O experimento de Rosenhan diz que oito pessoas sãs enganaram 12 hospitais psiquiátricos. Uma jornalista procurou os outros sete voluntários e só achou um
Em 1973, a Science publicou que psiquiatras não distinguiam sãos de doentes. Quase meio século depois, os arquivos do autor, o prontuário dele e os dois participantes encontrados contaram outra história.

Em 30 segundos
- Em 1973, David Rosenhan publicou na Science que oito pessoas sãs foram internadas em 12 hospitais psiquiátricos dizendo ouvir vozes, e que nenhuma equipe percebeu a farsa.
- A jornalista Susannah Cahalan passou anos procurando os voluntários. Além do próprio Rosenhan, só encontrou um dos sete: o estudante Bill Underwood.
- O prontuário de Rosenhan mostra que ele relatou muito mais que vozes ao ser internado, incluindo pensamentos suicidas e a sensação de ouvir o que os outros pensavam.
- Um nono voluntário, Harry Lando, foi cortado do artigo. Ele escreveu que suas impressões do hospital eram "esmagadoramente positivas".
Em 19 de janeiro de 1973, a revista Science publicou que oito pessoas sãs tinham conseguido se internar em 12 hospitais psiquiátricos dos Estados Unidos. Bastou dizer que ouviam uma voz repetindo três palavras: "vazio", "oco" e "baque".
Nenhuma equipe percebeu a farsa. O autor, o psicólogo David Rosenhan, de Stanford, concluiu que a psiquiatria não sabia separar os sãos dos doentes.
Esse é o experimento de Rosenhan, um dos estudos mais famosos da psicologia. Quase meio século depois, a jornalista Susannah Cahalan foi atrás dos voluntários. Além do próprio Rosenhan, só encontrou um dos sete. E os documentos que ela reuniu contradizem o artigo em pontos centrais.
O que o artigo de 1973 contava
O texto, chamado On Being Sane in Insane Places ("Ser são em lugares insanos"), abre com uma pergunta: "Se a sanidade e a insanidade existem, como vamos reconhecê-las?" (tradução nossa).
Segundo Rosenhan, os oito pseudopacientes eram um estudante de pós-graduação em psicologia na casa dos 20 anos, três psicólogos, um pediatra, um psiquiatra, uma pintora e uma dona de casa. Três mulheres e cinco homens, todos com nomes falsos. Ele mesmo foi o primeiro.
Os hospitais ficavam em cinco estados, nas costas leste e oeste. Cada voluntário marcava uma consulta e dizia ouvir vozes. Fora o nome e a profissão, contava a própria vida como ela era. Uma vez internado, parava de simular qualquer sintoma.
Todos foram internados. Das 12 internações, 11 terminaram com diagnóstico de esquizofrenia. A exceção, num hospital privado, foi psicose maníaco-depressiva. Cada um saiu com o rótulo de esquizofrenia "em remissão". As estadias foram de 7 a 52 dias, com média de 19.
Os outros pacientes desconfiavam mais que os médicos. Nas três primeiras internações, segundo o artigo, 35 dos 118 pacientes da ala manifestaram suspeitas. "Você não é louco. Você é jornalista, ou professor", disse um deles (tradução nossa), por causa das anotações constantes.
Os voluntários receberam quase 2.100 comprimidos e só engoliram dois. O contato diário com psiquiatras, psicólogos, residentes e médicos somados foi, em média, de 6,8 minutos.
O artigo ainda descreve uma armadilha. A equipe de um hospital-escola que duvidava dos resultados foi avisada de que receberia falsos pacientes nos três meses seguintes. Dos 193 pacientes avaliados, 41 foram apontados com alta confiança como impostores por pelo menos um funcionário. Rosenhan não tinha mandado ninguém.
A conclusão foi direta: "Está claro que não conseguimos distinguir os sãos dos insanos em hospitais psiquiátricos" (tradução nossa).
Por que o estudo pesou tanto
Segundo o historiador Andrew Scull, da Universidade da Califórnia em San Diego, pelo menos 70 jornais americanos deram destaque ao estudo. A Science publicou 15 cartas de psiquiatras em abril de 1973, junto com uma resposta do autor.
Scull sustenta que o artigo teve papel crucial em convencer a Associação Psiquiátrica Americana a reescrever seu manual de diagnósticos. A terceira edição, o DSM-III, saiu em 1980, sob comando do psiquiatra Robert Spitzer.
