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Cerca de 60% das pessoas já viveram um déjà vu. Em laboratório, ele foi provocado com cenários de realidade virtual e listas de palavras, e a ciência ainda discute onde ele nasce no cérebro

Déjà vu é a sensação de familiaridade diante do que se sabe ser novo. Uma carta de 1876 já o descrevia, e experimentos recentes testam por que ele aparece, sem consenso sobre a causa.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Pintura de uma cabeça de mulher de olhos fechados e cabelos castanhos longos, em tons suaves de azul-acinzentado e ocre, que parece emergir de uma superfície clara como água.
Odilon Redon, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Uma revisão de 2003 diz que cerca de 60% da população já teve déjà vu, que a frequência cai com a idade e que a sensação aparece associada a estresse e cansaço.
  • Numa carta de 1876 à Revue philosophique, o professor Émile Boirac descreveu a sensação de "já ter visto" um lugar novo e a chamou de "sensação do déjà vu".
  • Em 2012, Anne Cleary mostrou que cenários de realidade virtual com o mesmo arranjo espacial de outros, já esquecidos, aumentavam os relatos de déjà vu. Em 2018, um grupo de St Andrews registrou por ressonância regiões do conflito de memória.
  • Estimular o lobo temporal de pacientes com epilepsia também provocou a sensação, mas os autores dizem que o que causa o déjà vu comum segue em aberto.

Déjà vu, em francês, é "já visto": a sensação de estar vivendo de novo algo que, ao mesmo tempo, a pessoa sabe ser novo. Segundo uma revisão de 2003 publicada na Psychological Bulletin, cerca de 60% da população já passou por isso, e a frequência diminui com a idade.

Em laboratório, essa sensação já foi provocada de vários jeitos, com cenários de realidade virtual, listas de palavras e eletrodos no cérebro de pacientes. Nenhum deles esgotou o assunto, e os próprios autores dizem que a causa do déjà vu cotidiano ainda não foi resolvida.

Uma carta de 1876 e a "sensação do déjà vu"

O registro mais antigo que encontramos com a expressão está na Revue philosophique, de 1876. Émile Boirac, professor de filosofia do liceu de Poitiers, escreveu uma carta à revista contando que, ao ver pela primeira vez um monumento, uma paisagem ou uma pessoa, lhe vinha o juízo "já vi o que vejo" (tradução nossa). Segundo ele, a sensação do "déjà vu" era muito viva e não sumia com a reflexão. Notou-a principalmente ao chegar, para morar, numa cidade desconhecida.

Também a sentiu lendo: de repente, lembrava de ter lido aquela página, sem nunca ter lido o livro. Boirac escreveu que ouviu "várias pessoas" dizerem que conheciam a mesma ilusão. Em 1896, Arnaud descreveu um paciente com uma forma patológica da sensação, num relato que, segundo uma análise de 2017 na Cortex, está entre os primeiros artigos científicos a usar o termo.

Retrato em preto e branco de um homem calvo, de terno escuro e gravata estampada, com um lenço branco no bolso, olhando para a esquerda do quadro, sobre fundo cinza e margens brancas.
Wilder Penfield (1891-1976), em foto de 1959 do acervo da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA. Segundo o resumo de um artigo de 1994, Penfield mostrou que a estimulação elétrica do lobo temporal podia evocar o chamado estado de sonho. Imagem: United States National Library of Medicine, via Wikimedia Commons · Domínio público

Quem sente, e quando

A revisão de Alan S. Brown reúne mais de um século de pesquisas, por questionários e relatos de casos. O resumo diz que o déjà vu está associado a estresse e cansaço e tem relação positiva com nível socioeconômico e escolaridade. As explicações científicas se dividem em quatro grupos: dois processos cognitivos fora de sincronia, causas neurológicas como crises epilépticas, falha de memória, com familiaridade implícita de algo não reconhecido, e atenção, com uma percepção sem atenção seguida de outra com atenção.

É o terreno das ilusões de memória. Quem quer ver outro caso em que muita gente erra do mesmo jeito pode ler sobre o efeito Mandela.

Cenas parecidas e palavras que enganam

Em 2012, Anne Cleary, da Universidade do Estado do Colorado, usou realidade virtual para tentar provocar a sensação. Ela e os alunos construíram, no jogo "The Sims", uma vila de cenários que chamaram de "Deja ville". Os ambientes eram muito diferentes entre si, mas tinham objetos nos mesmos lugares de uma grade. Segundo a universidade, os participantes relatavam mais déjà vu em cenários novos com o mesmo arranjo espacial de um já visto cuja lembrança não vinha à mente.

Em 2018, Cleary e Claxton testaram se o déjà vu dá poder de prever o futuro. Os participantes tinham de adivinhar a próxima curva num caminho parecido com um já percorrido, mas esquecido. Não acertaram acima do acaso, embora a sensação de saber a direção fosse maior durante o déjà vu. A conclusão do resumo: a premonição sentida pode ser ilusória.

A equipe de Akira O’Connor, na Universidade de St Andrews, seguiu outro caminho: palavras. Num experimento de 2014 com 30 participantes, o déjà vu foi relatado em cerca de 25% dos casos em que a palavra era falsamente familiar e o participante tinha como confirmar que era nova, e em cerca de 10% sem esse sinal.

Em 2018, a equipe repetiu o método com ressonância magnética em 21 pessoas, 16 delas com relato de déjà vu. Encontrou atividade em regiões como o cíngulo anterior, o córtex pré-frontal medial e o parietal, ligadas ao conflito de memória. Os autores apontam limites: só seis participantes entraram na comparação do déjà vu e o limiar estatístico foi frouxo. Também dizem não saber se essas regiões sustentam o fenômeno.

