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O efeito Dunning-Kruger não diz que os incompetentes se acham gênios. E há quem mostre que o gráfico famoso aparece até com números aleatórios

Em 1999, dois psicólogos de Cornell descobriram que os piores alunos num teste de lógica se colocavam no 62º percentil quando estavam no 12º. A ideia virou insulto de internet — e uma disputa estatística séria sobre se o efeito existe como bias ou como artefato.

Redação Fatos e Relatos5 min de leitura
Cartão-postal antigo do Arts Quad da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, onde Justin Kruger e David Dunning conduziram os estudos de 1999.
Curt Teich & Co., Chicago (editor), via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 1999, dois psicólogos da Universidade Cornell publicaram um artigo com um título que virou frase feita: Unskilled and unaware of it — "sem habilidade e sem saber disso". Justin Kruger e David Dunning tinham dado testes de humor, gramática e lógica a estudantes e pedido que cada um estimasse como tinha ido.

Os que ficaram no quartil inferior — com notas que os colocavam no 12º percentil — estimaram estar no 62º.

O resultado virou um dos conceitos mais populares da psicologia, um insulto de internet, e uma disputa técnica sobre se ele existe da forma como é descrito.

O que o artigo diz

O argumento de Kruger e Dunning é elegante. Para julgar se você é bom em alguma coisa, precisa da mesma habilidade que usaria para ser bom nela. Quem não sabe gramática não tem como perceber que sua frase está errada. A pessoa carrega, então, um fardo duplo: comete o erro e não tem o equipamento para enxergá-lo.

Os autores testaram isso em quatro estudos. Além do desnível entre nota real e nota estimada, encontraram algo que sustenta a explicação: quando treinaram os participantes fracos em lógica, melhorando sua habilidade, eles passaram a reconhecer melhor os próprios limites. Ganhar competência ajudou a ver a incompetência anterior.

Também registraram o espelho: os melhores tendiam a se subestimar um pouco, presumindo que, se a tarefa era fácil para eles, era fácil para todos.

Em 2000, os dois ganharam o Ig Nobel, o prêmio satírico para pesquisas que "fazem rir e depois pensar", por "seu modesto relatório".

O que o público entendeu

A versão popular do efeito é outra: pessoas burras se acham gênios, e por isso falam com tanta confiança. É um rótulo cômodo, porque é sempre aplicado ao outro.

Dunning gastou anos tentando corrigir isso. Ao jornalista científico Jonathan Jarry, da Universidade McGill, escreveu: "O efeito é sobre nós, não sobre eles. A lição do efeito sempre foi sobre como devemos ser humildes e cautelosos conosco mesmos."

O estudo não fala de inteligência. Fala de áreas específicas em que uma pessoa tem pouca habilidade — e todo mundo tem várias. Dunning também acrescentou uma nuance: o efeito tem "mais a ver com estar mal-informado do que desinformado". Quem não faz ideia do ponto de ebulição do mercúrio sabe que não sabe. Quem acha que a capital da Escócia é Glasgow responde com confiança.

O gráfico que aparece sozinho

Aqui a história fica mais interessante, e mais desconfortável para todos os lados.

Em 2016 e 2017, Edward Nuhfer e colegas publicaram na revista Numeracy dois artigos em que reproduziram o gráfico característico do efeito Dunning-Kruger — piores se superestimando muito, melhores se subestimando um pouco — usando números aleatórios.

O mecanismo tem nome: regressão à média. Se duas medidas não são perfeitamente correlacionadas (nota real e nota estimada nunca são), quem cai num extremo da primeira tende a ficar mais perto do meio na segunda. Pegue os 25% piores num teste; a estimativa deles, contendo erro, ficará em média mais alta do que a nota. Pegue os 25% melhores; a estimativa ficará mais baixa. O padrão surge da matemática, sem que nenhum cérebro precise ter viés algum.

