O sino de Pavlov quase nunca tocou. Ele usava metrônomo, diapasão e campainha
O experimento mais citado da psicologia tem um objeto que praticamente não existiu. E a parte que sumiu dos livros é a que Pavlov considerava importante.

Todo mundo conhece a cena: Pavlov toca um sino, o cão saliva, nasce o reflexo condicionado. É provavelmente o experimento mais citado da história da psicologia.
O sino é a única parte que não aconteceu. Ao longo de três décadas e dezenas de milhares de ensaios, Pavlov e sua equipe usaram sinos apenas em situações raras e sem importância para o resultado.
O que ele usava de verdade
Pavlov precisava de um sinal que pudesse ser reproduzido exatamente igual, vez após vez. Esse era o ponto inteiro do trabalho: descobrir o quanto um animal consegue distinguir entre estímulos parecidos, e a partir de que ponto ele passa a confundi-los.
Um sino é péssimo para isso. O timbre muda conforme a força da batida, o ângulo, o desgaste do metal. Dois toques nunca são iguais.
Então o laboratório usava metrônomos, diapasões, campainhas elétricas, harmônios, estímulos visuais, jatos de ar, choques elétricos leves. Instrumentos com uma frequência definida, que dá para repetir e para variar com precisão.
O metrônomo é o exemplo mais claro do que ele buscava: dá para ajustar as batidas por minuto e perguntar ao animal, na prática, se ele nota a diferença entre 60 e 62.
De onde veio o sino
Duas explicações se somam, e nenhuma delas envolve má-fé.
A primeira é de tradução. O biógrafo Daniel P. Todes aponta que Pavlov usava a palavra russa zvonok, que designa campainha — mas que costuma ser vertida para o inglês como bell, sino. Uma palavra imprecisa atravessou a fronteira do idioma e virou um objeto errado.
A segunda é de contaminação entre autores. Vladimir Bekhterev e John Watson, psicólogos que trabalharam depois com condicionamento, esses sim usaram sinos. A imagem grudou no nome mais famoso.
Somadas as duas, o sino virou canônico sem nunca ter tocado.
Convém registrar que a correção tem contestação. O psicólogo Roger K. Thomas argumentou em 1997 que Pavlov usou sino: há um relato de 1906 na revista Science e um filme feito no laboratório dele que mostram um sino em condicionamento salivar. Mas a conclusão de Todes, depois de 25 anos nos arquivos, é de escala, não de existência: em dezenas de milhares de ensaios ao longo de três décadas, o sino aparece "apenas em circunstâncias raras e sem importância". Ele existiu. Só não era o instrumento.
O que os livros cortaram
Aqui está a parte que interessa mais do que a correção do instrumento.
Pavlov não estava estudando "cachorro que baba". Ele estava estudando a digestão — e ganhou o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904 exatamente por isso, não pelo reflexo condicionado.
O trabalho que lhe deu o prêmio envolvia cirurgias engenhosas para observar a secreção gástrica em animais vivos e conscientes, com fístulas que permitiam coletar suco gástrico sem interromper a digestão. O reflexo condicionado apareceu como um estorvo: os cães começavam a salivar antes da comida chegar, o que atrapalhava a medição.
Um pesquisador comum teria tratado isso como ruído. Pavlov virou a atenção para o ruído e passou o resto da vida nele.
E a parte que ele considerava mais importante não é o "cão saliva ao ouvir o sinal". É o oposto: a discriminação e a extinção. Quão parecidos podem ser dois estímulos antes que o animal deixe de distingui-los? O que acontece quando o sinal vem e a comida não vem, repetidas vezes?
A extinção é o caso mais simples e o mais revelador. Se o sinal aparece muitas vezes sem que a comida venha atrás, a resposta some. Mas ela não some de vez: depois de um intervalo de descanso, ela reaparece sozinha, mais fraca. Pavlov chamou isso de recuperação espontânea, e ela mostra que o organismo não apagou o aprendizado antigo — apenas escreveu um novo por cima, sem deletar o primeiro.
