Pular para o conteúdo

O Grande Incêndio de Londres queimou 13.200 casas em 1666. O boletim oficial registrou seis mortos

O número saiu de boletins impressos às pressas depois que o fogo destruiu a gráfica que os produzia. Há quem fale em milhares de vítimas. A historiadora que estuda esses boletins acha que eles merecem mais crédito, e que o incêndio também matou sem queimar.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Pedestal de pedra do Monumento, em Londres, com um longo texto em latim gravado em maiúsculas e um relevo de figuras na face lateral, entre prédios de escritórios sob céu nublado.
Adrien Olichon, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • O fogo começou por volta de 1h de 2 de setembro de 1666, numa padaria da Pudding Lane, durou quatro dias e destruiu 13.200 casas e 87 igrejas, segundo o Museu de Londres.
  • Os seis mortos oficiais vêm dos Boletins de Mortalidade: quatro queimados no boletim de três semanas impresso depois do fogo e mais dois na semana seguinte.
  • O escritor Neil Hanson fala em "várias centenas e muito possivelmente vários milhares" de mortos; a historiadora Jessica Otis lembra que os escrivães registravam a incerteza quando ela existia.
  • Os mesmos boletins mostram 11 mortes por susto em quatro semanas, número fora do comum, e Otis calcula que ao menos 17 pessoas morreram por causa do incêndio.

Na base da coluna que Londres ergueu para lembrar o incêndio de 1666, um texto em latim faz o balanço do desastre. O fogo, diz a inscrição, foi "implacável com os bens e as fortunas dos cidadãos, inofensivo para as suas vidas" (tradução nossa).

O registro oficial parece concordar. Os boletins semanais de óbitos da cidade contaram seis mortos queimados num incêndio que, segundo o Museu de Londres, destruiu 13.200 casas e 87 igrejas em quatro dias.

O fogo começou por volta de 1h da madrugada de 2 de setembro de 1666, na padaria de Thomas Farriner, na Pudding Lane. O museu considera possível que uma faísca de um dos fornos tenha atingido uma pilha de lenha. O resto veio de condições que ele próprio enumera: um verão seco, casas de madeira coladas umas às outras, piche, corda, óleo e conhaque estocados na rua da padaria e um vento forte que empurrou as chamas para oeste.

Se o número é verdadeiro é outra conversa. Há quem fale em milhares de mortos.

A noite em que o prefeito voltou para a cama

O diarista Samuel Pepys foi acordado por volta das 3h pela criada Jane, que tinha visto um grande fogo na City. Ele olhou pela janela, achou que estava longe e voltou a dormir. Levantou-se às 7h, e pouco depois Jane contou que mais de 300 casas já tinham queimado.

O prefeito, Thomas Bludworth, também foi ver o fogo no começo. Segundo o Museu de Londres, achou que não era grave e voltou para a cama.

Pepys foi até Whitehall e contou ao rei e ao duque de York o que tinha visto. Carlos II mandou que ele levasse ao prefeito a ordem de não poupar casa nenhuma e derrubá-las à frente do fogo. Pepys encontrou Bludworth na rua, com um lenço no pescoço:

Senhor! O que posso fazer? Estou esgotado: o povo não me obedece. Venho derrubando casas, mas o fogo nos alcança mais depressa do que conseguimos. (tradução nossa)

No mesmo dia, Pepys anotou que gente pobre ficava em casa até o fogo encostar nela, e só então corria para os barcos. Doentes eram carregados nas próprias camas.

Quatro dias de fogo e as semanas de contagem

  1. 2 set. 1666, cerca de 1hO fogo começa na padaria de Thomas Farriner, na Pudding Lane.
  2. 2 set., cerca de 3hA criada Jane acorda Samuel Pepys. Ele acha o fogo distante e volta a dormir.
  3. 2 set., manhãPepys conta ao rei. Carlos II manda o prefeito derrubar casas à frente das chamas.
  4. Terceiro diaPólvora passa a ser usada para derrubar prédios.
  5. Quarto diaCom o vento mais fraco, o fogo fica sob controle.
  6. 7 set.John Evelyn atravessa as ruínas e registra o cheiro de corpos.
  7. 28 ago. a 18 set.Boletim de três semanas, impresso depois do fogo: quatro mortos queimados.
  8. 18 a 25 set.Boletim seguinte: mais dois queimados e cinco mortes por susto.
  9. 1671 a 1677Construção do Monumento, perto da Pudding Lane.

De onde vem o número seis

O número sai dos Boletins de Mortalidade, as listas semanais de enterros por paróquia e por causa de morte que a Companhia dos Escrivães Paroquiais imprimia em Londres.

