O mito de que Einstein reprovou em matemática já saía em jornal de 1929. O boletim de 1896 mostra 6, a nota máxima, em álgebra, geometria e física
Aos 16 anos, Einstein foi reprovado no exame de admissão da Politécnica de Zurique, mas nas línguas, e não na matemática. Um ano depois, o boletim da escola de Aarau registrou a nota máxima nas matérias de exatas.

Em 30 segundos
- Em 1935, diante de um recorte do Ripley's com a manchete "o maior matemático vivo foi reprovado em matemática", Einstein respondeu que nunca foi reprovado e que dominava cálculo antes dos 15 anos, segundo Walter Isaacson.
- O boato já saía num jornal do Texas em 4 de fevereiro de 1929, e outra coluna o repetia em 1937. O que Einstein não passou foi o exame de admissão da Politécnica de Zurique, em outubro de 1895, por causa das línguas.
- No boletim da escola de Aarau, de 3 de outubro de 1896, álgebra, geometria, geometria descritiva e física receberam 6, a nota máxima na escala do certificado. A pior nota foi 3, em francês.
Einstein nunca foi reprovado em matemática. Em 1935, ao ver um recorte do Ripley's com a manchete "Maior matemático vivo foi reprovado em matemática" (tradução nossa), ele riu e respondeu que isso não tinha acontecido, e que antes dos 15 anos já dominava cálculo diferencial e integral. A resposta foi registrada por Walter Isaacson, biógrafo de Einstein.
O que ele não passou foi o exame de admissão da Politécnica de Zurique, em 1895, e o problema eram as línguas. Um ano depois, o boletim de Aarau registrou 6, a nota máxima, em álgebra, geometria e física.
A resposta de Einstein a um recorte de jornal
Segundo Isaacson, num texto para a revista TIME em 2007, um rabino de Princeton mostrou a Einstein, em 1935, o recorte da coluna "Acredite se quiser", do Ripley's. A manchete dizia: "Maior matemático vivo foi reprovado em matemática". Einstein riu. "Nunca fui reprovado em matemática", respondeu. "Antes dos 15 anos eu já dominava o cálculo diferencial e integral" (tradução nossa).
Isaacson acrescenta que, na escola primária, Einstein estava no topo da classe e "muito acima das exigências" em matemática.

O boato é mais velho que o Ripley's, e sobreviveu à resposta
O Ripley's não inventou o boato. Na Biblioteca do Congresso dos EUA, o jornal mais antigo que encontramos com a história é o Brownsville Herald, do Texas, de 4 de fevereiro de 1929. Na coluna "About New York", uma nota diz que "o prof. Albert Einstein, o grande homem da Relatividade, foi reprovado em matemática quando se formou na escola de Berlim" (tradução nossa).
A nota já tem um erro de base: segundo o currículo que o próprio Einstein enviou às autoridades de Aargau, ele frequentou a escola em Munique, e não em Berlim.
Em 18 de agosto de 1937, dois anos depois da resposta ao Ripley's, uma coluna de Alicia Hart, no Waterbury Democrat, ainda escrevia: "Embora Einstein possa ter sido reprovado em matemática" (tradução nossa). O boato seguia vivo.
Do exame de 1895 ao recorte de 1935
- 8 a 14 de outubro de 1895Einstein faz o exame de admissão da Politécnica de Zurique, aos 16 anos e meio, e não é admitido.
- 18 a 30 de setembro de 1896Provas escritas e orais da Matura na escola cantonal de Aarau.
- 3 de outubro de 1896O Conselho de Educação do cantão de Aargau emite o certificado de maturidade.
- 4 de fevereiro de 1929Um jornal do Texas diz que Einstein foi reprovado em matemática numa escola de Berlim.
- 1935Einstein desmente o Ripley's, segundo Isaacson.
O exame que ele não passou
Em outubro de 1895, Einstein tinha 16 anos e meio e não tinha o certificado do ginásio de Munique. Faltavam dois anos para a idade mínima de 18, mas, com ajuda de um amigo da família, obteve do diretor da Politécnica, Albin Herzog, permissão para tentar a prova. A prova começou em 8 de outubro, e o resultado saiu em 14 de outubro, segundo a pesquisadora Galina Weinstein.
Weinstein escreve que ele teve o melhor resultado em matemática e ciências, mas resultados insuficientes nas matérias de língua e de história. O Dicionário Histórico da Suíça confirma o motivo: ele não passou por "desempenho insuficiente em línguas estrangeiras" (tradução nossa). Herbert Hunziker, que ensinava matemática na escola de Aarau quando publicou seu artigo, em 2001, descreve o mesmo quadro: resultados "muito bons" na parte de matemática e ciências naturais e "deficiente" na parte de língua (tradução nossa).
Herzog sugeriu que ele fizesse um ano na escola cantonal de Aarau e obtivesse o certificado regular.
O boletim de Aarau: 6 é a melhor nota
Em outubro de 1896, o Conselho de Educação do cantão de Aargau emitiu o certificado, datado de 3 de outubro, depois de provas escritas e orais em 18, 19 e 21 de setembro e em 30 de setembro.
No rodapé, a legenda da escala está parcialmente coberta pelo selo, mas dá para ler que 6 é a melhor nota. A escala do certificado vai de 1 a 6, e a descrição do arquivo no Wikimedia Commons também diz que 6 é a mais alta. Quem lê com a régua brasileira, de 0 a 10, estranha: 6 seria nota mediana.

