Newton escreveu "2060" num manuscrito sobre profecias, mas disse que o fim "pode vir mais tarde" e que a conta servia para calar quem marcava datas
O papel existe e está na Biblioteca Nacional de Israel. Ali, Newton calcula o fim de um período de 1.260 anos da Bíblia, e não o fim do planeta. Para o historiador Stephen Snobelen, 2060 seria mais um começo do que um fim.

Em 30 segundos
- Num manuscrito sobre profecias, guardado em Jerusalém, Newton soma 1.260 anos ao ano 800 e chega a 2060. Em seguida escreve que o período "pode terminar mais tarde" e que não vê razão para terminar antes.
- Ele diz que menciona a data para frear as conjecturas de quem vive prevendo o fim e desacredita as profecias quando erra. Segundo o historiador Stephen Snobelen, 2060 marcaria uma nova era, e não o fim literal do mundo.
- A data era conhecida por especialistas desde 1980 e virou notícia mundial em fevereiro de 2003, num jornal britânico. A "carta de 1704" que circula na internet é falsa, diz Snobelen: o papel é de 1705 ou depois.
Newton escreveu mesmo "2060" num manuscrito sobre profecias bíblicas, mas não previu o fim do mundo para esse ano. A conta mostra quando acabaria um período de 1.260 anos tirado do livro de Daniel, e a frase seguinte diz: "Pode terminar mais tarde, mas não vejo razão para terminar antes" (tradução nossa).
O próprio texto explica por que ele registrou a data: para frear quem marcava datas.
O que está escrito no papel
O trecho está no manuscrito catalogado como Yahuda MS 7.3g, guardado na Biblioteca Nacional de Israel, em Jerusalém. O Newton Project, que o transcreve, o descreve como "fragmentos sobre a ascensão do papado e o Apocalipse", escritos depois de 1700, com cerca de 50 páginas em 27 folhas. Segundo Snobelen, a passagem está no verso da folha 13.
Se contado a partir da conquista completa dos três reis, no ano 800, o período de 1260 dias terminará no ano 2060. Pode terminar mais tarde, mas não vejo razão para terminar antes. Menciono isto não para afirmar quando será o tempo do fim, mas para pôr um freio nas conjecturas precipitadas de homens fantasiosos, que vivem prevendo o tempo do fim e, ao fazê-lo, desacreditam as sagradas profecias toda vez que suas previsões falham. (tradução nossa, com cortes)
Logo depois, Newton lembra que Cristo "vem como um ladrão na noite" e que não cabe a ninguém conhecer os tempos e as épocas.

Como ele chegou a 2060
A aritmética é a de Snobelen, professor de história da ciência que estuda o assunto. Newton lia os "1260 dias" de Daniel e do Apocalipse como 1.260 anos, pelo princípio de que um dia profético vale um ano. Para ele, esse era o tempo da corrupção da Igreja, que começaria com o poder do papa. Snobelen escreve que Newton marcou o ano 800 duas vezes nos papéis de Jerusalém, e que 800 é o ano em que Carlos Magno foi coroado imperador por Leão III. Somando 1.260 a 800, dá 2060.
Snobelen diz que não foi preciso cálculo: foi "aritmética simples que uma criança poderia fazer" (tradução nossa).
O livro que ele deixou sobre o assunto, publicado em 1733, seis anos depois de sua morte, também fala em "1260 anos solares". Pelo texto de 1733, o papa teria ganhado domínio temporal na segunda metade do século 8. Nenhuma linha da edição, porém, traz o ano 2060.