A historiadora Jessica Otis, da Universidade George Mason, estuda esses boletins num projeto que os transcreve. Ela conta que o incêndio destruiu a prensa usada para imprimir os boletins. O último antes do fogo trazia dados até 28 de agosto.

Os escrivães só voltaram a imprimir mais de duas semanas depois, com um boletim de recuperação que cobria de 28 de agosto a 18 de setembro. Nele, quatro pessoas aparecem como "queimadas em vários lugares". Na semana seguinte, mais duas, uma na paróquia de St Botolph Aldersgate e outra em St Leonard Shoreditch. Total oficial: seis.

O primeiro boletim depois do fogo avisava, entre parênteses, que só trazia dados das paróquias "agora de pé": 16 dentro dos muros e 14 fora deles.

Folha impressa antiga com brasões no alto, colunas de nomes de paróquias seguidos de números e, embaixo, uma lista de doenças e acidentes com o total de cada um.
Boletim geral de mortalidade de Londres para o ano encerrado em 19 de dezembro de 1665, da Companhia dos Escrivães Paroquiais. É do ano anterior ao incêndio, mas mostra o formato: nele aparecem as categorias Burnt and Scalded (queimados e escaldados, 8 no ano) e Frighted (mortos de susto, 23). Imagem: Wellcome Collection · Domínio público

Entre os mortos, só uma tem algum rosto nas fontes. Uma carta do parlamentar Sir Edward Harley, que o Museu de Londres considera o relato mais detalhado da noite, diz que o empregado de Farriner acordou depois da 1h "com o sufoco da fumaça" (tradução nossa). Farriner, a filha e o empregado fugiram por uma janela do andar de cima. A criada morreu.

Nem ela é ponto pacífico. O site oficial do Monumento diz que a criada foi quem descobriu o fogo. Uma pesquisa de 2023 da professora Kate Loveman, da Universidade de Leicester, feita para o museu, atribui a descoberta ao empregado, o padeiro Thomas Dagger. E outros relatos da época nem mencionam a criada.

Por que tanta gente duvida

O escritor Neil Hanson, autor de um livro sobre o incêndio, estima que o fogo matou "várias centenas e muito possivelmente vários milhares" de pessoas, segundo a revista Smithsonian.

Os argumentos repetidos por quem desconfia do número oficial são três. O fogo destrói corpos. As mortes de gente pobre e de classe média provavelmente nunca foram registradas. E, em 1666, ninguém tinha meios de separar e identificar restos carbonizados.

O calor foi grande o bastante para derreter cerâmica. Potes fundidos encontrados por arqueólogos nos restos de uma loja da Pudding Lane, hoje no Museu de Londres, indicam que a temperatura chegou a 1.250 graus Celsius.

E há uma testemunha. Em 7 de setembro, John Evelyn atravessou a pé as ruínas, com o chão tão quente que queimava a sola dos sapatos. Entre as coisas que anotou estava "o fedor que vinha dos corpos de algumas pobres criaturas", de camas e de outros bens combustíveis (tradução nossa).

O argumento a favor dos boletins

Otis reconhece que a destruição desorganizou a coleta de informações e que algumas mortes podem ter escapado.

Mas ela lembra um caso de janeiro de 1650 (1649 no calendário inglês da época), quando um depósito de pólvora explodiu perto da Torre de Londres. O boletim registrou 27 mortos pela explosão, 18 deles moradores de uma viela vizinha, recolhidos "em pedaços". E anotou, entre parênteses, que havia ainda forasteiros mortos, sem dar número. Ou seja, os escrivães sabiam imprimir a incerteza.

Em 1666, não imprimiram. Deram números exatos e o nome das paróquias das duas últimas mortes. O relatório manuscrito enviado ao rei na semana de 18 a 25 de setembro confirma as mesmas duas.

Há ainda a natureza do desastre. Um incêndio que avança devagar, durante quatro dias, dá tempo de fugir. O próprio Museu de Londres diz que é possível que mais gente tenha morrido, mas que houve tempo para a maioria escapar.

O que matou sem queimar

O detalhe mais revelador dos boletins não está na linha dos queimados.

O boletim de três semanas lista seis mortes por susto ("frighted"). O seguinte, mais cinco. Normalmente, diz Otis, essa causa aparece como caso isolado, e raramente. Onze em quatro semanas é um número anormal, e a causa mais provável é o incêndio.

Somando queimados e assustados, Otis chega a pelo menos 17 pessoas. Se entram afogamentos, acidentes e as demais causas listadas naquelas semanas, até 34. Nas palavras dela, gente que "morreu por causa do incêndio, ainda que não tenha morrido no incêndio" (tradução nossa).

Nem os outros números batem

O número de mortos não é o único que muda conforme a fonte.

