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No verão de 1858, o Tâmisa fedia tanto que o Parlamento encharcou as cortinas com cal. Em semanas, aprovaram o esgoto que Londres usa até hoje

Trinta anos de cólera e milhares de mortos não convenceram o governo britânico a tratar o esgoto de Londres. Um verão quente em que o cheiro chegou aos deputados resolveu em semanas. O motivo do pânico estava errado — e a solução, certa: 2 mil quilômetros de esgotos que ainda funcionam.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Caricatura da revista Punch de julho de 1858, "The Silent Highwayman": a Morte rema um barco pelo Tâmisa poluído, entre animais mortos, com a cúpula de St Paul ao fundo.
Punch Magazine, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em junho de 1858, o deputado John Brady levantou-se na Câmara dos Comuns para fazer uma pergunta ao ministro responsável pelas obras públicas. Era "fato notório", disse, que os parlamentares não conseguiam permanecer nas salas de comissão nem na biblioteca "em consequência do fedor que subia do rio". O ministro tinha tomado alguma medida?

Lord John Manners respondeu que lamentava muito, mas o rio Tâmisa não estava sob sua jurisdição.

Quatro dias depois, outro deputado voltou ao tema. Manners repetiu: o governo de Sua Majestade "não tem absolutamente nada a ver com o estado do Tâmisa".

Em poucas semanas, o mesmo governo aprovou a maior obra de engenharia sanitária do século.

Como um rio vira esgoto

Londres tinha crescido de pouco menos de um milhão de habitantes para três milhões. Em 1856 a cidade tinha cerca de 200 mil fossas e 360 esgotos, muitos em ruínas; algumas fossas vazavam metano e explodiam. Os esgotos existiam para levar água de chuva ao rio. Mas os vasos sanitários com descarga, adotados pelas casas mais ricas nas primeiras décadas do século, passaram a mandar para eles dejetos humanos — que iam parar no Tâmisa, de onde as companhias de água retiravam o que vendiam aos clientes para beber.

Em 1848, foi criada a Metropolitan Commission of Sewers, a primeira autoridade unificada sobre o saneamento da capital, por pressão do reformador Edwin Chadwick. A intenção era boa e a teoria, errada. Chadwick e seu sucessor acreditavam no miasma: a doença se transmitiria pelo ar contaminado, pelo cheiro de podridão. Para tirar o cheiro das casas, mandaram fechar as fossas, ligar tudo aos esgotos e lavar os esgotos com regularidade.

Um agrimensor da comissão relatou, satisfeito, que até fevereiro de 1849 mais de 290 milhas de esgotos tinham sido lavadas e cerca de 79 mil jardas cúbicas de depósito removidas — e, "com poucas exceções, enviadas ao rio Tâmisa". A historiadora Michelle Allen resume: a descarga súbita e intensiva do lixo doméstico da cidade no rio produziu sua deterioração física rápida. O Tâmisa virou "um grande esgoto de maré".

O físico Michael Faraday escreveu ao Times em julho de 1855, depois de uma viagem de barco em que jogou pedaços de papel branco na água para medir a opacidade: "O rio inteiro era, naquele momento, um verdadeiro esgoto." Em 1857 o governo despejou cal, cloreto de cal e ácido carbólico no rio para aliviar o cheiro.

E a cólera vinha em ondas. Seis mil e quinhentos mortos em 1831. Catorze mil em 1848 e 1849. Dez mil em 1853 e 1854 — a epidemia em que John Snow mapeou as mortes ao redor de uma bomba d'água em Soho e mostrou que a doença vinha da água, não do ar. Pouca gente lhe deu atenção.

Junho de 1858

O verão foi excepcionalmente quente e seco. O nível do rio baixou e o que ficou exposto nas margens foi o depósito de anos. Charles Dickens, em A Pequena Dorrit, já tinha chamado o Tâmisa de "um esgoto mortal". A rainha Vitória e o príncipe Albert tentaram um passeio de barco e voltaram em minutos.

O Parlamento fica à beira do rio. As cortinas do lado do Tâmisa foram embebidas em cloreto de cal para proteger os deputados, sem sucesso. Discutiu-se mudar o governo para Oxford ou St Albans. A imprensa batizou o episódio: the Great Stink, o Grande Fedor.

A revista Punch publicou em julho a caricatura que virou a imagem do verão: a Morte remando um barco pelo rio, entre carcaças de animais, sob o título The Silent Highwayman — o salteador silencioso.

Foi então que o governo que "não tinha nada a ver com o Tâmisa" agiu. Uma lei deu ao Metropolitan Board of Works — o órgão que substituíra a comissão em 1855 — a responsabilidade pela limpeza do rio, a determinação de que os esgotos não desaguassem dentro de Londres e a autorização para tomar 3 milhões de libras emprestados, a serem pagos com uma taxa sobre cada casa por quarenta anos. O historiador Martin Daunton registra que o projeto atravessou o Parlamento e virou lei em 18 dias. O Times observou que o Parlamento fora "quase compelido a legislar sobre o grande incômodo de Londres pela força do puro fedor".

