Laika morreu poucas horas depois do lançamento, superaquecida. A União Soviética disse por 45 anos que ela viveu uma semana
Uma vira-lata das ruas de Moscou foi lançada em órbita em novembro de 1957 numa nave construída em menos de quatro semanas para agradar Khrushchev. Não havia como trazê-la de volta, e todos sabiam. O que ninguém contou foi como ela morreu — até que os próprios cientistas do programa resolveram falar.

Em 3 de novembro de 1957, uma cadela vira-lata das ruas de Moscou foi lançada em órbita dentro de uma cápsula em que não conseguia se virar. Ela se chamava Laika. Não havia nenhum plano para trazê-la de volta, e todos os envolvidos sabiam disso.
O que a União Soviética contou ao mundo foi que ela viveu uma semana no espaço. O que aconteceu foi outra coisa, e demorou décadas para ser dito.
Quatro semanas
O Sputnik 1 subiu em 4 de outubro de 1957 e jogou o mundo no susto. Nikita Khrushchev quis repetir a dose com um "espetáculo espacial" a tempo do 40º aniversário da Revolução de Outubro, em 7 de novembro.
O satélite seguinte, o Sputnik 3, não ficaria pronto antes de dezembro. Sergei Korolev, o projetista-chefe, propôs uma solução: um satélite simples, com um cachorro dentro. Desde 1951 os soviéticos lançavam cães em voos suborbitais — doze até então — e planejavam uma órbita canina para 1958. A data foi puxada.
A decisão oficial saiu por volta de 10 ou 12 de outubro. Como registra o fisiologista John West, todo o trabalho de engenharia do Sputnik 2 foi feito em menos de quatro semanas. O relato de James Harford, biógrafo de Korolev, é mais cru: os engenheiros faziam os desenhos e os entregavam diretamente aos operários; "nenhuma tarefa de engenharia tinha sido executada nele até depois que o Sputnik 1 subiu".
A nave tinha um gerador de oxigênio, absorvedores de gás carbônico, um ventilador que ligaria se a cabine passasse de 15 °C, comida em gel para sete dias e um saco para dejetos. Correntes limitavam a cadela a ficar em pé, sentada ou deitada. Não havia espaço para se virar. Sensores registrariam batimentos, respiração, pressão arterial e movimento. A carga útil pesava 508 quilos — mais de seis vezes o Sputnik 1.
A cadela
Os cientistas do programa preferiam vira-latas de Moscou, supondo que já estivessem endurecidos pelo frio e pela fome. Laika tinha cerca de três anos e uns 5 ou 6 quilos. Recebeu vários nomes — Kudryavka, "cachinhos"; Zhuchka; Limonchik — até que o nome que pegou, Laika, "a que late", virou o nome de uma espécie de cachorro. A imprensa americana a chamou de Muttnik.
Três cadelas foram treinadas por Vladimir Yazdovsky e Oleg Gazenko: Albina, Mushka e Laika. Ficaram confinadas em gaiolas progressivamente menores por períodos de até vinte dias, o que as fez parar de urinar e defecar e deteriorou seu estado geral; laxantes não ajudaram, só o tempo de treino. Passaram por centrífugas que simulavam a aceleração do lançamento e por máquinas que reproduziam o barulho da nave — o pulso dobrava, a pressão subia. Aprenderam a comer o gel: 40% de farinha de rosca, 40% de carne em pó, 20% de gordura bovina.
Laika foi escolhida como "cadela de voo" dez dias antes do lançamento. Albina, que já tinha voado duas vezes em foguetes de alta altitude, seria a reserva — tinha acabado de parir três filhotes, e Yazdovsky achou cruel separá-la deles. Mushka ficaria no chão, testando instrumentos.
Antes de partir, Yazdovsky levou Laika para casa, para brincar com os filhos dele. Ele escreveria depois: "Laika era quieta e encantadora. [...] Eu queria fazer algo de bom por ela: ela tinha tão pouco tempo de vida."
O voo
Laika foi colocada na cápsula em 31 de outubro, três dias antes do lançamento, num frio tão intenso que uma mangueira ligada a um aquecedor mantinha o contêiner morno. Dois assistentes a vigiavam sem parar. Pouco antes da decolagem, o pelo dela foi limpo com álcool fraco e a pele pintada com iodo nos pontos dos sensores.
Um dos técnicos contaria: "Depois de colocar Laika no contêiner e antes de fechar a escotilha, beijamos o nariz dela e desejamos boa viagem, sabendo que ela não sobreviveria ao voo."
Na aceleração máxima, a respiração dela subiu a três ou quatro vezes o ritmo normal. O coração foi de 103 batimentos por minuto antes do lançamento a 240. Ela chegou à órbita viva.
Então o "Bloco A", o estágio central do foguete, não se separou da nave como previsto. Sem a separação, o sistema de controle térmico não funcionava. Parte do isolamento se soltou e a temperatura da cabine subiu a cerca de 40 °C. Depois de três horas de ausência de peso, o pulso de Laika voltou a 102 — mas levou três vezes mais tempo do que nos testes no chão, um sinal do estresse. A telemetria inicial mostrou que ela estava agitada, mas comendo.
