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Ela morreu em 1951. As células dela continuam vivas, ajudaram a fazer a vacina da pólio, e ninguém pediu permissão

Henrietta Lacks era uma lavradora de tabaco de 31 anos quando um médico da Johns Hopkins tirou um pedaço do tumor dela sem avisar. Nasceu ali a HeLa, a primeira linhagem celular imortal. A família só soube 24 anos depois — e só em 2013 ganhou voz sobre o genoma que estava na internet.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Células HeLa em cultura vistas ao microscópio de fluorescência, com núcleos em azul e citoesqueleto em verde e vermelho.
National Institutes of Health, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 29 de janeiro de 1951, uma mulher de 30 anos entrou no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, dizendo que sentia "um nó" no útero. Ela se chamava Henrietta Lacks. Morreu em outubro do mesmo ano.

As células do tumor dela não morreram. Setenta e cinco anos depois, continuam se dividindo em laboratórios do mundo inteiro. E a família dela só ficou sabendo em 1975.

A mulher

Henrietta nasceu Loretta Pleasant em 1º de agosto de 1920, em Roanoke, na Virgínia. A mãe morreu quando ela tinha quatro anos, no décimo parto, e as crianças foram distribuídas entre parentes. Ela foi criada pelo avô materno em Clover, numa cabana de dois andares que havia sido senzala na fazenda de um bisavô branco. Trabalhou na lavoura de tabaco desde pequena e largou a escola na sexta série para ajudar a família.

Casou-se com David "Day" Lacks em 1941 e, no mesmo ano, mudou-se para Turner Station, perto de Baltimore, onde o marido foi trabalhar na siderúrgica Bethlehem Steel. Tiveram cinco filhos. O último nasceu no Johns Hopkins em novembro de 1950, quatro meses e meio antes do diagnóstico.

O médico, Howard Jones, fez uma biópsia da massa no colo do útero. Carcinoma epidermoide, disseram na época — em 1970 se descobriria que era um adenocarcinoma, erro comum então, que não teria mudado o tratamento. Ela recebeu implantes de rádio, como era padrão, e voltou para casa.

Durante o tratamento, duas amostras foram retiradas do colo do útero dela, uma de tecido saudável e outra do tumor. Sem que ela soubesse, sem que ninguém pedisse. Não era exigido, nem costume.

O laboratório

As amostras foram para George Otto Gey, pesquisador de câncer do Johns Hopkins que havia décadas tentava manter células humanas vivas em cultura. Até então, elas sobreviviam alguns dias, no máximo — pouco para fazer uma série de experimentos com o mesmo material.

As células do tumor de Henrietta se dividiam sem parar. Foram as primeiras observadas que podiam se multiplicar indefinidamente sem morrer, e por isso ganharam o adjetivo "imortais". Gey isolou uma célula, deixou que se dividisse repetidamente e criou uma linhagem. Batizou-a pelo seu método padrão: as duas primeiras letras do nome e do sobrenome da paciente. HeLa.

Em 8 de agosto de 1951, Henrietta voltou ao hospital com dor abdominal intensa e pediu para ser internada. Morreu em 4 de outubro, aos 31 anos. A autópsia parcial mostrou o câncer espalhado pelo corpo inteiro. Foi enterrada em uma sepultura sem lápide no cemitério da família, em Clover. Só em 2010 uma lápide foi colocada.

Enquanto isso, as células dela já viajavam. Em 1954, Jonas Salk as usava nas pesquisas da vacina contra a pólio, e elas foram produzidas em massa na primeira fábrica de células da história. Em 1955, foram as primeiras células humanas clonadas. Serviram para testar sensibilidade a cosméticos, cola, fita adesiva. Há cerca de 11 mil patentes envolvendo células HeLa.

A família

A família Lacks não sabia de nada disso.

No início dos anos 1970, pesquisadores descobriram que uma parte enorme das outras culturas celulares do mundo tinha sido contaminada por células HeLa — elas eram tão vigorosas que invadiam qualquer placa vizinha. Para distinguir a HeLa das demais, cientistas precisavam do perfil genético da família. E começaram a ligar para os Lacks pedindo amostras de sangue.

Foi assim, de forma confusa e sem explicação, que a família começou a desconfiar. Em 1975, numa conversa casual em um jantar, souberam que material vindo de Henrietta continuava sendo usado em pesquisa. Antes disso, nunca tinham falado entre si sobre a doença e a morte dela.

Nos anos 1980, prontuários médicos da família foram publicados sem consentimento. Em 1990, a Suprema Corte da Califórnia decidiu, em outro caso, que tecidos e células descartados de uma pessoa não são propriedade dela e podem ser comercializados.

O genoma na internet

Em março de 2013, um grupo europeu publicou a sequência completa do genoma de uma linhagem HeLa e a colocou em bancos de dados abertos. Não violou nenhuma regra. A família descobriu pela escritora Rebecca Skloot, autora do livro que havia contado a história de Henrietta em 2010.

