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A “síndrome do impostor” nasceu em 1978 como “fenômeno”, a partir de mais de 150 mulheres de alto desempenho. Não é diagnóstico, e a proporção de pessoas afetadas vai de 9% a 82% conforme a escala usada

Pauline Clance e Suzanne Imes descreveram o fenômeno do impostor em artigo de 1978. Uma revisão de 2020 reuniu 62 estudos, achou o problema em homens e mulheres e mostrou que o número de casos depende do corte da escala.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Pintura de um grupo de figuras com máscaras de feições exageradas e cores fortes; no centro, uma de cartola azul e casaco amarelo-ocre, ao lado de uma mulher com chapéu de flores e de uma figura de vermelho que carrega um boneco no colo.
James Ensor, via Wikimedia Commons · CC0

Em 30 segundos

  • O “fenômeno do impostor” foi descrito em 1978 por Pauline Clance e Suzanne Imes, a partir de observações com mais de 150 mulheres de alto desempenho em terapia, grupos e aulas. As autoras diziam que ele não se encaixa em nenhuma categoria diagnóstica.
  • Uma revisão de 2020, com 62 estudos e 14.161 participantes, encontrou prevalências de 9% a 82%, dependendo da escala e do ponto de corte. A condição apareceu em homens e mulheres.
  • A mesma revisão lembra que a síndrome do impostor não consta no manual de diagnóstico da psiquiatria americana (DSM) nem na CID-10, e que nenhum estudo publicado até 2018 avaliava tratamentos.
  • Em 2021, um artigo da Harvard Business Review criticou o conceito por transformar em problema individual uma sensação que, segundo as autoras, tem causas de exclusão e preconceito.

“Síndrome do impostor” é o nome popular de um “fenômeno do impostor”, descrito em 1978 pelas psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes. Elas o chamaram de fenômeno, e não de síndrome, e disseram que quem o vive não se encaixa em nenhuma categoria diagnóstica. Segundo uma revisão de 2020, ele não consta no manual de diagnóstico da psiquiatria americana, o DSM, nem na CID-10.

O que ficou do artigo original é a descrição: pessoas com realizações comprovadas que se convencem de que enganaram todo mundo. O que não ficou é a ideia de que o problema seja raro, só de mulheres ou fácil de medir.

O que Clance e Imes viram em 1978

O artigo saiu em 1978 na revista Psychotherapy: Theory, Research and Practice, com as duas autoras ligadas à Universidade Estadual da Geórgia, em Atlanta. O título, em tradução nossa, era “O fenômeno do impostor em mulheres de alto desempenho”. Segundo o texto, nos cinco anos anteriores elas haviam trabalhado em psicoterapia individual, em grupos e em aulas universitárias com mais de 150 mulheres de grande sucesso: doutoras, profissionais respeitadas e estudantes premiadas.

Rua do centro de uma cidade vista do alto, com arranha-céus de vidro e concreto ao fundo, árvores de folhas verdes nos dois lados e uma van branca no cruzamento, sob céu azul.
O centro de Atlanta, na Geórgia, onde fica a Georgia State University, a instituição das autoras do artigo de 1978. A foto não tem data informada. Imagem: Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

O número merece uma ressalva. A lista de grupos que o próprio artigo traz soma 178 mulheres: 95 universitárias e 10 professoras de uma faculdade particular do Meio-Oeste, 45 pessoas de uma grande universidade do Sul, 6 estudantes de medicina e 22 profissionais. Eram, em geral, brancas, de classe média a alta, de 20 a 45 anos. Cerca de um terço era de pacientes de terapia por outros motivos, e o resto estava em grupos ou aulas das autoras.

Não era uma pesquisa com amostra sorteada. Era um relato clínico, e as autoras o tratam assim. Numa nota de rodapé, escrevem que, pela experiência delas, o fenômeno aparecia com muito menos frequência e intensidade em homens, e que “essa observação clínica precisa ser pesquisada” (tradução nossa).

