Pular para o conteúdo

O sino de Pavlov quase nunca tocou. Ele usava metrônomo, diapasão e campainha

O experimento mais citado da psicologia tem um objeto que praticamente não existiu. E a parte que sumiu dos livros é a que Pavlov considerava importante.

Redação Fatos e Relatos5 min de leitura
Retrato fotográfico de Ivan Pavlov, fisiologista russo, de barba branca e jaleco, em seu laboratório.
Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

Todo mundo conhece a cena: Pavlov toca um sino, o cão saliva, nasce o reflexo condicionado. É provavelmente o experimento mais citado da história da psicologia.

O sino é a única parte que não aconteceu. Ao longo de três décadas e dezenas de milhares de ensaios, Pavlov e sua equipe usaram sinos apenas em situações raras e sem importância para o resultado.

O que ele usava de verdade

Pavlov precisava de um sinal que pudesse ser reproduzido exatamente igual, vez após vez. Esse era o ponto inteiro do trabalho: descobrir o quanto um animal consegue distinguir entre estímulos parecidos, e a partir de que ponto ele passa a confundi-los.

Um sino é péssimo para isso. O timbre muda conforme a força da batida, o ângulo, o desgaste do metal. Dois toques nunca são iguais.

Então o laboratório usava metrônomos, diapasões, campainhas elétricas, harmônios, estímulos visuais, jatos de ar, choques elétricos leves. Instrumentos com uma frequência definida, que dá para repetir e para variar com precisão.

O metrônomo é o exemplo mais claro do que ele buscava: dá para ajustar as batidas por minuto e perguntar ao animal, na prática, se ele nota a diferença entre 60 e 62.

De onde veio o sino

Duas explicações se somam, e nenhuma delas envolve má-fé.

A primeira é de tradução. O biógrafo Daniel P. Todes aponta que Pavlov usava a palavra russa zvonok, que designa campainha — mas que costuma ser vertida para o inglês como bell, sino. Uma palavra imprecisa atravessou a fronteira do idioma e virou um objeto errado.

A segunda é de contaminação entre autores. Vladimir Bekhterev e John Watson, psicólogos que trabalharam depois com condicionamento, esses sim usaram sinos. A imagem grudou no nome mais famoso.

Somadas as duas, o sino virou canônico sem nunca ter tocado.

Convém registrar que a correção tem contestação. O psicólogo Roger K. Thomas argumentou em 1997 que Pavlov usou sino: há um relato de 1906 na revista Science e um filme feito no laboratório dele que mostram um sino em condicionamento salivar. Mas a conclusão de Todes, depois de 25 anos nos arquivos, é de escala, não de existência: em dezenas de milhares de ensaios ao longo de três décadas, o sino aparece "apenas em circunstâncias raras e sem importância". Ele existiu. Só não era o instrumento.

O que os livros cortaram

Aqui está a parte que interessa mais do que a correção do instrumento.

Pavlov não estava estudando "cachorro que baba". Ele estava estudando a digestão — e ganhou o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904 exatamente por isso, não pelo reflexo condicionado.

O trabalho que lhe deu o prêmio envolvia cirurgias engenhosas para observar a secreção gástrica em animais vivos e conscientes, com fístulas que permitiam coletar suco gástrico sem interromper a digestão. O reflexo condicionado apareceu como um estorvo: os cães começavam a salivar antes da comida chegar, o que atrapalhava a medição.

Um pesquisador comum teria tratado isso como ruído. Pavlov virou a atenção para o ruído e passou o resto da vida nele.

E a parte que ele considerava mais importante não é o "cão saliva ao ouvir o sinal". É o oposto: a discriminação e a extinção. Quão parecidos podem ser dois estímulos antes que o animal deixe de distingui-los? O que acontece quando o sinal vem e a comida não vem, repetidas vezes?

A extinção é o caso mais simples e o mais revelador. Se o sinal aparece muitas vezes sem que a comida venha atrás, a resposta some. Mas ela não some de vez: depois de um intervalo de descanso, ela reaparece sozinha, mais fraca. Pavlov chamou isso de recuperação espontânea, e ela mostra que o organismo não apagou o aprendizado antigo — apenas escreveu um novo por cima, sem deletar o primeiro.

