Cachorro não vê em preto e branco: tem dois tipos de cone na retina e, num teste de 2013, oito cães escolheram pela cor, não pelo brilho
A visão do cão é parecida com a de uma pessoa com daltonismo vermelho-verde. O que os experimentos de 1989, 2013 e 2017 mediram, de onde pode ter vindo o mito do preto e branco e o que o cachorro enxerga melhor que a gente.

Em 30 segundos
- Cães têm dois tipos de cone, com picos de sensibilidade em cerca de 429 e 555 nanômetros, segundo o estudo de 1989 de Neitz, Geist e Jacobs. Humanos têm três.
- Em 2017, uma equipe da Universidade de Bari mostrou que os cães reagem a um teste de daltonismo adaptado como pessoas com daltonismo vermelho-verde.
- Em 2013, oito cães sem treino prévio escolheram papéis pela cor e não pelo brilho, mesmo podendo usar o brilho.
- A ideia do preto e branco aparece em manuais do século 20 e em experimentos antigos que não acharam cor nos cães. A AKC a atribui ao escritor Will Judy, em 1937.
Cachorro enxerga colorido, só que com menos cores que uma pessoa. A retina do cão tem dois tipos de cone, as células que dão cor à visão, e não os três que os humanos têm. O resultado é parecido com o de quem tem daltonismo vermelho-verde: azul e amarelo bem separados, vermelho e verde difíceis de distinguir.
Os experimentos que sustentam isso vão de 1989 a 2017 e saíram de laboratórios nos Estados Unidos, na Rússia, na Geórgia e na Itália. E a história do "preto e branco" é mais interessante que o mito.
Dois cones, 429 e 555 nanômetros
Em 1989, Jay Neitz, Tim Geist e Gerald Jacobs, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, testaram a visão de cores de três cães domésticos. As medidas indicaram duas classes de pigmento nos cones, com picos de sensibilidade em cerca de 429 e 555 nanômetros, e todos os testes foram consistentes com visão dicromática, segundo o resumo do artigo.
Em 1993, Jacobs e colegas mediram os pigmentos por eletrorretinograma em quatro gêneros de canídeos. O cão doméstico, a raposa-cinzenta-da-ilha, a raposa-vermelha e a raposa-do-ártico tinham o mesmo par de pigmentos, um perto de 555 nm e outro entre 430 e 435 nm.
O oftalmologista Paul Miller, da Universidade de Wisconsin-Madison, resumiu em 2001 o que isso significa. O espectro do cão se divide em dois matizes: um do violeta ao azul, que ele "provavelmente" vê como azul, e outro do verde-amarelado ao vermelho, que "provavelmente" vê como amarelo. Entre 475 e 485 nm, a faixa que as pessoas veem como verde-azulado, o cão parece enxergar uma banda sem cor, branca ou cinza (tradução nossa).

Oito cães, quatro folhas de papel
Ter dois cones dá o potencial para ver cor. Faltava saber se o cão usa isso. Nos estudos anteriores, o brilho era neutralizado como pista. Neste, ele ficou disponível, de propósito.
Em 2013, Anna Kasparson, Jason Badridze e Vadim Maximov, de Moscou e Tbilisi, inverteram a lógica. Usaram oito cães sem treino prévio e papéis amarelos e azuis, de 15 por 15 centímetros, em dois tons cada: claro e escuro. O cão aprendia a achar a caixa com carne crua indicada por um papel, por exemplo amarelo-escuro, no lugar do azul-claro.
Depois vinha o teste, sem recompensa, com as pistas separadas: amarelo-claro contra azul-escuro. Se o cão seguisse o brilho, escolheria o azul-escuro. Se seguisse a cor, o amarelo.
Todos os oito preferiram a cor. Metade deles escolheu pela cor nas dez rodadas de teste. Uma cadela, de nome Co, teve resultado menos consistente (7 a 3), sem significância estatística, e outra, Ji, precisou de testes extras. As diferenças de brilho entre os papéis eram bem maiores que o mínimo que o cão consegue notar, e mesmo assim ele não as usou. Foi o que os autores resumiram: a cor "pode ser predominante" até em animais com apenas dois cones (tradução nossa).
O teste de daltonismo que o cão enfrentou
Em 2017, Marcello Siniscalchi e colegas, da Universidade de Bari, na Itália, quiseram checar direto a ideia de que cães se parecem com humanos daltônicos. Adaptaram a placa nº 22 do teste de Ishihara, em que quem vê normalmente lê "26" e quem tem deuteranopia, um tipo de daltonismo vermelho-verde, lê só "2".
Em vez de números, puseram nas telas a silhueta animada de um gato correndo, desenhada com os tons de vermelho de cada algarismo sobre o fundo verde. Quem tem deuteranopia vê o gato do algarismo "2" e não vê o do "6". Quatro homens com diagnóstico de deuteranopia passaram pelo teste antes e se comportaram assim.
Dos 21 cães recrutados, 16 entraram na análise. Eles olharam mais e reagiram mais ao gato do tom "2" do que ao do "6", uma resposta que os autores compararam à de humanos com daltonismo vermelho-verde. Numa subamostra de nove cães, versões em tons de cinza dos mesmos estímulos quase não chamaram atenção, ao contrário do gato preto de controle.
De onde veio o preto e branco
Não achei um autor único da ideia. O que há são pistas.
Em 1927, a tradução inglesa das conferências de Ivan Pavlov registrava que o pesquisador Orbeli, na primeira série de experimentos, não detectou diferenciação de cores em seus cães. Na segunda, um cão teve resultado positivo, "mas só com grande dificuldade". A conclusão, escreveu Pavlov, era que a visão de cores nos cães, "se presente, é só de uma forma muito rudimentar", e na maioria nem se detecta (tradução nossa).