Os exemplos são do tipo que qualquer leitor reconhece. Uma professora disse: “Não sou boa o bastante para estar nesta faculdade. Foi cometido algum erro no processo seletivo” (tradução nossa). Estudantes imaginavam que tinham sido admitidas por engano do comitê. As autoras acrescentam que ansiedade, falta de autoconfiança, depressão e frustração com padrões pessoais altos eram os sintomas mais relatados e que isso não formava uma categoria diagnóstica.

Por que o ciclo não se desfaz sozinho

O artigo descreve duas histórias de família. Numa, a mulher era “a sensível” e o irmão, “o inteligente”. Na outra, a família a tratava como perfeita em tudo, e ela concluía que, se precisava estudar, era uma fraude.

Depois vêm quatro comportamentos que, segundo as autoras, mantêm o fenômeno: trabalhar demais para não ser descoberta, esconder as próprias opiniões para agradar, usar charme para ganhar aprovação e manter a imagem de impostora para evitar a rejeição que, na visão delas, recai sobre mulheres que demonstram confiança. A conclusão é direta: “não achamos que sucessos repetidos, sozinhos, sejam suficientes para quebrar o ciclo” (tradução nossa). As autoras recomendavam terapia com várias abordagens, de preferência em grupo, onde uma mulher que conta o segredo permite que as outras contem o seu.

Homens também, e um número que depende da régua

Em 2020, Dena Bravata e colegas publicaram no Journal of General Internal Medicine a primeira revisão sistemática do tema. Reuniram 62 estudos, com 14.161 participantes, buscados em bases de dados até maio de 2018. A síndrome apareceu em homens e mulheres e em todas as idades, de adolescentes a profissionais no fim de carreira. Metade dos estudos que testaram diferença de gênero não achou nenhuma.

A prevalência variou de 9% a 82%, “em grande parte conforme a escala e o ponto de corte”, segundo os autores (tradução nossa). Um exemplo: num estudo com 654 católicos coreanos, o resultado foi de 24% com corte de 62 pontos na escala de Clance e de 39% com corte de 58.

Pintura de um homem de barba e chapéu vermelho de pluma, ao centro, olhando de lado, cercado por dezenas de máscaras de rostos coloridos e grotescos, algumas parecidas com caveiras.
Ilustração. Autorretrato com máscaras, do pintor belga James Ensor, de 1899, no Museu Menard, em Komaki, no Japão. A tela ilustra o tema da máscara e não tem relação com os estudos citados. Imagem: James Ensor, via Wikimedia Commons · Domínio público

A escala é a de Clance, de 1985: 20 afirmações respondidas de 1 a 5, publicadas no livro The Impostor Phenomenon. Na pontuação sugerida pela autora, 40 ou menos indica poucas características; de 41 a 60, experiências moderadas; de 61 a 80, sentimentos frequentes; e acima de 80, vivências intensas. A revisão de 2020 lembra que há outras leituras. Alguns pesquisadores usam 62 como linha de corte, e outros a mediana da própria amostra.

A revisão faz duas ressalvas sobre si mesma: os estudos eram heterogêneos e pode haver viés de publicação. E informa que foi financiada pela Crossover Health, empresa de clínicas contratadas por empregadores, da qual quase todos os autores eram funcionários ou consultores. O artigo diz que a empresa não teve papel no desenho, na condução nem no relato do estudo. Nenhum estudo publicado, até 2018, avaliava tratamentos para a condição. Os autores recomendaram que ela fosse considerada para inclusão no DSM.

