Os camundongos do Universo 25 chegaram a 2.200 com comida e água à vontade e, 1.588 dias depois do início, restavam 27. Calhoun escreveu que a gente podia seguir o mesmo caminho, mas admitiu que aquilo não era uma experiência equilibrada
O experimento de John B. Calhoun, no Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, é real e os números estão no artigo de 1973. A leitura de que a superlotação explica o colapso de sociedades humanas é outra história.

Em 30 segundos
- Em 9 de julho de 1968, quatro casais de camundongos foram soltos num recinto com comida, água e ninhos de sobra, sem predadores. A população chegou ao pico de 2.200 no dia 560.
- O último nascimento que sobreviveu foi no dia 600. Em 13 de novembro de 1972, dia 1.588, restavam 27 animais, 23 fêmeas e 4 machos.
- Calhoun relatou machos que se isolavam, fêmeas que rejeitavam os filhotes e os "belos", que só comiam, bebiam, dormiam e se limpavam. Ele mesmo disse que não era uma experiência equilibrada, e sim a observação de um processo.
- Para ele, a densidade em si não era o fator principal: o decisivo era a taxa e a qualidade das interações sociais. Historiadores da ciência mostram que a versão popular simplificou a mensagem dele.
Em 9 de julho de 1968, quatro casais de camundongos foram soltos num recinto quadrado do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA (NIMH). Tinham comida, água e ninhos de sobra e nenhum predador. A população chegou a 2.200 e depois diminuiu até que, em 13 de novembro de 1972, restavam 27.
O experimento é real e o artigo de John B. Calhoun, de 1973, traz os números. O que não está nele é a conclusão que circula, de que a superlotação provou o fim de sociedades humanas.
O recinto onde nada faltava
Calhoun trabalhou no NIMH de 1954 até se aposentar, em 1988, segundo a Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA. Ele descreveu o "universo" no artigo "Death Squared", publicado na Proceedings of the Royal Society of Medicine. Era um quadrado de 2,57 metros de lado, com paredes de 1,37 metro, no segundo andar de um prédio pré-fabricado de metal. Havia 16 células, com 256 caixas de ninho onde cabiam 15 camundongos cada, e a temperatura ficava perto de 20 graus nos meses frios.
Os animais eram da linhagem Balb C, vinda da colônia de reprodução do NIH. Culturas de bactérias no pico de densidade indicaram que doença epidêmica não era um fator. Pelas contas de Calhoun, o acesso a comida só seria limitante com 9.500 animais, e o de água, com 6.144.

Quatro fases e um pico no dia 560
Calhoun dividiu a história em fases. Nos primeiros 104 dias, com os oito camundongos se ajustando, não nasceu ninguém. Depois a população dobrou a cada 55 dias, até 620 no dia 315.
Daí em diante o crescimento desacelerou, e a população dobrava só a cada 145 dias. O aumento parou no dia 560, com 2.200 animais. No pico, 20% dos ninhos estavam vazios, ou seja, havia lugar para as fêmeas criarem. O último nascimento que sobreviveu foi no dia 600, e a última concepção, por volta do dia 920.
O que ele viu dentro do recinto
Calhoun relatou que machos que perdiam a disputa por posição se retiravam e ficavam agrupados no centro do piso, com muitas feridas de ataques de outros machos retirados. As fêmeas, cada vez mais expostas à invasão dos ninhos, ficaram agressivas e atacaram os próprios filhotes, que eram expulsos antes do desmame.
Num universo paralelo de duas células, entre 148 fêmeas autopsiadas, só 18% tinham concebido alguma vez. Os machos que ele chamou de "belos" nunca se aproximaram de fêmeas nem brigaram e tinham o pelo em ótimo estado, e o repertório deles ficou restrito a comer, beber, dormir e se limpar.

