A pose de poder prometia mais testosterona em dois minutos. A coautora do estudo renegou o resultado, e as réplicas só salvaram a sensação
A palestra de Amy Cuddy no TED soma mais de 77 milhões de reproduções no site. Ela se apoiava num experimento com 42 pessoas. Seis anos depois, a primeira autora do estudo escreveu que não acreditava mais no efeito.

Em 30 segundos
- O estudo de 2010 que sustentou a palestra de Amy Cuddy no TED tinha 42 participantes, que fizeram duas poses de 1 minuto cada.
- Em 2015, uma réplica em Zurique com 200 pessoas não encontrou efeito da pose sobre testosterona, cortisol ou disposição para arriscar dinheiro.
- Em 2016, Dana Carney, primeira autora do estudo original, escreveu que não acreditava mais que os efeitos da pose de poder fossem reais.
- Meta-análises posteriores acharam um efeito modesto na sensação de poder, e uma delas indica que ele vem mais de evitar a postura encolhida do que de adotar a expansiva.
Em junho de 2012, num palco do TEDGlobal, a psicóloga social Amy Cuddy ofereceu à plateia "um truque de vida gratuito e sem tecnologia" (tradução nossa). Bastava mudar a postura por dois minutos.
A promessa ia longe. Segundo ela, dois minutos numa pose expansiva (uma delas apelidada pela imprensa de "Mulher-Maravilha") faziam a testosterona subir e o cortisol, o hormônio do estresse, cair. O contador do site do TED registrava 77,8 milhões de reproduções da palestra em outubro de 2026.
O resumo curto: a parte dos hormônios e do comportamento não sobreviveu às réplicas. A primeira autora do estudo que sustentava a palestra escreveu, em 2016, que não acreditava mais no efeito. O que sobrou é modesto, e talvez nem seja mérito da pose de poder.
Um experimento com 42 pessoas
A palestra se apoiava num artigo publicado em 2010 na revista Psychological Science por Dana Carney e Andy Yap, então na Universidade Columbia, e Amy Cuddy, de Harvard.
Quarenta e duas pessoas (26 mulheres e 16 homens) foram sorteadas para dois grupos. Um experimentador posicionava o corpo de cada participante em duas poses expansivas (pés sobre a mesa, mãos atrás da cabeça) ou em duas poses encolhidas (braços cruzados, pernas fechadas). Cada pose durava 1 minuto. Os participantes achavam que o estudo era sobre a posição de eletrodos de eletrocardiograma.
Antes e cerca de 17 minutos depois das poses, os pesquisadores colheram saliva para medir os hormônios. No meio, ofereceram uma aposta: ficar com 2 dólares ou rolar um dado para tentar ganhar 4.
Entre os que fizeram poses expansivas, 86,36% apostaram. Entre os que se encolheram, 60%. O primeiro grupo teve alta de testosterona e queda de cortisol; o segundo, o contrário. E relatou se sentir mais "poderoso" e "no comando".
O resumo do artigo terminava assim: que uma pessoa possa, "assumindo duas simples poses de 1 minuto, incorporar poder e instantaneamente se tornar mais poderosa" tem "implicações práticas no mundo real" (tradução nossa).
Na palestra, Cuddy apresentou os números como uma alta de cerca de 20% na testosterona para quem fez a pose expansiva e uma queda de cerca de 25% no cortisol. E recomendou: antes da próxima situação estressante, faça a pose por dois minutos, "no elevador, numa cabine de banheiro".
A réplica de Zurique
Em março de 2015, uma equipe liderada por Eva Ranehill, do Departamento de Economia da Universidade de Zurique, publicou na mesma revista uma tentativa de repetir o experimento.
Desta vez foram 102 homens e 98 mulheres, quase cinco vezes mais gente. O desenho era parecido: poses de alto ou baixo poder, uma tarefa de escolha entre dinheiro garantido e apostas, e duas amostras de saliva.
O resultado: a pose não teve efeito sobre testosterona, cortisol nem sobre o comportamento. Teve efeito, como no original, sobre a sensação de poder que os participantes relatavam.
"Isso sugere que a principal influência da pose de poder é fazer as pessoas dizerem que se sentem mais confiantes, mas não encontramos evidência de que isso se traduza no comportamento ou afete a fisiologia", disse Ranehill no comunicado da universidade (tradução nossa).
A coautora que mudou de lado
Em 25 de setembro de 2016, segundo a revista Fortune e a rádio pública americana NPR, Dana Carney publicou em sua página da Universidade da Califórnia em Berkeley, para onde tinha se mudado, um texto de duas páginas intitulado "Minha posição sobre as 'poses de poder'".
