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A Tasmânia pagou 2.184 recompensas por tigres-da-tasmânia mortos. Quando a espécie ganhou proteção, em 1936, faltavam menos de dois meses para o último conhecido morrer

O tilacino, um marsupial que não era tigre nem lobo, morreu num zoológico de Hobart na noite de 7 de setembro de 1936. Um estudo de 2023 com 1.237 registros sugere que a espécie resistiu décadas no mato, mas nenhum avistamento foi confirmado.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Fotografia em preto e branco de um animal parecido com um cão magro, de cauda longa e rígida e listras escuras no lombo, de perfil, com o focinho junto à tela de arame de um recinto, diante de portas de madeira.
Harry Burrell, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • O tilacino, chamado de tigre-da-tasmânia, era um marsupial carnívoro com listras nas costas e bolsa: nem tigre, nem lobo.
  • Entre 1888 e 1909, o governo da Tasmânia pagou 2.184 recompensas por tilacinos mortos, segundo o zoólogo Eric Guiler.
  • A proteção total veio em julho de 1936. O último tilacino conhecido morreu no zoológico de Hobart na noite de 7 de setembro daquele ano.
  • Um estudo de 2023 com 1.237 registros estima que a espécie pode ter sobrevivido na natureza por décadas, mas desde 1938 nenhum relato foi confirmado.

Não há prova de que o tigre-da-tasmânia ainda exista. O último exemplar conhecido morreu no zoológico de Hobart, na Tasmânia, na noite de 7 de setembro de 1936, e a declaração formal de extinção veio 50 anos depois, em 1986.

Em aberto está a data da morte do último animal solto na natureza. Um estudo de 2023 que reuniu 1.237 registros de avistamentos, capturas e mortes desde 1910 estima que a espécie pode ter resistido em áreas remotas por décadas. Desde 1938, porém, nenhum registro foi confirmado.

A proteção total chegou em 10 de julho de 1936, 59 dias antes da morte do último exemplar conhecido. Até 1909, o governo da ilha pagava por tilacino morto.

Nem tigre nem lobo: um marsupial com bolsa

O tilacino (Thylacinus cynocephalus) era um marsupial carnívoro de grande porte, o único da família Thylacinidae a chegar aos tempos modernos, segundo o Australian Museum, em Sydney. O nome científico quer dizer "cão de bolsa com cabeça de cachorro".

A pelagem ia do castanho-amarelado ao cinza, com 15 a 20 listras escuras dos ombros até a cauda, daí o apelido de tigre. A cabeça lembrava a de um cão ou de um lobo, mas a cauda era rígida e as pernas, curtas. A fêmea tinha uma bolsa aberta para trás; o macho, uma bolsa parcial.

No continente australiano, o tilacino sumiu há pelo menos 2 mil anos, diz o museu. A Tasmânia foi o último refúgio.

Gravura colorida de dois animais de perfil, com focinho de cão, orelhas eretas e listras escuras nas costas.
Ilustração. Tilacinos em litografia de Henry Constantine Richter, a partir de John Gould, de 1863. Imagem: Henry Constantine Richter / After John Gould, via Wikimedia Commons · Domínio público

O governo pagou por 2.184 tilacinos mortos

Antes da colonização europeia, no começo do século 19, a ilha tinha de 2 mil a 4 mil tilacinos, segundo estimativa citada no estudo de 2023. Com as ovelhas, veio a fama de predador de rebanho.

Em 1830, a Van Diemen's Land Company já pagava por tilacino morto, conta o jornal tasmaniano The Examiner. Em 1888, o Parlamento da Tasmânia aprovou uma recompensa de 1 libra por adulto e 10 xelins por filhote. Até 1909, último ano de pagamento, foram 2.184 recompensas, registrou o zoólogo Eric Guiler em 1966, na revista Oryx.

O Australian Museum considera que os ataques a ovelhas e galinhas foram "quase certamente exagerados" (tradução nossa). A foto mais famosa do tilacino predador, feita por Harry Burrell e publicada pelo museu em 1921, ainda é discutida: pesquisadores debatem se o animal com a ave na boca estava vivo ou empalhado. A dúvida lembra outra cena de animal que se revelou encenada, a dos lemingues suicidas da Disney.

