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A volante alagoana matou Lampião, Maria Bonita e outros nove em Angico, em 28 de julho de 1938. As cabeças só foram enterradas em 1969, e o filme que mostrava o bando em vida foi apreendido

Lampião e Maria Bonita morreram numa grota de Sergipe, e o que veio depois levou décadas: cabeças expostas de Piranhas a Salvador, o filme de Benjamin Abrahão proibido, uma filha criada longe deles e um apelido que talvez nem fosse dela.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Fotografia em preto e branco de um homem de camisa clara e botas cumprimentando, com um aperto de mão, um cangaceiro de chapéu de couro com estrelas e bornais cruzados no peito; ao lado, uma mulher de vestido estampado e chapéu, e outros cangaceiros armados em pé entre árvores secas.
Benjamin Abrahão Botto, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Em 28 de julho de 1938, uma volante da polícia de Alagoas, comandada pelo tenente João Bezerra, matou onze cangaceiros na grota da fazenda Angico, em Poço Redondo (SE), entre eles Lampião e Maria Bonita.
  • As onze cabeças foram cortadas e exibidas. As de Lampião e Maria Bonita ficaram num museu de Salvador e só foram enterradas em 6 de fevereiro de 1969.
  • O mascate libanês Benjamin Abrahão filmou e fotografou o bando em vida. O filme foi apreendido por ordem do Departamento de Propaganda do governo Vargas, e ele foi morto em 1938.
  • Os dois tiveram uma filha reconhecida, Expedita, nascida em 1932 e entregue a outra família quando bebê.

Lampião e Maria Bonita foram mortos na madrugada de 28 de julho de 1938, na grota da fazenda Angico, em Poço Redondo, Sergipe, por uma volante da polícia de Alagoas comandada pelo tenente João Bezerra. Morreram onze cangaceiros, e as onze cabeças foram cortadas e exibidas.

As de Lampião e Maria Bonita ficaram num museu de Salvador e só foram enterradas em 6 de fevereiro de 1969. Tiveram uma filha, Expedita, que tinha cinco anos quando eles morreram.

O que as fontes dizem sobre Angico

Segundo a versão oficial, contada pelo próprio João Bezerra e resumida num artigo de 2023 da revista Ponta de Lança, da UFS, a volante cercou a grota ainda de madrugada, numa quinta-feira, e surpreendeu o bando. Depois de um rápido tiroteio, onze cangaceiros, nove homens e duas mulheres, estavam mortos. Os corpos ficaram sem cabeça na grota e sem sepultura por vários dias, até que moradores das redondezas os enterraram.

A lista de nomes varia conforme a fonte. Britto, da UFS, dá Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita), Enedina, Luís Pedro, Moeda, Quinta-Feira, Alecrim, Elétrico, Colchete, Mergulhão e Macela. A crônica de Aurélio Buarque de Holanda, citada por Britto, traz ainda Cajarana, Diferente e Caixa-de-Fósforo.

A versão oficial não é a única. Os autores de Ponta de Lança citam Rodrigues de Carvalho, que descreve Angico como uma "ópera-bufa" e diz que o coiteiro Pedro Cândido teria envenenado a bebida do bando por pressão de Bezerra, que estaria ameaçado de perder a farda. As fontes consultadas não documentam o envenenamento, e esta matéria o trata como hipótese. Fica o que elas confirmam: data, local, comando da volante e número de mortos.

De Angico a 2002

  1. 28 de julho de 1938A volante alagoana mata onze cangaceiros na grota de Angico, em Sergipe.
  2. 31 de julho de 1938As cabeças chegam a Maceió, depois de exibidas em Piranhas. A cabeça de Maria Bonita dá entrada no Serviço Médico-Legal de Alagoas às 22h daquele dia.
  3. Depois de 1938As cabeças de Lampião e Maria Bonita vão para o museu do Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.
  4. 6 de fevereiro de 1969As duas cabeças são sepultadas no Cemitério da Quinta dos Lázaros.
  5. 1º de fevereiro de 2002Exumadas a pedido da família, passam à guarda de herdeiros em Aracaju.