É uma descoberta com consequências que a psicologia clínica ainda administra hoje. Tratamento de fobia por exposição funciona criando um aprendizado novo, não apagando o antigo; é por isso que uma recaída é possível anos depois.

Foi nesse mesmo terreno que ele encontrou o fenômeno que chamou de neurose experimental. Quando a tarefa de discriminação ficava impossível — dois estímulos próximos demais para serem separados —, alguns cães entravam em colapso comportamental, ficavam agitados ou apáticos, e perdiam respostas que já dominavam.

Essa é uma descoberta muito mais perturbadora que a do sino. E é a que sumiu do resumo de uma linha.

O detalhe que amarra tudo

O reflexo condicionado é ensinado como uma curiosidade sobre automatismo: o organismo aprende a associar duas coisas, ponto final.

Mas o que o programa de Pavlov mostrou, ao longo de trinta anos, é que a associação é só o começo. O sistema nervoso passa a vida testando hipóteses sobre o que prevê o quê — e paga um preço real quando o ambiente torna a previsão impossível.

Um cão que aprendeu que um círculo significa comida e uma elipse não significa nada está fazendo uma aposta sobre o mundo. Quando o experimentador vai espremendo a elipse até ela ficar quase um círculo, a aposta deixa de ser possível. O colapso que vem depois não é burrice: é o que acontece com um sistema de previsão empurrado além do que ele consegue resolver.

Há uma linha reta entre esse achado e boa parte do que hoje se pesquisa sobre estresse crônico e imprevisibilidade. Não é o esforço que quebra o animal. É a impossibilidade de acertar.

Por que a correção importa

Pode parecer implicância corrigir um instrumento num experimento de 1900. Não é.

O sino é a prova de que uma imagem simples e memorável sobrevive melhor que o trabalho que ela deveria representar — e sobrevive substituindo esse trabalho. Quem sabe do sino em geral não sabe da digestão, do Nobel, da discriminação nem da neurose experimental. A imagem não resumiu a pesquisa: ela a apagou.

É o mesmo mecanismo que transformou um cavalo que lia linguagem corporal em uma história de fraude e que sustentou por décadas a lenda das 38 testemunhas inertes no Queens. A versão curta vence. O trabalho de quem gosta de fato é conferir se a versão curta tem alguma coisa a ver com o que aconteceu.

E, no caso de Pavlov, tem uma ironia final: o homem passou trinta anos perseguindo a diferença entre estímulos quase idênticos, e a posteridade não conseguiu distinguir um sino de uma campainha.

Fontes

  1. Ivan Pavlov in 22 surprising facts — pelo biógrafo de Pavlov, Daniel P. Todes, Oxford University Press Blog (2014)
  2. Daniel Todes sobre sua biografia de Ivan Pavlov, Johns Hopkins Magazine
  3. Correcting Some Pavloviana Regarding "Pavlov's Bell" and Pavlov's "Mugging" — a posição contrária, Roger K. Thomas, American Journal of Psychology (1997)
  4. Ivan Pavlov — Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904, The Nobel Prize

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Pavlov usava um sino nos experimentos com cães?
Praticamente não. Ele preferia metrônomo, diapasão, campainha elétrica e estímulos visuais, porque precisava de um sinal que pudesse ser repetido exatamente igual. O tom de um sino varia demais a cada toque, o que atrapalha um experimento que investiga o quanto o animal distingue entre estímulos parecidos.
De onde veio a história do sino, então?
Há duas explicações que se somam. A palavra russa "zvonok" costuma ser traduzida como "sino", mas designa campainha. E psicólogos posteriores, como Vladimir Bekhterev e John Watson, esses sim usaram sinos, o que ajudou a fixar a imagem no lugar errado.
Pavlov ganhou o Nobel por causa dos cães e do reflexo condicionado?
Não. O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904 foi dado pelo trabalho sobre a fisiologia da digestão. O estudo dos reflexos condicionados nasceu como um desdobramento dessa pesquisa e se tornou famoso depois.
Gostou? Manda para alguém:WhatsAppFacebookX

Leia também