Já a American Kennel Club atribui a popularização do mito ao escritor Will Judy, ex-publisher da revista Dog Week. Segundo a entidade, ele escreveu no manual Training the Dog, de 1937, que provavelmente todo o mundo externo aparece ao cão "como realces variados de preto e cinza" (tradução nossa). Não li o livro de Judy: a citação vem da AKC.
O mito resistiu. Um documento do Kennel Club britânico, de 2019, ainda cita um manual de saúde canina de 2003 segundo o qual "acredita-se que os cães são daltônicos e só veem em preto e branco" (tradução nossa), e o classifica como informação imprecisa.
O que se pensou sobre a cor na visão do cão
- 1927Pavlov publica, em tradução inglesa, que a visão de cores nos cães é no máximo rudimentar.
- 1937Will Judy escreve que o mundo externo provavelmente aparece aos cães em preto e cinza, segundo a AKC.
- 1989Neitz, Geist e Jacobs medem dois pigmentos de cone e concluem que a visão do cão é dicromática.
- 2013Oito cães escolhem pela cor e não pelo brilho.
- 2017Cães reagem a um teste de daltonismo adaptado como pessoas com deuteranopia.
O cão que não via cor via cinzas que ninguém via
Há um detalhe que amarra tudo. O mesmo capítulo de Pavlov que duvidava da cor dos cães descreve outra coisa: o cão distinguia tons de cinza que o olho humano não separava.
No experimento, o cão aprendeu a reagir a uma tela preta uniforme e a diferenciar dela uma tela branca e, depois, cinzas cada vez mais escuros, de uma escala de 50 tons. Ele distinguiu os tons vizinhos nº 49 e nº 50, entre os quais, para o olho humano, "não havia a menor diferença" (tradução nossa). A diferenciação foi "evidente, embora não absoluta", e os pesquisadores não conseguiram determinar o limite dessa capacidade, segundo Pavlov.
Quem imaginava um cão preto e branco, portanto, tinha a pista certa e a conclusão errada. O cão é bom em brilho e em pouca luz. A revisão de Miller e Murphy, de 1995, lista como pontos fortes a visão em luz fraca, o campo de visão e a distinção de tons de cinza, e como fraquezas a cor, a acuidade e a faixa de foco.
Cão e pessoa, segundo a literatura
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que os estudos mostram.
- O cão vê tudo em preto e branco.
- Tem dois cones: separa azul de amarelo e escolhe pela cor mesmo com o brilho como pista.
- O cão vê o mundo como a gente, só que mais cinza.
- Confunde vermelho e verde, como uma pessoa com deuteranopia. Em 2017, reagiu ao teste adaptado do mesmo jeito.
- O cão enxerga pior em tudo.
- Enxerga pior os detalhes (20/75, segundo Miller), mas melhor com pouca luz e distingue tons de cinza que o olho humano não separa.
A próxima vez que alguém disser que cachorro só vê em preto e branco, a resposta curta é que ele vê em cores, só que menos. E a memória de peixe de 3 segundos não é o único mito sobre bichos que desmorona quando se vai ao experimento. A física por trás das cores, aliás, está em por que o céu é azul e não violeta.
Fontes
- Color vision in the dog (1989), Neitz, Geist e Jacobs, Visual Neuroscience 3(2), 119–125
- Photopigments of dogs and foxes and their implications for canid vision (1993), Jacobs, Deegan, Crognale e Fenwick, Visual Neuroscience 10(1), 173–180
- Colour cues proved to be more informative for dogs than brightness (2013), Kasparson, Badridze e Maximov, Proceedings of the Royal Society B 280(1766)
- Are dogs red–green colour blind? (2017), Siniscalchi, d’Ingeo, Fornelli e Quaranta, Royal Society Open Science 4(11)
- Vision in Animals – What do Dogs and Cats See? (2001), Paul E. Miller, Universidade de Wisconsin-Madison, Waltham/OSU Symposium
- Conditioned Reflexes, Lecture VIII (1927), Ivan Pavlov, tradução de G. V. Anrep, Classics in the History of Psychology (York University)
- Vision in dogs (1995), Miller e Murphy, Journal of the American Veterinary Medical Association 207(12), 1623–1634
- Colour vision in the dog: a brief summary (2019), The Kennel Club (Reino Unido), Annex A
- Can dogs see color?, American Kennel Club
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Perguntas frequentes
- Cachorro enxerga colorido ou preto e branco?
- Colorido, mas com menos cores que uma pessoa. O estudo de Neitz, Geist e Jacobs, de 1989, concluiu que cães têm dois tipos de cone, o que caracteriza visão dicromática. Em 2013, oito cães escolheram papéis pela cor e não pelo brilho, mesmo podendo usar o brilho.
- Quais cores o cachorro enxerga?
- Distingue azul e amarelo. Vermelho e verde se confundem, como para uma pessoa com daltonismo vermelho-verde. Em 2017, cães reagiram a um teste de daltonismo adaptado do mesmo modo que pessoas com deuteranopia. A faixa entre 475 e 485 nanômetros, que as pessoas veem como verde-azulado, parece ser vista sem cor pelo cão, segundo o oftalmologista Paul Miller.
- Cachorro e gato enxergam colorido?
- Os dois têm alguma visão de cores, mas o cão tem mais que o gato. Segundo Paul Miller, da Universidade de Wisconsin-Madison, cães usam visão de cores e gatos usam em menor grau, com capacidade limitada, que só aparece quando os estímulos são grandes e muito diferentes na cor.
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