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O Triângulo das Bermudas ganhou nome numa revista de fevereiro de 1964, e a NOAA não vê ali mais sumiços do que em outras rotas movimentadas do oceano

Os dois casos mais citados, o Voo 19 (1945) e o USS Cyclops (1918), têm documentos oficiais. Eles falam de navegação, combustível, tempo e carga, e admitem o que continua sem explicação.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Fotografia em preto e branco, feita do ar, de quatro aviões de um só motor voando em fila sobre o mar calmo, com o mais próximo em primeiro plano mostrando a estrela da Marinha na asa.
Horace Bristol, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • O nome Triângulo das Bermudas saiu na revista Argosy, em fevereiro de 1964, num artigo de Vincent Gaddis. A NOAA registra que não existe mapa oficial com seus limites.
  • Segundo a NOAA, não há evidência de que desaparecimentos misteriosos sejam mais frequentes ali do que em outra grande área de tráfego intenso no oceano.
  • Em 5 de dezembro de 1945, cinco aviões Avenger e um hidroavião de busca se perderam, com 27 homens. Os registros da Marinha dos EUA falam de erro de posição, bússolas fora de uso e combustível no fim.
  • O USS Cyclops sumiu em março de 1918, 46 anos antes de o nome existir. A Marinha diz que a causa da perda continua desconhecida.

O Triângulo das Bermudas não existe como região oficial. A NOAA, agência oceânica dos Estados Unidos, registra, citando a Marinha e a Guarda Costeira, que não existe mapa oficial com seus limites, e que não há evidência de desaparecimentos mais frequentes ali do que em qualquer outra área ampla e movimentada do oceano. O nome saiu numa revista americana em fevereiro de 1964, e os dois casos mais famosos, o Voo 19 e o USS Cyclops, têm documentos que falam de navegação, combustível, tempo e carga.

Um nome criado por uma revista, com limites que mudam

Vincent Gaddis publicou "The Deadly Bermuda Triangle" na revista Argosy de fevereiro de 1964, segundo o índice FictionMags. O pesquisador Brett Neilson, que estudou a geografia do mito, escreve que o triângulo de Gaddis tinha pontas em Miami, Porto Rico e Bermudas.

Os livros seguintes esticaram o desenho. Neilson conta que John Wallace Spencer, em 1969, levou o triângulo até os Açores, e que Richard Winer, em 1974, incluiu até o ponto onde cinco bombardeiros da Marinha desapareceram em 1945. Para Neilson, as ampliações reagem em parte aos céticos, que notavam sumiços fora da área tradicional.

O bibliotecário Larry Kusche, da Universidade Estadual do Arizona, respondeu a Berlitz (1974) com The Bermuda Triangle Mystery: Solved (1975). Segundo Neilson, usou registros de seguros e meteorológicos e concluiu que era um "mistério fabricado" (tradução nossa).

Voo 19: o líder achava que estava nas Florida Keys

Em 5 de dezembro de 1945, cinco aviões TBM Avenger decolaram da Base Aeronaval de Fort Lauderdale, na Flórida, por volta das 14h10, para um exercício de navegação sobre o mar. O relatório da Marinha dá ao líder, o tenente Charles Taylor, 2.509,3 horas de voo e um recente período de combate.

Aviões de um só motor em formação de fila sobre o mar, vistos de cima e de lado, em preto e branco, com a hélice parada em borrão no primeiro plano.
Aviões Grumman TBF Avenger em formação em Fort Lauderdale, em foto de janeiro de 1943 dos Arquivos Nacionais dos EUA. Os de 1945 eram TBM, versão do mesmo avião feita pela General Motors. A foto não mostra o Voo 19. Imagem: Horace Bristol, via Wikimedia Commons · Domínio público

Pouco depois do primeiro sinal de problema, Taylor transmitiu, segundo os Arquivos Nacionais: "As duas bússolas estão fora de uso, e tento achar Fort Lauderdale. Estou sobre terra, mas ela é fragmentada. Tenho certeza de que estou nas Keys, mas não sei até onde, e não sei como voltar" (tradução nossa). Na hora, ele estava bem a nordeste da base, e não ao sudoeste, como pensava.