O estudo de 2023 lista outras causas além das recompensas: os laços de caçadores de peles, a captura para zoológicos, a mudança do habitat e, possivelmente, doenças. Guiler registrava em 1966 a avaliação de que a recompensa nem foi a causa principal. O último tilacino selvagem morto com confirmação foi abatido em Mawbanna, em abril de 1930.

Dois anos depois, a Austrália mandaria soldados com metralhadoras contra aves nativas na Guerra das Emas.

Fotografia em preto e branco de dois animais listrados num recinto de pedra, um deles atrás de uma rocha.
Dois tilacinos no Zoológico Nacional de Washington, nos Estados Unidos, por volta de 1904. Imagem: Baker; E.J. Keller., via Wikimedia Commons · Domínio público

A proteção veio menos de dois meses antes do fim

Em 1930, foi criado um defeso em dezembro, então tido como o mês da reprodução. A proteção total só saiu em 10 de julho de 1936, segundo o The Examiner.

O zoológico Beaumaris, de Hobart, vivia uma crise. Depois da morte do curador, em dezembro de 1935, um superintendente da prefeitura cortou tratadores experientes e pôs desempregados de um programa de auxílio no lugar, segundo um artigo de 2023 do pesquisador Robert Paddle e de Kathryn Medlock, curadora do Museu e Galeria de Arte da Tasmânia (TMAG), baseado nas atas do zoológico.

O tilacino que estava lá no começo de 1936 muitas vezes ficava trancado fora do abrigo, exposto ao tempo 24 horas por dia.

Na reunião de 16 de setembro de 1936, o superintendente Bruce Lipscombe informou que "o tigre-da-tasmânia morreu na segunda-feira à noite, dia 7, e o corpo foi enviado ao museu" (tradução nossa). Ninguém soube informar ao museu a causa da morte.

Em março de 1937, a junta de proteção da fauna ainda deu uma licença para matar um tilacino "para o Museu da Tasmânia" (tradução nossa). Nunca foi usada. Em 1939, o diretor do museu escreveu que oferecia 50 libras por um exemplar vivo e não tinha "a menor expectativa" de recebê-lo (tradução nossa).

A declaração formal de extinção veio em 1986: da IUCN, segundo o estudo de 2023; do governo da Tasmânia, segundo o The Examiner, que data a da IUCN de 1982.

Da recompensa à extinção

  1. 1888Recompensa do governo: 1 libra por adulto.
  2. 1909Último ano de pagamento: 2.184 recompensas desde 1888.
  3. Abril de 1930Último tilacino selvagem morto com confirmação.
  4. 10 de julho de 1936A espécie ganha proteção total.
  5. 7 de setembro de 1936Morre em Hobart o último tilacino conhecido.
  6. 1986Declaração formal de extinção.

O tilacino dos filmes talvez não fosse o último

As imagens mais vistas de um tilacino vivo são do naturalista David Fleay, no zoológico de Hobart. O arquivo nacional de cinema da Austrália data o filme de 1932 e diz que o animal "seria o último" do cativeiro (tradução nossa); o estudo de 2023 identifica assim uma foto de Fleay de 19 de dezembro de 1933.

Paddle e Medlock contestam. Pelas atas, o animal fotografado e filmado era o penúltimo, comprado ainda filhote em 1931, por 8 libras. Ele morreu em meados de maio de 1936, e o corpo foi jogado no lixo do zoológico.

O último, dizem, foi uma fêmea idosa que chegou por volta de 20 de maio de 1936, comprada por 5 libras e associada ao caçador Elias Churchill. Não há foto conhecida dela viva. A captura num laço de chão, proibido naquele período, explicaria o silêncio: quem a pegou queria evitar multa.

O corpo dela foi mesmo para o museu, mas, sem dados de captura, virou material de aula, levado a escolas. Os dois pesquisadores identificaram a pele e o esqueleto e atribuem o desgaste do pelo da cabeça às mãos de crianças que afagavam o tilacino "como se fosse um cachorro" (tradução nossa). Em dezembro de 2022, as peças entraram em exposição no TMAG.

A conclusão não é unânime: o estudo de 2023, assinado também por Stephen Sleightholme e Cameron Campbell, especialistas nos registros históricos da espécie, identifica o último tilacino de cativeiro como um macho capturado em 1931.

