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Jeanne Calment viveu 122 anos e 164 dias, o recorde de idade comprovada. Em 2018 disseram que ela morrera em 1934 e que quem viveu até 1997 foi a filha; a resposta veio com certidões, censos e um aviso de óbito

A tese de Nikolay Zak e Valery Novoselov, publicada em 2019, e a réplica dos pesquisadores que validaram o caso nos anos 1990. O que cada lado apresentou, o que dizem os documentos de Arles e quem é a mais velha viva hoje.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Retrato de perfil, em sépia, de uma jovem de cabelo castanho preso no alto, com brinco, colar e flores presas no ombro do vestido claro.
Sipa/Rex/Shutterstock, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Jeanne Calment nasceu em Arles em 21 de fevereiro de 1875 e morreu em 4 de agosto de 1997, com 122 anos e 164 dias, a maior idade comprovada, segundo o Guinness e a LongeviQuest.
  • Nikolay Zak publicou em 2019 a tese de que ela morreu em 1934 e de que a filha, Yvonne, assumiu a identidade da mãe, talvez por causa de impostos.
  • Os pesquisadores que validaram o caso responderam no mesmo ano com sete documentos civis diretos, 14 censos, o aviso de óbito de Yvonne e a conta de que 122 anos acontece uma vez a cada 10 milhões de centenários.
  • Em 1º de novembro de 2026, a pessoa mais velha viva na lista da LongeviQuest é a britânica Ethel Caterham, com 117 anos e 72 dias.

A pessoa mais velha de que se tem idade comprovada é a francesa Jeanne Calment, de Arles: nasceu em 21 de fevereiro de 1875 e morreu em 4 de agosto de 1997, com 122 anos e 164 dias, segundo o Guinness e a LongeviQuest. A lista de vivas muda a cada morte: em 1º de novembro de 2026, a lista da LongeviQuest é encabeçada pela britânica Ethel Caterham, de 117 anos. O recorde de Calment foi contestado em 2018, e a contestação teve resposta documentada.

Como se prova que alguém viveu 122 anos

Os pesquisadores Jean-Marie Robine e Michel Allard validaram a idade dela quando entrou no 121º ano de vida. O trabalho está num capítulo da série de monografias de Odense, do Instituto Max Planck. Eles juntaram a certidão de nascimento, o registro de batismo, a reconstituição da família e os censos da cidade.

O registro de 22 de fevereiro de 1875 diz que Nicolas Calment, carpinteiro naval, de 37 anos, declarou o nascimento da filha Jeanne Louise, em 21 de fevereiro. Segundo os autores, sete documentos civis diretos atestam a identidade dela do nascimento à morte, e 14 documentos de censo, de 1876 a 1975, confirmam sua idade ou data de nascimento.

Página manuscrita em tinta sobre papel claro, com o número 110 e o nome Calment à esquerda e um texto em cursiva francesa, assinado embaixo por três pessoas.
Registro de nascimento nº 110, de Arles, com data de 22 de fevereiro de 1875: o pai declara o nascimento de Jeanne Louise Calment, ocorrido no dia anterior. Imagem: Etat civil d' Arles, via Wikimedia Commons · Domínio público

Há uma ressalva dos próprios validadores: a imprensa só passou a noticiar o aniversário dela a partir de 1985, aos 110 anos, quando se mudou para uma casa de repouso. O 100º, em 1975, foi comemorado em privado, e não há documento sobre a festa. O censo de 1975, que registra o nascimento em 21/2/75, supre a falta.

A tese de 2018: a filha teria ocupado o lugar da mãe

Em dezembro de 2018, o gerontólogo Valery Novoselov deu uma entrevista, e o técnico de laboratório Nikolay Zak divulgou um manuscrito. Em fevereiro de 2019, Zak publicou "Evidence That Jeanne Calment Died in 1934, Not 1997" na revista Rejuvenation Research.

A hipótese: Jeanne teria morrido em 1934, e a família registrou a morte como sendo de Yvonne, filha dela, que passou a viver como a mãe. Como motivo, Zak sugere que a família sofreu com impostos de herança ("Talvez a família Calment tenha sofrido com a tributação", tradução nossa) e cita um contrato de renda vitalícia. Ele reconhece que nenhum item é uma "prova cabal", mas diz que, juntos, formam um "caso convincente" (tradução nossa).

Entre os pontos, está a lembrança famosa de que ela vendeu telas a Van Gogh na loja do pai, quando menina. O Guinness registra a fala dela sobre o pintor: "feio como o pecado, com mau gênio e cheirando a bebida" (tradução nossa). Zak lembra que o pai dela, carpinteiro naval, nunca teve loja: a Grand Magasin Calment era da família do marido. Ele conclui que Jeanne provavelmente nunca chegou aos 100 anos e propõe testes, como comparar DNA.

A resposta de 2019, de quem validou o caso

Robine, Allard, François Herrmann e Bernard Jeune publicaram a réplica no Journals of Gerontology em 16 de setembro de 2019. Vale registrar que Robine e Allard são os autores da validação original. O texto trata do motivo, da logística e da estatística.

A acusação e a resposta

Em cada item, primeiro: acusação de zak. Depois: resposta de robine e colegas.

Motivo: imposto de herança após a morte do pai, Nicolas, em 1931.
Em 15 de março de 1926, Nicolas já havia passado seus bens aos filhos em troca de uma renda anual de 5.000 francos. A morte dele só extinguiu essa renda.
Yvonne não aparece no censo de 1931.
Ela estava em Leysin, na Suíça, região de sanatórios, possivelmente em tratamento de tuberculose. O censo de 1931 foi o primeiro datilografado e tem muitos erros.
Jeanne nunca citou uma mudança de casa, em 1888, aos 13 anos.
A mudança foi a 150 metros, em 1884 ou 1885, quando ela tinha 9 ou 10 anos.
O enterro de 1934, registrado como o de Yvonne, teria sido o de Jeanne.
O aviso de óbito de Yvonne foi enviado em nome de 34 pessoas e seus filhos, da equipe da casa e de 13 famílias. Trocar os corpos sem dezenas de cúmplices seria, dizem eles, virtualmente impossível.

