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A maldição de Tutancâmon ganhou força nos jornais em abril de 1923, quando Lord Carnarvon morreu de uma infecção. Um estudo de 2002 não achou diferença estatística entre expostos e não expostos, e Howard Carter viveu mais 16 anos

Carnarvon morreu no Cairo depois de uma picada infeccionada, e a imprensa falou em vingança dos faraós. O que o diário de Carter, os jornais da época e o estudo do BMJ mostram sobre a maldição mais famosa do Egito.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Fotografia antiga em preto e branco de três homens, dois inclinados sobre uma grande caixa escura com borda quadriculada e outro sentado à direita diante de um suporte de madeira, numa câmara com paredes cobertas de hieróglifos.
Harry Burton, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Howard Carter achou o primeiro degrau da tumba em 4 de novembro de 1922. Lord Carnarvon, que financiava a escavação, morreu no Cairo em 5 de abril de 1923, de pneumonia depois de uma infecção no rosto atribuída a uma picada de mosquito.
  • A imprensa ligou a morte a uma maldição dos faraós. A romancista Marie Corelli já havia falado em perigo para quem saqueasse tumbas, em 31 de março, quando Carnarvon ainda estava vivo.
  • Um estudo do BMJ de 2002 comparou 44 ocidentais: nos 25 expostos, a idade média à morte foi de 70 anos, contra 75 nos demais. Os autores não acharam associação.
  • Carter, que zombava da maldição, morreu em março de 1939, 16 anos depois da descoberta.

A "maldição de Tutancâmon" nasceu da imprensa, não da tumba. Lord Carnarvon, que financiava a escavação, morreu no Cairo em 5 de abril de 1923, depois de uma infecção no rosto atribuída a uma picada de mosquito. Os jornais ligaram a morte a uma vingança dos faraós. Um estudo do BMJ de 2002 comparou 44 ocidentais e não achou ligação alguma.

O que Carter anotou: a escadaria, a porta e a pergunta de Carnarvon

Na manhã de 4 de novembro de 1922, o arqueólogo Howard Carter achou, no Vale dos Reis, o primeiro degrau de uma escadaria escavada na rocha. Está no diário dele, guardado no Griffith Institute, em Oxford: "por volta das 10h". No dia seguinte, ao pôr do sol, apareceu uma porta lacrada, com o selo da necrópole real.

Carter aterrou de novo a escavação para protegê-la e telegrafou a Carnarvon, que estava na Inglaterra: "Finalmente fiz uma descoberta maravilhosa no Vale, tumba magnífica com selos intactos" (tradução nossa).

Em 26 de novembro, com Carnarvon presente, ele abriu um buraco na segunda porta. Carnarvon perguntou se ele via alguma coisa. A resposta, no diário: "Sim, é maravilhoso" (tradução nossa). Em 16 de fevereiro de 1923, a porta da câmara funerária foi aberta diante de autoridades.

Fotografia antiga em tons de sépia de dois homens de bigode diante de uma abertura de madeira; um, de camiseta clara, segura uma haste; ao fundo, uma parede dourada com figuras e, no canto direito, a silhueta de um terceiro homem de turbante.
Howard Carter (à esquerda) e um colega abrem a porta da câmara do sarcófago, segundo o título do acervo. Foto de Harry Burton, o único fotógrafo autorizado a trabalhar dentro da tumba, segundo o Griffith Institute. Imagem: Harry Burton, via Wikimedia Commons · Domínio público

Uma picada, uma infecção, uma pneumonia

O relato do Times de Londres, reproduzido pelo Evening Star de Washington, descreve um acidente comum. Em 8 de março, no Vale dos Reis, ele foi picado na face direita, "ao que se acreditava, por um mosquito". Ao se barbear, raspou a casca. O ferimento infeccionou, "possivelmente pela poeira, mais provavelmente por uma mosca" (tradução nossa).

Em 17 de março, já no Cairo, vieram a erisipela e a infecção do sangue por estreptococos. O diário de Carter registra o resto em frases secas: em 21 de março, "erisipela aguda e envenenamento do sangue"; em 26, pneumonia; em 5 de abril, "o pobre Lord C. morreu nas primeiras horas da manhã" (tradução nossa).

A AP deu a hora: 2h da madrugada.

Como a imprensa fez disso uma maldição

A notícia da AP de 5 de abril saiu com o título "Conde de Carnarvon morre; lembra a maldição dos faraós". O texto admite que a ciência atribuiria a morte a um acidente comum naquele clima, mas diz que "milhares de nativos" acreditavam na vingança dos faraós (tradução nossa). E acrescenta que já havia conversa sobre maldições antes de Carnarvon adoecer.

Uma das vozes que alimentaram a ideia saiu no The Birmingham Age-Herald de 1º de abril. A romancista Marie Corelli, que se apresentava como estudiosa do misticismo egípcio, escreveu de Londres em 31 de março, quando Carnarvon ainda se recuperava: "não me surpreende um acidente com esses exploradores audaciosos que procuram saquear tumbas" (tradução nossa). Ela perguntou se fora mesmo um mosquito e citou um livro raro, que segundo ela não está no Museu Britânico, com "várias poções secretas" guardadas em caixas.

