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A Mona Lisa sumiu do Louvre em agosto de 1911 e só voltou à parede em janeiro de 1914. O próprio museu diz que o roubo a tornou popular no mundo todo

Um vidraceiro italiano levou o quadro, a polícia prendeu o poeta Apollinaire e interrogou Picasso, e o ladrão foi achado só quando tentou vender a obra em Florença. A pena foi de um ano e 15 dias.

Redação Fatos e Relatos5 min de leitura
Pintura a óleo de uma mulher de cabelo escuro e véu fino, sentada de frente com as mãos cruzadas, diante de uma paisagem de rios e montanhas em tons de verde e azul.
Leonardo da Vinci, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • A Mona Lisa foi levada do Louvre em 21 de agosto de 1911 por Vincenzo Peruggia, um vidraceiro italiano que já tinha trabalhado no museu, segundo o Louvre.
  • Em setembro de 1911 a polícia prendeu o poeta Guillaume Apollinaire por outro furto no Louvre e chegou a interrogar Pablo Picasso. Os dois foram liberados por falta de provas.
  • O quadro reapareceu em Florença em dezembro de 1913, quando Peruggia tentou vendê-lo, e estava de volta ao Salon Carré em 4 de janeiro de 1914. A pena foi de um ano e 15 dias.
  • Para o Louvre, o roubo deu ao quadro uma celebridade mundial e, sobretudo, mais popular.

A Mona Lisa foi roubada do Louvre em 21 de agosto de 1911 por Vincenzo Peruggia, um vidraceiro italiano que já tinha trabalhado no museu. Passou mais de dois anos desaparecida e voltou à parede em janeiro de 1914. Segundo o próprio Louvre, o roubo deu ao quadro “uma celebridade mundial e, sobretudo, mais popular” (tradução nossa).

Um dia inteiro sem ninguém notar

Segundo a revista History, Peruggia entrou no Louvre no domingo à noite e se escondeu num depósito. Por volta das 7h15 de segunda-feira, vestiu um avental igual ao dos funcionários, tirou o quadro da parede e o levou a uma escada de serviço, onde o separou da moldura. A porta do pátio estava trancada. Um encanador, que o tomou por um colega preso, o ajudou a abri-la.

O jornal americano Springfield Weekly Republican, de 31 de agosto de 1911, situa o sumiço entre 7h e 8h30 da segunda-feira. Mas só no dia seguinte, perto do meio-dia, um pintor perguntou por ela a um segurança, e o museu chamou a polícia, segundo a History. Quadros eram retirados da parede para limpeza ou fotografia, e por isso ninguém estranhou o espaço vazio.

O Louvre diz que houve pânico, recompensas e silêncio: “durante mais de dois anos, ficou-se sem notícias do quadro” (tradução nossa). Em 29 de agosto, o museu reabriu sob forte guarda. O Washington Times escreveu que milhares de pessoas, muitas delas americanas, entraram, e que “o grande objeto de interesse era o espaço vazio” (tradução nossa).

Apollinaire preso, Picasso interrogado

Sem pista, a polícia seguiu outros caminhos. Em setembro de 1911, segundo o jornal The Sun, prendeu o poeta Guillaume Apollinaire por ter tirado peças do Louvre, e o manteve detido “sob suspeita” de ter algo a ver com o sumiço do quadro. Seu ex-secretário, Géry Pieret, era procurado por furtar estatuetas do museu.

A History conta que Apollinaire envolveu o amigo Pablo Picasso, que tinha comprado as estatuetas. Os dois foram interrogados sobre a Mona Lisa e liberados por falta de provas. Enquanto isso, circulavam teorias, como a de que o banqueiro J. P. Morgan teria encomendado o roubo.

O ladrão que já tinha ficha

Como ex-funcionário, Peruggia foi interrogado duas vezes e nunca foi considerado suspeito sério, diz a History. O quadro, nesse tempo, estava num baú com fundo falso, num quarto dos arredores de Paris.

Ficha de papel com medidas do corpo numa tabela manuscrita no alto, duas fotos de um homem de bigode e paletó, de perfil e de frente, e as impressões digitais de cinco dedos embaixo.
Ficha de identificação de Vincenzo Peruggia, de janeiro de 1909, feita em Paris, com fotos de perfil e de frente e impressões digitais. Foi feita mais de dois anos antes do roubo. Imagem: Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

Florença, dezembro de 1913

Segundo a agência que o Brattleboro Daily Reformer reproduziu em 13 de dezembro de 1913, um italiano escreveu ao antiquário Alfredo Geri, de Florença, dizendo ter o quadro e querer que ficasse na Itália. Assinou “Leonard”. Geri avisou Giovanni Poggi, diretor dos museus florentinos. Poggi reconheceu a obra num hotel e mandou prender o homem, que disse chamar-se Vincenzo Perugia, ser decorador e ter vivido seis anos na França, três deles empregado no Louvre.