É uma descoberta com consequências que a psicologia clínica ainda administra hoje. Tratamento de fobia por exposição funciona criando um aprendizado novo, não apagando o antigo; é por isso que uma recaída é possível anos depois.
Foi nesse mesmo terreno que ele encontrou o fenômeno que chamou de neurose experimental. Quando a tarefa de discriminação ficava impossível — dois estímulos próximos demais para serem separados —, alguns cães entravam em colapso comportamental, ficavam agitados ou apáticos, e perdiam respostas que já dominavam.
Essa é uma descoberta muito mais perturbadora que a do sino. E é a que sumiu do resumo de uma linha.
O detalhe que amarra tudo
O reflexo condicionado é ensinado como uma curiosidade sobre automatismo: o organismo aprende a associar duas coisas, ponto final.
Mas o que o programa de Pavlov mostrou, ao longo de trinta anos, é que a associação é só o começo. O sistema nervoso passa a vida testando hipóteses sobre o que prevê o quê — e paga um preço real quando o ambiente torna a previsão impossível.
Um cão que aprendeu que um círculo significa comida e uma elipse não significa nada está fazendo uma aposta sobre o mundo. Quando o experimentador vai espremendo a elipse até ela ficar quase um círculo, a aposta deixa de ser possível. O colapso que vem depois não é burrice: é o que acontece com um sistema de previsão empurrado além do que ele consegue resolver.
Há uma linha reta entre esse achado e boa parte do que hoje se pesquisa sobre estresse crônico e imprevisibilidade. Não é o esforço que quebra o animal. É a impossibilidade de acertar.
Por que a correção importa
Pode parecer implicância corrigir um instrumento num experimento de 1900. Não é.
O sino é a prova de que uma imagem simples e memorável sobrevive melhor que o trabalho que ela deveria representar — e sobrevive substituindo esse trabalho. Quem sabe do sino em geral não sabe da digestão, do Nobel, da discriminação nem da neurose experimental. A imagem não resumiu a pesquisa: ela a apagou.
É o mesmo mecanismo que transformou um cavalo que lia linguagem corporal em uma história de fraude e que sustentou por décadas a lenda das 38 testemunhas inertes no Queens. A versão curta vence. O trabalho de quem gosta de fato é conferir se a versão curta tem alguma coisa a ver com o que aconteceu.
E, no caso de Pavlov, tem uma ironia final: o homem passou trinta anos perseguindo a diferença entre estímulos quase idênticos, e a posteridade não conseguiu distinguir um sino de uma campainha.
Fontes
- Ivan Pavlov in 22 surprising facts — pelo biógrafo de Pavlov, Daniel P. Todes, Oxford University Press Blog (2014)
- Daniel Todes sobre sua biografia de Ivan Pavlov, Johns Hopkins Magazine
- Correcting Some Pavloviana Regarding "Pavlov's Bell" and Pavlov's "Mugging" — a posição contrária, Roger K. Thomas, American Journal of Psychology (1997)
- Ivan Pavlov — Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904, The Nobel Prize
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Perguntas frequentes
- Pavlov usava um sino nos experimentos com cães?
- Praticamente não. Ele preferia metrônomo, diapasão, campainha elétrica e estímulos visuais, porque precisava de um sinal que pudesse ser repetido exatamente igual. O tom de um sino varia demais a cada toque, o que atrapalha um experimento que investiga o quanto o animal distingue entre estímulos parecidos.
- De onde veio a história do sino, então?
- Há duas explicações que se somam. A palavra russa "zvonok" costuma ser traduzida como "sino", mas designa campainha. E psicólogos posteriores, como Vladimir Bekhterev e John Watson, esses sim usaram sinos, o que ajudou a fixar a imagem no lugar errado.
- Pavlov ganhou o Nobel por causa dos cães e do reflexo condicionado?
- Não. O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904 foi dado pelo trabalho sobre a fisiologia da digestão. O estudo dos reflexos condicionados nasceu como um desdobramento dessa pesquisa e se tornou famoso depois.
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