5 de dezembro de 1945, segundo os registros

  1. 14h10Os cinco Avenger decolam de Fort Lauderdale para o exercício de navegação.
  2. 15h40Primeiro sinal de que algo deu errado: um piloto pergunta a outro a leitura da bússola.
  3. 16h11A base fica sabendo que o líder está inseguro sobre a posição.
  4. 19h04Última transmissão do voo monitorada, segundo os Arquivos Nacionais.
  5. 19h27Um hidroavião PBM-5 decola de Banana River para a busca; o último relatório de rádio vem às 19h30.
  6. 21h15O cargueiro SS Gaines Mills relata chamas no mar e, depois, uma grande mancha de óleo.

A última frase monitorada, às 19h04, foi de Taylor: "quando o primeiro avião cair abaixo de dez galões, descemos todos juntos" (tradução nossa).

Em cinco dias, a Guarda Costeira e a Marinha vasculharam mais de 250 mil milhas quadradas e não acharam aviador, destroço, bote nem mancha de óleo. Nos cinco aviões, foram perdidos 14 homens.

A conclusão oficial teve duas fases. Os Arquivos Nacionais dizem que a Marinha atribuiu a perda a erro de pilotagem. O texto do Naval History and Heritage Command cita a junta: o líder "ficou tão irremediavelmente confuso que sofreu algo parecido com aberração mental" (tradução nossa). A mãe de Taylor recorreu à Junta de Correção de Registros Navais, que viu uma injustiça no registro dele. O texto fecha: "A causa do acidente continua desconhecida" (tradução nossa). E acrescenta que não foi culpa de alienígenas nem do Triângulo das Bermudas.

Carta náutica em preto e branco da costa leste da Flórida e das Bahamas, com linhas retas de rumo desenhadas em preto e em vermelho formando triângulos entre Fort Lauderdale e as ilhas.
A carta do Problema de Navegação nº 1, o roteiro do Voo 19, nos Arquivos Nacionais dos EUA: leste de Fort Lauderdale, bombardeio em Hen and Chickens Shoals, norte sobre Grand Bahama e volta. Imagem: US Navy (U.S. National Archives), via Wikimedia Commons · Domínio público

O hidroavião de resgate teve uma testemunha no mar

O PBM-5 de número 59225 decolou de Banana River às 19h27, com 13 homens, e mandou o último relatório às 19h30.

O relatório da Marinha reproduz o que o cargueiro SS Gaines Mills transmitiu: viu "uma rajada de chamas, aparentemente uma explosão, com labaredas de 100 pés [30 metros] de altura, queimando por dez minutos", passou por "uma grande poça de óleo" e procurou sobreviventes com holofotes, sem achar ninguém (tradução nossa). O porta-aviões de escolta USS Solomons informou que seu radar viu o avião sumir da tela no mesmo lugar e hora do relato do cargueiro.

Os documentos divergem no detalhe da causa. Os Arquivos Nacionais dizem que a Marinha concluiu por falha no sistema de combustível. O Naval History and Heritage Command diz que a causa exata é desconhecida, mas é "bastante certo" que houve alguma combinação de fogo e explosão. Somados, os dois episódios deixaram 27 mortos.

O USS Cyclops sumiu 46 anos antes de o nome existir

O Cyclops era um navio de carga da Marinha, lançado em maio de 1910 para transportar carvão. Em 1918, levava minério de manganês. Segundo os Arquivos Nacionais, saiu do Rio de Janeiro em 16 de fevereiro com relato de excesso de carga e um cilindro rachado, e parou em Barbados por estar sobrecarregado. Depois, nunca mais foi visto.

Uma nota de agência no jornal The Bamberg Herald de 20 de junho de 1918 diz que ele zarpou de Barbados em 4 de março com 295 homens. O texto descarta explosivos, submarino e captura por falta de destroços ou de pedidos de socorro. A explicação aceita "pela maioria dos oficiais navais" era que o navio, de superestrutura alta e pesada, afundara numa tempestade tropical.

