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Em 1919, uma onda de melaço de 8 metros atravessou Boston a 56 km/h e matou 21 pessoas. A física explica por que foi pior que água

Um tanque de 15 metros de altura se rompeu no North End e despejou 8,7 milhões de litros de melaço nas ruas. A empresa culpou anarquistas. Três anos de audiências e um século de engenharia apontaram outra coisa: aço fino demais, rebites malfeitos e um tesoureiro que mandou pintar o tanque de marrom para esconder os vazamentos.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Fotografia de 1919 dos destroços da enchente de melaço em Boston: estrutura de ferro retorcida do trem elevado e escombros cobertos de melaço na Commercial Street.
Boston Public Library, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 15 de janeiro de 1919, um dia estranhamente ameno para o inverno de Boston, o policial Frank McManus pegou o telefone de rua na Commercial Street para passar o relatório de rotina. Ouviu um som parecido com metralhadora e um rangido. Virou-se e viu um tanque de cinco andares se abrir.

"Mandem todos os veículos de resgate e todo o pessoal disponível imediatamente", gritou ao telefone. "Tem uma onda de melaço descendo a Commercial Street."

O tanque

O tanque pertencia à Purity Distilling Company, comprada em 1917 pela United States Industrial Alcohol. Tinha 15 metros de altura e 27 de diâmetro, e ficava no North End, à beira do porto, um dos pontos comerciais mais movimentados de Boston. Recebia melaço dos navios vindos do Caribe e o guardava para ser bombeado a uma destilaria em Cambridge.

O melaço virava álcool industrial. O álcool industrial virava, entre outras coisas, dinamite e munição — e havia uma guerra na Europa quando o tanque foi construído, às pressas, no inverno de 1915. O responsável pela obra era o tesoureiro da empresa, um especialista em finanças. Não em engenharia.

O tanque vazou desde o primeiro dia. Era costume entre as crianças do bairro ir até lá com baldes recolher o melaço que escorria pelas paredes. Moradores comentavam que a estrutura gemia e estremecia cada vez que era enchida. Quando um operário levou ao escritório do tesoureiro lascas de aço que tinham se soltado da parede, ouviu a resposta que o engenheiro Mark Rossow resgatou em sua análise de 2015: "Não sei o que você quer que eu faça. O tanque continua de pé."

Em vez de consertar, a empresa mandou pintar o tanque de marrom. Para esconder os vazamentos.

O dia

Dois dias antes, um navio vindo de Porto Rico tinha descarregado 2,3 milhões de galões — quase 8,7 milhões de litros —, enchendo o tanque perto da capacidade. Era só a quarta vez, em 29 enchimentos, que isso acontecia. O melaço novo vinha aquecido, para escoar melhor. A temperatura do ar, que estivera abaixo de zero nos dias anteriores, subiu para cerca de 4 °C.

Por volta das 12h30, o tanque cedeu.

Testemunhas descreveram o chão tremendo, um estrondo como o de um trem elevado passando, o som de metralhadora dos rebites disparando. A onda, com cerca de 8 metros de altura no pico e 50 metros de largura, avançou a algo como 56 km/h. Esmagou vagões de carga, arrancou da fundação o quartel do Engine 31, e, ao atingir a linha elevada da Atlantic Avenue, quase tirou um trem dos trilhos. Um rio de melaço à altura do peito se estendeu por uns 90 metros a partir do tanque; dali, espalhou-se numa camada de meio metro a um metro.

Um repórter do Boston Post descreveu a cena: "Aqui e ali se debatia uma forma — se era animal ou ser humano era impossível dizer. [...] Cavalos morriam como moscas em papel pega-mosca. Quanto mais se debatiam, mais fundo se enterravam."

Os primeiros a chegar foram 116 cadetes do navio-escola USS Nantucket, atracado ali perto, que entraram no melaço até os joelhos para puxar sobreviventes. As buscas duraram quatro dias. Alguns corpos, arrastados para o porto, só foram encontrados meses depois.

Vinte e uma pessoas morreram, metade no dia, metade nas semanas seguintes, de ferimentos e infecções. Cento e cinquenta ficaram feridas.

Por que melaço é pior que água

A explicação da física aparece em duas camadas.

A primeira é energia. Melaço é 1,4 a 1,5 vez mais denso que água. Treze mil toneladas empilhadas a 15 metros de altura são uma quantidade enorme de energia potencial, e o tanque era a única coisa que a segurava. Quando as paredes cederam, essa energia virou velocidade. A engenheira aeroespacial Nicole Sharp, que estudou o caso depois de ajudar a dar uma aula em Harvard em que alunos inundaram uma maquete de papelão de Boston com xarope de milho, foi direta: "É como ter um tsunami batendo em você."

A segunda camada é o que acontece depois. Melaço é um fluido não newtoniano: a viscosidade dele muda conforme a força aplicada. Sob a pressão brutal do colapso, ele escorreu rápido, como uma corrente de gravidade — um deslizamento de lama, uma avalanche. Os cálculos de Sharp confirmaram que os relatos de 56 km/h eram plausíveis.

