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Uma lâmpada acesa desde 1901 continua funcionando. Ela brilha 15 vezes menos que no primeiro dia

A lâmpada centenária de Livermore é real, tem webcam e bateu recorde no Guinness. A explicação para a longevidade dela é menos mágica e mais interessante do que a lenda sobre obsolescência programada.

Redação Fatos e Relatos5 min de leitura
A lâmpada centenária de Livermore, na Califórnia, pendurada no teto do quartel de bombeiros, com filamento de carbono aceso em brilho alaranjado fraco.
LPS.1, via Wikimedia Commons · CC0

Num quartel de bombeiros em Livermore, na Califórnia, há uma lâmpada acesa desde 1901. Ela tem webcam própria, entrada no Guinness e mais de um livro escrito a seu respeito.

Ela também brilha hoje o equivalente a uma lâmpada de 4 watts. Foi fabricada como uma de 60.

Essas duas informações são a mesma informação.

De onde ela veio

A lâmpada é de filamento de carbono, soprada à mão, fabricada pela Shelby Electric Company, de Shelby, Ohio, no fim da década de 1890. O projeto é atribuído a Adolphe Chaillet, engenheiro francês que patenteou a tecnologia do soquete.

Segundo Zylpha Bernal Beck, ela foi doada ao Corpo de Bombeiros em 1901 pelo pai dela, Dennis Bernal, dono da Livermore Power and Light Co., quando vendeu a empresa. Bombeiros voluntários da época confirmaram a versão.

Vale registrar algo que costuma sumir da lenda: muitas lâmpadas iguais a essa ainda existem e ainda funcionam. Ela não é um espécime mágico e único. É uma sobrevivente de uma safra inteira construída com outro compromisso de engenharia.

Como ela sobreviveu

A lâmpada mudou de lugar pelo menos quatro vezes. Foi pendurada em 1901 num galpão de carros de mangueira na rua L, depois numa garagem usada pelos bombeiros e pela polícia no centro da cidade. Ficou apagada cerca de uma semana durante a reforma do quartel, em 1937.

A longevidade só foi notada em 1972, pelo repórter Mike Dunstan. Depois de semanas entrevistando moradores antigos, ele escreveu "Lâmpada pode ser a mais velha do mundo", publicado no Tri-Valley Herald. Dunstan procurou o Guinness, o Ripley's e a General Electric, e os três confirmaram: era a lâmpada em funcionamento contínuo mais antiga conhecida.

Em 1976, na mudança para o Quartel nº 6, ela viajou com escolta de polícia e de carro de bombeiros, sob a supervisão do capitão Kirby Slate. Nos primeiros 75 anos ela estivera ligada direto à rede de 110 volts da cidade — sujeita aos apagões, e nunca ao gerador de reserva, por medo de um pico de tensão. No quartel novo ganhou uma fonte própria de 120 volts, com bateria.

Em maio de 2013, o público que a acompanha pela webcam viu a luz apagar e achou que era o fim. Não era a lâmpada: a fonte de energia tinha falhado. Ela ficou apagada por pelo menos nove horas e meia. Quando religaram, brilhou a 60 watts por algumas horas — a potência original — e depois voltou sozinha aos 4 watts de sempre. Por quê, o próprio site do quartel admite: "ainda é um mistério".

Por que ela dura

Aqui está a explicação, e ela é uma troca, não um milagre.

Uma lâmpada incandescente queima porque o filamento evapora aos poucos. Quanto mais quente o filamento, mais luz por watt — e mais rápido ele se desfaz. É uma gangorra: brilho de um lado, durabilidade do outro.

A lâmpada de Livermore está na ponta oposta à que usamos. O filamento de carbono é grosso, opera muito abaixo da potência nominal e trabalha relativamente frio. Ela ilumina mal, e por isso não se consome.

E há o segundo fator, que talvez pese mais: ela nunca é desligada.