A ironia é que o pânico se apoiava na teoria errada. Os deputados temiam o cheiro porque acreditavam que o cheiro causava doença. O cheiro não causava. Mas o que estava na água, sim — e a obra que o cheiro financiou resolveu os dois.

Bazalgette

O engenheiro Joseph Bazalgette tinha entrado na comissão de esgotos em 1849, depois de um colapso de saúde por excesso de trabalho na construção de ferrovias, e virou engenheiro-chefe em 1852, quando seu chefe morreu — de estresse, no cargo. Em 1856 seu plano estava pronto. Ficou dois anos parado em disputas sobre onde os esgotos desaguariam.

A lei de 1858 destravou o plano original. A ideia era interceptar: esgotos de rua alimentando coletores cada vez maiores, dispostos em três níveis — alto, médio e baixo — que corriam para leste, por gravidade, até desaguar longe da cidade. Onde a gravidade não bastava, estações de bombeamento erguiam o esgoto para o nível acima.

Os números: cerca de 1.800 quilômetros de esgotos de rua ligados a 132 quilômetros de coletores principais; 318 milhões de tijolos; obras de 1859 a 1875. As estações de Crossness, inaugurada em 1865 pelo príncipe de Gales, e Abbey Mills foram construídas como catedrais de ferro fundido. Para abrigar o coletor de nível baixo, Bazalgette construiu três aterros à beira do rio — o Victoria Embankment, o Albert Embankment e o Chelsea Embankment —, tomando 21 hectares do Tâmisa e criando a avenida que até hoje liga Westminster à City.

Ele foi feito cavaleiro pouco depois de o último aterro abrir, em 1874.

O detalhe que amarra tudo

Em 1866, a cólera voltou a Londres e matou 5.596 pessoas. Mas ficou confinada a uma área do East End, entre Aldgate e Bow — a parte da cidade que ainda não tinha sido ligada ao sistema de Bazalgette. Noventa e três por cento das mortes ocorreram ali. A companhia de água local despejava esgoto meio quilômetro rio abaixo de seu reservatório, e a maré o trazia de volta.

Foi esse surto, com a investigação do estatístico William Farr, que finalmente fez a medicina britânica aceitar que a cólera vinha da água. Foi o último surto da doença na capital.

O sistema de Bazalgette, ampliado no fim do século XIX e no começo do XX, continua em uso, servindo uma cidade de mais de oito milhões de pessoas. O obituário dele no Times, em 1891, disse que o grande esgoto sob Londres tinha "acrescentado uns vinte anos" à expectativa de vida dos londrinos. O historiador John Doxat foi mais longe: Bazalgette "provavelmente fez mais bem, e salvou mais vidas, do que qualquer outro funcionário vitoriano".

Trinta anos de estatísticas de cólera não tinham conseguido isso. Um verão de cheiro ruim na janela certa conseguiu em 18 dias.

Se te interessa como os números demoram a convencer e o que convence no lugar deles, vale ler sobre o gráfico que Florence Nightingale inventou para provar que o hospital matava mais que a guerra — publicado no mesmo ano de 1858 — e sobre Semmelweis, que tinha os números certos e nenhuma forma de fazer alguém olhar.

Fontes

  1. State of the Thames — Question (Câmara dos Comuns, 11 de junho de 1858), Hansard, Parlamento do Reino Unido
  2. State of the Thames — Question (Câmara dos Comuns, 15 de junho de 1858), Hansard, Parlamento do Reino Unido
  3. London's "Great Stink" and Victorian Urban Planning, Martin Daunton, BBC History
  4. Good Intentions, Unexpected Consequences: Thames Pollution and The Great Stink of 1858, Michelle Allen, The Victorian Web

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Perguntas frequentes

O que foi o Grande Fedor?
Um episódio de junho a agosto de 1858 em que o calor e a seca baixaram o nível do Tâmisa e deixaram expostos, nas margens, anos de esgoto bruto e resíduos industriais despejados diretamente no rio. O cheiro atingiu o Parlamento, cujas cortinas foram embebidas em cloreto de cal, e forçou a aprovação de uma lei que financiou o novo sistema de esgotos de Londres.
Por que o rio estava naquele estado?
Londres crescera de cerca de um milhão para três milhões de habitantes, os vasos sanitários com descarga se espalharam e os esgotos, feitos para água de chuva, passaram a levar dejetos para o Tâmisa — de onde as companhias de água retiravam o que vendiam para beber. A partir de 1848, uma comissão sanitária mandou lavar os esgotos e fechar as fossas, o que jogou ainda mais material no rio.
Quem construiu o sistema?
O engenheiro Joseph Bazalgette, do Metropolitan Board of Works. Entre 1859 e 1875, ele construiu cerca de 1.800 quilômetros de esgotos de rua ligados a 132 quilômetros de esgotos coletores, estações de bombeamento e três aterros à beira do rio, incluindo o Victoria Embankment. O sistema, ampliado, ainda serve Londres.
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