Van Gogh não cortou só o lóbulo: o desenho que o médico dele fez em 1930, guardado por 80 anos entre os papéis de um escritor americano, mostra que o lóbulo foi o que sobrou
Na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, Van Gogh cortou a orelha esquerda com uma navalha e a entregou a uma jovem numa casa de tolerância. O que contam as cartas, o jornal da cidade e o bilhete do doutor Félix Rey, e o que ainda divide os especialistas.

Em 30 segundos
- Na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, Van Gogh cortou a orelha esquerda com uma navalha e a entregou numa casa de tolerância, segundo o jornal da cidade.
- Em 1930, o médico Félix Rey desenhou o ferimento para o escritor Irving Stone: o corte seguiu a base da orelha, e sobrou um pedaço do lóbulo.
- O bilhete foi achado em 2010 na Bancroft Library, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e revelado em 2016 pela pesquisadora Bernadette Murphy.
- Murphy identificou a jovem que recebeu a orelha como Gabrielle, uma faxineira de 18 anos, e não uma prostituta chamada Rachel. A edição oficial das cartas ainda trata a identidade como incerta.
Na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, no sul da França, Vincent van Gogh cortou a orelha esquerda com uma navalha e foi a uma casa de tolerância entregá-la a uma jovem. Até poucos anos atrás, a versão aceita era a de que ele tinha tirado só a ponta, o lóbulo. Um bilhete do médico que o tratou, com dois desenhos feitos em 1930, mostra o contrário: o corte seguiu a base da orelha, e o que sobrou foi um pedaço do lóbulo.
O bilhete passou 80 anos entre os papéis do escritor americano Irving Stone. Foi achado em 2010 pela pesquisadora Bernadette Murphy, que também deu nome à moça que recebeu a orelha. As duas conclusões ainda têm quem discorde.
A noite em que Gauguin foi dormir num hotel
Desde o outono de 1888, Van Gogh dividia a Casa Amarela, em Arles, com o pintor Paul Gauguin. Pouco antes do Natal, segundo o Museu Van Gogh, os dois tiveram uma briga feia.
Quase tudo o que se sabe da noite vem de Gauguin. Na versão que ele contou ao pintor Émile Bernard dias depois, Vincent correu atrás dele na rua, e ele foi dormir num hotel. Em Avant et après, escrito em 1903, a cena ganhou uma navalha aberta na mão de Vincent.
A edição das cartas do pintor, mantida pelo Museu Van Gogh, diz que as circunstâncias exatas não são conhecidas. Ao médico Félix Rey, Vincent disse que era "um assunto totalmente pessoal" (tradução nossa).
O jornal Forum Républicain contou o resto em 30 de dezembro: "Domingo passado, às 11 e meia da noite, o chamado Vincent Vangogh, pintor, natural da Holanda, apresentou-se na casa de tolerância nº 1, chamou por uma certa Rachel e lhe entregou... sua orelha, dizendo: 'Guarde este objeto com todo o cuidado'" (tradução nossa). Na manhã seguinte, a polícia o achou na cama, "quase sem dar sinal de vida", e o levou ao hospital.
Theo, o irmão, veio de Paris no trem noturno e voltou no dia 25, levando Gauguin. Em 28 de dezembro, escreveu à noiva, Jo Bonger: "Se ele tivesse encontrado uma única vez alguém a quem pudesse abrir o coração, talvez nada disso tivesse acontecido" (tradução nossa). Vincent teve alta em 7 de janeiro de 1889.
Lóbulo ou orelha inteira: as testemunhas nunca concordaram
A versão do lóbulo veio de gente próxima. Jo Bonger escreveu em 1914 que o cunhado cortou "um pedaço da orelha". O pintor Paul Signac, que visitou Vincent três meses depois, escreveu em 1921 que foi "o lóbulo da orelha (não a orelha)".
Na mesma carta, porém, Signac contou que Vincent usava uma faixa na cabeça e um gorro de pele. "Ninguém nunca viu a orelha descoberta", disse Murphy à biblioteca de Berkeley. "Nem Signac" (tradução nossa).
Quem estava em Arles naquela semana contou outra coisa. Pelo relato de Bernard, Gauguin disse que Vincent cortou a orelha "de um golpe só". O policial Alphonse Robert escreveu em 1929 que foi "a orelha inteira".
O lóbulo foi justamente o que sobrou
Em 1930, Irving Stone escrevia Lust for Life, a biografia romanceada de Van Gogh que sairia em 1934, e pediu informações ao doutor Rey. A resposta veio em 18 de agosto de 1930, numa folha do bloco de receitas, com dois desenhos a tinta.
No primeiro, uma orelha com uma linha pontilhada descendo pela base: "A orelha foi cortada com uma navalha seguindo a linha pontilhada". No segundo, só um resto: "O aspecto do que restava do lóbulo da orelha" (tradução nossa).

