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O teste “16 personalidades” não é o MBTI: usa as mesmas letras sobre dimensões do Big Five. E o MBTI, criado por mãe e filha sem formação em psicologia, repete o mesmo tipo em cerca de metade dos retestes

O MBTI nasceu em 1943 de “Tipos Psicológicos”, de Jung, pelas mãos de Katharine Briggs e Isabel Myers. Estudos mostram que os traços variam de forma contínua, e a própria editora diz que o teste não serve para contratar.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Fotografia antiga em sépia de Carl Gustav Jung, de camisa branca e gravata, óculos redondos e bigode, olhando para o cachimbo que segura na mão direita, diante de folhagem escura, com a assinatura C. G. Jung embaixo.
Autor desconhecido, ETH-Bibliothek, via Wikimedia Commons · Domínio público (PDM-owner)

Em 30 segundos

  • O MBTI foi criado por Katharine Briggs e pela filha Isabel Myers, que não eram psicólogas, a partir do livro “Tipos Psicológicos”, de Jung (1921). A primeira versão é de 1943, e o Educational Testing Service publicou o teste em 1962.
  • O teste gratuito 16Personalities usa as quatro letras do MBTI, mais uma quinta (Assertivo ou Turbulento), sobre dimensões reformuladas do Big Five. O site diz que não usa as funções cognitivas de Jung.
  • A editora do MBTI diz que cerca de 50% das pessoas repetem o tipo de quatro letras no reteste. Um relatório de 1991 do Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA citou entre 24% e 61%, com mediana de 40%.
  • Um estudo de 1989 com 468 adultos não achou tipos distintos, e sim quatro dimensões contínuas. A editora e a Fundação Myers & Briggs dizem que o teste não deve ser usado em seleção de candidatos.

O teste “16 personalidades” que circula na internet não é o MBTI, embora use as mesmas quatro letras. O MBTI, o Indicador de Tipos de Myers-Briggs, foi criado por Katharine Cook Briggs e pela filha Isabel Briggs Myers, que não eram psicólogas, a partir de um livro de Carl Jung. O 16Personalities é outro modelo, que o site afirma ter montado sobre o Big Five.

Nenhum dos dois é um diagnóstico, e os estudos mostram que o tipo de quatro letras é bem menos estável do que a fama sugere. A editora do MBTI diz que cerca de metade das pessoas repete o mesmo tipo no reteste.

De Jung a uma mãe e uma filha sem formação em psicologia

Em 1921, o psiquiatra suíço Carl Jung publicou “Tipos Psicológicos”. A The Myers-Briggs Company, que hoje publica o teste, data de 1943, em plena Segunda Guerra, a primeira versão do indicador. A Fundação Myers & Briggs, que cuida do legado, conta que Katharine Briggs já desenvolvia um sistema próprio de personalidade quando o livro de Jung foi traduzido para o inglês, em 1923. Ela estudou o livro e despertou na filha o interesse de transformá-lo em teste.

Página de rosto em preto e branco com o título Psychological Types, or The Psychology of Individuation, o nome de C. G. Jung, a indicação de tradução por H. Godwin Baynes e, embaixo, uma vinheta e o nome da editora em Londres, com a data de 1926.
Página de rosto da tradução inglesa de “Tipos Psicológicos”, feita por H. Godwin Baynes e publicada em 1926 em Londres e Nova York. O original alemão é de 1921. Imagem: C. G. Jung, via Internet Archive · Domínio público

Nenhuma das duas era psicóloga. Segundo a editora, Briggs se formou em agricultura na Michigan Agricultural College, hoje Universidade Estadual de Michigan, e Myers em ciência política no Swarthmore College, na Pensilvânia. A Fundação concorda: elas não tinham doutorado nem trabalhavam na academia.

A editora responde que o teste passou por décadas de refinamento por pesquisadores com doutorado. E diz que o Educational Testing Service, de Princeton, ajudou a desenvolvê-lo e o publicou em 1962.

As mesmas quatro letras, dois modelos diferentes

O MBTI classifica as pessoas num de dois polos em cada escala: extroversão ou introversão, sensação ou intuição, pensamento ou sentimento, julgamento ou percepção. A combinação das quatro letras dá 16 tipos.