A viagem das cabeças, de Piranhas a Salvador

As cabeças foram expostas nos degraus da prefeitura de Piranhas, em Alagoas, e levadas em seguida a Maceió, com paradas em cidades do caminho. Chegaram em 31 de julho. O médico José Lages Filho, chefe do Serviço Médico-Legal de Alagoas, examinou a de Maria Bonita e concluiu, segundo Britto, que ela não tinha "nenhum estigma de degenerescência". A teoria que ele seguia dizia o contrário do que o exame mostrou.

Os autores de Ponta de Lança escrevem que nove cabeças foram sepultadas em cova coletiva em Maceió. As de Lampião e Maria Bonita foram para Salvador, para o museu do Instituto Nina Rodrigues, depois chamado Museu Estácio de Lima.

O sepultamento veio em 6 de fevereiro de 1969, no governo de Luís Viana Filho, "após familiares conquistarem o direito na Justiça", segundo esses autores. Britto acrescenta que, desde os anos 1950, jornalistas e pesquisadores invocavam o artigo 212 do Código Penal, sobre profanação de cadáver. No museu, as cabeças foram trocadas por máscaras mortuárias e fotografias.

Em 2002, as cabeças foram exumadas a pedido da família e entregues a uma neta, em Aracaju. Britto registra, em 2018, que seguiam sob guarda dos herdeiros, que pretendiam construir um memorial.

Duas cruzes brancas de madeira sobre pedras, cercadas por galhos secos de caatinga sob céu azul; em primeiro plano, uma placa escura com uma cruz gravada apoiada nas rochas.
Cruzes e placa na Grota de Angico, em Poço Redondo (SE), em foto de 2015. Segundo a descrição original, o local marca onde Lampião e Maria Bonita foram mortos. Imagem: Marinelson Almeida - Traveling through Brazil from Niteroi, Brasil, via Wikimedia Commons · CC BY 2.0

O filme que o governo apreendeu

Benjamin Abrahão era um mascate libanês. Segundo uma resenha publicada na revista Fênix, da UFU, ele conheceu Lampião em 1926, em Juazeiro do Norte, e ficou indignado, anos depois, com um filme de ficção de 1930 que mostrava o cangaceiro como assassino cruel. Passou a percorrer o sertão para filmá-lo.

O resultado foi Lampião, o Rei do Cangaço (1936). Segundo a Pesquisa FAPESP, Lampião aceitou ser registrado porque "sabia que a dominaria a seu gosto", e o cineasta deu liberdade aos cangaceiros "para mostrarem-se como queriam ser vistos". A foto da capa, de acordo com a descrição do Commons, registra o encontro de Abrahão com o bando e foi tirada pelo cangaceiro Juriti.

O filme não chegou às salas. A resenha da Fênix cita um telegrama em que o diretor do Departamento de Propaganda mandava o chefe de polícia do Ceará fazer "a apreensão imediata de todo o material do filme sobre Lampião", que "não poderá ser exibido nos cinemas do país, por atentar contra os créditos da nacionalidade". Para a Pesquisa FAPESP, depois de uma dura campanha do governo Vargas contra o filme, e sem a proteção dos coronéis, Abrahão foi assassinado em 1938.

Retrato em preto e branco de uma mulher sentada numa cadeira, de chapéu de aba curta e vestido claro, com um cordão de contas no peito, botas decoradas com tachas e o olhar direto para a câmera.
Maria Bonita em retrato atribuído a Benjamin Abrahão Botto, feito entre 1936 e 1937, segundo a descrição do Commons. Imagem: Benjamin Abrahão Botto, via Wikimedia Commons · Domínio público

Lampião e Maria Bonita tiveram filhos?

Tiveram uma filha reconhecida, Expedita Ferreira Nunes, nascida em 13 de setembro de 1932, na Fazenda Exu, em Porto da Folha, Sergipe, segundo o Diário do Pará. Ela contou que foi deixada pelos pais aos 21 dias, porque crianças não podiam ficar com o bando.