O que a epilepsia mostrou

O outro lado vem de pacientes com epilepsia. Em 1994, Bancaud e colegas estudaram 16 pacientes com eletrodos implantados. A estimulação de áreas do lobo temporal evocou o "estado de sonho", com déjà vu e cenas de memória.

Em 2004, Bartolomei e colegas analisaram 280 estimulações em 24 pacientes. O déjà vu surgiu proporcionalmente mais com a estimulação do córtex entorrinal do que com a da amígdala e a do hipocampo. É uma pista de onde a sensação pode ser disparada, e não de por que ela surge em quem não tem epilepsia. A região medial do lobo temporal, que inclui o hipocampo, é a mesma de que depende a memória de Henry Molaison, o paciente H.M..

Desenho em tinta preta sobre fundo branco de camadas curvas de neurônios com ramificações finas, com siglas EC, DG, CA1, CA3 e Sub, e um pequeno esquema de setas num quadro no canto inferior esquerdo.
Ilustração. Desenho de Santiago Ramón y Cajal (1911) dos circuitos do hipocampo de roedor, com rótulos acrescentados depois. O hipocampo é uma das estruturas estimuladas nos estudos com pacientes com epilepsia. Imagem: Santiago Ramón y Cajal (1911), derivado de Looie496, via Wikimedia Commons · Domínio público

O professor de Poitiers já tinha uma hipótese

Boirac não só descreveu a sensação como arriscou uma explicação, que apresentou apenas como "uma hipótese a examinar" (tradução nossa). Para ele, a percepção nova podia fundir-se, sem que a pessoa notasse, com restos de percepções antigas e parecidas, o que daria a ilusão de antiguidade.

Parece muito com o que o laboratório de Cleary testou 136 anos depois: a familiaridade que nasce quando algo na cena novo combina com algo já guardado, sem que a lembrança original venha. Essa semelhança é leitura nossa, não afirmação dos pesquisadores. O que as fontes mostram é que a pergunta é antiga e a resposta, por ora, é um conjunto de pistas.

Do relato à ressonância

  1. 1876Boirac descreve a "sensação do déjà vu" na Revue philosophique.
  2. 1896Arnaud publica o caso de um paciente com déjà vu patológico.
  3. 1994Bancaud e colegas evocam o "estado de sonho" com eletrodos no lobo temporal.
  4. 2003Brown publica a revisão sobre a experiência do déjà vu.
  5. 2012Cleary usa realidade virtual para provocar a sensação.
  6. 2018A equipe de St Andrews registra por ressonância o déjà vu em laboratório.

Fontes

  1. A review of the déjà vu experience (2003), Alan S. Brown, Psychological Bulletin 129(3):394-413 (resumo no PubMed)
  2. Revue philosophique de la France et de l’étranger, tomo I (janeiro a junho de 1876), seção Correspondance, p. 430-431, Revue philosophique, obra digitalizada no Internet Archive
  3. History repeating itself: Arnaud’s case of pathological déjà vu (2017), Bertrand, Martinon, Souchay e Moulin, Cortex 87:129-141
  4. Familiarity from the configuration of objects in 3-dimensional space and its relation to déjà vu (2012), Cleary et al., Consciousness and Cognition 21(2):969-975 (resumo no PubMed)
  5. Spatial Configuration Can Spark Deja Vu, Colorado State University Psychology Study Reveals (2012), Universidade do Estado do Colorado
  6. Déjà Vu: An Illusion of Prediction (2018), Cleary e Claxton, Psychological Science 29(4):635-644 (resumo no PubMed)
  7. The awareness of novelty for strangely familiar words: a laboratory analogue of the déjà vu experience (2014), Urquhart e O’Connor, PeerJ 2:e666
  8. fMRI evidence supporting the role of memory conflict in the déjà vu experience (versão aceita), Urquhart, Sivakumaran, Macfarlane e O’Connor, Memory (resumo no PubMed; versão aceita lida no repositório da Universidade de St Andrews)
  9. Anatomical origin of déjà vu and vivid memories in human temporal lobe epilepsy (1994), Bancaud et al., Brain 117:71-90 (resumo no PubMed)
  10. Cortical stimulation study of the role of rhinal cortex in déjà vu and reminiscence of memories (2004), Bartolomei et al., Neurology 63(5):858-864 (resumo no PubMed)

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Perguntas frequentes

O que é déjà vu?
É a sensação de que o momento presente já foi vivido, acompanhada da certeza de que ele é novo. A expressão francesa quer dizer "já visto". Segundo uma revisão de 2003 de Alan S. Brown, cerca de 60% das pessoas já passaram por isso, e a frequência diminui com a idade.
Déjà vu significado: de onde vem a expressão?
Do francês, "déjà vu" é "já visto". Numa carta de 1876 à Revue philosophique, o professor de filosofia Émile Boirac, de Poitiers, descreveu ter a impressão de ter visto algo que via pela primeira vez e chamou o fenômeno de "sensação do déjà vu". Um relato clínico de 1896, de Arnaud, está entre os primeiros artigos científicos a usar o termo.
Por que acontece o déjà vu?
Não há uma causa única comprovada. Um experimento de 2012 mostrou que cenários novos com o mesmo arranjo espacial de outros, já esquecidos, aumentavam os relatos de déjà vu. Um estudo de 2018 com ressonância sugeriu que o conflito entre sentir familiaridade e saber que é novo pode ter papel central. E a estimulação do lobo temporal em pacientes com epilepsia também provocou a sensação.
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