O momento de maior estresse para um filamento é o instante em que a corrente entra e ele salta da temperatura ambiente para a de operação. Essa expansão brusca é o que costuma matar a lâmpada — quase todas queimam quando alguém aperta o interruptor, não no meio de uma noite. Uma lâmpada que nunca sofre esse choque elimina a principal causa de morte da espécie.

Ficar acesa 24 horas por dia, por 125 anos, é mais fácil para ela do que ser ligada e desligada duas vezes ao dia.

O detalhe que amarra tudo

A lâmpada de Livermore é sempre convocada como testemunha num julgamento: o da obsolescência programada. A tese é que sabiam fabricar lâmpadas eternas em 1901 e depois passaram a fabricar lâmpadas ruins de propósito.

A parte factual dessa acusação existe. O cartel Phoebus, formado em 1924 por grandes fabricantes, padronizou a vida útil das lâmpadas em torno de 1.000 horas e multava quem entregasse produto mais durável. Isso está documentado e é um dos casos mais claros de conluio industrial do século XX.

Mas a lâmpada de Livermore não é a prova disso, e usá-la assim é fraco. Ela já estava acesa havia 23 anos quando o cartel foi formado, e sobretudo: ela não é uma lâmpada boa. Ela é uma lâmpada que troca 90% da luz por tempo de vida.

Ninguém quer iluminar uma sala com 4 watts alaranjados.

E é aí que a história fica mais interessante do que a lenda. A escolha de fabricar lâmpadas mais brilhantes e menos duráveis não é, por si só, uma conspiração: é o compromisso que a física impõe, e a maioria das pessoas prefere enxergar. O que o cartel Phoebus fez de errado foi combinar esse ponto entre concorrentes e puni-los por sair dele — tirar a escolha do consumidor, não fazer a escolha.

São duas acusações diferentes, e só uma delas se sustenta com essa lâmpada pendurada como prova.

Hoje a questão virou outra: um LED entrega a mesma luz gastando uma fração da energia e dura dezenas de milhares de horas. O dilema entre brilho e vida útil, que aprisionou o filamento por um século, foi resolvido saindo do filamento.

O que ela é, então

Um objeto honesto. Uma peça de 1901 que faz exatamente o que a física dela permite, pendurada num teto, sendo observada por uma câmera, sem nunca ter prometido nada.

Se você gosta de casos em que a explicação simples é boa demais para ser verdadeira, vale ver por que água quente pode congelar antes da água fria — um fenômeno real cuja explicação popular também não resiste a um olhar mais atento — e o que exatamente produz o cheiro de chuva no solo seco.

Fontes

  1. Centennial Bulb — site oficial mantido pelo Corpo de Bombeiros de Livermore-Pleasanton, com a webcam ao vivo, Livermore-Pleasanton Fire Department
  2. Centennial Bulb — ficha de fatos e histórico, Livermore-Pleasanton Fire Department

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Perguntas frequentes

A lâmpada de Livermore está acesa desde 1901 sem parar?
Quase. Ela foi acesa pela primeira vez em 1901 e ficou desligada apenas em algumas ocasiões breves: cerca de uma semana durante a reforma do quartel em 1937, o tempo da mudança para o Quartel nº 6, em 1976, e mais de nove horas em maio de 2013, quando a fonte de energia falhou. Funciona em uma fonte própria com bateria.
Por que ela dura tanto?
Ela é de filamento de carbono, feita à mão pela Shelby Electric Company no fim da década de 1890, e opera muito abaixo da potência original. Foi fabricada como uma lâmpada de 60 watts, mas hoje brilha o equivalente a cerca de 4 watts. Um filamento que trabalha frio e nunca sofre o choque térmico de ser ligado e desligado dura muito mais.
Ela prova que existe obsolescência programada?
Não diretamente. A lâmpada mostra que é possível trocar brilho por durabilidade — ela dura porque ilumina mal. O cartel Phoebus, que a partir de 1924 padronizou a vida útil das lâmpadas em 1.000 horas, é um caso documentado de acordo entre fabricantes, mas é uma história separada desta lâmpada, que já estava acesa havia 23 anos.
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