Spitzer se tornou o principal crítico de Rosenhan. Em 1975, escreveu que o artigo era "pseudociência apresentada como ciência" e, brincando com o diagnóstico dado aos voluntários, que o estudo merecia o de "lógica em remissão" (tradução nossa). Pediu os prontuários dos pseudopacientes. Rosenhan respondeu que era "obrigado a proteger essas fontes" (tradução nossa) e nunca os enviou.
A jornalista que foi procurar os voluntários
Susannah Cahalan já tinha estado do outro lado. Antes de receber o diagnóstico correto, uma encefalite autoimune rara, ela teve paranoia e alucinações e foi tratada com antipsicóticos. Contou isso no livro Brain on Fire, de 2012. Depois dele, uma conversa com psiquiatras do McLean Hospital, em Boston, a apresentou ao estudo de Rosenhan.
Rosenhan morreu em 2012. Quem deu a Cahalan acesso aos arquivos dele foi o psicólogo Lee Ross, colega de Stanford. Havia anotações, rascunhos do artigo e as primeiras 200 páginas de um livro sobre o estudo, que nunca foi terminado.
Mas não havia os nomes reais. Uma pasta chamada "Pseudopacientes" trazia só pseudônimos e dados biográficos curtos. Durante dois anos, Cahalan seguiu pistas pelo país, contratou um detetive particular e publicou um pedido de ajuda na revista The Lancet Psychiatry, em 2017. Nada.
Nancy Horn, assistente de pesquisa de Rosenhan na época, só sabia de três participantes: o próprio Rosenhan e dois estudantes de Stanford. Um deles era Bill Underwood, que é o estudante descrito no artigo. O outro, Harry Lando, nem está entre os oito.

O que os documentos contradizem
O prontuário de Rosenhan. Ele foi internado no Haverford State Hospital, na Pensilvânia, em 6 de fevereiro de 1969. O psiquiatra que o examinou anotou que ele ouvia vozes dizendo "está vazio", "nada dentro" e "está oco, faz um barulho vazio". Também registrou que ele se dizia "sensível a sinais de rádio", capaz de ouvir "o que as pessoas estão pensando", que tapava os ouvidos com cobre, que estava sem trabalhar havia seis meses e que tinha pensamentos suicidas. O diagnóstico foi esquizofrenia do tipo esquizoafetivo, deprimido.
O artigo dizia que, além do sintoma, só nome, profissão e emprego tinham sido falseados.
O estudante. O artigo afirma que ele "tinha treinado por bastante tempo" para entrar no hospital. Underwood contou a Cahalan que a única preparação foi aprender a esconder o comprimido na bochecha sem engolir. Ficou oito dias no Agnews State Hospital, na Califórnia. No prontuário dele não há "esquizofrenia em remissão": o campo do motivo da alta está em branco. E ele disse que nunca passou a Rosenhan contagens como as publicadas.
O nono voluntário. Uma nota de rodapé do artigo diz que houve um nono pseudopaciente, excluído por ter falseado dados pessoais. Era Lando. Em 1976, ele mesmo publicou o relato: 19 dias na ala psiquiátrica de um grande hospital público, conversas de mais de uma hora com a equipe e nenhum paciente ignorado. "Minhas impressões gerais do hospital são esmagadoramente positivas", escreveu (tradução nossa).
Underwood também omitiu o casamento ao ser internado, e Rosenhan mudou bem mais que isso. Só os dados de Lando saíram. Nos arquivos havia duas versões do artigo, uma com nove voluntários e outra com oito, com os mesmos números.
O artigo de 1973 e os documentos
Em cada item, primeiro: o que o artigo disse. Depois: o que os documentos mostram.
- Os voluntários só relataram ouvir três palavras
- O prontuário de Rosenhan registra pensamentos suicidas, sinais de rádio e cobre nos ouvidos
- O estudante treinou por bastante tempo
- Underwood diz que só aprendeu a esconder o comprimido na bochecha
- Todos saíram com esquizofrenia em remissão
- No prontuário de Underwood, o motivo da alta está em branco
- Oito pseudopacientes
- Um nono, que teve boa impressão do hospital, foi cortado, e os números ficaram iguais
O artigo também diz que cada voluntário tinha um mandado de habeas corpus pronto. O advogado Robert Bartels contou a Cahalan que se discutiu o mandado para uma ou duas pessoas, mas que não se lembra de ter preparado nenhum.