O romance registrou que Vincent deixou "só uma pequena porção do lóbulo". O bilhete seguiu com o arquivo de Stone, de mais de 550 caixas, para a Bancroft Library, da Universidade da Califórnia em Berkeley, em 1994.
Murphy chegou a ele por uma nota de 1955 dos editores da revista Life, que mencionava o diagrama de Rey. Em janeiro de 2010, o arquivista David Kessler o achou dobrado ao meio, na caixa 91. Ela guardou o segredo por mais de cinco anos e o revelou em 12 de julho de 2016, no Museu Van Gogh, em Amsterdã, com o livro Van Gogh's Ear.
Desde então, a edição das cartas afirma que Van Gogh "de fato cortou a orelha inteira". O especialista Martin Bailey, do The Art Newspaper, discorda em parte. Lembra que as memórias de Rey já mostravam distorções nos anos 1920 e conclui que foi "muito, talvez a maior parte da orelha, mas certamente não toda" (tradução nossa).
A moça que recebeu a orelha tinha nome
O jornal chamou a moça de Rachel. Décadas depois, o policial Robert lembrou que ela trabalhava com o nome de Gaby. Murphy vasculhou os registros de Arles e não achou nenhuma prostituta chamada Rachel.
Achou uma Gabrielle de 18 anos, três anos abaixo da idade mínima para uma prostituta registrada. Segundo os descendentes, ela fazia faxina na casa para pagar a dívida de um tratamento contra a raiva.
A família pediu sigilo sobre o sobrenome, mas uma semana depois do livro o Art Newspaper o achou nos registros do Instituto Pasteur, em Paris: Gabrielle Berlatier, filha de agricultor, de Moulès, a 10 quilômetros de Arles. Mordida por um cão raivoso em 8 de janeiro de 1888, ela recebeu em Paris a nova vacina antirrábica. Casou-se e nunca contou o episódio.
A edição das cartas é mais cautelosa: diz que a identidade de "Rachel/Gaby" continua um mistério e cita a hipótese de Murphy como interpretação.
Vincent voltou ao lugar. Em 3 de fevereiro de 1889, escreveu a Theo: "Ontem fui rever a moça a quem eu tinha ido no meu desvario. (...) Ela tinha sofrido com aquilo e desmaiado, mas tinha recuperado a calma" (tradução nossa).
A versão popular e o que os documentos mostram
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Van Gogh cortou só o lóbulo.
- O desenho do médico, de 1930, mostra o corte na base da orelha. Sobrou parte do lóbulo.
- Ele deu a orelha a uma prostituta chamada Rachel.
- Para Bernadette Murphy, era Gabrielle, uma faxineira de 18 anos. A edição das cartas ainda vê a identidade como incerta.
Por que a faixa aparece na orelha direita
Em meados de janeiro, de volta à Casa Amarela, Van Gogh pintou o retrato do doutor Rey e deu a ele de presente. Na carta de 17 de janeiro, contou que já tinha também "3 estudos feitos no ateliê". Dois deles, segundo a edição das cartas, provavelmente são os autorretratos com a orelha enfaixada.

