A prisão dos templários foi mesmo numa sexta-feira 13, em 1307. Mas o registro mais antigo que achamos da superstição é de 1869, numa biografia de Rossini
Nenhuma fonte que consultamos liga a data da prisão ao azar. O que os registros mostram são dois medos separados, o da sexta e o do 13, e um compositor italiano que morreu numa sexta-feira 13 de novembro, em 1868.

Em 30 segundos
- Os templários na França foram presos nas primeiras horas de sexta-feira, 13 de outubro de 1307, mas as fontes que consultamos não ligam a data a azar. Segundo a National Geographic, a explicação templária é recente e foi popularizada por um romance.
- Sexta-feira e o número 13 já eram vistos como azarentos separadamente. O registro mais antigo da combinação que encontramos é uma biografia de Rossini, de 1869, que comenta o fato de ele ter morrido numa sexta-feira 13 de novembro.
- O romance Friday, the Thirteenth, de Thomas W. Lawson, de 1907, usa a data como pânico na bolsa de Nova York. 13 de novembro de 2026 cai numa sexta-feira.
A prisão dos templários na França foi mesmo numa sexta-feira, 13 de outubro de 1307. Mas as fontes que consultamos não ligam essa data ao azar, e o registro mais antigo que achamos da combinação "sexta-feira 13" é do século 19, numa biografia do compositor Rossini.
Neste ano a data cai em 13 de novembro de 2026, uma sexta-feira.
O que aconteceu em 13 de outubro de 1307
O historiador Malcolm Barber descreve a ordem do rei Filipe IV, de 14 de setembro de 1307, aos oficiais do reino: preparar a prisão dos membros da Ordem do Templo. Nas primeiras horas de sexta-feira, 13 de outubro, os irmãos que viviam na França foram presos por oficiais do rei, em nome dos inquisidores do papa, e os bens da ordem passaram a representantes reais.
As acusações incluíam renegar Cristo, cuspir na cruz e idolatria. Em outubro e novembro, quase todos confessaram, inclusive o grão-mestre Jacques de Molay. Barber escreve que a tortura foi usada "livremente" em muitos presos (tradução nossa). O papa Clemente V, no início, viu a prisão como afronta à sua autoridade.
Nada disso menciona azar. A National Geographic diz que o rei, com os cofres vazios, foi atrás do patrimônio dos templários, e que muitas explicações para a data, como a templária, são "invenções recentes" (tradução nossa).

Dois azares que andavam separados
Antes de se juntarem, o dia e o número já tinham má fama. A National Geographic cita o autor Nathaniel Lachenmeyer, que argumenta que, antes do século 20, o 13 já era um número de azar e a sexta um dia de azar, mas "sexta-feira 13" não era necessariamente um conceito.
Num dos Contos de Cantuária, de Chaucer, a sexta aparece como dia de desgraça: o galo Chanticleer é agarrado pela raposa numa sexta-feira. O narrador lamenta: "E numa sexta-feira aconteceu toda essa desgraça" (tradução nossa, a partir de uma edição em inglês moderno). Na obra, o dia pertence a Vênus.
O registro mais antigo que achamos: Rossini
A combinação aparece num livro de 1869, The Life of Rossini, do inglês H. Sutherland Edwards. Rossini morreu em 1868. No capítulo final da biografia, Edwards escreve que, "se for verdade que, como tantos outros italianos, ele considerava a sexta-feira um dia de azar e o treze um número de azar, é notável que tenha morrido numa sexta-feira, 13 de novembro" (tradução nossa).
Note a cautela. Edwards trata os dois medos como coisas distintas, atribui-os aos italianos e usa "se for verdade". A coincidência é o que ele destaca. O calendário confirma que 13 de novembro de 1868 foi uma sexta-feira.
Não encontramos fonte que diga se esse é o primeiro texto que juntou os dois medos. É o mais antigo que localizamos.
O romance de 1907
Uma hipótese popular, repetida pela National Geographic, é que a data só virou azar depois de um romance de 1907, Friday, the Thirteenth, de Thomas W. Lawson. O livro, publicado em fevereiro de 1907, se passa no mundo da bolsa de valores de Nova York, e o dia do pânico, no texto, é uma sexta-feira, 13 de novembro, o mesmo dia e mês da morte de Rossini e deste ano.
No livro, a data já é tratada como motivo de medo. Um personagem furioso grita: "Não sabe que dia é? Não sabe que é sexta-feira, 13?" e manda vender tudo. O narrador observa que "nenhuma classe no mundo é tão suscetível a condições atmosféricas quanto os especuladores" e que muitos adiam um golpe "só porque o ar enche o sangue do frio úmido da superstição" (tradução nossa, trechos).
Ou seja, o romance trata a crença como conhecida dos personagens e, presumivelmente, dos leitores. Se ele a espalhou ou só a aproveitou, as fontes que lemos não decidem.