Fraude ou mistério sem solução
Os números de Underwood não batem nem entre as fontes. Nos papéis de Rosenhan, ele teria passado 7 dias num hospital de 8 mil pacientes. Segundo Cahalan, foram 8 dias num hospital com cerca de 1.500: a resenha da Nature fala em 1.500, e o resumo de Griggs e colegas, em 1.510.
Scull pediu à Science os pareceres da revisão de 1973. A revista respondeu que não tem registros de manuscritos e pareceres daquele período.
Em 2023, Scull classificou o estudo na revista History of Psychiatry como "um caso espetacularmente bem-sucedido de fraude científica" (tradução nossa). Os psicólogos Richard Griggs, Jenna Blyler e Sherri Jackson, ao resumir o livro para professores, escrevem que Cahalan concluiu ser "definitivamente possível" que Rosenhan tenha inventado alguns, ou todos, os pseudopacientes e seus dados.
A própria Cahalan é mais cautelosa. Segundo a resenha da Nature, ela escreve que não pode ter certeza absoluta de que Rosenhan trapaceou. Mesmo assim, deu ao livro, de 2019, o título de The Great Pretender: "o grande fingidor".
O experimento que acusou os psiquiatras de não enxergar quem estava fingindo pode ter tido, ele mesmo, pacientes que nunca existiram. Não é o único clássico de Stanford que muda de figura quando se abre o arquivo: no experimento da prisão de Stanford, os papéis mostram que os guardas receberam instruções precisas. E os arquivos de Yale mostram quem desconfiou e quem disse não nos testes de Milgram.
Fontes
- On Being Sane in Insane Places (1973), David L. Rosenhan, Science 179(4070), 250–258
- Rosenhan revisited: successful scientific fraud (2023), Andrew Scull, History of Psychiatry 34(2), 180–195
- New revelations about Rosenhan’s pseudopatient study: Scientific integrity in remission, Griggs, Blyler e Jackson, Scholarship of Teaching and Learning in Psychology (APA)
- On the troubling trail of psychiatry’s pseudopatients stunt (2019), Alison Abbott, Nature 574, 622–623 — resenha de The Great Pretender, de Susannah Cahalan
- On being sane in insane places: A supplemental report (1976), Harry A. Lando, Professional Psychology 7(1), 47–52
- On pseudoscience in science, logic in remission, and psychiatric diagnosis (1975), Robert L. Spitzer, Journal of Abnormal Psychology 84(5), 442–452
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Perguntas frequentes
- O que foi o experimento de Rosenhan?
- Foi um estudo publicado pelo psicólogo David Rosenhan, da Universidade Stanford, na revista Science em 19 de janeiro de 1973, com o título On Being Sane in Insane Places. Segundo o artigo, oito pessoas sem histórico de doença mental se apresentaram a 12 hospitais psiquiátricos de cinco estados americanos dizendo ouvir vozes que falavam "vazio", "oco" e "baque". Todas foram internadas, 11 das 12 internações receberam diagnóstico de esquizofrenia, e as estadias duraram de 7 a 52 dias, com média de 19. Rosenhan concluiu que os hospitais não conseguiam distinguir os sãos dos doentes.
- O experimento de Rosenhan foi uma fraude?
- Há fortes indícios de que o artigo não descreveu o que aconteceu. A jornalista Susannah Cahalan, autora de The Great Pretender (2019), só encontrou um dos sete voluntários além de Rosenhan. O prontuário do próprio Rosenhan mostra que ele relatou sintomas muito mais graves do que o artigo diz, e os dados de um nono participante, que elogiou o hospital, foram cortados. O historiador Andrew Scull, que teve acesso aos documentos, classificou o estudo como fraude científica em 2023. Cahalan, segundo a resenha da Nature, escreve que não pode ter certeza absoluta de que Rosenhan trapaceou.
- Quem eram os pseudopacientes de Rosenhan?
- O artigo descreve um estudante de pós-graduação em psicologia na casa dos 20 anos, três psicólogos, um pediatra, um psiquiatra, uma pintora e uma dona de casa: três mulheres e cinco homens, todos com pseudônimos. Rosenhan foi o primeiro. Cahalan identificou o estudante, Bill Underwood, e um nono voluntário excluído do artigo, Harry Lando. Os outros seis nunca foram encontrados, nem por um detetive particular que ela contratou.
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