O Museu de Londres fala em cerca de 100 mil desabrigados. O site oficial do Monumento, em 130 mil. A Smithsonian, em 70 mil de 80 mil moradores da cidade. Evelyn escreveu ter visto 200 mil pessoas espalhadas pelos campos de Islington e Highgate.

As igrejas destruídas são 87 para o museu, 84 no levantamento citado por Otis e 89 na inscrição do próprio Monumento. Até a hora diverge: o museu diz por volta de 1h; a inscrição diz que o fogo irrompeu por volta da meia-noite.

Culpados que não estavam lá

Com a Inglaterra em guerra com a França e a Holanda, os estrangeiros viraram suspeitos. Evelyn registrou que, em 7 de setembro, a multidão atacou franceses e holandeses que encontrou pelo caminho.

Os católicos também foram acusados. O francês Robert Hubert confessou ter começado o fogo e foi executado ainda em 1666. Depois se descobriu que ele não estava em Londres durante o incêndio. Um inquérito do Parlamento concluiu que foi acidente.

A acusação, porém, foi parar na pedra. A inscrição latina do Monumento terminava culpando o "furor papista", e outra, em inglês, falava na "traição e malícia da facção papista". Thomas Allen, num livro de história de Londres de 1827, registrou que o texto em inglês foi apagado no reinado de Jaime II e regravado, bem fundo, depois da abdicação dele.

Seis, dezessete ou milhares

O balanço possível: seis queimados registrados, uma criada morta na padaria, onze mortes por susto e nenhuma forma de medir quem não entrou nas listas.

O Monumento diz que o fogo foi inofensivo para as vidas. Os boletins dizem algo mais modesto: que foi menos mortal do que a destruição sugere, e que ainda assim matou mais do que a frase da pedra admite.

O incêndio chegou a uma cidade que ainda convivia com a peste: no mesmo dia em que andou pelas ruínas, Evelyn anotou que não podia ir à igreja sem perigo, porque a doença continuava na paróquia dele. Na mesma época, um vilarejo inglês decidiu se trancar para não espalhar a peste. E quase dois séculos depois, Londres ganhou outra história em que a versão famosa é mais limpa que os registros: a da bomba da Broad Street.

Fontes

  1. The Great Fire of London, London Museum (antigo Museum of London)
  2. Of Fires, Great and Small (2023), Jessica Otis, projeto Death by Numbers, Roy Rosenzweig Center for History and New Media, Universidade George Mason
  3. The Diary of Samuel Pepys — domingo, 2 de setembro de 1666, Samuel Pepys, edição digital pepysdiary.com
  4. The Diary of John Evelyn, volume 2 (entradas de 2 a 7 de setembro de 1666), John Evelyn, ed. William Bray, Project Gutenberg
  5. The Great Fire, The Monument, City of London
  6. No, More People Have Not Died Falling Off the Monument to the Great Fire of London Than in the Fire Itself (2014), Rose Eveleth, Smithsonian Magazine

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas morreram no Grande Incêndio de Londres?
O número oficial é seis: os Boletins de Mortalidade de Londres registraram quatro pessoas queimadas no boletim que cobriu de 28 de agosto a 18 de setembro de 1666 e mais duas na semana seguinte. O Museu de Londres diz que menos de 10 mortes foram registradas. O escritor Neil Hanson estima "várias centenas e muito possivelmente vários milhares". A historiadora Jessica Otis, que estuda os boletins, calcula que ao menos 17 pessoas, e talvez até 34, morreram por causa do incêndio, contando as mortes por susto e outras causas registradas nas mesmas semanas.
Como começou o Grande Incêndio de Londres?
O fogo começou por volta de 1h de 2 de setembro de 1666, na padaria de Thomas Farriner, na Pudding Lane. Segundo o Museu de Londres, é possível que uma faísca de um dos fornos tenha atingido uma pilha de lenha. O verão tinha sido seco, as casas de madeira ficavam coladas umas às outras, havia piche, corda, óleo e conhaque estocados na rua e um vento forte empurrou as chamas para oeste. Um inquérito do Parlamento concluiu que foi acidente.
Por que historiadores duvidam do número de seis mortos?
Porque o fogo destrói corpos, porque mortes de gente pobre e de classe média provavelmente não foram registradas e porque os próprios boletins foram feitos no caos: a gráfica que os imprimia queimou, e o primeiro boletim depois do incêndio só cobria as paróquias que continuavam de pé. Do outro lado, Jessica Otis mostra que os escrivães sabiam registrar incerteza, como fizeram numa explosão de pólvora em 1650, e não o fizeram em 1666.
Gostou? Manda para alguém:WhatsAppFacebookX

Leia também

Mais de História

Ver a seção