A frase "que comam brioches" está num livro de Rousseau escrito quando Maria Antonieta era uma criança em Viena, e a "grande princesa" que a diz nunca é nomeada
O trecho exato das Confissões, o que Rousseau estava contando, as outras mulheres a quem a frase já foi atribuída e o que se sabe de quando ela colou na rainha.

Em 30 segundos
- A frase "qu'ils mangent de la brioche" aparece no livro VI das Confissões, de Rousseau, atribuída a uma "grande princesa" sem nome, num texto escrito por volta de 1765 e publicado em 1782.
- Maria Antonieta nasceu em Viena em 2 de novembro de 1755 e se casou em Versalhes em 16 de maio de 1770. Quando Rousseau escreveu, ela era uma criança na corte austríaca.
- Versões do mesmo dito já foram atribuídas a Marie-Thérèse, a Madame Victoire, a Pompadour, a du Barry e a uma duquesa da Toscana. Luís XVIII contou uma com crosta de patê.
- A historiadora Cécile Berly registra que a frase nunca foi cobrada de Maria Antonieta em vida, nem no julgamento de 1793.
Não há registro de que Maria Antonieta tenha dito "que comam brioches". A frase aparece nas Confissões, de Jean-Jacques Rousseau, atribuída a uma "grande princesa" que nunca é nomeada, num texto escrito por volta de 1765 e publicado em 1782. Nessa época, Maria Antonieta era uma criança na corte de Viena. O casamento dela com o futuro Luís XVI só foi celebrado em Versalhes em 16 de maio de 1770.
O trecho exato, e o que Rousseau estava contando
No livro VI, Rousseau conta que foi preceptor dos filhos do senhor de Mably, em Lyon. Ele passou a cobiçar um vinho branco de Arbois, que bebia às escondidas, e precisava de comida para acompanhar. Comprar pão pelos lacaios o denunciaria, e ele não ousava ir à padaria: "Um belo senhor, de espada na cintura, ir à padaria comprar um pedaço de pão, isso era possível?" (tradução nossa).
E segue: "Enfim, lembrei-me do último recurso de uma grande princesa a quem diziam que os camponeses não tinham pão, e que respondeu: Que comam brioche. Comprei brioche" (tradução nossa). No original, na edição Launette de 1889, está "Qu'ils mangent de la brioche".

A fome não é o assunto da cena: a princesa é a lembrança que Rousseau usa para justificar a própria escolha de comprar brioche. A cronologia de Pierre Perroud, da Universidade de Genebra, situa a ida dele para a casa de Mably em 1740, 15 anos antes do nascimento de Maria Antonieta.
Quando o livro foi escrito e publicado
O Guichet du Savoir, serviço da biblioteca municipal de Lyon, diz que o livro VI foi escrito em 1765 e publicado em 1782, cinco anos antes da chegada da futura rainha à França. Ela tinha cerca de 10 anos e vivia na corte de Viena. O manuscrito autógrafo de Neuchâtel, que traz os três primeiros livros e parte do quarto, é datado de 1764 a 1767.
Rousseau morreu em 1778, e a primeira parte saiu em Genebra em 1782. No livro VII, ele avisa que sua primeira parte "foi toda escrita de memória" e que deve ter cometido "muitos erros" (tradução nossa). O Guichet considera provável que ele tenha simplesmente inventado a anedota.
O caminho da frase
- 1740Rousseau vai ser preceptor em Lyon, época da cena do vinho e da brioche, segundo a cronologia de Perroud.
- 2 de novembro de 1755Maria Antonieta nasce em Viena.
- 1764 a 1767Período do manuscrito de Neuchâtel das Confissões, em letra do próprio Rousseau.
- 16 de maio de 1770Casamento de Maria Antonieta com o futuro Luís XVI, em Versalhes.
- 1782Primeira parte das Confissões, com o livro VI, é publicada em Genebra.
- 16 de outubro de 1793Maria Antonieta é executada em Paris.
- 1841 e 1843Alphonse Karr menciona o dito ligado a ela (1841) e depois duvida da atribuição (1843).
Outras candidatas, e uma crosta de patê
Segundo a historiadora Cécile Berly, citada pelo Guichet, o dito foi atribuído a Marie-Thérèse d'Autriche, primeira esposa de Luís XIV, a Madame Victoire, tia de Luís XVI, a Madame de Pompadour e a Madame du Barry. No exterior, no século 18, a uma duquesa da Toscana. Às vezes, o substituto do pão era a crosta de patê.
O futuro Luís XVIII conta a versão da crosta no relato da fuga de 1791, publicado em 1823. Ele e o companheiro d'Avaray almoçavam patê e vinho de Bordeaux, mas haviam esquecido o pão, e se lembraram da rainha Marie-Thérèse: "Mas, meu Deus, por que não comem crosta de patê?" (tradução nossa).
O romancista Alphonse Karr vai além. Em Les Guêpes, no número de abril de 1843, ele diz ter achado um livro de 1760 em que o mesmo dito é contado de uma duquesa da Toscana, "o que me parece provar mais ou menos que a frase não foi dita por Maria Antonieta, mas reencontrada e posta em circulação contra ela" (tradução nossa). O Guichet, citando o historiador Olivier Coquard, dá 1843 como a mais antiga atribuição a ela. Mas já no número de novembro de 1841 a mesma revista cita "a frase, verdadeira ou falsa, que se atribui a Maria Antonieta", numa forma diferente: "se não há pão, comerão brioche" (tradução nossa). As datas, portanto, divergem.
O que se conta e o que as fontes mostram
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Maria Antonieta disse a frase ao saber que o povo não tinha pão.
- Segundo a historiadora Cécile Berly, a frase nunca lhe foi cobrada em vida, nem no julgamento de 1793.
- A frase nasceu em 1789, na marcha sobre Versalhes.
- Rousseau a põe na boca de uma princesa sem nome em texto escrito em meados da década de 1760 e publicado em 1782.
- A frase é sempre a mesma: brioche.
- Houve versões com crosta de patê (Luís XVIII, 1791) e com a forma comerão brioche (Karr, 1841).
- Sempre foi dela.
- Foi atribuída a Marie-Thérèse, a Madame Victoire, a Pompadour, a du Barry e a uma duquesa da Toscana.
Por que ela colou numa rainha
A página do Château de Versailles diz que, depois do caso do Colar, em 1785, a rainha virou alvo de panfletos, libelos e caricaturas, e que na Revolução era "francamente odiada". Para o Guichet, a frase é um boato mantido por detratores e espalhado por panfletistas e escritores. Berly aponta que ela só foi ligada de vez à memória da rainha no século 20, sob a pena do autor alemão de livros infantis Erich Kästner, em 1931.