Nenhuma das duas reportagens traz prova. Em 1930, quando Lord Westbury morreu, a AP já tratava a maldição como fato: citou a frase "A morte virá em asas velozes para quem tocar a tumba de um faraó" e contou nove mortes ligadas à expedição em seis anos. A frase aparece sem dizer onde estaria escrita. O mesmo texto reconhece que ao menos um egiptólogo de Londres zombava da "superstição".

A maldição e o que os registros mostram

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Carnarvon morreu por um castigo dos faraós.
O Times e o diário de Carter descrevem infecção no rosto, erisipela, septicemia e pneumonia, em um mês.
Uma inscrição na tumba avisava: a morte virá para quem a tocar.
A frase aparece na AP de 1930 e na de 1939, como maldição antiga, sem indicar onde estaria escrita.
Quem abriu a tumba morreu cedo.
No estudo do BMJ, a idade média à morte foi de 70 anos nos expostos e de 75 nos demais.

O estudo que contou os vivos e os mortos

Em 2002, Mark Nelson, do departamento de epidemiologia da Universidade Monash, na Austrália, tratou a maldição como hipótese testável. Publicou no BMJ um estudo de coorte histórico com 44 ocidentais que Carter identificou como presentes no Egito entre fevereiro de 1923 e novembro de 1926. Em 25 deles, a exposição à "maldição" era possível.

A diferença de idade não foi estatisticamente significativa (P = 0,87), e a da sobrevida tampouco (P = 0,95). O autor concluiu que não havia "evidência que sustente a existência de uma maldição da múmia" (tradução nossa). O único fator que previu sobrevida maior foi ser mulher.

O próprio estudo observa que os argumentos contra a maldição tinham sido "tão anedóticos quanto os jornais" da época. Contar os casos era a novidade.

O detalhe que amarra tudo: o obituário de Carter errou a data da descoberta

Howard Carter morreu em março de 1939, aos 66 anos, segundo a AP, "16 anos" depois da descoberta. A nota de 3 de março diz que se entendeu que a causa foi doença cardíaca e que ele "zombava da maldição" (tradução nossa).

O obituário erra na data: diz que ele achou a tumba em 30 de novembro de 1922. O diário dele, guardado em Oxford, registra o primeiro degrau em 4 de novembro. Foi o jornal, não o arqueólogo, que embaralhou o calendário.

Fotografia antiga em preto e branco, vista de cima, de três homens agachados e inclinados diante de grandes painéis de madeira cobertos de hieróglifos, abertos como portas, dentro de uma câmara estreita.
Howard Carter, um trabalhador egípcio e Arthur Callender diante das portas dos santuários dourados da tumba, em foto de Harry Burton de 3 ou 4 de janeiro de 1924, segundo a descrição do acervo. Imagem: Harry Burton, via Wikimedia Commons · Domínio público

Aqui, a imprensa juntou fatos separados numa só história, como na Guerra dos Mundos de 1938, em que o pânico nacional foi mais notícia que realidade. Outro caso de manchete que ganhou vida própria é o de Kitty Genovese e as 38 testemunhas.

Fontes

  1. Howard Carter, diário da 1ª temporada (28 de outubro de 1922 a 30 de maio de 1923), Griffith Institute, Universidade de Oxford (Tutankhamun: Anatomy of an Excavation)
  2. The mummy’s curse: historical cohort study (BMJ, 2002), Mark R. Nelson, Universidade Monash, via PubMed
  3. Earl of Carnarvon Succumbs; Recalls Curse of Pharaohs (5 de abril de 1923), Evening Star (Washington), via Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  4. Marie Corelli: Punishment Is Reserved for Those Tampering With Dead (1º de abril de 1923), The Birmingham Age-Herald, via Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  5. Deal details of death (6 de abril de 1923, relato do Times de Londres), Evening Star (Washington), via Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  6. Suicide recalls Pharaoh’s curse (22 de fevereiro de 1930), Evening Star (Washington, AP), via Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA
  7. Howard Carter dies 16 years after big find (3 de março de 1939), Evening Star (Washington, AP), via Chronicling America, Biblioteca do Congresso dos EUA

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Perguntas frequentes

Qual foi a maldição de Tutancâmon?
É a ideia de que quem abrisse a tumba do faraó morreria por vingança dele. Ela ganhou força depois que Lord Carnarvon, financiador da escavação, morreu em 5 de abril de 1923. Em 1930, a agência AP citou a frase "A morte virá em asas velozes para quem tocar a tumba de um faraó" como maldição antiga, sem dizer onde estaria escrita.
De que Lord Carnarvon morreu?
De pneumonia, depois de uma infecção no rosto. O Times de Londres contou que ele foi picado na face direita, ao que se acreditava por um mosquito, e raspou a casca da ferida ao se barbear. Em 17 de março, já no Cairo, desenvolveu erisipela e infecção do sangue por estreptococo. Carter anotou no diário que ele morreu nas primeiras horas de 5 de abril.
A maldição da tumba de Tutancâmon existe?
Não há evidência. Um estudo publicado no BMJ em 2002 acompanhou 44 ocidentais presentes no Egito entre 1923 e 1926: nos 25 potencialmente expostos, a idade média à morte foi de 70 anos, contra 75 nos 19 demais, sem diferença estatística. Howard Carter, que abriu a tumba, morreu em 1939.
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