Some a isso um segundo fenômeno bem documentado, o efeito "melhor que a média" — a tendência geral de todo mundo se avaliar acima do meio — e você obtém quase exatamente as curvas de 1999. Com dados reais de 1.154 participantes num teste de letramento científico, Nuhfer encontrou que novatos e especialistas erram na autoavaliação com a mesma frequência, para cima e para baixo; os especialistas apenas erram dentro de uma faixa mais estreita. O rótulo "sem habilidade e sem saber disso" se aplicava a algo como 5% ou 6% das pessoas.

Nuhfer não partiu para derrubar o estudo. "Todos nós acreditávamos que o artigo de 1999 era válido", disse a Jarry. "Éramos até fãs."

A resposta de Dunning

Dunning não aceitou. Sua posição é que as explicações puramente estatísticas ignoram achados importantes — o treinamento que melhora a metacognição, por exemplo — e que, seja qual for a causa, os erros de autoavaliação são reais e têm consequências. Para dar um exemplo nosso: quem se acha capaz de dirigir depois de beber toma uma decisão ruim independentemente de o mecanismo ser um viés cognitivo ou uma regressão à média.

Outros pesquisadores propuseram modelos intermediários: crenças prévias otimistas sobre a própria habilidade, ou o fato de muita gente estar "empilhada" nos degraus mais baixos de uma habilidade, o que torna mais difícil se posicionar em relação aos outros. O debate está aberto, e não é pequeno.

O detalhe que amarra tudo

Há uma ironia que nenhum dos lados escapa.

O efeito Dunning-Kruger é usado, todos os dias, por pessoas que nunca leram o artigo de 1999 para classificar outras pessoas. Elas têm confiança total no conceito, conhecem só a versão de uma frase, e não sabem que existe uma literatura inteira questionando o gráfico em que a frase se apoia.

Descrever isso é descrever o próprio efeito — na versão em que ele é um viés. Ou é descrever o efeito "melhor que a média", na versão em que ele é um artefato. Nos dois casos, a lição de Dunning se mantém: o efeito é sobre nós.

Se você gosta de casos em que a confiança e a competência andam separadas, vale ler sobre o cavalo que parecia fazer contas e o que ele estava lendo de verdade e sobre o estudo de uma página que virou uma indústria de CDs para bebês — dois exemplos de quanta certeza cabe em cima de muito pouco.

Fontes

  1. Unskilled and unaware of it: how difficulties in recognizing one's own incompetence lead to inflated self-assessments (1999), Kruger e Dunning, Journal of Personality and Social Psychology 77(6), 1121–1134
  2. Random Number Simulations Reveal How Random Noise Affects the Measurements and Graphical Portrayals of Self-Assessed Competency (2016), Nuhfer, Cogan, Fleisher, Gaze e Wirth, Numeracy 9(1)
  3. The Dunning-Kruger Effect Is Probably Not Real (2020), Jonathan Jarry, Office for Science and Society, Universidade McGill

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

O que o estudo original de 1999 encontrou?
Justin Kruger e David Dunning, da Universidade Cornell, aplicaram a estudantes testes de humor, gramática e lógica e pediram que estimassem o próprio desempenho. Em quatro estudos, os participantes do quartil inferior superestimaram muito sua nota e sua habilidade: suas notas os colocavam no 12º percentil, mas eles se estimavam no 62º. Os autores atribuíram isso a um "fardo duplo": a incompetência numa área rouba a capacidade metacognitiva de reconhecê-la.
O efeito é sobre pessoas burras?
Não. O efeito descreve a autoavaliação de qualquer pessoa em áreas específicas em que ela tem pouca habilidade, e não um traço de pessoas de baixa inteligência. David Dunning resumiu: "o efeito é sobre nós, não sobre eles". Na versão popular, virou um rótulo para os outros.
Por que há quem diga que o efeito não é real?
Porque o gráfico característico — os piores se superestimando muito e os melhores se subestimando um pouco — aparece também quando se simulam os dados com números aleatórios. Edward Nuhfer e colegas mostraram isso em 2016 e 2017 na revista Numeracy: a regressão à média e a forma como os dados são agrupados produzem o padrão sozinhas. Dunning responde que as explicações puramente estatísticas ignoram achados importantes e que os erros de autoavaliação são reais, seja qual for a causa.
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