A frase central vem sublinhada no original: "Eu não acredito que os efeitos da 'pose de poder' sejam reais" (tradução nossa).
Carney fez questão de escrever que "os dados são reais". Ela não fala em fraude. Mas ela listou problemas do estudo que assinou como primeira autora:
- "A amostra é minúscula" e os efeitos, "pequenos e mal estão lá em muitos casos".
- Os participantes foram testados em lotes, "algo como 25, depois 10, depois 7, depois 5", conferindo o efeito pelo caminho. "Na época, isso não parecia p-hacking", escreveu.
- Na aposta, um teste estatístico deu 0,052 e outro, 0,05. Foi relatado o menor.
- Na medida de sensação de poder, várias perguntas foram feitas, e foram escolhidas as que "funcionaram".
- Quem ganhava a aposta levava mais 2 dólares, e vencer, por si só, pode elevar a testosterona. O efeito hormonal, escreveu, "pode ser apenas um efeito de vitória".
Cuddy não seguiu a colega. À NPR, disse ter "confiança nos efeitos das posturas expansivas sobre a sensação de poder das pessoas" (tradução nossa). À revista New York, segundo a Fortune, declarou-se "agnóstica" quanto aos efeitos hormonais.
Hoje, a página da palestra no site do TED abre com uma nota: algumas das conclusões apresentadas "foram citadas num debate em andamento entre cientistas sociais sobre robustez e reprodutibilidade" (tradução nossa).
Da pose ao debate
- Setembro de 2010Carney, Cuddy e Yap publicam o estudo com 42 participantes na Psychological Science.
- Junho de 2012Amy Cuddy apresenta a pose de poder no TEDGlobal.
- Março de 2015Réplica de Zurique, com 200 pessoas, não encontra efeito sobre hormônios nem sobre risco.
- Maio de 2015Simmons e Simonsohn aplicam uma análise de p-curve aos 33 estudos citados pelos autores originais e não encontram sinal claro de efeito.
- Setembro de 2016Dana Carney publica que não acredita que os efeitos sejam reais.
- 2017 e 2018Meta-análise de seis estudos pré-registrados encontra efeito na sensação de poder. Cuddy e coautores reanalisam 55 estudos e defendem esse efeito.
- 2020 e 2022Meta-análises atribuem a diferença sobretudo à postura encolhida e não encontram efeito relevante sobre hormônios.
A briga dos gráficos
Em maio de 2015, os pesquisadores J. P. Simmons e Uri Simonsohn aplicaram uma técnica chamada p-curve aos 33 estudos que os autores originais tinham citado como evidência. A ferramenta olha a distribuição dos resultados estatísticos para estimar se há efeito real por trás deles.
A curva saiu "achatada". Na conclusão deles, ou a pose de poder não tem efeito, ou o efeito é pequeno demais para as amostras usadas. A análise foi publicada na Psychological Science em 2017.
Em 2018, Cuddy e dois coautores, S. J. Schultz e Nathan Fosse, responderam na mesma revista com uma p-curve maior: 55 estudos de mais de 40 equipes. Encontraram, segundo o resumo publicado no site de Cuddy, "valor evidencial claro" para o efeito da postura expansiva sobre a sensação de poder.
O psicólogo Marcus Credé, da Universidade Estadual de Iowa, apontou em 2019 um problema nessa conta: a grande maioria daqueles estudos não comparava a pose de poder com uma postura neutra. Comparava expansiva contra encolhida.

O que sobrou depois das réplicas
Em 2017, uma edição especial da revista Comprehensive Results in Social Psychology reuniu estudos pré-registrados, com hipóteses e análises definidas antes da coleta. Uma meta-análise de seis deles, liderada por Quentin Gronau, encontrou "evidência muito forte" de efeito da pose sobre a sensação de poder. Entre participantes que não conheciam o efeito, a evidência caiu para "apenas moderada".
Uma revisão de 73 estudos publicada em 2020 na Perspectives on Psychological Science por Elkjær e colegas separou as comparações com postura neutra. Entre expansiva e encolhida, encontrou diferenças robustas no estado afetivo e no comportamento. Mas, comparada a uma postura neutra, a encolhida teve efeito de tamanho 0,45 (na medida estatística g de Hedges). A expansiva, 0,06, perto de zero. Nas palavras dos autores, o que altera as respostas é "a ausência de posturas encolhidas", e não a presença das expansivas (tradução nossa).