As fontes divergem sobre quem a criou. O Diário do Pará diz que foi inicialmente um aliado de Lampião, e que aos oito anos ela passou a viver com um tio paterno. Reportagem do jornal O Povo diz que foi um casal com treze filhos. A roteirista Letícia Wierzchowski, ouvida pelo jornal, explica a regra: as cangaceiras não podiam criar os filhos, porque, se chorassem, denunciariam o paradeiro do grupo.

Maria Bonita não se chamava Bonita

Ela era Maria Gomes de Oliveira, "Maria de Déa" para a família e "Maria do Capitão" no cangaço, segundo Britto. O apelido que a história guardou é mais incerto. Ele cita autores que dizem que, nas primeiras vezes em que os jornais falaram dela, o "Bonita" não aparecia. Outros, que a revista Noite Ilustrada já usava os dois nomes em 1938.

Duas explicações disputam a origem: um policial de volante que a achava bonita, ou uma tradução do francês joli num cordel de 1962. As fontes não resolvem a questão.

A suposição comum e o que as fontes mostram

Em cada item, primeiro: a suposição comum. Depois: o que as fontes mostram.

Maria Bonita era o nome dela.
Maria Gomes de Oliveira, Maria de Déa para a família. A origem do apelido é discutida.
Os corpos foram enterrados inteiros, em Angico.
Os onze corpos ficaram sem cabeça na grota por vários dias. As cabeças viajaram expostas, e as de Lampião e Maria Bonita só foram sepultadas em 1969.
O casal criou a filha.
Expedita foi entregue aos 21 dias, e crianças não podiam ficar com o grupo.

As imagens do cangaço também foram construídas depois do fato. Britto cita o pesquisador Marcos Clemente, para quem a foto das cabeças na escadaria de Piranhas parece ter sido montada para mostrar um Lampião solitário, sem Maria Bonita ao lado. É outro caso de imagem feita depois do acontecimento que virou memória oficial, como o quadro Independência ou Morte. Outra história de castigo público sobre o corpo, em outro cenário, está na Revolta da Chibata.

Fontes

  1. Revisitando uma coleção de cabeças: notas sobre a musealização de restos mortais do cangaço (2018), Clovis Carvalho Britto, Sociedade e Cultura, UFG
  2. Cabeças cortadas: troféus exibidos e punição no embate entre volantes e cangaceiros (2023), José Ferreira Júnior e Vanderlan Francisco da Silva, Ponta de Lança, UFS
  3. O cangaço no cinema brasileiro: um olhar panorâmico (2012), Anderson R. Neves, Fênix, UFU
  4. Sem ideia na cabeça e uma arma na mão (2007), Carlos Haag, Pesquisa FAPESP, edição 137
  5. O que é ficção e realidade na minissérie sobre Maria Bonita (2025), André Bernardo, O Povo
  6. Única filha de Lampião e Maria Bonita completa 94 anos (2026), Diário do Pará

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Como morreram Lampião e Maria Bonita?
Foram mortos de madrugada, em 28 de julho de 1938, numa grota da fazenda Angico, em Poço Redondo, Sergipe, por uma volante da polícia de Alagoas comandada pelo tenente João Bezerra. Segundo a versão oficial, houve um tiroteio curto e onze cangaceiros morreram, nove homens e duas mulheres. Parte da literatura contesta essa versão e fala em envenenamento prévio do bando, tese que as fontes consultadas apresentam como hipótese.
Lampião e Maria Bonita tiveram filhos?
Tiveram uma filha reconhecida, Expedita Ferreira Nunes, nascida em 13 de setembro de 1932 em Porto da Folha, Sergipe. Ela contou que foi deixada pelos pais aos 21 dias de vida, porque crianças não podiam ficar com o bando. Tinha cinco anos quando eles morreram e, segundo reportagens, foi criada por aliados e depois por um tio paterno.
O que aconteceu com as cabeças de Lampião e Maria Bonita?
As onze cabeças foram exibidas em Piranhas (AL) e levadas a Maceió em 31 de julho de 1938. As de Lampião e Maria Bonita seguiram para Salvador e ficaram expostas no museu do Instituto Nina Rodrigues até 6 de fevereiro de 1969, quando foram sepultadas. Foram exumadas em 2002 a pedido da família, e Britto registra, em 2018, que continuavam sob guarda dos herdeiros.
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