O vinho que Rousseau queria beber sem ser visto
O detalhe que amarra tudo está na intenção do trecho. A frase que virou símbolo do desprezo da nobreza pelos pobres foi escrita por um homem de espada à cintura, constrangido de comprar pão, que queria esconder garrafas do patrão. No livro, a "grande princesa" serve a uma cena sobre os apuros do próprio Rousseau, e não a uma acusação à nobreza.
Outra figura francesa carrega uma fama que os registros desmentem: a de que Napoleão era baixo, desfeita pela medida da autópsia. E o mito de que as bruxas de Salem foram queimadas mostra de novo como a versão popular resiste aos documentos.
Fontes
- Collection complète des œuvres de J.J. Rousseau, tome 21: Les Confessions (Genève, 1782), p. 198, Jean-Jacques Rousseau, edição de 1782, digitalizada pelo Internet Archive
- Les Confessions (Rousseau), Livre VI, Wikisource, edição Launette de 1889
- Jean-Jacques Rousseau: Repères biographiques (Pierre Perroud), ATHENA, Universidade de Genebra
- Ms. R 17, Jean-Jacques Rousseau, Confessions, e-codices, Biblioteca Pública e Universitária de Neuchâtel
- Relation d'un voyage à Bruxelles et à Coblentz (1791), Luís XVIII, Baudouin Frères, 1823, digitalizado pelo Internet Archive
- Les Guêpes, volume 3 (Alphonse Karr, números de 1841), Alphonse Karr, Michel Lévy Frères, edição de 1859-1862, Internet Archive
- Les Guêpes, volume 4 (Alphonse Karr, números de 1843), Alphonse Karr, Michel Lévy Frères, edição de 1859-1862, Internet Archive
- La citation "Ils n'ont pas de pain, qu'ils mangent de la brioche !" est-elle exacte ?, Guichet du Savoir, Bibliothèque municipale de Lyon
- Marie-Antoinette (1755-1793), Château de Versailles
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Perguntas frequentes
- Quem disse "que comam brioches"?
- A frase aparece pela primeira vez, nas fontes que achamos, no livro VI das Confissões de Rousseau, atribuída a uma "grande princesa" sem nome. O livro foi escrito em meados da década de 1760 e publicado em 1782. Ao longo do tempo, o mesmo dito foi atribuído a outras mulheres, e só décadas depois da morte de Maria Antonieta aparece ligado a ela.
- Maria Antonieta disse "que comam brioches"?
- Não há registro de que tenha dito. Ela nasceu em Viena em 1755 e se casou em Versalhes em 1770, anos depois de Rousseau escrever o trecho. Segundo a historiadora Cécile Berly, a frase nunca lhe foi cobrada em vida, nem no julgamento de 1793.
- Qual é a frase completa e o que significa?
- Em francês, Rousseau escreve "Qu'ils mangent de la brioche". A forma popular é "S'ils n'ont pas de pain, qu'ils mangent de la brioche". Na lenda, a frase ilustra a indiferença dos privilegiados diante da fome do povo. No livro, Rousseau a usa como lembrança de um último recurso, ao decidir comprar brioche em vez de pão.
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