A data da prisão varia: a History diz 11 de dezembro; a agência põe a visita a Geri na quinta-feira, dia 11, e a prisão no dia seguinte. Peruggia alegou patriotismo: quis devolver à Itália o que Napoleão teria levado. Mas, segundo a History, a acusação mostrou que ele queria vender o quadro, por 500 mil liras. O Louvre diz que a obra está na França desde 1516, com Leonardo, e que Francisco I a adquiriu, muito provavelmente, em 1518.

Primeira página de jornal francês com o título Ce fut sous une blouse que Mona Lisa fut enlevée e várias fotografias em molduras arredondadas, em volta do retrato de um homem de bigode farto.
Primeira página do Excelsior de 14 de dezembro de 1913, dias depois da prisão: o jornal montou uma reconstituição do roubo em fotos, com o retrato de Peruggia ao centro. Imagem: Lafitte, Pierre (1872-1938). Directeur de publication, via Wikimedia Commons · Domínio público

Da parede vazia à parede cheia

  1. 21 de agosto de 1911A Mona Lisa some do Salon Carré, segundo o Louvre.
  2. 29 de agosto de 1911O Louvre reabre; o espaço vazio atrai milhares, diz o Washington Times.
  3. Setembro de 1911Apollinaire é preso; Picasso é interrogado.
  4. 11 ou 12 de dezembro de 1913Peruggia é preso em Florença, depois de tentar vender o quadro.
  5. 4 de janeiro de 1914O quadro volta ao Salon Carré, noticia The Sun.
  6. Junho de 1914Peruggia é condenado a um ano e 15 dias.

A pena e o quadro mais famoso do mundo

O Evening Star escreveu em 6 de junho de 1914 que Peruggia pegou “uma pena muito leve”: um ano e 15 dias, dos quais já cumprira quase seis meses à espera do julgamento (tradução nossa). A History diz que ficou sete meses preso e foi solto em apelação. Depois lutou na Primeira Guerra Mundial, voltou à França e morreu em 1925.

O mesmo editorial dizia que a separação “acrescentou, se possível, ao valor” do quadro, e que ele era agora “incontestavelmente o quadro mais famoso do mundo”, vigiado por um policial (tradução nossa).

O quadro, porém, não era um desconhecido. Em 1911, a The Sun o chamava de “talvez mais famoso que qualquer outro retrato do mundo”, e de segundo em valor, para os negociantes, só à Madona Sistina. A frase do Louvre, que o roubo lhe deu fama mundial “e sobretudo mais popular”, diz o resto: a obra já era célebre entre os entendidos, e o sumiço a levou às manchetes e ao grande público.

A fama e a origem de uma coisa nem sempre andam juntas: Edison também não foi o primeiro a acender uma lâmpada. E há outro quadro cuja história oficial o próprio pintor admitiu ter corrigido: Independência ou Morte, de Pedro Américo.

Fontes

  1. De la Joconde aux Noces de Cana (o roubo do século), Museu do Louvre
  2. Portrait de Lisa Gherardini, épouse de Francesco del Giocondo, dit La Joconde ou Monna Lisa (texto de Vincent Delieuvin, 2021), Museu do Louvre, base de coleções
  3. The Louvre Reopened (29 de agosto de 1911), The Washington Times, p. 1, Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  4. Mona Lisa Still Missing, Springfield Weekly Republican (31 de agosto de 1911), p. 9, Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  5. The Sun, Nova York (10 de setembro de 1911), p. 2, Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  6. Mona Lisa Is in Florence, Brattleboro Daily Reformer (13 de dezembro de 1913), p. 1, Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  7. Mona Lisa at Last Back in the Louvre, The Sun, Nova York (5 de janeiro de 1914), p. 3, Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  8. The Mona Lisa Thief, Evening Star, Washington (6 de junho de 1914), p. 6, Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  9. The Heist that Made the Mona Lisa Famous, History (Evan Andrews)

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Perguntas frequentes

Quando e como foi o roubo da Mona Lisa?
O Louvre data o desaparecimento de 21 de agosto de 1911. Segundo a revista History, Vincenzo Peruggia ficou escondido num depósito do museu, saiu por volta das 7h15 com o quadro sob o avental e foi ajudado por um encanador a abrir uma porta trancada. O sumiço só foi notado mais de um dia depois, quando um pintor pediu ao segurança que procurasse o quadro.
Quanto tempo a Mona Lisa ficou desaparecida?
Mais de dois anos, segundo o Louvre: do roubo, em 21 de agosto de 1911, até dezembro de 1913, quando Peruggia tentou vender o quadro em Florença, ou cerca de 28 meses pela nossa conta. A The Sun noticiou que o quadro estava de novo no Salon Carré em 4 de janeiro de 1914.
O roubo tornou a Mona Lisa famosa?
Em parte. O quadro já era muito conhecido: em 1911 a imprensa americana o chamava de talvez o retrato mais famoso do mundo. Para o Louvre, o roubo lhe deu uma celebridade mundial e sobretudo mais popular. Em 1914, o jornal Evening Star o chamou de incontestavelmente o quadro mais famoso do mundo.
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