Em 2022, Robert Körner, Astrid Schütz e colegas reuniram na Psychological Bulletin 128 estudos com mais de 10 mil participantes, feitos entre 1982 e 2022 (o comunicado da Universidade de Bamberg arredonda para cerca de 130). Quem fez poses dominantes se sentiu "um pouco mais confiante, poderoso e positivo" do que quem ficou curvado ou encolhido. No comportamento, o efeito "quase desapareceu" depois da correção para viés de publicação, o que diverge da revisão de 2020. Em hormônios, pressão e batimentos cardíacos, os autores encontraram "praticamente nenhum efeito". E a maioria dos estudos não tinha grupo em postura neutra.
A promessa e o que ficou
Em cada item, primeiro: o que a palestra de 2012 prometia. Depois: o que as réplicas e meta-análises mostram.
- Dois minutos de pose aumentam a testosterona
- A réplica com 200 pessoas e a meta-análise de 2022 não encontraram efeito relevante sobre hormônios
- Dois minutos de pose diminuem o cortisol
- Também não se confirmou na réplica de Zurique
- A pose deixa a pessoa mais disposta a arriscar
- A réplica de Zurique não achou efeito; as meta-análises divergem sobre o comportamento, e numa delas o efeito quase some após corrigir o viés de publicação
- A pose faz a pessoa se sentir mais poderosa
- Repetiu-se, em tamanho modesto, e parece vir mais de evitar a postura encolhida
O detalhe que amarra tudo
A pose de poder foi vendida como uma alavanca: dois minutos no banheiro e o corpo trabalharia a seu favor. Os estudos feitos desde 2010 apontam para outra coisa. Ficar curvado parece fazer as pessoas se sentirem pior. Abrir os braços, em comparação com ficar de pé normalmente, faz pouca diferença mensurável.
E a revisão mais dura veio de dentro: foi a primeira autora do estudo que contou, em detalhe, como os números tinham sido escolhidos.
Quem gosta de ver uma ideia famosa encolher quando alguém repete o experimento pode ler o que aconteceu com o teste do marshmallow quando a réplica reuniu 900 crianças e por que o efeito Dunning-Kruger não diz o que a internet acha que ele diz.
Fontes
- Power posing: brief nonverbal displays affect neuroendocrine levels and risk tolerance (2010), Carney, Cuddy e Yap, Psychological Science 21(10), 1363–1368
- Power posing does not affect hormones or financial risk taking (comunicado sobre Ranehill et al., 2015), Departamento de Economia, Universidade de Zurique
- My position on "Power Poses" (2016), Dana Carney, Haas School of Business, Universidade da Califórnia em Berkeley
- Your body language may shape who you are (TEDGlobal 2012), TED
- Expansive and Contractive Postures and Movement: A Systematic Review and Meta-Analysis (2020), Elkjær, Mikkelsen, Michalak, Mennin e O'Toole, Perspectives on Psychological Science
- The Effects of Wide Body Positions (2023), Robert Körner e Astrid Schütz, Society for Personality and Social Psychology
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Perguntas frequentes
- A pose de poder funciona?
- Para hormônios e comportamento, as réplicas não confirmaram. Em 2015, um estudo da Universidade de Zurique com 102 homens e 98 mulheres não encontrou efeito sobre testosterona, cortisol ou disposição para arriscar dinheiro. O que se repetiu foi um efeito modesto na sensação de poder relatada pelos participantes. Uma meta-análise de 73 estudos indica que essa diferença vem sobretudo da comparação entre a postura encolhida e a neutra; a postura expansiva, comparada à neutra, teve efeito perto de zero.
- O que a coautora Dana Carney disse sobre o estudo?
- Em setembro de 2016, Dana Carney, primeira autora do estudo de 2010, publicou em sua página da Universidade da Califórnia em Berkeley um texto em que diz não acreditar que os efeitos da pose de poder sejam reais. Ela afirmou que os dados são reais, mas que a amostra era minúscula, que os participantes foram testados em lotes enquanto o efeito era conferido e que, na medida de sensação de poder, foram escolhidas as perguntas que funcionaram.
- Quanto tempo durava a pose no estudo original?
- Cada participante manteve duas poses por 1 minuto cada, num total de 2 minutos. Foram 42 pessoas, sorteadas para poses expansivas ou encolhidas. Na palestra do TED, em 2012, Amy Cuddy recomendou fazer a pose por dois minutos antes de situações estressantes, como uma entrevista de emprego.
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