sobre efeitos de longo prazo, "pouco se sabe".
O custo também entrou na conta. Em 2008, a polícia de Nova York fez quase 250 mil abordagens por "movimentos furtivos", e só um quinze avos de 1% delas encontrou uma arma. Em agosto de 2013, um tribunal federal declarou inconstitucional a política de abordagens da cidade, por mirar jovens negros e hispânicos.
Kelling, que não defendia a prática de parar e revistar pessoas na rua, disse à NPR que a ideia "pode ser muito mal executada" e que já se perguntava se não era hora de abandonar a metáfora das janelas quebradas.
O carro de 1969 continua sendo uma boa história. Como outras histórias famosas sobre o comportamento das pessoas na cidade e no grupo, ela encolhe quando se volta às fontes: foi assim com as 38 testemunhas do assassinato de Kitty Genovese e com o experimento de conformidade de Asch.
Fontes
- Crime: Diary of a Vandalized Car (28 de fevereiro de 1969), Revista Time
- How A Theory Of Crime And Policing Was Born, And Went Terribly Wrong (2016), NPR, programa Hidden Brain
- Broken Windows: New Evidence from New York City and a Five-City Social Experiment (2006), Harcourt e Ludwig, University of Chicago Law Review 73, 271
- Disorder in Urban Neighborhoods: Does It Lead to Crime? (2001), Sampson e Raudenbush, National Institute of Justice, Departamento de Justiça dos EUA
- Disorder policing to reduce crime: A systematic review (2019), Braga, Welsh e Schnell, Campbell Systematic Reviews 15(3)
- Proactive Policing: Effects on Crime and Communities (2018), Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA
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Perguntas frequentes
- O que diz a teoria das janelas quebradas?
- Proposta por James Q. Wilson e George Kelling num artigo da revista The Atlantic em 1982, a teoria diz que sinais visíveis de desordem, como uma janela quebrada, passam a mensagem de que ninguém cuida do lugar. Por isso, se a polícia cuidasse dos problemas pequenos, como fumar maconha na rua ou pular a catraca do metrô, os crimes maiores poderiam não acontecer.
- A teoria das janelas quebradas funciona?
- Depende do que se faz em nome dela. Uma revisão sistemática de 30 testes encontrou redução modesta do crime no conjunto, puxada por intervenções comunitárias e de solução de problemas em lugares específicos; a manutenção agressiva da ordem, com foco em comportamentos individuais, não produziu redução significativa. As Academias Nacionais dos EUA chegaram a conclusão parecida em 2018.
- Qual foi o experimento de Zimbardo com carros abandonados?
- Em 1969, a equipe do psicólogo Philip Zimbardo deixou um Oldsmobile 1959 sem placas e com o capô entreaberto numa rua de classe média de Nova York. Em dez minutos chegaram os primeiros visitantes, uma família que levou bateria e radiador, e em 26 horas o carro tinha perdido a maior parte das peças. Um carro deixado em Palo Alto não foi tocado durante três dias de observação, segundo a Time. Zimbardo atribuiu a diferença ao anonimato da cidade grande.
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