Na estatística, segundo os autores da réplica, Zak concluiu que chegar aos 122 anos seria matematicamente impossível. Eles rodaram simulações e chegaram a uma ocorrência em média a cada 10 milhões de centenários, e lembram que o mundo teve entre 8 e 10 milhões deles desde os anos 1700. Concluem que o recorde "continua válido" e pedem a retratação do artigo de Zak (tradução nossa). O Inserm informou, em 16 de setembro de 2019, que os pesquisadores têm cerca de 15 horas de gravações de Jeanne, em cerca de 30 entrevistas feitas entre 1992 e 1995, e que o material está sendo arquivado e digitalizado.

O notário que perdeu a aposta

O contrato mais famoso da vida dela é de 1965. Aos 90 anos, sem família, Jeanne vendeu o apartamento "em viager", isto é, em troca de uma renda vitalícia, a André-François Raffray. Segundo o Guinness, ele tinha 47 anos e pagaria 2.500 francos por mês até a morte dela, quando ficaria com o imóvel.

Raffray morreu por volta de 1995, 30 anos depois, e a família continuou pagando. Pelo Guinness, no fim, tinham pago mais que o dobro do valor do apartamento. As fontes divergem num detalhe: o Guinness o chama de advogado, e o capítulo de Odense, de notário.

Zak admite que o contrato parece um grande desafio à sua tese. Ele calcula que a expectativa de vida de uma francesa de 90 anos, em 1965, era de uns três anos, e imagina saídas: Raffray pode ter sido pago por fora para ficar calado, o que ele apresenta apenas como possibilidade.

Retrato em preto e branco, de perfil e sorrindo, de uma mulher de cabelo escuro ondulado e curto, com gola branca e vestido escuro.
Jeanne Calment em foto de Gustave Ouvière, publicada nos livros de Allard, Lèbre e Robine. O Commons data a imagem de entre 1900 e 1910, quando ela tinha de 25 a 35 anos; a legenda original do livro de 1994 a chama de quadragenária. As fontes divergem na idade. Imagem: Gustave Ouvière, via Wikimedia Commons · Domínio público

Quem é a mais velha viva hoje, com data

A lista da LongeviQuest consultada em 1º de novembro de 2026 traz Ethel Caterham, do Reino Unido, nascida em 21 de agosto de 1909, com 117 anos e 72 dias, em primeiro. Em segundo está a americana Naomi Whitehead, com 116 anos e 36 dias.

O Brasil aparece no topo. Yolanda Beltrão de Azevedo (115 anos e 292 dias) e Beatriz Ferreira Duarte (115 anos e 133 dias) são a quarta e a quinta. Na lista dos mais velhos de todos os tempos, três brasileiras passam de 116 anos, entre elas Inah Canabarro Lucas, morta em 30 de abril de 2025.

Zak usou lembranças de Calment como indício, mas a memória de uma pessoa honesta também falha, como mostra o efeito Mandela. E, para outra vida improvável contada a partir de documentos, vale ler sobre Tsutomu Yamaguchi, que sobreviveu a Hiroshima e a Nagasaki.

Fontes

  1. Jeanne Calment: Validation of the Duration of Her Life (Robine e Allard), Odense Monographs on Population Aging, Max Planck Institute for Demographic Research
  2. The Real Facts Supporting Jeanne Calment as the Oldest Ever Human (2019), Robine, Allard, Herrmann e Jeune, Journals of Gerontology Series A, via HAL
  3. Evidence That Jeanne Calment Died in 1934, Not 1997 (2019), Nikolay Zak, Rejuvenation Research, via PubMed Central
  4. Update: Jeanne Calment the oldest woman (16 de setembro de 2019), Inserm, Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França
  5. Oldest person ever, Guinness World Records
  6. Oldest People Ever, LongeviQuest (consulta em 1º de novembro de 2026)
  7. Oldest Living People, LongeviQuest (consulta em 1º de novembro de 2026)

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Perguntas frequentes

Quem é a pessoa mais velha do mundo que já existiu?
A francesa Jeanne Calment, nascida em Arles em 21 de fevereiro de 1875 e morta em 4 de agosto de 1997, com 122 anos e 164 dias. É a maior idade comprovada, segundo o Guinness e a LongeviQuest. A segunda da lista da LongeviQuest, a japonesa Kane Tanaka, chegou a 119 anos e 107 dias.
Quem é a pessoa mais velha do mundo viva atualmente?
Em 1º de novembro de 2026, a primeira da lista de vivas da LongeviQuest era a britânica Ethel Caterham, nascida em 21 de agosto de 1909, com 117 anos e 72 dias. A lista muda com cada morte, por isso vale conferir a data. O homem mais velho vivo, segundo a LongeviQuest, é o brasileiro João Marinho Neto, nascido em 5 de outubro de 1912.
Jeanne Calment foi uma fraude?
Em 2019, Nikolay Zak argumentou que ela morreu em 1934 e que a filha Yvonne assumiu seu lugar. Os pesquisadores que validaram o caso responderam com documentos civis, 14 registros de censo, um aviso de óbito de Yvonne assinado em nome de 34 pessoas e a estimativa de que 122 anos ocorre uma vez a cada 10 milhões de centenários. O Guinness e a LongeviQuest continuam listando Calment.
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