O que dizem os 1.237 avistamentos

Barry Brook, da Universidade da Tasmânia, e colegas reuniram registros de 1910 a 2019: 99 físicos (animais mortos ou capturados), 429 de especialistas, como antigos caçadores e mateiros, e 709 de outras pessoas, cada um com uma nota de qualidade.

Só com os registros físicos, a extinção teria ocorrido até 1941. Com os avistamentos de melhor qualidade, a data mais provável cai entre os anos 1940 e 1970. Com todos os relatos, pesados pela confiabilidade, a extinção pode ter sido no fim dos anos 1980 ou no começo dos 2000, com chance pequena de sobrevivência nas matas do sudoeste da ilha. Os autores concluem que é improvável que a espécie exista hoje.

Para Ivan Jarić, coautor do estudo, a extinção "não era inevitável": houve provavelmente uma janela de décadas para agir (tradução nossa).

O geneticista Andrew Pask, da Universidade de Melbourne, que não participou da pesquisa, desconfia dos avistamentos: "Não há evidência que confirme nenhum deles", disse à Live Science (tradução nossa). Como o tilacino parecia um cão, é difícil distinguir os dois de longe, e nunca se achou um animal morto nem uma foto inequívoca.

Pask lidera o laboratório que, desde 2022, tenta recriar a espécie com a empresa americana Colossal Biosciences, usando o DNA do parente vivo mais próximo, o dunnart-de-cauda-gorda. Em outubro de 2024, a empresa anunciou um genoma do tilacino com 99,9% de precisão; segundo a agência AAP, cientistas pediram dados revisados por pares antes de comemorar.

Certeza, por enquanto, só há uma: a data em que morreu o último tilacino conhecido. O 7 de setembro virou o Dia das Espécies Ameaçadas na Austrália.

Fontes

  1. Resolving when (and where) the Thylacine went extinct (2023), Barry W. Brook, Stephen R. Sleightholme, Cameron R. Campbell, Ivan Jarić e Jessie C. Buettel, Science of the Total Environment 877 (texto integral no repositório HAL)
  2. The discovery of the remains of the last Tasmanian tiger (Thylacinus cynocephalus) (2023), Robert N. Paddle e Kathryn M. Medlock, Australian Zoologist 43(1) (repositório da Australian Catholic University)
  3. In Pursuit of the Thylacine (1966), Eric R. Guiler, Oryx 8(5), Cambridge University Press
  4. Thylacine, Australian Museum, Sydney
  5. If the thylacine is extinct does it matter if Harry Burrell’s was real? (2011), Patricia Egan, Australian Museum
  6. Tails of the Tassie tiger (2016), The Examiner, Launceston (Tasmânia)
  7. Tasmanian Tiger Footage (1932), notas do curador, Australian Screen, National Film and Sound Archive of Australia
  8. Long-extinct Tasmanian tiger may still be alive and prowling the wilderness, scientists claim (2023), Live Science
  9. Tassie tiger de-extinction bid aims to dispel myths (2024), Australian Associated Press (AAP)

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Perguntas frequentes

O tigre-da-tasmânia ainda existe?
Não há prova disso. O último tilacino conhecido morreu no zoológico de Hobart em 7 de setembro de 1936, e desde 1938 nenhum registro de avistamento, captura ou morte foi confirmado. Um estudo de 2023 com 1.237 registros calcula que a espécie pode ter resistido em áreas remotas até os anos 1980 ou 2000, mas conclui que é improvável que exista hoje.
Em que ano o tigre-da-tasmânia foi extinto?
O último exemplar conhecido morreu em 7 de setembro de 1936, em cativeiro, em Hobart, na Tasmânia. A declaração formal de extinção veio em 1986. A data em que morreu o último animal selvagem é incerta: o estudo de 2023 aponta as décadas de 1940 a 1970 como mais prováveis pelos registros de melhor qualidade, e não descarta os anos 1980 ou 2000.
Por que o tigre-da-tasmânia foi extinto?
Principalmente pela perseguição humana. Tratado como predador de ovelhas, o tilacino teve a cabeça posta a prêmio: só o governo da Tasmânia pagou 2.184 recompensas entre 1888 e 1909. O estudo de 2023 soma a isso os laços de caçadores de peles, a captura para zoológicos, a mudança do habitat e, possivelmente, doenças.
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