A crítica: um nome que põe a culpa em quem sente

Em fevereiro de 2021, a Harvard Business Review publicou um artigo com o título “Parem de dizer às mulheres que elas têm síndrome do impostor”, de Ruchika Malhotra e Jodi-Ann Burey. O resumo afirma que a ideia de ver isso como diagnóstico é problemática: o conceito, formulado nos anos 1970, “excluiu os efeitos de racismo sistêmico, classismo, xenofobia e outros preconceitos” e transformou uma sensação “bastante universal” de desconforto, dúvida e ansiedade leve no trabalho em algo patológico, “especialmente para mulheres”. A saída, dizem, não é consertar indivíduos, e sim criar ambientes onde vários estilos de liderança sejam aceitos (tradução nossa).

O artigo de 1978 já atribuía parte do fenômeno a expectativas sociais sobre as mulheres. A discordância é sobre onde pôr o foco: em quem sente ou em quem decide quem pertence ao lugar.

Quem deu o nome também sentiu

No site dela, Clance conta que viveu o fenômeno na pós-graduação: depois de uma prova importante, tinha muito medo de ter ido mal e lembrava “tudo o que não sabia, e não o que sabia” (tradução nossa). Anos depois, ao dar aulas numa faculdade de prestígio, ouviu de uma estudante que a procurou para conversar: “Sinto-me uma impostora aqui, no meio de tantas pessoas realmente brilhantes” (tradução nossa). Daí, com Imes, cunhou o termo.

Ela diz que a maioria de quem vive isso não afirma “sinto-me uma impostora”, mas, ao ler a descrição, reage com “como você sabia exatamente o que sinto?”. E alerta, na mesma página, que o resultado do teste não é diagnóstico.

A história é quase o oposto do efeito Dunning-Kruger: no artigo de 1999, quem ia pior no teste se avaliava acima da própria nota, e no de 1978 gente com resultados comprovados se avalia abaixo. O conselho de “fingir até conseguir”, que dá nome a uma das oficinas de Clance, pede a mesma cautela que a pose de poder de Amy Cuddy, cujas réplicas só confirmaram a sensação. E, sobre o peso do grupo na hora de dizer o que se pensa, vale ver o que os dados de Asch mostram.

Fontes

  1. The Imposter Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention (1978), Clance e Imes, Psychotherapy: Theory, Research and Practice 15(3), cópia no site de Pauline Rose Clance
  2. Impostor Phenomenon, Pauline Rose Clance (site oficial)
  3. Clance IP Scale e instruções de pontuação, Pauline Rose Clance (site oficial)
  4. Prevalence, Predictors, and Treatment of Impostor Syndrome: a Systematic Review (2020), Bravata et al., Journal of General Internal Medicine 35(4), 1252–1275, via PubMed Central
  5. Stop Telling Women They Have Impostor Syndrome (2021), Ruchika T. Malhotra e Jodi-Ann Burey, Harvard Business Review

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Perguntas frequentes

O que é a síndrome do impostor? É uma doença?
É a sensação persistente de que o próprio sucesso é fruto de sorte ou engano e de que alguém vai descobrir a “farsa”, mesmo com realizações comprovadas. Não é uma doença reconhecida: a revisão de 2020 registra que ela não consta no DSM, da psiquiatria americana, nem na CID-10. Clance e Imes a chamaram de “fenômeno” em 1978 e disseram que ela não se encaixa em uma só categoria diagnóstica.
Quantas pessoas têm síndrome do impostor?
Não há um número único. A revisão de 2020, com 62 estudos e 14.161 participantes, encontrou prevalências de 9% a 82%, em grande parte conforme a escala e o ponto de corte. Num estudo com 654 coreanos, o resultado foi de 24% com corte de 62 pontos na escala de Clance e de 39% com corte de 58.
O teste de síndrome do impostor diagnostica?
Não. A escala de Clance tem 20 afirmações respondidas de 1 a 5, e a autora diz em seu site que o resultado não constitui diagnóstico oficial. A pontuação, segundo ela, vai de 40 ou menos (poucas características) a mais de 80 (experiências intensas). A revisão de 2020 observa que os pontos de corte variam bastante entre os estudos.
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