Nas duas telas, a faixa cobre a orelha direita. A Courtauld Gallery, de Londres, que guarda uma delas, explica: ele sempre se pintava olhando no espelho, e a orelha cortada foi a esquerda.
Pintura não é fotografia, e 1888 teve outro exemplo: em Florença, Pedro Américo terminava Independência ou Morte e, no mesmo ano, admitiu por escrito o que mudou de propósito.
Vincent chegou a fazer piada com o ferimento. Em 28 de janeiro, disse a Theo que estava velho demais para ir pintar nos trópicos, "sobretudo se eu mandar fazer uma orelha de papel machê" (tradução nossa).
Como na história da altura de Napoleão, anotada em polegadas francesas, a versão que pegou não era a do documento. No caso de Van Gogh, o documento estava num bloco de receitas de Arles.
Fontes
- Carta 728, de Vincent van Gogh e Félix Rey a Theo van Gogh (2 de janeiro de 1889), com notas, Vincent van Gogh: The Letters, Museu Van Gogh e Huygens ING (ed. Jansen, Luijten e Bakker)
- Carta 745, de Vincent van Gogh a Theo van Gogh (3 de fevereiro de 1889), com notas, Vincent van Gogh: The Letters, Museu Van Gogh e Huygens ING
- The tale of the Van Gogh note (2017), UC Berkeley Library
- What actually happened to Vincent van Gogh’s ear? Here are 3 things you should know (2019), UC Berkeley Library
- Self-Portrait with Bandaged Ear (ficha P.1948.SC.175), Courtauld Gallery, Londres
- Name of mystery woman who received Van Gogh’s ear revealed for first time (2016), The Art Newspaper (Martin Bailey)
- Did Van Gogh cut off his whole ear? Or only a part? (2020), The Art Newspaper (Martin Bailey)
- Why Did Vincent van Gogh Cut off His Ear?, Museu Van Gogh, Amsterdã
Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.
Perguntas frequentes
- Qual é a história da orelha cortada de Van Gogh?
- Na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, no sul da França, Van Gogh teve uma crise, cortou a orelha esquerda com uma navalha e a entregou numa casa de tolerância, pedindo que a guardassem com cuidado. Pouco antes, tinha brigado com o pintor Paul Gauguin, que morava com ele. Na manhã seguinte, a polícia o encontrou em casa e o levou ao hospital, onde ficou até 7 de janeiro de 1889. Ele nunca explicou o motivo.
- Van Gogh cortou a orelha inteira ou só o lóbulo?
- Quase a orelha inteira. Em 1930, o médico Félix Rey desenhou o ferimento para o escritor Irving Stone: a linha do corte desce pela base da orelha, e o que sobrou foi um pedaço do lóbulo. A edição oficial das cartas passou a afirmar que ele cortou a orelha inteira. O especialista Martin Bailey acha que foi a maior parte, mas não toda.
- Por que no quadro a faixa de Van Gogh está na orelha direita?
- Porque ele se pintou olhando no espelho, que inverte a imagem. A orelha cortada foi a esquerda, como explica a Courtauld Gallery, de Londres, que guarda o Autorretrato com a orelha enfaixada, pintado em janeiro de 1889, cerca de uma semana depois da alta.
Leia também

Curiosidades · 5 min
A Mona Lisa sumiu do Louvre em agosto de 1911 e só voltou à parede em janeiro de 1914. O próprio museu diz que o roubo a tornou popular no mundo todo

Curiosidades · 6 min
O mito de que Einstein reprovou em matemática já saía em jornal de 1929. O boletim de 1896 mostra 6, a nota máxima, em álgebra, geometria e física

Curiosidades · 7 min
Newton escreveu "2060" num manuscrito sobre profecias, mas disse que o fim "pode vir mais tarde" e que a conta servia para calar quem marcava datas

Curiosidades · 5 min
Cleópatra era rainha do Egito, mas a família dela era macedônia, descendente de um general de Alexandre. E ela viveu mais perto da chegada à Lua do que da construção da Grande Pirâmide

Curiosidades · 7 min
Jeanne Calment viveu 122 anos e 164 dias, o recorde de idade comprovada. Em 2018 disseram que ela morrera em 1934 e que quem viveu até 1997 foi a filha; a resposta veio com certidões, censos e um aviso de óbito

Curiosidades · 6 min
A maldição de Tutancâmon ganhou força nos jornais em abril de 1923, quando Lord Carnarvon morreu de uma infecção. Um estudo de 2002 não achou diferença estatística entre expostos e não expostos, e Howard Carter viveu mais 16 anos
Mais de Curiosidades
Ver a seção
7 min
O Triângulo das Bermudas ganhou nome numa revista de fevereiro de 1964, e a NOAA não vê ali mais sumiços do que em outras rotas movimentadas do oceano

6 min
A frase "que comam brioches" está num livro de Rousseau escrito quando Maria Antonieta era uma criança em Viena, e a "grande princesa" que a diz nunca é nomeada

6 min
A prisão dos templários foi mesmo numa sexta-feira 13, em 1307. Mas o registro mais antigo que achamos da superstição é de 1869, numa biografia de Rossini