O 16Personalities, gratuito, diz usar o formato de siglas “introduzido por Myers-Briggs”, com uma letra a mais para acomodar cinco escalas, não quatro. A quinta, Identidade, separa os Assertivos (-A), descritos como seguros e resistentes ao estresse, dos Turbulentos (-T), descritos como autoconscientes e sensíveis ao estresse. Na página “Our Theory”, o site afirma que não adotou conceitos de Jung, como as funções cognitivas, porque são “muito difíceis de medir e validar cientificamente”. Em vez disso, “reformulou e rebalanceou” as dimensões do Big Five (tradução nossa).

O site também avisa que a sigla não tem definição única: se cinco pessoas dizem ser INFJ, é possível que cada uma entenda uma coisa diferente. Em português, os nomes dos tipos também mudam: INTJ é Arquiteto, INFP é Mediador e ENFJ é Protagonista. O site informa mais de 1,59 bilhão de testes feitos.

Dois testes com as mesmas letras

Em cada item, primeiro: mbti oficial. Depois: 16personalities.

Quatro escalas, que formam 16 tipos.
Cinco escalas: as quatro letras mais Assertivo ou Turbulento.
Parte da teoria de tipos psicológicos de Jung, de 1921.
Diz ter reformulado o Big Five e não usar as funções cognitivas de Jung.
Publicado pela The Myers-Briggs Company, com devolutiva de profissional certificado ou sessão interativa.
Teste gratuito, sobre o qual o próprio site informa 1,59 bilhão de aplicações.

Metade repete o tipo, metade não

Aqui os números dependem de quem os conta. A The Myers-Briggs Company informa que, para cada uma das quatro escalas, a correlação entre dois testes feitos com até 15 semanas de intervalo ficou entre 0,81 e 0,86, numa amostra global de 1.721 adultos. Mas admite que só cerca de 50% das pessoas obtêm o mesmo tipo de quatro letras no reteste. Para a editora, isso é oito vezes o esperado ao acaso, que seria 6,25% (1 em 16).

Um relatório do Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos, de 1991, olhou o mesmo ponto com mais cautela. Citando 11 amostras do manual do próprio MBTI, apontou que entre 24% e 61% dos respondentes mantiveram o tipo, com mediana de 40%. Um outro estudo citado, de 1983, registrou 47% de tipos mantidos em cinco semanas. Para os autores, mudanças dessa magnitude “sugerem cautela” ao classificar pessoas e tomar decisões com base nisso (tradução nossa).

O relatório lembrou, ainda, que o teste era “provavelmente o instrumento de autoconhecimento mais popular em uso”, com uma estimativa de 1988 de 1,7 milhão de pessoas por ano nos Estados Unidos. A popularidade, escreveram, não coincidia com resultados de pesquisa a favor. Recomendaram que o MBTI não fosse usado em orientação de carreira até que sua validade fosse comprovada.

Dimensões contínuas, não dois grupos

Em 1989, os psicólogos Robert McCrae e Paul Costa, do Instituto Nacional do Envelhecimento dos EUA, aplicaram o MBTI a 267 homens e 201 mulheres de 19 a 93 anos e compararam com um teste dos cinco grandes fatores. Concluíram que não havia apoio para a ideia de preferências “verdadeiramente dicotômicas” ou tipos “qualitativamente distintos”: o instrumento mede quatro dimensões relativamente independentes (tradução nossa). O 16Personalities faz uma ressalva parecida sobre qualquer teoria de tipos: ela tem dificuldade de descrever quem fica perto da linha que divide os dois polos.

Os mesmos autores, porém, mostraram que as quatro escalas medem aspectos de quatro dos cinco grandes fatores da personalidade. A editora cita uma metanálise de 2016, com sete estudos e 2.243 pessoas, que chegou a algo parecido: extroversão/introversão se alinha ao fator extroversão (correlação de 0,79), sensação/intuição à abertura (0,65), pensamento/sentimento à amabilidade (0,42) e julgamento/percepção à conscienciosidade (0,53). O quinto fator, neuroticismo, não está no MBTI, segundo a editora.