Entre cinco e sete horas de voo, não chegaram mais sinais de vida.
A versão oficial
A União Soviética manteve, durante o voo e depois dele, a ficção de que Laika sobrevivera vários dias. As transmissões afirmavam que ela estava viva até 12 de novembro; o New York Times chegou a noticiar que ela poderia ser salva. Ao longo dos anos, o governo deu versões contraditórias: que ela morreu de asfixia quando as baterias falharam, ou que foi sacrificada com comida envenenada, como planejado.
"Os documentos oficiais foram falsificados", resume Cathleen Lewis, curadora de programas espaciais internacionais do Museu Nacional do Ar e do Espaço, do Smithsonian. O museu guarda os registros desclassificados da respiração de Laika durante o voo.
A verdade saiu aos poucos, pelos próprios cientistas. Gazenko admitiu em 1993 que ela morrera "logo depois do lançamento". Em 2002, Dimitri Malashenkov, um dos responsáveis pela missão, apresentou num congresso em Houston o relato completo: Laika morreu de superaquecimento por volta da quarta órbita. "Acabou sendo praticamente impossível criar um sistema confiável de controle de temperatura com restrições de tempo tão limitadas."
O Sputnik 2 continuou girando, vazio, por cinco meses. Reentrou e se desfez em 14 de abril de 1958, depois de 2.570 órbitas. Mesmo que tudo tivesse funcionado, esse teria sido o fim de Laika.
O detalhe que amarra tudo
No Ocidente houve protestos — a sociedade protetora dos animais britânica recebeu reclamações antes mesmo de a Rádio Moscou terminar de anunciar o lançamento; a Liga Nacional de Defesa Canina pediu um minuto de silêncio por dia enquanto Laika estivesse no espaço; donos de cachorro marcharam com cartazes diante da ONU em Nova York. Na União Soviética, nem a imprensa nem o público questionaram a decisão.
Quem questionou, muito depois, foi Oleg Gazenko, o homem que a treinou. Em 1998, com o regime já caído, ele disse: "Trabalhar com animais é fonte de sofrimento para todos nós. Nós os tratamos como bebês que não sabem falar. Quanto mais o tempo passa, mais eu lamento. Não deveríamos ter feito isso. [...] Não aprendemos o suficiente com essa missão para justificar a morte da cadela."
É uma frase rara na história da ciência: o próprio responsável avaliando, com distância, que o custo não valeu o que se comprou com ele.
Os cães seguintes voltaram. Em 1960, Belka e Strelka orbitaram a Terra e pousaram vivas, testando a cápsula que levaria Gagárin em 1961. Foi o programa apressado de Laika que mostrou que um organismo sobrevivia ao lançamento e à ausência de peso. Ela provou que o espaço era habitável numa nave em que ela mesma não pôde sobreviver.
Se te interessa a fronteira entre o que um experimento precisou e o que ele custou a quem não escolheu participar, vale ler sobre o bebê que dois psicólogos ensinaram a ter medo de ratos e sobre o homem que passou décadas com uma janela aberta no estômago.
Fontes
- The Sad, Sad Story of Laika, the Space Dog, and Her One-Way Trip Into Orbit (2018), Smithsonian Magazine
- Korolev, Sputnik, and the International Geophysical Year, James Harford, NASA History
- Historical aspects of the early Soviet/Russian manned space program (2001), John B. West, Journal of Applied Physiology 91(4), 1501–1511
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Perguntas frequentes
- Quem foi Laika?
- Uma cadela vira-lata de cerca de três anos e 5 a 6 quilos, recolhida das ruas de Moscou, que voou a bordo do Sputnik 2 em 3 de novembro de 1957 e se tornou o primeiro animal a orbitar a Terra. Os cientistas soviéticos preferiam cães de rua por supor que já estavam acostumados ao frio e à fome. Ela foi treinada por Vladimir Yazdovsky e Oleg Gazenko.
- Como Laika morreu?
- De superaquecimento, poucas horas depois do lançamento. O bloco central do foguete não se separou da nave como planejado, o que impediu o sistema de controle térmico de funcionar, e a temperatura da cabine subiu a cerca de 40 °C. Entre cinco e sete horas de voo, os sinais vitais pararam de chegar. A União Soviética afirmou na época que ela sobreviveu vários dias; a versão verdadeira só veio a público décadas depois, pelos próprios cientistas do programa.
- Por que não a trouxeram de volta?
- Porque a tecnologia de reentrada ainda não existia. O Sputnik 2 foi decidido por volta de 10 de outubro de 1957 e lançado em 3 de novembro, com menos de quatro semanas para projetar e construir a nave, a pedido de Nikita Khrushchev, que queria um feito para o 40º aniversário da Revolução de Outubro. Era uma missão sem volta desde o início, e a equipe sabia.
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