O colega Halsey Marsden retirou pequenos grupos do recinto e os colocou em universos de baixa densidade. Segundo o artigo, todos perderam quase por completo a capacidade de formar uma sociedade estruturada ou de se reproduzir.
O que Calhoun concluiu e o que ele admitiu
No artigo, Calhoun escreveu que, para um animal tão complexo quanto o homem, "não há razão lógica" para que uma sequência comparável não leve à extinção da espécie (tradução nossa). Foi a fala que alimentou a leitura catastrofista.
Mas na discussão que o artigo reproduz, ele foi mais cauteloso. O presidente da sessão citou Hong Kong, com densidades muito maiores que as do leste de Londres, e Calhoun respondeu que a densidade em si "não era o fator principal" e que a taxa e a qualidade da interação social eram o essencial. Disse também que aquilo não era "ciência normal, uma experiência equilibrada": era "observação e reconstrução de um processo". O universo mais longo seguido por ele era o 25, mas ele tinha outras populações menores.
O que o artigo sustenta e o que ele não sustenta
Em cada item, primeiro: o que calhoun mediu. Depois: o que ele não mediu.
- Uma população de camundongos Balb C, num recinto de 16 células, de 1968 a 1972.
- Um experimento controlado: Calhoun disse que não era uma experiência equilibrada.
- Crescimento até 2.200 e queda até 27, com comportamento social desfeito.
- Que o mesmo ocorra com pessoas: ele escreveu que não via razão lógica para o contrário, e só.
- Camundongos sem predadores e sem doença, com tudo à mão.
- Cidades humanas, com ideias, tecnologia e escolhas de organização.
O detalhe que a versão viral não conta
Calhoun já havia sofrido com isso. Os historiadores Edmund Ramsden e Jon Adams mostram que, depois de seu artigo de 1962 na Scientific American sobre ratos e o "sumidouro comportamental", a versão simplificada e sombria do trabalho dele se espalhou por jornais, romances e filmes e passou a eclipsar a mensagem que ele queria transmitir. O artigo de 1962, aliás, foi citado mais de 150 vezes por ano e entrou na lista dos "Quarenta estudos que mudaram a psicologia", segundo eles.
Para Calhoun, o homem era um "animal positivo", que enfrentava a falta de espaço ampliando o "espaço conceitual", com ideias e tecnologia. Ele via o colapso como um risco, e não como destino. Nos anos seguintes, tentou projetar universos que reduzissem os efeitos da superlotação.
É uma boa razão para olhar de novo as histórias que se repetem como se fossem a palavra final, do experimento da prisão de Stanford à teoria das janelas quebradas. Cada uma tem um estudo, um resumo famoso e um intervalo entre os dois.
Fontes
- Death Squared: The Explosive Growth and Demise of a Mouse Population (1973), John B. Calhoun, Proceedings of the Royal Society of Medicine 66(1):80-88 (via PubMed Central)
- Escaping the laboratory: the rodent experiments of John B. Calhoun and their cultural influence (2009), Edmund Ramsden e Jon Adams, Journal of Social History 42(3), versão aceita no LSE Research Online
- John B. Calhoun Papers, 1909-1996, Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA (NLM), instrumento de pesquisa
- Population density and social pathology (1962), John B. Calhoun, Scientific American 206:139-48 (registro no PubMed)
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Perguntas frequentes
- O que foi o experimento Universo 25?
- Foi um estudo do etologista John B. Calhoun, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA. Em 9 de julho de 1968, quatro casais de camundongos foram colocados num recinto de 16 células, com comida, água e ninhos de sobra e sem predadores. A população chegou a 2.200 no dia 560 e depois caiu: em novembro de 1972, restavam 27 animais.
- O Universo 25 foi feito com ratos?
- Não, com camundongos da linhagem Balb C. Os ratos foram usados nos experimentos anteriores de Calhoun, publicados na Scientific American em 1962, em que ele descreveu o chamado "sumidouro comportamental". O Universo 25 é do fim dos anos 1960 e foi relatado por ele em 1973.
- O Universo 25 prova que a superlotação destrói a sociedade humana?
- Não prova. Calhoun escreveu em 1973 que não via razão lógica para uma sequência parecida não levar também à extinção da espécie humana, mas ele próprio disse numa discussão que a densidade em si não era o fator principal e que aquilo não era uma experiência equilibrada, e sim observação e reconstrução de um processo. Foi a maior e a mais longa de várias populações observadas.
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