Fotografia em preto e branco de seis homens de terno em frente a uma parede de tijolos coberta de hera: três sentados na frente, entre eles um de barba grisalha e outro de bigode e olhar direto, e três de pé atrás.
Jung, sentado à direita, com Sigmund Freud e G. Stanley Hall (fila da frente) e Abraham Brill, Ernest Jones e Sándor Ferenczi, em frente à Universidade Clark, em Worcester (Massachusetts), em setembro de 1909. Imagem: Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

O teste que nem o dono manda usar para contratar

Há um paradoxo, e a editora é quem o confirma. Em seu site, a The Myers-Briggs Company afirma que o MBTI é usado por 88% das empresas da lista Fortune 500. Na página de perguntas e respostas, porém, responde que ele “não se destina” à seleção de candidatos nem à escolha de equipes e funções. Diz ainda que dados de validade para recrutamento não existem.

A editora cita a Fundação Myers & Briggs, que considera antiético exigir que candidatos façam o teste se o resultado servir para eliminar alguém. Como as perguntas são de “propósito claro”, explica a editora, um candidato poderia facilmente forjar o perfil “ideal”. Para a Fundação, o teste não mede aptidão, competência nem habilidade. O 16Personalities, por sua vez, afirma que não oferece nada em que não acredita, como teste de personalidade em entrevistas de emprego.

Esse é o ponto que amarra tudo. Quem faz o teste gratuito na internet recebe quatro letras que parecem MBTI, mas vêm de outro modelo. Quem faz o MBTI oficial recebe um instrumento que seus donos dizem ser de autoconhecimento, e não de seleção. E, nos dois casos, o resultado é uma escala contínua que foi cortada em tipos.

Isso não torna o teste inútil como espelho. A Fundação afirma que o tipo descreve tendências, não absolutos, e que a pessoa deve decidir qual tipo lhe cabe. É uma ideia parecida com a dos estilos de aprendizagem visual, auditivo e cinestésico, categorias que a revisão de 2008 não encontrou como guia para ensinar. Vale conhecer também o que o estudo de 1999 mostra sobre o efeito Dunning-Kruger e quem desenhou a pirâmide de Maslow, outras ideias da psicologia popular que ganharam forma longe do estudo original.

Fontes

  1. MBTI Facts, The Myers-Briggs Company, editora exclusiva do MBTI
  2. Our Story, The Myers-Briggs Company
  3. MBTI Reliability & Validity, Myers & Briggs Foundation
  4. Ethical Use of the MBTI Assessment, Myers & Briggs Foundation
  5. Our Legacy: Myers-Briggs and Jung, Myers & Briggs Foundation
  6. In the Mind’s Eye: Enhancing Human Performance (1991), capítulo 5, National Research Council, National Academies Press
  7. Reinterpreting the Myers-Briggs Type Indicator from the perspective of the five-factor model of personality (1989), McCrae e Costa, Journal of Personality 57(1), 17–40, via PubMed
  8. Our Theory, 16Personalities (NERIS Analytics)
  9. 16Personalities, página inicial em português (nomes dos tipos), 16Personalities (NERIS Analytics)
  10. Psychological Types; or, The Psychology of Individuation (tradução inglesa, 1926), C. G. Jung, trad. H. Godwin Baynes; digitalização do Internet Archive

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Perguntas frequentes

O teste 16 personalidades é o mesmo que o MBTI?
Não. O 16Personalities usa as quatro letras do MBTI e acrescenta uma quinta, Assertivo ou Turbulento, sobre dimensões que o próprio site diz ter reformulado a partir do Big Five. Ele afirma que não usa as funções cognitivas de Jung. O MBTI oficial é publicado pela The Myers-Briggs Company e aplicado por profissionais certificados ou em sessão interativa de devolutiva.
O teste de 16 personalidades é confiável?
Depende do que se mede. A editora do MBTI informa correlações de 0,81 a 0,86 entre dois testes feitos com até 15 semanas de intervalo, mas só cerca de 50% das pessoas repetem o tipo de quatro letras. Um relatório de 1991 citou de 24% a 61%, e um estudo de 1989 concluiu que o teste mede dimensões contínuas, não tipos distintos. O 16Personalities informa uma precisão de 91,2% no próprio site, sem estudo independente citado aqui.
Quais são os 16 tipos de personalidade?
São as combinações de quatro letras: introvertido ou extrovertido, intuitivo ou observador, racional ou emocional, julgador ou explorador. No 16Personalities em português, entram em quatro grupos: Analistas (Arquiteto INTJ, Lógico INTP, Comandante ENTJ, Inovador ENTP), Diplomatas, Sentinelas e Exploradores. Cada grupo tem quatro tipos.
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