Mas assim que a onda parou, e a noite de janeiro esfriou, o melaço engrossou. Pessoas já presas sob escombros ficaram presas também no fluido. Pelo menos uma morreu asfixiada horas depois do desastre. Sharp especula que, se tivesse acontecido em julho, o melaço teria se espalhado mais e o resgate teria sido mais fácil.

Há ainda o detalhe de nadar. Um artigo da Scientific American de 2013 calculou: o número de Reynolds — que descreve quão fácil é se mover num fluido — de um homem adulto na água é cerca de um milhão. No melaço, cerca de 130. E as braçadas simétricas que funcionam na água não funcionam ali: cada movimento desfaz o anterior. A pessoa fica no lugar, "como um mosquito preso em seiva".

O julgamento

A United States Industrial Alcohol tinha uma teoria: anarquistas. Parte do álcool ia para munição, o país vivia o medo vermelho, e uma bomba explicaria tudo. "Teoria da explosão favorecida por especialista", noticiou o Boston Evening Globe nos primeiros dias.

Cento e dezenove moradores entraram com uma ação coletiva, uma das primeiras de Massachusetts. O processo levou anos, ouviu milhares de testemunhos e produziu 20 mil páginas de depoimentos conflitantes. O auditor nomeado pela Justiça, Hugh Ogden, concluiu que a empresa era a responsável. Ela pagou cerca de 628 mil dólares; os parentes dos mortos receberam algo em torno de 7 mil dólares por vítima.

O que o processo não conseguiu explicar com precisão, a engenharia moderna explicou. Uma análise de 2014 do engenheiro estrutural Ronald Mayville mostrou que as paredes de aço, de 1,7 centímetro na base a 0,8 no topo, eram finas demais para o peso — mesmo pelos padrões frouxos da época. Os rebites eram mal projetados, e as primeiras trincas surgiram nos furos deles. O aço tinha pouco manganês, o que o tornava quebradiço abaixo de 15 °C; naquele dia fazia uns 4 °C. Ninguém encheu o tanque de água para testá-lo antes de usá-lo.

"Havia muitos culpados", resumiu Rossow, que estuda desastres de engenharia. E concluiu que a maioria dos casos que analisou "não tem tanto a ver com falta de conhecimento científico quanto com falta de responsabilidade das pessoas no comando. É uma questão ética, mais do que de entender a ciência."

O detalhe que amarra tudo

No dia seguinte ao desastre, 16 de janeiro de 1919, foi ratificada a 18ª Emenda à Constituição americana — a Lei Seca. Vários autores registram que a empresa corria para produzir o máximo de álcool antes que a proibição entrasse em vigor.

O tanque estourou com um dia de antecedência.

O melaço foi lavado das ruas com água salgada de um barco-bomba; o porto ficou marrom até o verão. Socorristas e curiosos espalharam melaço pelas plataformas do metrô, pelos bancos dos bondes, pelos telefones públicos. "Tudo o que um bostoniano tocava estava grudento." Durante décadas, moradores diziam que nos dias quentes o bairro ainda cheirava a melaço.

Muitas leis de construção mudaram por causa daquele dia, incluindo a exigência de supervisão por arquitetos e engenheiros licenciados. O tanque nunca foi reconstruído. Hoje o lugar é um parque com campo de beisebol, e a base de concreto do tanque continua lá, meio metro abaixo do diamante.

Se te interessam desastres em que a causa não foi a falta de conhecimento, e sim a falta de vontade de usá-lo, vale ler sobre a explosão que arrasou Halifax dois anos antes e sobre as operárias que pintavam ponteiros de relógio com rádio enquanto a empresa sabia.

Fontes

  1. Why the Great Molasses Flood Was So Deadly (2019), Emily Sohn, History.com
  2. The Science of the Great Molasses Flood (2013), Ferris Jabr, Scientific American
  3. A Deadly Tsunami Of Molasses In Boston's North End (2019), Julia Press, NPR

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Perguntas frequentes

O que foi a enchente de melaço de Boston?
Em 15 de janeiro de 1919, por volta do meio-dia, um tanque de aço com 15 metros de altura e 27 metros de diâmetro, na Commercial Street, no bairro do North End, se rompeu e liberou cerca de 8,7 milhões de litros de melaço. A onda derrubou prédios, arrancou um quartel de bombeiros da fundação, torceu a estrutura do trem elevado e matou 21 pessoas, ferindo outras 150.
Por que o melaço se moveu tão rápido?
Melaço é um fluido não newtoniano: a viscosidade depende da força aplicada. Sob a pressão de milhares de toneladas caindo de uma vez, ele se comportou como uma corrente de gravidade, parecida com um deslizamento de lama ou uma avalanche. Os cálculos da engenheira Nicole Sharp confirmaram que a onda inicial podia ter chegado a 56 km/h. Depois, com o frio da noite, ele endureceu e prendeu as vítimas.
Quem foi responsabilizado?
A United States Industrial Alcohol, dona do tanque, alegou que anarquistas o haviam explodido. Depois de um processo que reuniu milhares de testemunhos, o auditor nomeado pela Justiça, Hugh Ogden, concluiu que a empresa era responsável. Ela pagou cerca de 628 mil dólares em indenizações. O caso foi um marco na regulação da engenharia: passou a ser exigida a supervisão de arquitetos e engenheiros licenciados.
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