Fotografia em preto e branco de um grande navio de carga cinza ancorado em águas calmas, com uma estrutura alta de vigas de aço sobre o convés e duas chaminés.
O USS Cyclops fotografado pelo Estaleiro da Marinha de Nova York, provavelmente ancorado no rio Hudson, em 3 de outubro de 1911, segundo o acervo da Marinha. Imagem: Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

Nenhum destroço apareceu. O blog dos Arquivos Nacionais diz que o navio "afundou no Triângulo das Bermudas", mas o rótulo só surgiria em 1964. Para a própria Marinha, segundo a mesma página, "sua perda continua desconhecida".

O autor do nome se arrependeu do triângulo

O detalhe que mais incomoda a lenda está na origem. Neilson registra que Gaddis, num texto de 1975, lamentou ter criado a ideia de uma área com fronteiras. Nele, escreveu que esses mistérios marinhos acontecem "em volta de uma área sem forma no mar do Caribe e no Atlântico, incluindo parte do Mar dos Sargaços" (tradução nossa).

Neilson chama a região de rota de navegação mais movimentada do mundo, e a NOAA lembra as tempestades, a Corrente do Golfo e as águas rasas das ilhas. Há casos em que a explicação mais estranha era física e natural, como na nuvem de gás do Lago Nyos. E uma lenda cresce quando a mídia a repete, como mostra o pânico que não houve na Guerra dos Mundos, em 1938.

Fontes

  1. What is the Bermuda Triangle?, NOAA National Ocean Service
  2. The Loss of Flight 19 (texto do Naval History and Heritage Command), Naval History and Heritage Command, reproduzido por navalweather.org
  3. Findings of the Board of Investigation Into the Loss of Flight 19 (1945), Marinha dos EUA, transcrito pela HyperWar Foundation
  4. "Uncertain as to in what position lay the Peninsula of Florida": The Official Record and the Loss of Flight 19, National Archives and Records Administration (NARA), Pieces of History
  5. "…her loss remains unknown…": The Mysterious Disappearance of the USS Cyclops (AC-4), National Archives and Records Administration (NARA), The Unwritten Record
  6. The Cyclops Mystery (The Bamberg Herald, 20 de junho de 1918), Historical Newspapers of South Carolina, University of South Carolina Libraries
  7. Deterritorializing the Bermuda Triangle: Popular Geography and the Myths of Globalization, Brett Neilson, revista Space and Culture
  8. FictionMags Index: Gaddis, Vincent H(ayes), The FictionMags Index
  9. The Bermuda Triangle mystery--solved (Larry Kusche), Open Library, Internet Archive

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Perguntas frequentes

Onde fica o Triângulo das Bermudas?
Não há local oficial. Segundo o pesquisador Brett Neilson, o triângulo de Gaddis, em 1964, tinha pontas em Miami, Porto Rico e Bermudas, e autores posteriores esticaram a área até Nova Jersey e os Açores. A NOAA registra que não existe mapa oficial da região e que o Conselho de Nomes Geográficos dos EUA não reconhece o nome.
O Triângulo das Bermudas é perigoso?
Como qualquer rota de muito tráfego. A NOAA afirma não haver evidência de desaparecimentos mais frequentes ali do que em outras áreas amplas e movimentadas do oceano. Ela lembra que a maioria das tempestades tropicais e dos furacões do Atlântico passa pela região, que a Corrente do Golfo muda o tempo com rapidez e que o Caribe tem muita água rasa.
O que aconteceu com o Voo 19?
Em 5 de dezembro de 1945, cinco aviões Avenger saíram de Fort Lauderdale para um treino de navegação e não voltaram. O tenente Charles Taylor, líder do voo, disse por rádio que as duas bússolas estavam fora de uso e se achava nas Florida Keys, mas estava bem a nordeste. Nenhum destroço foi achado. O texto do Naval History and Heritage Command diz que a causa do acidente continua desconhecida.
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