Um fim de mundo que não era fim de mundo
No livro de 1733, Newton escreve que a "loucura dos intérpretes" foi tentar prever tempos e coisas pela profecia "como se Deus quisesse fazê-los profetas" (tradução nossa). Para ele, o Apocalipse serviria para ser interpretado depois, pelos acontecimentos.
Snobelen responde à pergunta de frente: Newton acreditava que o mundo acabaria em 2060? "Não, não num sentido literal" (tradução nossa). Para o historiador, 2060 seria "mais como um novo começo": o fim de uma era e o início do que cristãos chamam de Milênio, com a volta de Cristo e um reino de 1.000 anos.
A manchete e o manuscrito
Em cada item, primeiro: o que as manchetes repetem. Depois: o que o papel e o historiador mostram.
- Newton previu que o mundo acaba em 2060.
- Newton calculou o fim de um período profético e escreveu: pode terminar mais tarde, e não vejo razão para terminar antes.
- É uma previsão científica, feita com a matemática de Newton.
- Snobelen diz que é só uma soma simples, 800 mais 1.260, sem cálculo.
- Ele quis anunciar uma data.
- Ele escreve que menciona a data para frear quem prevê datas e desacredita as profecias.
- Foi escrito numa carta de 1704.
- O papel traz o nome de Sir Isaac Newton, título que ele só teve em 1705. Snobelen chama a carta de 1704 de boato.
Um papel reaproveitado e um espaço em branco
Há uma segunda ocorrência do número, no manuscrito Yahuda MS 7.3o, folha 8. É uma lista de proposições sobre quando começam e terminam as profecias de Daniel. Nela, Newton escreve que o "tempo, tempos e meio tempo" não termina antes de 2060 e começa a escrever "nem depois de". A transcrição do Newton Project mostra que o limite máximo ficou em branco. Snobelen sugere 2344, entre colchetes, como acréscimo dele.
No verso dessa folha está um pedaço de carta endereçado "To Sr. Isaac Newton". Foi o que fixou a data do rabisco: Newton foi nomeado cavaleiro em 1705, então a anotação é desse ano ou posterior. É também o motivo pelo qual Snobelen rejeita a versão da "carta de 1704", que, segundo ele, surgiu em 2007. Em 2003, ele próprio segurou essa folha no fim de um documentário da BBC.
Ou seja: nos dois papéis, o que Newton registrou foi um piso, não uma data de fim.
Como esses papéis foram parar em Jerusalém
Newton morreu em 1727. Seus papéis ficaram com a família e, em 1872, o 5º conde de Portsmouth doou a parte científica à Universidade de Cambridge, segundo o Newton Project. Ficaram com a família os manuscritos sobre alquimia e teologia.
Esses manuscritos foram a leilão na Sotheby's, em Londres, em 13 e 14 de julho de 1936. A coleção toda rendeu pouco mais de 9 mil libras, segundo o Newton Project, e o evento foi ofuscado pela venda de arte impressionista da Christie's. O economista John Maynard Keynes concentrou-se nos papéis de alquimia. O estudioso Abraham Shalom Yahuda foi atrás do material teológico.
Do manuscrito às manchetes
- Depois de 1705Newton escreve 2060 em papéis avulsos, hoje na coleção Yahuda. Um deles só pode ser de 1705 em diante.
- 13 e 14 de julho de 1936Leilão dos papéis da família na Sotheby's, em Londres. Yahuda compra o material teológico.
- 1951 e 1969Yahuda morre em 1951 e deixa os papéis a Israel. Eles chegam a Jerusalém em 1969, depois de uma disputa pelo testamento.
- 22 de fevereiro de 2003O Daily Telegraph publica na primeira página a "previsão" de Newton para 2060.
- Junho de 2007Os manuscritos são expostos ao público pela primeira vez, em Jerusalém.
- Fevereiro de 2012A biblioteca coloca na internet cerca de 7.500 páginas dos papéis teológicos.
Há uma divergência sobre quando os papéis passaram a Israel. A Associated Press fala em 1969, e o formulário da biblioteca para a Unesco diz que Yahuda os legou em 1951. Snobelen concilia as datas: o legado é de 1951, e a chegada a Jerusalém, de 1969.
Uma notícia velha para quem estuda Newton
Em 2003, a data pareceu uma descoberta, mas não era. Snobelen lembra que ela já aparecia nos livros de David Castillejo, de 1981, e de Richard Westfall, de 1980. Ele mesmo a publicou em 1999. O jornal britânico saiu em 22 de fevereiro de 2003, depois de entrevistas com Snobelen e com o produtor de um documentário da BBC, e a história correu o mundo.
O físico que explicou a gravidade foi também o que passou décadas em Daniel e no Apocalipse. Foi o valor newtoniano, 0,87 segundo de arco, que as chapas de Sobral compararam ao de Einstein em 1919. E, assim como acontece com a frase dos 10% do cérebro, que o prefácio de 1936 atribuía a William James, a frase de Newton muda de sentido quando se lê a página inteira.
Fontes
- Fragments on the rise of the papacy and Revelation (Yahuda MS 7.3g), transcrição e catálogo, The Newton Project (Universidades de Oxford e Cambridge), manuscrito da Biblioteca Nacional de Israel
- Miscellaneous historical and apocalyptic jottings on various scraps of paper (Yahuda MS 7.3o), transcrição, The Newton Project (Universidades de Oxford e Cambridge), manuscrito da Biblioteca Nacional de Israel
- Statement on the Date 2060, Stephen D. Snobelen, University of King's College, Halifax (versão atualizada em 2025)
- Observations upon the Prophecies of Daniel, and the Apocalypse of St. John (1733), Isaac Newton, edição póstuma de 1733 — Project Gutenberg
- The Sotheby Sale, The Newton Project
- Israeli library uploads Newton's theological texts (15 de fevereiro de 2012), Associated Press, reprodução no Bangor Daily News
- Isaac Newton's Theological Papers — formulário de candidatura 2014-47 ao Memória do Mundo, Biblioteca Nacional de Israel, para a Unesco
- Manuscript Shows Isaac Newton Calculated Date of Apocalypse (20 de junho de 2007), Associated Press (reprodução na Fox News)
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Perguntas frequentes
- Newton previu o fim do mundo?
- Não com essas palavras. Em um manuscrito sobre profecias, Newton calculou que um período bíblico de 1.260 anos, contado a partir do ano 800, terminaria em 2060, e acrescentou: "Pode terminar mais tarde, mas não vejo razão para terminar antes" (tradução nossa). Segundo o historiador Stephen Snobelen, ele não acreditava num fim literal do mundo, e sim no começo de uma nova era, com a volta de Cristo.
- Como Newton calculou a data de 2060?
- Ele tratou os "1260 dias" das profecias de Daniel e do Apocalipse como 1.260 anos e os somou ao ano 800, que ele marcava como o início da supremacia do papa. A conta é uma soma simples, e Snobelen diz que uma criança poderia fazê-la. Newton escreveu o resultado em dois papéis diferentes, ambos hoje na Biblioteca Nacional de Israel.
- Newton escreveu 2060 numa carta de 1704?
- Não. Snobelen explica que a data aparece em papéis avulsos, e que um deles é um pedaço de carta endereçado a "Sir Isaac Newton". Como ele só foi nomeado cavaleiro em 1705, o rabisco é desse ano ou posterior. Para Snobelen, a "carta de 1704" é um boato que se espalhou a partir de 2007.
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