Hunziker, que analisou as provas originais, guardadas no Arquivo do Estado de Aargau, resume: Einstein "não era de forma alguma, como se afirma erroneamente, o fracasso escolar que depois fez carreira" (tradução nossa). Era "provavelmente um tanto voluntarioso, mas certamente um bom aluno".
Nota 6, com os erros anotados pelo professor
Quem olha o certificado pode achar que Einstein foi perfeito. Hunziker mostra que não, e o detalhe vale a leitura. Na prova de geometria, de 19 de setembro de 1896, o professor Heinrich Ganter anotou um erro de cópia ("resultado certo") e Einstein errou um sinal de desigualdade. Mesmo assim, a nota foi 6. Numa solução, ele citou o "primeiro quociente diferencial", noção que, segundo os relatórios de ensino, não era ensinada ali em 1895 e 1896. Ele riscou a passagem depois. Para Hunziker, a menção parece ter sido uma tentativa de impressionar.
Na de álgebra, de 21 de setembro, Einstein escreveu "irracional" onde devia ser "imaginário", e o professor sublinhou. A nota também foi 6.
O boato e os documentos
Em cada item, primeiro: o que se repete. Depois: o que os documentos mostram.
- Einstein foi reprovado em matemática.
- Não há reprovação em matemática. O boletim de Aarau traz 6, a nota máxima, em álgebra e geometria.
- Isso aconteceu numa escola de Berlim.
- Einstein estudou em Munique, em Milão por conta própria e em Aarau, antes de Zurique.
- Ele foi reprovado em 1895.
- Foi no exame de admissão de Zurique, e a falha estava nas línguas e na história.
- 6 é uma nota baixa.
- Na escala do certificado, de 1 a 6, o 6 é a melhor nota.
Em outubro de 1896, já com o certificado, Einstein se matriculou no Politécnico. No currículo que enviou a Aargau, escreveu que pretendia estudar matemática e física. O homem cuja previsão foi testada pelas chapas de Sobral, em 1919 foi, aos 17 anos, um aluno de 6 em física. Quem prefere frases de efeito sobre a escola pode comparar com o mito de que usamos só 10% do cérebro: mais uma história que se espalhou sem a fonte.
Fontes
- Albert Einstein: Maturitätsprüfung in Mathematik 1896 (Elemente der Mathematik 56, 2001), Herbert Hunziker, professor da Alte Kantonsschule Aarau — European Mathematical Society Press / Birkhäuser
- Making the Grade — 20 Things You Need to Know About Einstein (5 de abril de 2007), Walter Isaacson, revista TIME
- Albert Einstein at the Zürich Polytechnic: a rare mastery of Maxwell's electromagnetic theory, Galina Weinstein, arXiv
- Albert Einstein (verbete do Historisches Lexikon der Schweiz), Dicionário Histórico da Suíça, Günter Scharf
- The Brownsville Herald, 4 de fevereiro de 1929, página 4 (coluna About New York), texto OCR, Biblioteca do Congresso dos EUA, Chronicling America
- The Waterbury Democrat, 18 de agosto de 1937, página 16 (coluna de Alicia Hart), texto OCR, Biblioteca do Congresso dos EUA, Chronicling America
- Albert Einstein's exam of maturity grades (certificado de 3 de outubro de 1896), Conselho de Educação do cantão de Aargau, Suíça; digitalização via Wikimedia Commons
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Perguntas frequentes
- Albert Einstein reprovou em matemática na escola?
- Não. No boletim da Kantonsschule de Aarau, emitido em 3 de outubro de 1896, álgebra, geometria, geometria descritiva e física receberam 6, a nota máxima da escala suíça. Em 1935, ao ver o boato num recorte do Ripley's, o próprio Einstein respondeu que nunca foi reprovado em matemática, segundo o biógrafo Walter Isaacson.
- De onde veio o boato de que Einstein reprovou em matemática?
- Não há uma origem comprovada. O registro mais antigo que encontramos é de 4 de fevereiro de 1929, numa coluna do jornal texano Brownsville Herald, seis anos antes do episódio do Ripley's. O que Einstein de fato não passou foi o exame de admissão da Politécnica de Zurique em 1895, e o problema, segundo as fontes, estava nas línguas.
- Em que Einstein foi reprovado, então?
- No exame de admissão do Politécnico Federal de Zurique, em outubro de 1895, quando tinha 16 anos e meio. Segundo Galina Weinstein, ele teve o melhor resultado nas matérias de matemática e ciências e resultados insuficientes nas de língua e história. O diretor Albin Herzog o aconselhou a terminar o ensino médio em Aarau.
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