Como os templários entraram na história
A National Geographic diz que O Código Da Vinci, de Dan Brown, ajudou a popularizar a ideia de que a prisão dos templários é a razão pela qual as pessoas temem a data. A reportagem diz ainda que isso não é a origem da superstição.
Para a historiadora Helen Nicholson, da Universidade de Cardiff, as evidências mostram os templários como "católicos extremamente entediantes" (tradução nossa). Ela diz que o fim rápido da ordem não encaixa na narrativa que humanos gostam, e por isso surgem conspirações. O historiador John Walker situa o interesse generalizado pelos mitos templários depois do livro Holy Blood, Holy Grail, dos anos 1980.
Não achamos fonte que diga quando exatamente alguém ligou a prisão de 1307 ao azar da data.
A explicação popular e os registros
Em cada item, primeiro: o que se repete. Depois: o que as fontes mostram.
- Os templários foram presos numa sexta-feira 13, e daí vem o azar.
- A prisão foi numa sexta-feira 13, mas nenhuma fonte que consultamos liga a data à superstição.
- O azar da data é medieval.
- O registro mais antigo que achamos juntando sexta e 13 é de 1869.
- O romance de 1907 inventou a crença.
- O romance já tratava a data como medo conhecido, e a biografia de Rossini é anterior.
Os registros, em ordem
- 14 de setembro de 1307Ordem secreta de Filipe IV para preparar a prisão dos templários.
- 13 de outubro de 1307Prisão dos templários na França, nas primeiras horas de uma sexta-feira.
- 13 de novembro de 1868Morte de Rossini, numa sexta-feira.
- 1869Edwards publica The Life of Rossini e comenta a coincidência.
- Fevereiro de 1907Lawson publica o romance Friday, the Thirteenth.
- 13 de novembro de 2026Mais uma sexta-feira 13.
O que vale para 13 de novembro
A prisão dos templários e a morte de Rossini aconteceram mesmo em sextas-feiras 13. O que não achamos foi um documento antigo que ligue a prisão ao azar. É um padrão parecido com o de outras histórias de data marcada, como o 30 de fevereiro que a Suécia teve em 1712, ou o das bruxas de Salem que não foram queimadas: o fato é real, e o detalhe que a lenda repete costuma não estar nos documentos.
Fontes
- The Trial of the Templars, 2ª edição (Introdução e capítulo 2, "The Arrests"), Malcolm Barber, Cambridge University Press (trecho gratuito)
- The Trial of the Templars, capítulo 2: The Arrests (resumo), Malcolm Barber, Cambridge University Press
- The Life of Rossini (1869), H. Sutherland Edwards, Londres — acervo digitalizado no Internet Archive
- Friday, the Thirteenth: a novel (1907), Thomas W. Lawson, Doubleday, Page & Company — acervo digitalizado no Internet Archive
- Friday the 13th: Why It's Unlucky and the Knights Templar Myth, National Geographic (2016), com a historiadora Helen Nicholson e o historiador John Walker
- The Canterbury Tales, and Other Poems (ed. David Laing Purves), Geoffrey Chaucer — Project Gutenberg
Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.
Perguntas frequentes
- A sexta-feira 13 tem a ver com os templários?
- A prisão dos templários na França ocorreu mesmo numa sexta-feira, 13 de outubro de 1307, segundo o historiador Malcolm Barber. Mas a ligação dessa data com a superstição é posterior: a National Geographic diz que a explicação templária é uma invenção recente e que o romance O Código Da Vinci ajudou a popularizá-la. Não encontramos documento antigo que a sustente.
- Qual é a origem da superstição da sexta-feira 13?
- As fontes mostram dois medos separados: sexta-feira como dia de azar e o 13 como número de azar. A primeira menção à combinação que localizamos é de 1869, na biografia de Rossini escrita por H. Sutherland Edwards, que nota que o compositor morreu numa sexta-feira 13. Em 1907, o romance Friday, the Thirteenth já tratava a data como motivo de pânico na bolsa.
- Rossini morreu numa sexta-feira 13?
- Sim. Edwards escreve, em 1869, que Rossini morreu "na sexta-feira, 13 de novembro" (tradução nossa), e o calendário confirma que 13 de novembro de 1868 caiu numa sexta. O autor ressalva que Rossini, como muitos italianos, teria considerado a sexta um dia de azar e o 13 um número de azar, "se for verdade".
Leia também

Curiosidades · 8 min
Os irmãos Wright voaram em 1903, numa praia, com cinco testemunhas. Santos-Dumont voou em 1906, em Paris, diante de uma comissão oficial. Quem foi o primeiro depende da regra

Curiosidades · 8 min
O 30 de fevereiro existiu: a Suécia o imprimiu no almanaque de 1712, e um casal se casou nesse dia

Curiosidades · 8 min
Edison não inventou a lâmpada. A patente dele, de 1880, registra outra coisa: um fio de carbono que resistia à corrente

Curiosidades · 9 min
Napoleão media cinco pés e duas polegadas. O detalhe que desfaz o mito é que eram polegadas francesas

Curiosidades · 5 min
Cleópatra era rainha do Egito, mas a família dela era macedônia, descendente de um general de Alexandre. E ela viveu mais perto da chegada à Lua do que da construção da Grande Pirâmide

Curiosidades · 6 min
A maldição de Tutancâmon ganhou força nos jornais em abril de 1923, quando Lord Carnarvon morreu de uma infecção. Um estudo de 2002 não achou diferença estatística entre expostos e não expostos, e Howard Carter viveu mais 16 anos
Mais de Curiosidades
Ver a seção
6 min
O mito de que Einstein reprovou em matemática já saía em jornal de 1929. O boletim de 1896 mostra 6, a nota máxima, em álgebra, geometria e física

7 min
Van Gogh não cortou só o lóbulo: o desenho que o médico dele fez em 1930, guardado por 80 anos entre os papéis de um escritor americano, mostra que o lóbulo foi o que sobrou

5 min
A Mona Lisa sumiu do Louvre em agosto de 1911 e só voltou à parede em janeiro de 1914. O próprio museu diz que o roubo a tornou popular no mundo todo