O genoma de células cultivadas por seis décadas não é o de Henrietta — carrega as mutações do tumor e as alterações do cultivo. Mas, como escreveram Kathy Hudson e Francis Collins, então diretor dos National Institutes of Health, a sequência "pode revelar certos aspectos hereditários do DNA germinativo de Lacks", e portanto permite inferências sobre os descendentes dela, cujos nomes são conhecidos por milhões de pessoas.

Os pesquisadores europeus retiraram os dados em poucos dias. Enquanto isso, um segundo genoma HeLa, financiado pelo próprio NIH, estava prestes a sair na Nature. Algo precisava ser feito.

Ao longo de quatro meses, o NIH reuniu-se três vezes com a família em Baltimore. Apresentou três opções: dados totalmente abertos, acesso controlado, ou nenhum acesso. A família escolheu, por unanimidade, o acesso controlado. Desde agosto de 2013, quem quer usar o genoma HeLa pede autorização a um grupo de trabalho do NIH do qual dois membros da família Lacks fazem parte, e os artigos devem reconhecer a contribuição de Henrietta e "a generosidade contínua de sua família".

Hudson e Collins fizeram questão de anotar que era uma resposta a uma situação extraordinária, não um precedente. Sob as regras americanas de então, ainda era possível sequenciar o genoma inteiro de uma amostra "desidentificada" sem consentimento — e eles reconheceram que a desidentificação "é cada vez mais ilusória".

O detalhe que amarra tudo

Em 13 de outubro de 2021, a Organização Mundial da Saúde entregou um prêmio do diretor-geral a Lawrence Lacks, filho mais velho de Henrietta, então com 87 anos, um dos últimos parentes vivos que a conheceram. A cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, disse não conseguir pensar "em nenhuma outra linhagem celular ou reagente de laboratório que tenha sido usado nessa extensão e resultado em tantos avanços".

A OMS listou o que saiu dessas células: a vacina contra o HPV, a vacina da pólio, medicamentos contra o HIV e o câncer, pesquisa sobre a covid-19. E acrescentou uma frase rara num comunicado oficial: a comunidade científica "escondeu a raça de Henrietta Lacks e sua história real".

Fica um contraste que a história não resolve. A mesma vacina contra o HPV, que existe por causa das células de uma mulher negra que morreu de câncer de colo do útero, chegava em 2020 a menos de 25% dos países de baixa renda — enquanto mulheres negras continuam morrendo dessa doença em taxas várias vezes maiores.

As células dela ajudaram a resolver o problema. A resposta ainda não chegou às mulheres parecidas com ela.

Se te interessa a fronteira entre o que a medicina precisou fazer e o que fez com uma pessoa, vale ler sobre o homem que passou décadas com uma janela aberta no estômago para a ciência e sobre as operárias que pintavam relógios com rádio — outros casos em que o corpo de alguém virou instrumento antes de virar sujeito.

Fontes

  1. Family matters (2013), Kathy L. Hudson e Francis S. Collins, National Institutes of Health, Nature 500, 141–142
  2. The genomic and transcriptomic landscape of a HeLa cell line (2013), Landry et al., G3: Genes, Genomes, Genetics 3(8), 1213–1224
  3. WHO Director-General bestows posthumous award on the late Henrietta Lacks (2021), Organização Mundial da Saúde

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Perguntas frequentes

Quem foi Henrietta Lacks?
Uma mulher negra americana, nascida Loretta Pleasant em 1º de agosto de 1920 em Roanoke, Virgínia, criada numa lavoura de tabaco e mãe de cinco filhos. Em 1951, aos 31 anos, foi tratada de um câncer de colo do útero no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, e morreu em 4 de outubro daquele ano. Amostras do tumor dela, tiradas sem seu conhecimento, deram origem à linhagem celular HeLa.
O que são as células HeLa?
A primeira linhagem de células humanas capaz de se reproduzir indefinidamente em laboratório. Até então, células cultivadas morriam em poucos dias. As de Henrietta Lacks se dividiam sem parar, o que permitiu padronizar experimentos no mundo inteiro. Foram usadas nos testes da vacina da pólio, em pesquisas sobre HPV, HIV e câncer, e na pesquisa sobre a covid-19.
A família recebeu alguma coisa?
Nenhuma compensação financeira pelas décadas de uso. Em 2013, depois que o genoma de uma linhagem HeLa foi publicado sem consulta, a família e os National Institutes of Health firmaram um acordo: o acesso aos dados genômicos passou a ser controlado por um comitê com dois membros da família, e os artigos devem reconhecer a contribuição dela. Em 2021 a OMS entregou um prêmio póstumo ao filho mais velho, Lawrence Lacks.
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